Emigrar não exatamente fácil. Deixar nosso país é também deixar tudo que nos é conhecido e isso pode ser uma aventura incrível sem defeitos quando estamos sozinhos, mas as faltas que sentimos quando imigramos com filhos é outra história. Não quer dizer que seja impossível ou dificílimo, mas é uma experiência muito diferente do que estamos acostumados no Brasil.

São muitas as faltas que sentimos quando imigramos com filhos.
Índice Rede de apoio Comida afetiva Desajuste cultural Pertencimento Referências familiares Preconceito

É algo que tem seus ganhos e faltas constantemente postos na balança. Algumas faltas são óbvias, como rede de apoio. Outras nos pegam mesmo de surpresa. Vem comigo passar por todas as faltas que me atravessaram durante os seis anos que sou mãe na Europa.

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Rede de apoio

Como mencionei antes, rede de apoio é uma das faltas que sentimos quando imigramos com filhos mais óbvias. Enquanto no Brasil costumeiramente temos avós, tios, irmãos e todo tipo de parente e amigos mão na massa, na Europa começamos da estaca zero.

Nossa rede de apoio passa a ser formada por amigos que fazemos durante o processo de adaptação cultural. Especialmente outros imigrantes na mesma situação que nós, em particular outros brasileiros na Europa.

Porém, ao chegar em outro país já com filhos embaixo do braço, é importante preparar-se para não ter nenhum contato de emergência para preencher, o que pode ser o gatilho que vai fazer a sua ficha cair.

Comida afetiva

Quando me mudei para a Europa, não tinha filhos, então não ligava nenhum pouco para a falta da comida brasileira. Estava feliz com a quantidade de opções vegetarianas que a Alemanha me proporcionava em 2011. Volta e meia fazia um pudim de leite condensado ou hidratava um polvilho para fazer tapioca. Desenvolvi minha receita de pão de queijo e era isso.

Ser imigrante com filhos mudou este cenário. A falta profunda do feijão com arroz apareceu mesmo na introdução alimentar do meu filho mais velho. Não dava tempo de ficar hidratando polvilho e meu filho só tocava em uma tapioca nas poucas vezes que foi ao Brasil e aí ele esquecia.

Simplesmente na próxima viagem ele já não sabia mais o que era uma tapioca ou um açaí. E morando em Portugal sinto diferença. Temos dois restaurantes brasileiros em um raio de 100 metros de casa e o supermercado vende tapioca, mas esta não é a realidade da maioria dos países europeus.

Desajuste cultural

Ser imigrante sem filhos é uma aventura multicultural sobre incorporar o melhor de outra cultura enquanto mantemos o mais especial da nossa e descobrimos quem somos.

Ser imigrante com filhos é ver a influência do mais belo que há na nossa cultura espelhado em um pinguinho de gente que pode vir a ser isolado exatamente por essas diferenças. Seja pelo sotaque, pelos abraços ou pela lancheira da escola, o que há de mais lindo na diferença cultural do mundo pode se tornar um desgaste e desajuste constante.

Pertencimento

Outra falta que sentimos quando imigramos com filhos para qualquer país costumam ser com relação ao sentimento de pertencimento.

Ser imigrante com filhos é enfrentar desafios.
Ser imigrante com filhos é enfrentar desafios que vão além da saudade familiar. Foto: Roberta Schmoi

Não são como os nativos daquele país, pois tem uma grande influência dos pais imigrantes. Também não são nativos do país dos pais, pois nunca viveram lá. Essa é a dor mais comum entre esses filhos globalizados.

Ser imigrante com filhos é lidar com esta possível e provável falta de pertencimento cultural. Uma forma aconselhável de se fazer isso é com bastante diálogo e apreço pela cultura do país onde se vive e do país de onde se vem.

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Referências familiares

Outra falta que sentimos quando imigramos com filhos é a ausência de referência familiar sentida na pele. Qual o papel de um avô ou avó? O que são parentes brasileiros, esse povo que me ama sem nem me conhecer direito?

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Com meus filhos e com filhos de outros brasileiros, observo uma carência desproporcional decorrente da falta destas referências múltiplas de amor familiar no cotidiano que nenhuma videochamada supre. Há uma romantização dos encontros cara a cara e muita saudade do que nunca se teve, mas há também muito mais presença nesses encontros mais raros.

Junto com outras mães da redação do Euro Dicas, eu contei lá no Instagram como é a experiência (com dores e delícias) de ser mãe em um país europeu:

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Preconceito

Essa é difícil. Conforme a Europa se torna cada vez mais conservadora, vai ficando cada vez mais provável que os filhos de imigrantes sofram preconceito.

Devido a diversos fatores, incluindo a nossa invisibilidade como imigrante, nem sempre reagimos como gostaríamos. Seja uma barreira no idioma, seja um medo inconsciente de não ter lugar de fala, a verdade é que hesitamos.

Aconselho a quem deseja ser imigrante com filhos que se fortaleça internamente fazendo um preparo emocional para enfrentar este tipo de desafio, mas espero que não se depare com nenhum.

Nesta coluna falei muito das faltas que sentimos quando imigramos com filhos, mas há muitos ganhos também. O que acha? Você arriscaria emigrar com filhos?

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*A opinião dos colunistas não reflete necessariamente a opinião do Euro Dicas.