Há cidades que rejeitam e cidades que abraçam. Saber onde vamos parar tem um tanto de planejamento, mas também um bocado de sorte envolvida.
A cidade que seu amigo acha perfeita pode ser a maior decepção para você apenas pelo fato de que você chegou em outro estado de espírito ou deu o azar de cruzar o caminho com pessoas desagradáveis e ter o pior chefe do mundo. É raro, mas acontece muito.
Sorte
Me considero uma pessoa de sorte.
Assim que cheguei a Berlim, fui acolhida por amigos de amigos e até mesmo por desconhecidos. Foi a colega da escola de alemão, o dono do hostel e até mesmo gente que conheci no metrô e no bar. Cada pessoa que cruzava meu caminho contribuía para uma experiência positiva.
Sim, acho que é sorte. Sorte e um tanto de privilégio também, é claro. Cruzei com as pessoas certas em um momento no qual a cidade ainda pulsava com amor pelos novos habitantes que apenas começavam a chegar. Fui como estudante, um tipo de imigrante mais tolerável e era uma jovem mulher branca.
Abraço
Nos meus primeiros oito anos de Berlim, fui acolhida com muito carinho. Do Brasil, as minhas pessoas perguntavam se os alemães não eram frios demais. Queriam confirmar o estereótipo. Eu dizia que não sabia do resto da Alemanha, só sabia que em Berlim todo mundo me queria bem.
Berlim era bom demais. Eu era uma publicidade ambulante da cidade.

Gente por todo lado me levava para festas, ajudava com burocracia, com arrumar apartamento, com a mudança, com achar trabalho. Foram anos incríveis em uma cidade que me abraçava por completo sem julgar meus erros e acertos e me apresentando para um novo mundo repleto de aventuras e descobertas.
Da mulher festeira à amante da natureza, eu me sentia acolhida e em casa.
Rejeição
Infelizmente, todo carnaval tem seu fim e as coisas começaram a mudar para pior pouco tempo antes da pandemia e descambaram totalmente durante aquele tempo tão difícil. Acredito que fatores pessoais, mas principalmente fatores externos a mim, levaram à mudança de cenário e também de perspectiva.
Havia um abismo cultural na parentalidade que eu acreditava e na qual meus filhos eram expostos fora de casa. A cidade que me abraçou e acolheu por tanto tempo não fazia o mesmo pelas minhas crianças e pela mãe e mulher a qual eu havia me tornado com as convicções que, ironicamente, haviam sido formadas na própria cidade.
A sensação era de desamparo.
Meu novo lar
Hoje vivo em uma pequena cidade muito acolhedora no centro de Portugal. Nem tudo é perfeito, mas é bem próximo disso em termos de acolhimento. Ovar recebe meus filhos com muita empatia e quem é cuidador sabe como isso é ouro.
É claro que ainda tenho o luxo de muitos privilégios. Hoje, trabalho de casa para outros países e sou casada com um europeu. Sabemos que isso faz sim muita diferença, mas é a realidade na qual existo.
Em pouco tempo na cidade, encontrei gente fabulosa o suficiente para me acudir sem questionamentos e com total prontidão em emergências variadas, inclusive aquelas que requerem tomar conta dos meus filhos de repente. Se empatia é ouro, isso é diamante.
Que seja eterno enquanto dure
Quando decidi me mudar com as crianças, quis encontrar a cidade certa. O medo de arrastar minha família para o lugar errado ou para algo que não fosse duradouro arrastou o processo mais do que seria necessário.
A verdade é que por mais que nos preparemos, nunca saberemos com total certeza se chegamos a uma cidade que nos rejeita ou em uma cidade que nos abraça.
O que temos que lembrar é que a aventura de tentar sempre vale a pena e que se o cenário mudar, a gente pode começar outra vez ou, até mesmo, voltar.
Desejo que você tenha a sorte de estar em uma cidade que te abrace e a força de ir embora se ela te rejeitar.
*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.