Quando trouxe minhas malas pesadas para a França, ainda em 2019, sabia que a partir daquele momento eu teria que me acostumar com um novo modo de vida. E isso incluía saber interpretar gestos, entonações, jeitos de falar e tudo o que vem no pacote do que é “ser francês”. Afinal, qualquer pessoa possui os vícios e costumes do país que habita. E, para se integrar, é preciso decodificar essas condutas. Mas, claro, nesse processo foram vários os aspectos que achava estranho e engraçado quando cheguei à França.

Para mim, esse caminho continua despertando risos, surpresas e, até, certos estranhamentos. Por isso, compartilho quais comportamentos dos franceses me soaram engraçados, estranhos ou trouxeram surpresa.

De forma geral, são hábitos e trejeitos muito comuns, partilhados por grande parte dos franceses e que você certamente vai notar quando estiver aqui. Meu objetivo não é caçoar ou julgar, mas comparar culturas diferentes e os aprendizados que tive ao aceitar estas diferenças.

1. A famosa “bufada”

É impressionante. Todos os franceses que conheci até hoje, seja no ambiente de trabalho ou entre amigos, sabem dar a famosa bufada. Vou tentar explicar em minúcias. Quando o francês está falando de algo que o deixa:

  • De “saco cheio”;
  • Cansado;
  • Com certa raiva;
  • Ou nenhuma das alternativas anteriores (sim, a bufada pode sair sem nenhum motivo aparente)

O que acontece? Eles rapidamente enchem as bochechas de ar. Encontrei um GIF aleatório só para você ter uma ideia (pois eu sei que, descrevendo desse jeito, parece algo super estranho).

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Esse gesto é algo tipicamente francês, chamado “souffler”. Eu mesma, convivendo com meu marido francês, comecei a incorporar essa mania na minha rotina sem perceber.

Lembro que, quando cheguei aqui, pensava que essa “bufada” era puro desrespeito, mas não tem nada a ver: é só o modo com que o francês se expressa, seja para exprimir seu cansaço, descontentamento ou simplesmente sem motivo.

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2. “Oh la la” não é lenda

Quando morava no Brasil pensava que o “oh la la” era o clímax do senso comum e que, na vida real, não existia. Errado! Essa expressão acompanha a rotina dos franceses de forma insistente. Existem, porém, várias entonações de “oh la la”, o que continua a me fazer rir por aqui.

  • Quanto mais fechado e grave, mais sério é o motivo do “oh la la”. Exemplo:

Pierre – Caí de bicicleta esse final de semana.

Didier – Oh la la…tu vas bien? (você está bem?)

  • Quanto mais aberto e agudo, mais divertida é a razão. Exemplo:

Pauline – Tive um encontro esse final de semana, você não tem noção de como foi!

Sophie – Oh la la, je veux tout savoir! (quero saber de tudo!)

  • E não se assuste quando o “oh la la” ganhar vários “la”. Exemplo:

Erick – Oh la la la la la ce gâteu est trop bon! (esse bolo está muito bom!)

Eu passaria horas a fio a identificar as situações nas quais essa expressão se encaixa. O que me faz rir é o quanto a entonação e o tom de voz muda de acordo com a situação. Uma só pessoa pode ter mil formas de interpretar e “atuar” o “oh la la”. Deixe os ouvidos atentos e irá reparar!

3. A teatralidade das conversas

Ao reparar no jeito, trejeitos e expressões enquanto as pessoas conversam, às vezes me pego pensando no teatro. Deve ser algum legado do período da monarquia, quando cada palavra e frase era previamente ensaiada antes de ser dita. Essa teatralidade acontece em conversas com pessoas não muito íntimas ou inseridas em um contexto profissional.

A impressão que dá é de fazer parte de uma cena previamente ensaiada, cheia de formules de politesse (palavras usadas para indicar respeito e distinção pelo interlocutor).

teatralidade dos franceses era engraçada

Durante o período monárquico, onde os nobres habitavam imensas mansões chamadas de hotels particuliers, a burguesia escolhia com pinças as palavras a serem usadas. Todas as recepções e festas que organizavam deveriam demonstrar como dominavam a cultura e as etiquetas sociais da época.

Porém, vejo resquícios desta teatralidade toda ainda hoje. Por vezes, ao espiar as conversas entre vizinhos, ou entre o garçom e o cliente em um restaurante, vejo o quanto cada expressão é bem colocada e o quanto a tonalidade ganha ares de esquete teatral.

Claro, a informalidade reina entre os mais jovens, e mesmo entre os adultos mais descontraídos e modernos. Mas é inegável reparar como esses resquícios da monarquia ainda persistem em algumas relações. Curioso, né?

4. Madame e Monsieur

No Brasil usamos a palavra madame para situações como: nossa, olha esse look de madame!

Enfim, a palavra entra em contextos para dizer que algo é “chique no último”.

Mas até aí, nunca ninguém tinha me chamado de madame. E quando isso acontece pela primeira vez, causa um certo espanto. Era como se eu me transformasse eu alguém importante (risos).

O fato é que na França empregamos estes pronomes de tratamento sempre que dialogamos com pessoas que não conhecemos ou não temos intimidade.

Sim, quando você for à padaria, vai usar monsieur ou madame, depois de dizer bonjour, e só depois pedirá sua baguette recém-saída do forno.

Recém instalada em Paris, ainda cheguei a ouvir mademoiselle algumas vezes. Porém, passados dois anos de vida parisiense, acho que a poluição envelheceu minha pele e daí foi só madame mesmo, sem recaídas. Essas delicadezas em forma de palavra me causaram certo estranhamento no começo, mas hoje lido bem com elas.

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5. Psiu! Fale mais baixo

Salvo algumas exceções, você verá que os franceses, na maior parte das vezes, costumam falar baixo. E isso acontece especialmente quando estão em lugares compartilhados (metrô, ônibus, e mesmo bistrôs e restaurantes).

O engraçado é que eu mudo de volume instantaneamente a depender da língua que eu falo: quando estou em um grupo francês, o volume é baixo. Quando estou em um grupo brasileiro, a tolerância de volume é maior, as risadas mais altas e desprendidas.

as pessoas falam baixo na França

Se você se deixar levar e aumentar o volume em um ambiente repleto de franceses, vai ver sem dúvida alguns olhares repreensivos como se dissessem “abaixe o tom aí!”. No fundo, prefiro a calma e o respeito alheio também, mas não é nada fácil controlar a saudade de falar português em alto e bom som quando a turma brazuca se junta.

Claro que isso não acontece quando as reuniões são feitas em casa. Aqui é muito comum fazer o conhecido apéro entre amigos. Ou seja, a galera se junta na casa do anfitrião e passa a tarde bebendo vinho e comendo aperitivos (muito queijo, salame, presunto e embutidos). Nestas horas as risadas altas e toda forma de exagero é tolerada: os vizinhos que se cuidem!

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6. Os ratos são um problema frequente

Uma das situações mais difíceis de lidar foi morar em um pequeno studio de 18 metros assim que cheguei em Paris e ter que conviver com ratos (!!!) durante um certo período. Na verdade, não eram ratos grandes, mas sim as chamadas souris aqui na França, o equivalente de camundongo.

Que sensação horrível essa de ver uma souris correndo por um studio minúsculo e de não conseguir dormir ouvindo os barulhos que fazia. Paris é uma cidade muito antiga e já totalmente acostumada a lidar com esses inconvenientes.

Tanto que, na idade média, a profissão de caçador de ratos já existia e era fortemente requisitada. Hoje, o que se vê são lojas um tanto quanto bizarras que vendem venenos de diferentes tipos: algumas possuem ratos de diversos tamanhos empalhados nas vitrines, na maior naturalidade.

vitrines com ratos na França
Vitrine de loja de produtos anti parasitas (olha só estes ratinhos empalhados, que bizarro). Foto: Beatriz Prieto

Os franceses veem isso como algo normal, pois já estão acostumados a lidar com a possível visita de um roedor, especialmente quando faz calor. Claro que o problema é ainda maior em cidades grandes, como na capital francesa.

Basta lembrar da saga Ratatouille, que tem um pé na fantasia e outro na realidade. A solução? Encontrar os buracos por onde os benditos podem passar e tapá-los com toda a vontade do mundo. No meu caso, não precisei de nenhuma armadilha violenta, mas o trauma ainda é presente (risos).

7. O queijo fica para o final

Já sabemos que a gastronomia francesa é querida em boa parte do mundo. Mas o fato é que o ato de almoçar entre amigos ou família pode levar horas: existe um ritual a ser respeitado.

Tudo começa com o aperitivo, depois a entrada, o prato principal e a sobremesa. Por fim, vem o queijo! Sim, depois da sobremesa é a hora dos fãs de queijo se deliciarem com camembert, roquefort, queijo de cabra, brie, cantal, e muitos outros tipos para selar o apetite de uma vez por todas.

Por isso, se você for receber franceses na sua casa, guarde uma seleção de queijos para o final, que será muito bem apreciada por eles. Outro fato interessante são as associações na gastronomia. Já pensou em comer uva com queijo tipo camembert? Ou rabanete com manteiga?

Então, na França isso não é má ideia. E realmente, uma vez que nos permitimos experimentar, vemos que elementos aparentemente distantes podem se complementar muito bem. Daí a força da boa mesa à la française, e dos chefs estrelados que atuam no país.

O francês e a comida mantêm uma relação singular!

8. As cartas não saíram de moda

Outro ponto que demorei a me acostumar: a necessidade de enviar cartas para tudo! Aqui dependemos muito dos correios (chamada La Poste) para comunicações básicas: enviar documentos ao banco, ao sistema de saúde, à companhia de energia… Muitos procedimentos, ao invés de serem digitais, são feitos à moda antiga: via carta.

Como tudo o que envolve papelada aqui na França, só nos resta sentar e esperar, pois, os processos são lentos e burocráticos. Ainda hoje, essa dependência dos correios me surpreende.

Mas tem um lado, digamos, fofo: não é raro enviarmos cartões postais aos familiares e amigos durante as férias de verão. Acho esse costume importante, pois nos faz valorizar a escrita, a caligrafia, e todo o simbolismo que é enviar uma mensagem via carta para alguém que consideramos.

cartas ainda são usadas na França

Por isso, a La Poste continua vivendo e respirando: todos os dias pela manhã vemos o carteiro com a sua bicicleta, depositando na caixinha dedicada às cartas (boîte aux lettres) as mensagens que chegam para nós.

Porém, aos poucos, e também por causa da pandemia, a França precisou dar passos mais significativos rumo ao digital, o que vem acontecendo. Para processos de visto, por exemplo, em muitos casos é possível enviar a documentação via internet, o que torna os processos bem mais rápidos. J’adore!

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9. A objetividade e a franqueza

Não existem rodeios quando queremos dizer não, nem precisamos pensar duas vezes antes de identificar alguma coisa que não gostamos.

Esse fator “franqueza” e objetividade às vezes me causam mal-estar, confesso, pois nem sempre é fácil dizer a verdade. Prefiro, por vezes, contornar o que não gostei para evitar atritos. Mas aqui, na maior parte das vezes, não é preciso.

Me lembrei de um diálogo rápido que costuma acontecer com frequência:

Eu estava em uma padaria e uma mulher (vamos chamá-la de Anne?) entrou para fazer seu pedido. Ela costuma frequentar a padaria, pois a padeira (Francine) a reconheceu.

Francine – Bonjour, Madame. O que deseja hoje?

Anne – Bonjour Francine. Gostaria de experimentar o pão multigrãos, por favor.

Francine – Claro. Você gostou do pão que experimentou ontem? Aquele que eu tinha te sugerido…

Anne – Sim, mas nada demais… (Oui, mais sans plus…)

Fiquei pensando se daria a mesma resposta se eu fosse a Anne. Acredito que não. Iria dizer que gostei sim, mas que hoje irei experimentar um outro tipo de pão.

Essa é apenas uma situação extraída da vida real, entre duas pessoas que não são íntimas. Claro que, se conhecesse meu interlocutor, iria fazer como a Anne e dizer que não curti tanto assim.

Acertar no relacionamento com os franceses pode ser um grande desafio.

10. Brigas que não perduram

Essa franqueza e falta de papas na língua às vezes rendem boas e acaloradas discussões, com certeza. Eu mesma já fui testemunha de várias delas, tanto em ambiente de trabalho como familiar. Mas o mais impressionante é como o climão se desfaz em minutos.

Oui! Já vi briga com quebra de copos e gritaria (oh la la!), mas que em 20 minutos era como se nada tivesse acontecido. Parece que o rancor não dura muito por aqui, viu.

Existe uma facilidade maior em provocar uma discussão, regada à muita sinceridade e franqueza, mas uma igual simplicidade em “apagar o incêndio” depois e agir normalmente, sem raiva. É, ainda preciso treinar esse desapego.

Sim, há muito o que se acostumar e incorporar uma vez que se vive em outro país, mas espero que essa lista te ajude caso um dia decida viver na França. Ela foi feita e pensada para ser leve e divertida, com as minhas percepções de estrangeira, ou seja, estranha a essa terra, com o que achei estranho e engraçado quando cheguei à França. Merci por ter me acompanhado até aqui confira também as vantagens e desvantagens de morar na França.

*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do site Euro Dicas.