Moro em Portugal há cinco anos. E, ao longo desse tempo, fui descobrindo que viver fora do país onde nasci não é só sobre adaptação — é também sobre sentir, entender, aceitar. É um processo silencioso, às vezes confuso, mas sempre altamente transformador viver entre dois países.

Entre dois países: a vida de quem já não é do Brasil, mas ainda não é de Portugal
Índice Um pé no Brasil, outro em Portugal Uma estranheza inquieta que não vai embora Pertenço ou não pertenço? As pequenas coisas que constroem um lar No meio do caminho, a gente cresce Ter dúvida não significa falta de coragem

Não quero pintar um cenário idealizado, não sou de romantizar nada, mas também não quero cair no drama. Imigrar é isso: viver no meio de duas realidades, muitas vezes com um pé em cada uma e o coração dividido entre as duas.

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Um pé no Brasil, outro em Portugal

Quando cheguei aqui para morar em Portugal, tudo parecia novo demais. Já falei disso algumas vezes aqui na coluna. As ruas, o jeito das pessoas, o ritmo das coisas. Vim com aquela mistura de esperança e medo que só quem já fez as malas para recomeçar conhece.

Trazia o Rio de Janeiro dentro de mim – não aquele dos cartões-postais, mas o Rio da minha rotina, “purgatório da beleza e do caos”, das pequenas referências que me faziam sentir parte de alguma coisa.

E mesmo não sendo o típico carioca sociável, que ama praia e barzinho, havia ali um certo pertencimento silencioso, uma familiaridade que me acompanhava. Sempre foi um lugar confortável para mim.

Desde que me mudei para a Europa, voltei ao Brasil três vezes. E é estranho perceber – e admitir – que, a cada retorno, o Brasil parece menos “meu”. Ainda amo minha família, meus poucos amigos, ainda me emociono com certas lembranças.

Mas o meu país de origem foi virando um lugar de passado. Sinto como se minha ligação com o Brasil se transformou em algo mais afetivo do que prático. A vida que existia lá já não me cabe como antes. Não é negação. É só mudança.

Aqui em Portugal, por outro lado, a sensação também não é de total pertencimento. Tem dias em que me sinto bem encaixado, como se a vida aqui fluísse naturalmente. Mas tem outros em que percebo: há um pedaço de mim que continua estrangeiro. E tudo bem.

Cresci em outra cultura, com outras referências, outro sotaque, outro olhar, mesmo sendo filho de portugueses. Às vezes, uma piada que não entendo ou que não acho tanta graça, uma memória coletiva da qual não faço parte, me lembra que sou de fora.

Dia desses ouvia a Rádio Comercial enquanto fazia minha caminhada diária e ouvi os apresentadores falando de programas icônicos da infância e adolescência na TV portuguesa. Não conhecia nada do que foi falado. Mas já aprendi a sorrir mesmo assim.

Uma estranheza inquieta que não vai embora

Por mais que eu me esforce para me integrar — e, sinceramente, acho que consegui bastante —, a sensação de não ser “de todo” nunca desapareceu. Talvez, nunca desapareça. É como se eu sempre observasse tudo com um olhar ligeiramente afastado, tentando entender melhor antes de agir. Não é incômodo. Não me impede de viver. Mas está ali, presente, como uma sombra discreta.

O mais doido disso tudo é que ainda assim, Portugal virou casa. Gosto da rotina que criei aqui, do caminho até o mercado, da tranquilidade e segurança das ruas. Quase tudo me agrada. Há um sentimento de conforto em saber que este é o lugar onde escolhi estar. Mesmo que, vez ou outra, surja aquele pensamento: “será que eu pertenço mesmo?”.

Essa dúvida, hoje, já não me assusta, mas já me assustou. Entendi que ela faz parte da vida de quem imigra, de quem decide tentar uma nova vida em outro país. Você vai mudando aos poucos e o lugar de onde veio também muda, sem você.

De repente, nem lá, nem cá. Mas, ao mesmo tempo, um pouco nos dois. E isso pode ser bonito também. Tudo é a forma como você encara as coisas.

Pertenço ou não pertenço?

Esses dias, fizemos uma viagem de carro pela Espanha e pela França. Foram dias intensos, cheios de paisagens novas, idiomas misturados, comidas diferentes. E, na volta para casa, ao ver a placa “Portugal” na estrada, senti aquele alívio bom. Como quem volta pra um porto seguro.

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E de novo percebi: mesmo com toda a dualidade, Portugal hoje é o meu lar. Não aquele lar de infância, cheio de cantos familiares e com memórias, mas um lugar onde me sinto bem. E isso é mais do que suficiente para minha vida no momento.

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Rio na cidade de Bilbao, na Espanha.
No caminho até Bilbao, na Espanha, entre paisagens e pensamentos, a ideia de pertencimento ganhou outro sentido. Foto: Mauricio Martins

Acho que o pertencimento, nesse contexto, é uma coisa que vai se construindo aos poucos. Não chega de uma vez, não tem um dia específico em que a gente diga: “agora pertenço”. É uma sensação que se espalha devagar, por dentro, feita de detalhes do dia a dia. E, às vezes, ela até se esconde.

E uma dica: não adianta forçar a barra nessa coisa do pertencimento. Na minha visão, tentar imitar o jeito de falar dos portugueses só pra parecer mais integrado costuma ter o efeito contrário. Quando certas expressões surgem naturalmente, depois de um tempo convivendo com quem é daqui, tudo bem — acontece.

Mas quando é forçado, quando dá pra perceber que a pessoa está se esforçando só pra parecer “local”, o resultado é só um: constrangimento. Fica artificial, soa estranho e acaba passando uma imagem justamente oposta da que se queria.

As pequenas coisas que constroem um lar

Com o tempo, comecei a notar como são as pequenas experiências que me fazem sentir parte daqui: entender um trocadilho português, usar uma expressão sem pensar, reconhecer uma música popular que nunca fez parte da minha adolescência. Esses pequenos detalhes vão se acumulando e se transformam em algo positivo, mas levam tempo.

Essa conexão vai crescendo em silêncio. Mas mesmo assim, há uma parte de mim que sabe que o Brasil não vai deixar de existir dentro da minha história. E não precisa. Nunca quis que isso acontecesse. Levo comigo sotaques, memórias, gestos. O Brasil virou uma espécie de gaveta emocional, onde guardo tudo o que me formou, mas que já não dita mais os meus dias.

Portugal é onde vivo hoje, onde acordo todos os dias, onde planejo o meu futuro. E o que sobra entre esses dois lugares não é vazio. É espaço.

Um espaço cheio de lembranças, mas também cheio de possibilidades. Tudo é a forma como você encara as coisas.

No meio do caminho, a gente cresce

Há algo poderoso nessa vida entre dois mundos. Viver entre dois países não é confortável o tempo todo, claro. Às vezes, tem um peso. A saudade das pessoas às vezes dói, a sensação de “não ser daqui nem de lá” cansa.

Mas tem beleza nisso também, sabe? Crescer nunca foi sobre se encaixar. Sempre foi sobre encontrar sentido, mesmo que ele esteja espalhado em mais de um lugar. Por isso eu vivo repetindo que imigrar muda completamente sua cabeça.

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Hoje, olho para essa experiência com mais gentileza. Pelo menos, eu tento. Não me cobro mais por não me sentir completamente daqui ou de lá. Aprendi a abraçar esse espaço do meio. Aprendi que o pertencimento não precisa ser total para ser verdadeiro. É o que é.

Ter dúvida não significa falta de coragem

Se você que já imigrou vive algo parecido, quero te dizer uma coisa: você não está só. Essa sensação de estar entre dois lugares, viver entre dois países, de ter dois lares meio tortos, meio inteiros, é comum. A gente só não fala muito sobre isso.

Bordeaux, na França.
Caminhar por Bordeaux, na França, me fez sentir que, mesmo longe de casa, há lugares que acolhem como se fossem nossos. Foto: Mauricio Martins

Imigrar é, sim, um gigantesco ato de coragem. E nem sempre a coragem vem em forma de bravura. Às vezes, ela está no silêncio dos dias comuns, na insistência de continuar mesmo quando tudo parece estranho. E olha que o que não faltam são dias estranhos. Haja saúde mental.

A coragem está no sorriso que a gente dá mesmo sem entender a referência. No “se faz favor” e “se calhar” que viram hábito.

Portugal me ensinou (e continua me ensinando) muito sobre mim mesmo. E talvez o maior aprendizado tenha sido aceitar que eu posso pertencer a um lugar mesmo sem me encaixar por completo. Que posso amar um país mesmo sem ter crescido nele. Que posso seguir construindo, dia após dia, um lar — mesmo que com reticências. E mesmo que um dia perceba que quero estar em outro lugar.

E, no fim das contas, o mais importante não é o lugar onde a gente está, mas a forma como a gente escolhe estar.

*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.