O período de comemorações natalinas é, de longe, o momento que mais gosto no ano. Então, quando eu tive a chance de poder passar o Natal em Paris, meu lugar preferido do mundo, imaginei que a experiência seria incrível. Nesta coluna, conto sobre como foi viver esse feriado tão importante para mim, sozinha e do outro lado do oceano.
It’s time!
Durante toda minha vida passei o feriado de Natal de uma maneira bem específica: com minha família toda reunida na casa de minha avó, que fica no interior de São Paulo.
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INICIAR ATENDIMENTO →A preparação para a ceia do dia 24 começava semanas antes. Organizávamos as receitas, comprávamos decorações, separávamos as funções e, claro comprávamos presentes para trocar à meia-noite.
A chegada dos panetones e chocotones no mercado e a instalação dos pisca-pisca dos shoppings, no começo de novembro, era motivo de comemoração. Eu enfeitava minha casa toda, ficava curiosa para ver a propaganda da Coca-Cola, e fazia gingerbreads com minha irmã, enquanto imitávamos os agudos da Mariah Carey em suas músicas natalinas.
Esperanças de um natal à la parisienne
Quando voltei para a capital francesa após 4 anos morando no Brasil, me dei conta de que, pela primeira vez, passaria o Natal longe de minha família e de todas essas tradições.
Fiquei receosa mas, ao mesmo tempo, estava animada. Eu já tinha ouvido falar um tanto sobre a beleza do Natal em Paris, a grandeza de suas decorações, os Marchés de Noël, as comidas típicas, as formas de comemoração e o frio intenso, tão distante daqueles famosos 35º graus do verão brasileiro.
Fui, portanto, de coração aberto. E até achei que, uma vez morando na França, eu poderia me envolver na organização de alguma festinha de Natal.
O encantamento
Em Paris, me encantei ao ver a cidade se transformando pouco a pouco ao longo de novembro. Lembro-me bem que tirei um domingo todinho só para passear pelos grands boulevards e checar a decoração dos grands magasins. Foi um evento!
Suas vitrines eram cheias de bonecos dançantes, músicas e luzes, e passar ao lado delas era como ser sugada para um mundo à parte. Não à toa, a calçada do Printemps estava lotada de famílias e, principalmente, crianças que grudavam o rostinho no vidro das vitrines para apreciar cada detalhe.

Também fiquei extasiada ao ver a famosa árvore da Galeries Lafayette, que conseguiu deixar a loja ainda mais cheia de cores e luzes.
Paris como um todo, aliás, conseguiu ficar ainda mais linda. Tudo era intensamente enfeitado e enchia os olhos de quem via. Andar pelas ruazinhas do Marais e pelas residências do 14º arrondissement me fazia esquecer da temperatura que baixava cada vez mais.
Nos parques, passei a ver cada vez mais houx — aquela plantinha no formato de arbusto, cheia de bolinhas vermelhas –, que até então eu só tinha visto de plástico. E para quem estava acostumada a ver as decorações de shoppings no Brasil, ver a imensidão do Hôtel de Ville e sua vila de Natal foi algo realmente surpreendente.
Parecia que cada cantinho da cidade estava permeado dessa magia natalina, que era sublinhada pelo fato de escurecer a partir das 17h.
Tradições e muita comida boa
As tradições natalinas eram igualmente encantadoras. Uma das que mais me marcaram foi a do Calendrier de l’Avent, calendário oferecido às crianças (e adultos) no início de dezembro.
Longe de apenas marcar as datas, esse tipo de calendário possui 24 presentinhos – um para cada dia, até a véspera do Natal — para apaziguar os ânimos daqueles mais ansiosos para as vacances de Noël.
A tradição é encontrada em vários países da Europa e dos Estados Unidos, e eu até já tinha ouvido falar dela. O que eu não sabia era que existia Calendriers das mais variadas temáticas e brinquedos: bonequinhos de montar e em miniaturas, personagens dos desenhos e filmes mais famosos, slimes, carrinhos, meias, entre outros.
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No que se refere à comida, as tradições natalinas da França também não deixaram a desejar. Uma das que mais gostei foi a Bûche de Noël, um bolo no formato de rocambole, com uma cobertura de chocolate. Ainda que ele seja a sobremesa oficial da ceia de Natal, é possível encontrá-lo desde o início de dezembro em várias boulangeries.
Também me chamaram atenção as semelhanças e diferenças no preparo da dinde, que entra no lugar do chester brasileiro; o cheiro das castanhas portuguesas pelas ruas e, claro, o hábito de comer fois gras.
Marchés de Noël: a melhor parte de passar o Natal em Paris
Dentre as coisas que mais me animavam de passar o Natal em Paris eram os Marchés de Noël (mercados de Natal). Eles ficam espalhados por vários pontos da cidade, como La Défense, Montmartre, Saint-Germain-des-Prés, Villette, Hôtel de Ville e, o mais famoso de Paris, no Jardin des Tuileries.
Os stands desses marchés são feitos de madeira e são super enfeitados. Eles reúnem tudo o que há de mais tradicional da época: brinquedos, jogos, atividades, artesanato de vários lugares da França, decorações e, claro, comidas!

Vinhos quentes, tartiflettes, raclettes, gauffres, crepes… É o lugar para se comer bem, e muito!
Ainda que os preços fossem um tanto altos, essa é uma experiência que achei que valia muito a pena ter. Eu até tentei me controlar – dificilmente você gasta menos de 25€ em um Marché de Noël – mas foi impossível resistir aos cheiros de queijo, charcutaria (embutidos), bebidas e doces que inebriavam o ambiente!
Procurando colo de mãe na Itália
Mas, ainda que eu estivesse encantada com a ideia de passar o Natal em Paris, eu sentia um certo vazio por dentro – principalmente, quando começavam a tocar as famosas músicas natalinas da Mariah Carey. Era nesses momentos que eu mais sentia falta da minha família e de nossas tradições de final de ano.
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INSCREVER GRÁTIS→Com o coração cheio de saudades, resolvi passar alguns dias de dezembro no lugar em que eu mais encontrava traços familiares: a Itália.
Em Milão e em Verona descobri mais um tanto de tradições do país e magníficos mercados de Natal. Ver a Piazza Duomo e a Galeria Vittorio Emanuele II com tantos enfeites, luzes e pinheiros me deixou, mais uma vez, absorta.
O Quadrilatero della Moda e as decorações das marcas de luxo eram de tirar o fôlego até daqueles que não ligam muito para moda. Conhecer a cidade da Julieta nesse contexto deixou Verona ainda mais apaixonante. E se a gastronomia já é incrível no cotidiano, no Natal italiano não há comparações. Jamais esquecerei do sabor do legítimo pandoro!
Ao final da minha viagem, percebi que aquele vazio permanecia – e virava um grande buraco – toda vez que eu ouvia as notas de All I want for Christmas is you.
Saudades e fuso horário
Voltei para a capital francesa para passar a véspera do feriado, já que lá, pelo menos, eu tinha a pequena família que formei ao longo dos meses morando em Paris.
No entanto, confesso que a essa altura, eu já não tinha mais motivação para me envolver na organização de nenhuma festinha de Natal. Os Marchés de Noël já tinham perdido um pouco a graça, e eu me desconectei um pouco dessa magia natalina que me encantava desde pequena.
Por sorte, outras pessoas da minha residência universitária prepararam uma ceia maravilhosa, com direito a comidas de vários lugares do mundo. Estar com eles foi muito bom, até mesmo porque eram nossas últimas semanas na França.

Apesar disso, eu estava achando tudo muito diferente. A ceia do dia 24 de dezembro foi como se fosse um jantar normal, de outro dia normal, e não um Natal propriamente dito.
Por conta do fuso horário, meu momento de ceia e comemoração não bateu com aquele de minha família. Enquanto eu estava comendo, eles ainda preparavam as refeições. E quando eles finalmente se reuniram, já era tarde na França, e eu estava dormindo.
Ainda assim, recebi uma ligação por vídeo deles. Vi o bebê da família, uma de minhas irmãs, meus pais, um primo que eu não via há tempos, minha avó… A saudade bateu de verdade.
Também já falei sobre como aprendi a falar francês para morar na França.
Natal sem Natal
Quando o Natal acabou, foi como se ele nem tivesse acontecido. É claro que foi muito legal passar o Natal em Paris, estar com meus amigos, ver as luzes de Milão e Verona, ver um pouco de neve, comer coisas maravilhosamente deliciosas.
Mas, não foi Natal. Percebi que Natal mesmo é estar com minha família, na simplicidade interiorana de São Paulo, suando com o calor insuportável, comendo a ceia preparada pelo meu pai e minha mãe.
No dia 24 de dezembro daquele ano, eu disse às minhas irmãs que eu nunca mais queria passar esse feriado específico longe delas e de nossos pais. Contudo, esse ano, não conseguirei cumprir a promessa.
Prestes a embarcar, mais uma vez, para um intercâmbio na França, sei que viverei um Natal sem Natal mais uma vez. Haja tartiflette e vinho quente para preencher os buraquinhos deixados pela saudade!