Estou apaixonado pelo Porto. Mas, por dever profissional, prometo não cair na esparrela dos enfeitiçados, daqueles que só veem o lado positivo da pessoa amada. Há pontos negativos. Deixarei para o final do artigo, os poucos pontos desfavoráveis, assim como a grata surpresa que tive ontem pela manhã. Se quer saber como é viver n’O Porto para aposentados, conto mais a seguir.

Os encantos do Porto para aposentados

Cheguei ao Porto, vindo de Madrid, há uns vinte dias. Saí de Madrid às sete da manhã e cheguei ao Porto faltando vinte minutos para as sete da manhã. O Porto me deu vinte minutos de presente de boas-vindas. E não foi este o único presente que me deu. Na promoção compre uma leve duas, o Porto dá Vila Nova de Gaia de lambuja. E que lambuja!

Sim, são duas ótimas cidades numa só, separadas pelo caudaloso rio Douro, mas ligadas por seis pontes. O aeroporto estava quase vazio; apenas a lanchonete funcionava. Dois senhores me ofereceram táxi. Eu não sabia se pegava um táxi se ou chamava um Uber para o meu destino, a Cedofeita, pois não tencionava pegar o metrô, já que tive uma experiência ruim na chegada ao aeroporto internacional de Madrid há alguns anos.

Quase fui roubado de todo o meu dinheiro e cartões de crédito no metrô, que já chega lotado pela manhã na estação do aeroporto. Todos sabem que não há assaltos violentos na Europa, mas os carteiristas são profissionais.

Economizando nos transportes

Pensando em economizar, fui dar uma olhada no metrô (aprendi depois que aqui eles acentuam a primeira sílaba, como em “um metro de largura”), que está praticamente dentro do terminal do aeroporto. Não havia vivalma dentro dos vagões, o que me animou.

Meu destino era a estação Lapa, que serve a Cedofeita. Fiz o pagamento de 2,50€ na máquina, com cartão de crédito, e segui por meia hora numa viagem agradável com as poucas pessoas que foram entrando nas outras estações.  O metro (daqui em diante passarei a usar a forma local da palavra) do Porto é limpo, tem ar condicionado e não é barulhento.

Pôr do sol no Porto
Foto do Porto – de Cesar Barroso

A rua Cedofeita, que dá nome ao bairro, é uma rua tradicional que parte do Centro Histórico em direção ao norte. Meu apartamento alugado pelo Airbnb estava no limite norte da rua.

“Ótimo que não esteja dentro do Centro Histórico”, pensei, pois andar faz bem à saúde de gente de minha idade – alivia tensões, espanta problemas cardíacos e de Alzheimer e ajuda à digestão.

Gosto de andar, e aqui vai um conselho para os aposentados brasileiros que querem vir morar no Porto: preparem-se para andar muito, pois as distâncias não são grandes, mas também não são pequenas. Façam como eu e instalem o aplicativo “Activity Tracker”, que noutro dia me informou que cheguei a andar dez quilômetros. Evidentemente, para quem não gosta de andar, há táxis, Uber e transporte público. Eu sou andarilho.

A geografia do Porto

E por falar em andar, digamos que o Porto é um magnífico bolo de chocolate com diversas camadas: chocolate branco, mousse de chocolate, chocolate com passas, chocolate com amêndoas, brownie. Todas são deliciosas, mas verticais.

É um nunca acabar de subidas e descidas, com ladeiras íngremes, ladeiras suaves, rampas retilíneas que se perdem no horizonte, rampas em curva que a gente não sabe onde acabarão, escadarias largas e escadarias estreitas.

Ninguém aqui precisa ir à academia para andar nas esteiras, pois elas estão por todas as partes. Por exemplo, a Estação de São Bento, famosa pelos seus azulejos, fica lá embaixo. De lá até a Torre dos Clérigos, outro ícone da cidade, são apenas trezentos metros andando, mas a diferença de altitude é colossal para tão curto percurso, talvez uns 120 metros.

Haja pernas e joelhos. Para quem os tem em bom estado, aqui eles se tornam ainda mais fortes. Para quem não os tem, há que subir devagar.

Ladeiras íngremes e paisagens deslumbrantes

Para a esquerda da mesma Estação de São Bento há duas ladeiras que sobem: uma em direção à catedral, a Sé do Porto (um local de visita obrigatória), e a segunda para a ponte Dom Luís I, que eu passei a considerar o ponto turístico mais importante da dobradinha Porto/Gaia (voltaremos mais tarde a falar desta ponte). Estas duas ruas não têm a inclinação íngreme como a da Torre dos Clérigos, mas são puxadas.

Vale informar que estas altitudes abrem panoramas variados e deslumbrantes. Ontem desci da Av. da República, em Vila Nova de Gaia, para o Cais de Gaia, e fiquei maravilhado com os panoramas diferentes que se apresentavam a cada curva. Embora quase sozinho, sentia-me seguro andando nas vielas estreitas.

Resumindo sobre a geografia do Porto e Gaia: o rio Douro corre lá no fundo, e o resto são escarpas.

A Gente

Já tinha estado algumas vezes no Porto e, desta vez, notei uma diferença nas pessoas. Portugal é agora parte de uma comunidade rica, a União Europeia, e isto faz diferença. Sinto as pessoas mais seguras, sem perderem a simpatia. Aliás, não fui testemunha de nenhum ato de grosseria nem comigo nem com outros, seja na rua ou no comércio.

Outro aspecto que me chamou a atenção é que Porto e Gaia estão parcialmente se abrasileirando. Ouve-se por toda parte uns sotaques misturados. Há muitas famílias mistas de um cônjuge português e outro brasileiro. Não se pergunta mais, como era costume, “você é brasileira?”. É como se vivêssemos no Brasil. Eu acho isso muito bom. Somos nacionalidades unidas pela história, pela raça, pela língua e pela cultura.

Para quem vem para aqui gozar a aposentadoria, tudo isso é positivo e ajuda na adaptação. Na nossa faixa etária, a resistência a mudanças costuma ser grande. Encontrando aqui muitos brasileiros, vendo costumes brasileiros se insinuarem na cultura portuguesa, sentimo-nos bem e quase que em casa.

Honestamente, eu acho o Porto um ótimo lugar para o brasileiro aposentado se adaptar rapidamente.

A riqueza da gastronomia portuguesa

A comida portuguesa nós conhecemos muito bem, através de nossas mães e avós, ou através de casamento, ou simplesmente de amigos, ou ainda de frequentar restaurantes portugueses no Brasil.

Não há cidade grande ou de médio porte brasileira que não tenha restaurantes portugueses. São muitos os pratos daqui que entraram na culinária brasileira. Cito apenas alguns: cozido, bacalhoada, leitãozinho pururuca, arroz de camarão, pernil assado. Há ainda os embutidos e os salgadinhos como bolinho de bacalhau e rissoles (aqui se diz “rissol”, com plural “rissóis”).

Estou há 20 dias no Porto e já ganhei um centímetro na cintura por culpa dos rissóis de camarão.

Bacalhau na Brasa
Bacalhau na Brasa – Foto de Cesar Barroso

Evidentemente, nós, os aposentados, precisamos ficar de olho no colesterol, na pressão alta, na taxa de açúcar no sangue. A comida portuguesa é pesada. Há que tomar cuidado para não exagerar nas frituras e doces. É verdade, tenho ainda que citar os doces, quase todos à base de ovos: ovos moles de Aveiro, pastéis de nata, etc.

Por outro lado, come-se muito peixe e frutos-do-mar. As frutas, hortaliças e legumes são abundantes e deliciosos. Hoje mesmo eu vi uma seção grande de um supermercado dedicada a produtos orgânicos. Portanto, há muita oportunidade para o comer saudável.

Restaurantes para todos os gostos e bolsos

Comer fora pode ser muito barato. Almoça-se até por 4,5€. Pode-se comer com sopa, pão, prato principal, sobremesa, uma caneca de vinho e cafezinho por 7€.

Há centenas de bares e restaurantes que servem refeições a esses preços. Esses mesmos bares e restaurantes estão abertos o dia todo servindo café, café com leite, salgadinhos, doces e sanduíches por preços módicos. Para o aposentado que tem mais recursos, há também os restaurantes de luxo. Todos exibem o menu com preços à porta, o que evita surpresas na hora de pagar a conta.

E o pão tem destaque

Deixei para o último parágrafo o pão. O português adora pão, e nós brasileiros também, porque esta é uma tradição que adquirimos comprando o pão fresquinho nas milhares de padarias de portugueses espalhadas pelo Brasil. Pois aqui o pão é um pecado de bom. Há tantos tipos que é difícil escolher. E é barato. Adoro levantar cedo e ir comprar o pão quentinho.

Ora, ora, já ia me esquecendo das tripas à moda do Porto e da francesinha. Os do Porto são chamados de tripeiros porque sacrificavam as melhores carnes para as tropas de Dom João I, que em 1415 partiram para a conquista de Ceuta. Isto é o que há de mais tradicional por aqui.

A francesinha é uma tradição tripeira mais recente. Trata-se de um sanduíche tipo “croque monsieur” incrementado com linguiças, queijo, presuntos, um ovo estrelado no topo, coberto com um molho especial e servido com batatas fritas. Não me apetece, mas o vejo servido e comido por toda parte. Prefiro as tripas.

Imóveis para alugar no Porto

Confesso que ainda estou engatinhando neste item. Quando cheguei, fiquei num apartamento alugado pelo Airbnb em Cedofeita.

Um apartamento ótimo, talvez o melhor imóvel Airbnb em que já me hospedei. Tentei convencer a dona que me fizesse um preço especial para alugar por um período longo, mas ela disse que não, que ganha muito mais alugando em regime Airbnb. Estou agora numa quitinete em Vila Nova de Gaia, a quatrocentos metros da ponte Dom Luis I. É um imóvel inferior ao anterior, mas bom. Os donos também não querem alugar por longo período.

Em geral, os aposentados são um casal com filhos já criados ou uma pessoa sozinha. Por isso, um imóvel com um quarto, ou no máximo dois, é o que basta.

Estes imóveis não são baratos nos melhores bairros. Estão com preços de 750€/mês para cima. A vantagem é que nós, aposentados, não precisamos sair para trabalhar. Podemos viver um pouco mais longe dos centros do Porto ou de Vila Nova de Gaia. Eu estou neste momento fazendo pesquisa no site de imóveis O Idealista, e procurando apartamentos de um quarto (aqui chamados de T1) nos arredores do Porto e Gaia. Os preços baixam para 450€.

Veja dicas para alugar apartamento em Portugal nesse artigo.

Procure seu imóvel com precaução

Alerto a todos, no entanto, que este é um assunto que precisa ser tratado com muito cuidado e calma. Ainda não procurei um corretor de imóveis, mas acho que será uma boa iniciativa.

É importante também conversar com as pessoas que já moram aqui para saber quais as arapucas a serem evitadas. Isso, para alugar. Para comprar, então, o cuidado tem que ser redobrado. Há o problema de mofo no inverno, já que a umidade aqui é forte.

Diversão e passeios no Porto

É muito grande o número de coisas a fazer no Porto e Gaia. Quase todos os dias vou ver o pôr do sol no Jardim do Morro, um parque que fica em Gaia, junto à ponte Dom Luis I.

Esta ponte é linda, e durante o dia todo está cheio de locais e turistas que por ali passam e param para ver as lindas vistas do rio e das duas cidades. Para o pôr do sol, reúnem-se mais de quinhentas pessoas.

Muralha Fernandia e Mosteiro
Foto de Cesar Barroso

Há um belo bar no local, com as melhores vistas, e é dali também que parte o Teleférico de Gaia, que leva para o final da ribeira de Gaia, chamada de Cais de Gaia. Este lugar rivaliza com a Ribeira do Porto.

Honestamente, acho mais variado e com mais opções do que a do outro lado do rio, principalmente pela presença das grandes caves do vinho do Porto. De qualquer forma, ambas são lindas e ótimas para passear. A ribeira do Porto é animadíssima e tem um ambiente internacional.

Eu poderia encher páginas sobre as livrarias, com destaque para a Lello, que tem sempre uma fila para entrar. Ainda temos as bibliotecas públicas, os museus, as igrejas centenárias, como a Torre dos Clérigos e a Sé, mas peço aos leitores que consultem os guias turísticos e os portais na Internet, pois o espaço aqui é limitado.

As desvantagens de viver no Porto para aposentados

Uma das desvantagens do Porto/Gaia para os aposentados é, como foi dito acima, a questão da topografia das cidades. É preciso estar preparado para subidas e descidas frequentes. Quase não existem espaços planos. Por um lado, é bom para o coração. Por outro lado, pode ser demais para joelhos e músculos das pernas.

Outro problema é que o Porto/Gaia é frio. Frio e úmido. Mesmo no verão, as temperaturas caem para 14ºC na madrugada e, durante o dia, raramente chegam a 25ºC. No inverno, a umidade aumenta com a chuva e as temperaturas, embora não caiam abaixo de zero, são baixas a maior parte do tempo.

Ninguém se aposenta com dezenove anos. Uma das características nossas, dos aposentados, é estar na faixa etária em que o joelho não faz mais o seu trabalho como deveria, os músculos das coxas estão flácidos e a protuberância estomacal é um peso que nos puxa para baixo. Acabou o tempo dos músculos potentes, das barrigas lisas, dos joelhos fortes e invencíveis. Jogávamos longas partidas de futebol, e nossas esposas de vôlei, quase sem sentir. Tomávamos um banho e saíamos para noitadas. A maioria de nós está agora em bom estado de conservação, mas os bons tempos já viraram história.

A surpresa

Em minhas visitas à Espanha, desde 1969, eu via os prédios da loja El Corte Inglés, em Madrid e Barcelona, mas nunca entrava. Ontem, resolvi entrar no El Corte Inglés em Vila Nova de Gaia. Tendo morado em Miami por muitos anos, uma loja de departamento não deveria me surpreender, mas foi o que eu senti: surpresa.

Depois de estar por 80 dias vendo as coisas belas da Europa, eu me senti em Miami, no Aventura Mall, por tamanha modernidade e a beleza da loja e dos produtos. Pois aí está uma outra opção de passeio para o aposentado. Está cansado de ficar em casa ou de ver coisas antigas? Vá tomar um cafezinho no El Corte Inglés.

Conclusão

Quero deixar claro aqui que apenas comecei a roçar no assunto. Há muito o que dizer e explorar sobre as possibilidades e vantagens, além das poucas desvantagens, para os aposentados brasileiros aqui. Para um fotógrafo profissional, Porto/Gaia é um paraíso. Não consigo parar de fotografar, tantas são as belezas com as quais deparo ao virar cada esquina. Convido a todos a ver as imagens no Instagram, no endereço @cesar_barroso.