Este relato é bastante pessoal. Informo ao leitor algumas de minhas características de vida, de modo que, com os devidos descontos e os leitores considerando as suas características pessoais, cada um avalie se viver no Porto a sua aposentadoria é bom também para si. Não faço proselitismo de meu modo de viver, conto apenas como é a vida de um aposentado no Porto.

Passei a maior parte de minha vida no Brasil, mas os últimos anos vivi nos Estados Unidos. Divorciei-me há um ano, e estou atualmente sozinho. Para dizer a verdade, acho que vai ser difícil me casar novamente. Descobri que a vida a sós tem muitas vantagens. Talvez esteja escrito nos astros um relacionamento futuro, mas terá de ser cada um em sua casa. Conto mais no artigo a seguir.

Saiba como é a vida de um aposentado no Porto

A vida a dois tem vantagens inegáveis, mas não estar atado aos horários e agendas da outra pessoa, poder acordar no meio da madrugada, acender a luz para ler e ouvir música até o sono voltar, não tem preço, principalmente para quem, como eu, tem uma vida intelectual intensa.

Agora sou eu quem decide o que se vai comer, seja no restaurante ou seja em casa, o que comprar ou não comprar no supermercado, onde passear. Foram três casamentos, desde 1973. Alguns dos leitores e leitoras que passaram por isto podem imaginar o alívio que só a liberdade concede… rs.

O processo de escolha

Minha decisão de trocar de país para viver a aposentadoria não foi tomada da noite para o dia. Foi um processo longo, baseado em leituras, filmes, séries de TV, meditação, até nas redes sociais, e inclusive na tendência americana de emigrar na aposentadoria para países com custo de vida mais acessível.

Quando se tem mais de 70 anos e se está sozinho, este tipo de decisão não é muito usual e necessita cuidado e preparo. Muitos de meus heróis literários viveram a sua velhice no exterior. Um deles (que conheci pessoalmente), o inglês Robert Graves, passou muitos anos de sua vida em Deyà, na ilha de Malhorca na Espanha, onde morreu.

Procure um lugar onde se sinta bem

Viagens internacionais sempre fizeram parte de minha vida. Na juventude, passei três anos na Europa e Estados Unidos, trabalhando em restaurantes e caminhão para poder comer e ter onde dormir. Sou bastante autossuficiente. Gosto de cozinhar e, modéstia às favas, cozinho bem.

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As finanças de um aposentado colocam certas barreiras no consumo. Neste particular, a série americana “The Minimalists”, da Netflix, criada por dois jovens que adotaram e pregam uma vida de simplicidade, com poucos bens materiais, ajudou a convencer-me de que para ser feliz não se precisa de muito. Minhas leituras, o ativismo político, a atividade de artista fotográfico e de criador de ficção também compensam a falta de alguns tipos de conforto. E, desta forma, estou vivendo feliz com simplicidade.

Novas possibilidades para viver a aposentadoria

No último dia de junho de 2021, saí de Miami, via Madri, com destino à Grécia, com passagem marcada para voltar a Madri em 30 dias, sem ter ainda decisão onde iria até final de setembro, para quando estava marcada minha passagem de volta à Miami, onde eu iria buscar o pouco que me restava, tomar a terceira dose da vacina da Covid, e a vacina contra a gripe, antes de voltar em definitivo para a Europa, já com a decisão de onde passaria o inverno. A vida me mostraria os caminhos à medida que avançasse, pensei.

Quem nunca sonhou em viver na Grécia? Eu sonhei e, na prática, me dei esta oportunidade. Gostei demais de lá, conforme escrevi em um artigo para o Euro Dicas, o qual recomendo a leitura. Acho que a Grécia é uma opção de aposentadoria para alguns brasileiros, em especial os de ascendência grega.

Flora no Porto
Outono na Beira Alta, em Portugal – Foto de Cesar Barroso

Lá vivem milhares de estrangeiros aposentados, em especial da Inglaterra, que tem laços históricos com a Grécia. Porém, ao fim de um mês, decidi que a Grécia não era para mim, por causa da diferença cultural marcante (não considero a Grécia como Ocidente propriamente – é o meio de campo entre Ocidente e Oriente).

Aconselho a todos uma visita. Fiz diversos relacionamentos pessoais na Grécia com os quais, passados quatro meses, ainda mantenho contato. São um grego dono do Airbnb em que fiquei em Atenas, um casal greco-francês que tem casa na ilha de Égina, onde também conheci um casal de jovens cientistas russos.

Analise os próximos passos com cuidado

De volta a Madri, logo parti para uma cidadezinha nas montanhas, a uma hora de ônibus, Miraflores de la Sierra. Um lugar fantástico, lindo, perto de picos de montes com florestas, riachos, comida ótima, gente muito simpática. Escrevi para a Euro Dicas sobre Miraflores também. Lá perto estão lugares famosos como La Granja, Segóvia, Ávila.

Comparo Miraflores a Petrópolis da década de 50. Fui muito bem tratado pelas pessoas, inclusive pelo bibliotecário, que, não podendo me deixar levar o livro que lia (“Viaje a la Alcarria“, de Camilo José Cela), escondia-o para que ninguém o tomasse emprestado. Meu anfitrião do Airbnb, um gentleman, me levou junto com sua namorada a fazer passeios fantásticos.

O clima pode ser fator decisivo

Fiz uma projeção e imaginei como seria o inverno em Miraflores. Para os leitores terem uma ideia, neste momento em que escrevo, a previsão de temperatura mínima em Miraflores, para amanhã, é de -1ºC. Em dois dias, deverá nevar. Numa cidade grande, estas condições são suportáveis porque há sempre onde ir, mas o que faria em Miraflores em condições invernais?

Meu anfitrião tentou convencer-me falando do belo Natal com neve, das idas para fotografar a floresta toda branca, mas nada disso me convenceu. Agradeci e, por uma questão de delicadeza, disse que pensaria no assunto.

É importante ter algumas opções na manga

Alguém perguntará: por que você, em termos de Espanha, com tantas opções, só avaliou Miraflores? Por que não Segóvia, ou mesmo Madrid, ou a Andaluzia, de que tanto gosta? Respondo: porque, depois de um mês na Grécia e três semanas em Miraflores, uma ideia começou a tomar forma.

Uma destas ideias que se esgueira sorrateiramente e… catibum… toma conta da gente, inspirada em memórias do passado e experiências do presente. Portugal deve ser o lugar certo para mim, esta era a ideia. Parti, então, para o Porto, onde passei as quatro semanas anteriores à volta à Miami.

Portugal era o lugar certo para a minha aposentadoria

Minha intenção era passar duas semanas em Miami para arrumar tudo o que precisava, mas consegui fazer tudo em uma semana.

Tomei as vacinas, comprei duas malas grandes e as enchi com o que coube, principalmente as minhas roupas de inverno e material de fotografia. O que sobrou doei a amigos.

Foram dias de correria intensa, principalmente o último dia, em que tive que ir a diversos lugares à procura de onde fazer o teste da Covid-19 que me desse o certificado exigido por Portugal e Espanha.

A vida no Porto
Gaia vista desde o Porto através da Ponte Dom Luís I – Foto de Cesar Barroso

Dirigi uns 200 quilômetros naquele dia, sob estresse tremendo, pois perder o voo à noite me traria um prejuízo monetário que não estava nos meus planos. Quase chorei de alívio quando sentei na poltrona do avião que me levou a Madri onde, no outro dia de manhã cedinho, peguei o voo para o Porto.

Da janela do avião, vi Portugal lá embaixo e senti um pouco de medo.

“Cesar”, pensei, “estás partindo para uma aventura, que não é mais uma aventura de juventude. Agora, tens menos trunfos”. “Quem não arrisca não petisca”, respondi para mim mesmo. “A vida é breve e, dentro de uns certos limites de prudência, há que se aventurar. Ars longa vita brevis“.

Logo nos primeiros dias, porém, concluí que o Porto é o meu lugar.

Por que escolher a vida de um aposentado no Porto?

Na minha idade, as pessoas querem voltar ao ponto de partida, ao lugar mais perto do seu coração. O meu coração é brasileiro, mas o longo assalto que sofri, em 1989, no Rio de Janeiro, continua na minha memória. Foi um abalo de cujas sequelas jamais irei me livrar. Não quero voltar a viver no Brasil por causa da insegurança.

Depois do Brasil, o segundo vínculo maior é com Portugal: as memórias dos primeiros anos de vida vividas com meu avô da Beira Alta. Sim, tive pai, mãe e outros avós, todos muitos afetuosos, mas este avô foi o herói de minha infância e, por sua causa, Portugal ocupa um lugar importante para mim.

Adoro a Itália, a França e a Espanha (cujas línguas falo e cujas culturas admiro) mas a idade pede que eu descanse onde está meu coração.

E como tem sido a minha vida no Porto?

O tempo passa rápido e já estou há mais de quatro meses no Porto.

Moro em Vila Nova de Gaia, a cinco minutos a pé da ponte Dom Luís I que, para mim, é o local mais lindo de todo Portugal. Vir a Portugal e não visitar a ponte Dom Luís I é como ir a Roma e não ver o papa.

As vistas em direção ao interior e em direção à foz do Douro são lindíssimas. Vem gente de todo o mundo ver o pôr do sol dali. Adoro caminhar pela ponte em direção ao Porto, parando para admirar lá de cima o Cais de Gaia e a Baixa do Porto.

Já adaptado à vida no Porto

Sinto-me perfeitamente adaptado à vida local. Meu dia a dia corre paralelo à Avenida de República (espinha dorsal de Gaia) por onde, de ponta a ponta de seus 2.550 metros, corre o metro (lembro que o metrô aqui se chama metro) do Porto.

Com a família em Beira Alta
O autor Cesar Barroso (embaixo) e sua família em Beira Alta, Portugal. Foto de Cesar Barroso

Aliás, eu pouco utilizo o metro, pois gosto de andar a pé. Ando em média quatro quilômetros por dia. Uma de minhas caminhadas preferidas é subir até o supermercado Pingo Doce, que fica a 1,200 metros de minha casa, e esticar até o Corte Inglés. Há dezenas de confeitarias no caminho para um espresso com rabanada ou um rissol (rissole) de camarão.

Mantenha a documentação em dia

O processo para a consecução dos papéis que me permitirá viver permanentemente em Portugal está correndo dentro do esperado. Devo dizer que tenho encontrado funcionários públicos prestativos, atenciosos e gentis. Na Câmara (prefeitura) de Gaia, a espera para ser atendido é mínima. O ambiente é agradável e cortês.

Não dou conselhos nesta área (que não é a minha), mas digo apenas que os interessados devem procurar um advogado que dirija seus passos, já que Portugal está tornando cada vez mais fácil a imigração brasileira.

Alimentação ao morar no Porto

Com a aproximação do inverno, todos (mas em especial os idosos) precisam se alimentar bem para evitar gripes e resfriados. Tenho comido muito bem por aqui. A oferta de produtos de qualidade é muito grande e a bons preços. Eu teria que escrever muitas páginas para contar como a alimentação é farta e saborosa no país. Não conheço lugar em que as frutarias, que se assemelham às quitandas brasileiras, sejam tão solicitadas.

Os portugueses comem muito frutas e legumes. Sem contar com os supermercados, compro frutas e legumes em duas frutarias que estão sempre cheias de clientes. Fico observando as quantidades enormes que cada freguês leva. As mangas são muito doces, assim como os melões, as maçãs, as peras, as melancias e as tangerinas. Nunca comi tão boas.

Devolvo a Caminha o que disse sobre o Brasil: “Aqui, em se plantando tudo dá”. Os legumes têm sabor forte. Hoje preparei um estufado de músculo bovino com cenoura, batata, ervilha e alecrim cujo cheiro deve ter chamado a atenção da vizinhança.

Refeições em casa também são acessíveis

Comer em casa, como eu faço a metade do tempo porque cozinhar me diverte e gosto do que preparo, fica praticamente pelo mesmo preço do que comer fora. A oferta de refeições boas e baratas é geral. O meu lugar preferido é a Adega da Paz, que fica numa ladeira na rua onde moro. É um restaurante de uma família. A cozinheira é a avó. A comida é de raiz, daquela bem caseira mesmo.

Os restaurantes oferecem menus com preços convidativos

Os meus pratos preferidos são os de carne de porco, que vêm acompanhados de arroz e ótimas batatas fritas ou coradas. Vejam só: a refeição inclui, além do prato principal, sopa, pão, uma bebida, que pode ser meio litro de vinho, cerveja, água mineral ou Coca-Cola, sobremesa e espresso, pelo preço total de 6€. Aceita cartão de crédito.

O local abre apenas para o almoço, de segunda-feira à sábado. Sou conhecido, bato papo com o pessoal da casa e me servem bem. O que mais quero eu? Ao longo da Avenida da República há muitos outros restaurantes do estilo da Adega da Paz.

O inverno no Porto

Há dois tipos de invernos aqui: o inverno da rua e o inverno de dentro de casa. No inverno da rua, frequentemente chuva e vento se juntam às baixas temperaturas. O vento é bem forte. Dois dias atrás o meu guarda-chuva virou ao contrário e desvirou duas vezes, durante um pequeno percurso.

Capela do Senhor de Além
Capela do Senhor de Além, em Gaia, na margem do Douro. Foto de Cesar Barroso

É muito importante estar agasalhado convenientemente: cachecol (pois as doenças do frio começam pela garganta), gorro de lã, meias de lã, ceroulas, camiseta de algodão, camisa, pulôver e um casaco, de preferência impermeável. Nos dias de chuva, sapato de couro também, porque tênis deixa a água penetrar.

Esteja atento à previsão meteorológica

Consulto frequentemente a previsão do tempo e confiro quais os melhores horários para sair, entre uma chuvarada e outra. Sempre levo o guarda-chuva, pois às vezes a chuva se antecipa à previsão, a não ser nos dias de sol sem nuvens. Há dias que saio mesmo na chuva, porque não posso passar o dia inteiro dentro de casa. Uma dica importante: tomar um banho quente antes de sair à rua torna as condições externas bastante mais suportáveis. Idem antes de dormir.

Quanto ao inverno dentro de casa, portugueses e estrangeiros reclamam que as moradias não são preparadas para o inverno, como em outros países europeus. É pequeno o número de moradias com sistemas de calefação que permitem às pessoas ficarem vestidas com roupas leves dentro das casas.

A maioria tem que andar dentro de casa encasacada. As casas e apartamentos que têm janelas voltadas para o sul levam certa vantagem por receberem sol no inverno, mas as que não têm sofrem com o frio e a umidade.

Cuidado com a conta de energia

O meu senhorio providenciou um bom aquecedor, mas quase desmaiei quando chegou a conta de luz. A maior que já paguei em minha vida. Comentei com ele e recebi alguns conselhos: desligar o aquecedor quando o cômodo estiver bem aquecido, durante o dia. Antes do pôr do sol, fechar as venezianas e ligar o aquecedor para uma temperatura mais alta e depois trocar para uma temperatura mais baixa.

Tenho um pequeno termômetro digital, e com ele gerencio para que a temperatura não fique abaixo de 18ºC nem acima de 20,5ºC. Neste momento, 22:40h, o termômetro marca 20,3ºC. Esta é uma temperatura boa para dormir. Cubro-me bem e durmo por nove horas. Vamos ver como virá a próxima conta de luz.

Veja também o artigo guia sobre o Porto com dicas imperdíveis da cidade.

Vida social e vida sozinho

Hoje em dia, é muito fácil a comunicação à distância. Estou em contato diário com amigos e familiares através das redes sociais e do telefone via WhatsApp, mas sinto falta do contato social local. De vez que estou em um período de adaptação, ainda não fiz amizades locais, mas planejo me engajar em breve com os fotógrafos portugueses que conheço através do Instagram (@cesar_barroso).

Já passei um fim de semana com meus parentes da Beira Alta, e falo com eles ao telefone com frequência. A minha atividade de fotógrafo comercial, que retomarei em breve, vai me dar a oportunidade de conhecer pessoas e fazer relacionamentos.

Tenho recebido correspondências muito simpáticas de alguns leitores da Euro Dicas, às quais respondo com muito prazer. Encorajo aos que quiserem me escrever que usem o e-mail [email protected], e que, quando vierem ao Porto, entrem em contato comigo para um cafezinho.

Aprecio muito também o tempo que passo sozinho. Leio, escrevo, ouço música popular e clássica, vejo documentários, acompanho as notícias internacionais e nacionais pela Internet, faço ioga, meditação e canto no chuveiro.