Portugal é um país lindo, com belezas naturais desconhecidas da maioria dos viajantes e, até mesmo, de quem vive no país. Existem várias maneiras de explorá-lo, para quem gosta de um pouco de aventura, Portugal de bicicleta é uma experiência única. As paisagens de tirar o fôlego, o acesso às ciclovias e a segurança no país são fundamentais para desfrutar desse meio de transporte e se jogar na estrada.

Como conhecer Portugal de bicicleta?

“Outras vezes oiço passar o vento,
 e acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido”.

Os versos de Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Alberto Caeiro, certamente não foram escritos quando ele pedalava pelas ruas de Lisboa, mas bem representa a sensação gostosa do vento no rosto quando se desbrava uma cidade sobre a magrela.

Portugal é o país onde tenho vivido com minha família, e muito do que já vi por aqui foi sobre duas rodas. Vivemos em Ovar, pequeno concelho a cerca de 30 minutos da belíssima cidade do Porto, com cerca de 50 mil habitantes e mais de 60 km de ciclovias “formais” devidamente sinalizadas, seja sobre a calçada (como aquelas que cortam a avenida Faria Lima em São Paulo) ou também bem demarcadas em vermelho na lateral das pistas.

Do centro da cidade, cheia de casinhas típicas e seus lindos azulejos, muitas capelas e uma bonita igreja matriz com a frente toda azulejada, o pedal passa por ruas estreitas até desembocar no caminho que leva até a praia. Ovar tem aquele clima gostoso de cidade do interior. Bonitos parques, pracinha, trailers vendendo churros e, logo ali na frente, a praia, com um mar frio e forte, mas uma orla agitada de gente.

Essa mudança do campo para a praia se dá em menos de cinco quilômetros. De repente, deixa-se para trás uma viela estreita e com piso de pedras para cair numa pista vermelha que leva o ciclista direto para um calçadão de pedestres que, por sua vez, termina na beira do mar.

Portugal, um potencial país para ciclistas

Esse retrato de Ovar se repete em várias outras cidades, o que poderia indicar que este é um país de ciclistas. Poderia, sim, mas não é bem assim.

Portugal é, de fato, cortado por ciclovias, ecovias e ecopistas (ou pista verde). Esta última é a designação portuguesa atribuída aos percursos que utilizam antigos ramais ferroviários desativados em diversas regiões do território continental, formando uma verdadeira rede ou sistema nacional de passeios na natureza e, por vezes, também em meio urbano.

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O mapeamento de parte de todas essas artérias é, por exemplo, um dos importantes projetos lançados pelo órgão oficial de Turismo do Porto e Norte, que produziu o Guia de ciclovias, ecovias e ecopistas no norte de Portugal. O material é bem detalhado e completo, com informações bastante úteis.

Mas pedala-se pouco

Apesar de todos esses estímulos para o pedal, Portugal ainda é um dos países menos “pedalados” em toda Europa. O Censo de 2011, o mais recente levantamento nacional (há grandes censos a cada 10 anos e acabamos de passar por um, cujos resultados começam a ser anunciados aos poucos) mostrou um país com pouco mais de um milhão de bicicletas. O número não é baixo, considerando toda a população de Portugal.

Porém, o mesmo levantamento apontou que tais bicicletas eram usadas regularmente por menos de 1% da população. Ou seja, as magrelas ficavam mesmo encostadas.

Grandes incentivos para adoção da bicicleta como meio de transporte

O lado positivo desta história é que a mobilização para mudar esses números em todo o país tem sido grande. A Câmara Municipal de Lisboa, por exemplo, apresentou as suas metas para tornar a capital numa cidade ciclável até 2025.

Além disso, planeja mudar radicalmente o cenário apontado pelo Censo de 2011, que mostrou que as bicicletas representavam na capital apenas 0,2% do total das deslocações pendulares (casa-trabalho).

Portugal é potência para futuro em duas rodas
Foto: Marcos Freire

O objetivo é criar projetos, programas e legislações específicas para que as bicicletas passem a representar uma fatia de 15% em 2025. Os números são bem agressivos, principalmente quando comparados com aqueles anunciados por outras capitais mais maduras em termos de ciclismo, como Londres (5% até 2026).

Estrutura na Europa é atrativa para ciclistas

Ainda que os números atuais não nos deixem tão empolgados, é impossível não reconhecer que pedalar pela Europa é realmente muito mais trivial do que no Brasil, principalmente para quem se arriscava no trânsito furioso de São Paulo.

Razões para isso não faltam: dos aspectos culturais aos estruturais, tudo torna mais leve a opção pela magrela como meio de transporte cotidiano ou como opção para o turismo.

Eurovelo, a rede de rotas europeia de cicloturismo

Todo o litoral português, da pontinha sul ao extremo norte, por exemplo, faz parte da EuroVelo, rede de rotas europeias destinadas à prática do cicloturismo com diferentes tipos de percursos. A chamada Rota da Costa Atlântica, ou EuroVelo 1, possui mais de 8 mil quilômetros de extensão e se junta a 14 outras rotas que cortam mais de 40 países europeus.

Ao todo, são mais de 70 mil quilômetros de ciclovias e pistas voltadas para o ciclismo. O projeto é coordenado pela Federação Europeia de Ciclistas (ECF), em colaboração com as organizações locais – em Portugal, a Federação Portuguesa de Cicloturismo e Utilizadores de Bicicleta.

Eurovelo em Portugal

A parte portuguesa da Eurovelo 1 tem mais de mil quilômetros de extensão, divididos em 18 trechos. Passa por várias cidades e corta regiões como o Algarve, o Alentejo, a Área Metropolitana de Lisboa, Leiria, Aveiro, Coimbra, Cávado, a Área Metropolitana do Porto e o Alto Minho.

Nas minhas pedaladas por aqui, já fiz parte do trecho 15, que liga Aveiro ao Porto, em um total de pouco mais de 70 km. Este trajeto começa em São Jacinto, uma praia linda e reserva natural, e segue alinhada com a Ria de Aveiro. Subindo em direção ao norte, a praia seguinte é a de Torreira, com grande extensão de areia bem branquinha.

O pedal segue pela estrada que margeia a ria e também acompanha a linha do mar, escondido apenas por dunas e vegetação. Há um trecho em que ainda não há pista exclusiva para as bikes e é preciso pedalar pelo acostamento, que traz indicações e orientações em placas para os ciclistas. Vale uma parada em Torrão do Lameiro para conhecer uma outra praia (Marretas), linda e pouco explorada.

De bicicleta, cruza-se uma pequena floresta saindo da estrada até desembocar no oceano. Pouco adiante, já de volta para a estrada, uma pequena praia na ria (Praia do Areinho), pode ser um bom pretexto para ver a vegetação, a fauna local, tomar uma água e recuperar o fôlego. Mais uns giros no pedal e chega-se a Ovar, onde vivo.

Muito a desbravar na Eurovelo portuguesa

Na grande rotatória (ou rotunda, como falamos aqui) enfeitada com um moliceiro é hora de decidir: virando à direita, avenida da Régua e centro da cidade. Para a esquerda, a praia do Furadouro, de onde é feito o acesso para a estrada que corta a floresta. Um caminho exclusivo para as bicicletas, com passadiços, pontes de madeira e uma vegetação que faz a gente esquecer da vida.

A pista vai serpenteando em meio aos grandes pinheiros, paralela ao mar. Às vezes mais próxima do oceano, quando até se escuta as ondas, em direção ao norte do país. E, claro, tem que dar uma folga para as pernas nas lindas praias. A primeira neste caminho é a de São Pedro de Maceda, ainda dentro do município de Ovar. Mas não espere barraquinhas vendendo água ou alguma estrutura. A praia é vazia e vale mesmo pela beleza e pela paz.

Explore Portugal sobre duas rodas
Foto: Marcos Freire

Viu o mar, relaxou? Volta ao pedal e a mais uma descoberta pelo caminho, a praia de Cortegaça, esta sim já com alguma estrutura. Depois vem as praias de Esmoriz e de Espinho, em um trajeto com muitas dunas, reservas naturais, passadiços no meio da vegetação, brisa do mar.

Há pequenos trechos em que as dunas já invadiram as pistas da bikes e temos que levar a magrela no ombro ou empurra-la. Pouco importa. Acaba sendo uma boa desculpa para curtir a paisagem.

Também vale aproveitar o comboio

Ah, mas se a preguiça bater, dá sempre para colocar a bicicleta no comboio, ops, no trem, e seguir viagem. As bicicletas não pagam passagem na maior parte dos trens. Para saber mais detalhes, sempre vale consultar o site dos Comboios de Portugal. Cada passageiro pode levar até uma bike nos vagões devidamente identificados. Só não vale dizer depois que cruzou o país de bicicleta.

Rotas para percorrer Portugal de bicicleta

Mas a EuroVelo 1, ou Rota da Costa Atlântica, é apenas um dos caminhos possíveis para quem quer se aventurar pelo país sobre duas rodas. Há muitas alternativas e o investimento em criar ou adaptar novas rotas tem sido crescente.

Há alguns milhões de euros por trás de quatro projetos específicos na região central do país, por exemplo. Entre eles, a requalificação da antiga Linha Ferroviária do Vale do Vouga, transformando-a numa ecopista com uma extensão de 58,6 quilômetros, que atravessa Oliveira de Frades, Vouzela, São Pedro do Sul e Viseu.

Também a Ciclovia do Mondego, com uma extensão de 39,9 quilômetros, para ligar a ecopista do Dão à EuroVelo 1, permitindo a criação de um traçado em circuito fechado que liga Figueira da Foz, Viseu e Aveiro. A ecopista do Vouga, ligada à do Dão e à do Mondego, cria então um corredor que pode se tornar a maior ecopista contínua da Península Ibérica.

Percursos de bike no interior do país

E não é só. ​​​Para quem quer ir mais longe e descobrir as pequenas vilas e grandes atrações do país, o turismo de Portugal disponibiliza​ uma plataforma totalmente dedicada ao cicloturismo, com rotas e dicas das sete regiões turísticas do país. O projeto Portuguese Trails é uma ótima maneira de começar a planejar as pedaladas aqui na terrinha.

E deixo aqui uma sugestão: a Grande Rota das Aldeias Históricas de Portugal, um traçado circular com cerca de 600 quilômetros, divididos por 12 etapas que iniciam e terminam em cada uma das 12 Aldeias Históricas de Portugal. Achou muito? Tem sempre o trem para dar uma ajudinha. E sebo nas canelas!

Aliás, turistar de bike em Portugal é uma deliciosa alternativa. Percorrer as trilhas que antes eram trilhos é uma maneira deliciosa de conhecer o país. As ecopistas que mencionei acima estão espalhadas de norte a sul. Ainda não conheço todas, mas já me encantei pela ecopista do Vouga, ainda que, infelizmente, tenha ido apenas caminhar. Sim, bicicletas e pedestres convivem pacificamente pelas ecopistas.

Esta ecopista tem cerca de 11km e acompanha o Rio Vouga, passando por pequenos túneis e pela linda ponte do Poço de Santiago, uma das atrações do caminho. E vale uma paradinha na antiga estação de Paradela, também desativada, e que hoje é um gostoso café.

A maior e mais bonita ecopista de Portugal

Mas a maior de todas e, dizem, a mais bonita é a ecopista do Dão, com seus quase 50km. Ocupa o lugar dos trilhos de uma linha originalmente inaugurada no final do século XIX e totalmente encerrada em 1988. Ela atravessa os concelhos de Viseu, Tondela e Santa Comba Dão. O projeto ficou entre os três melhores na categoria Excelência, em premiação da Associação Europeia de Vias Verdes (2013).

Parte da ecopista do Dão margeia o rio Dão e o seu afluente, o rio Paiva, acompanhando a sinuosidade das águas. E pelo caminho, entre os sobreiros (as árvores da cortiça) e carvalhos, é possível avistar a serra do Caramulo e a serra da Estrela. Já está na minha lista de desejos, com certeza.

Ecopistas no norte de Portugal

Mais ao norte, a ecopista de Guimarães ocupa um trecho desativado dos trilhos que uniam a cidade à vizinha Fafe. São cerca de 15km já prontos, mas há outros 6km no total do projeto. No caminho, a antiga estação de Cepães (agora um bar e café) também é uma boa parada para recuperar o fôlego.

Ainda mais para cima, já praticamente na fronteira com a Espanha, a ecopista do Minho, com seus 15km, faz a ligação das cidades de Valença e Monção, acompanhando o Rio Minho. Ao longo do percurso, as deslumbrantes paisagens minhotas (no final, qual será a mais bonita ecopista?), aldeias, capelas, miradouros, florestas e grandes vinhedos de Alvarinho. Inaugurada em 2004, a ecopista do Minho foi eleita a terceira melhor Via Verde da Europa.

Paisagens deslumbrantes ao explorar Portugal
Foto: Marcos Freire

Do campo para a praia, a ecopista de Famalicão une o interior ao litoral, mais especificamente Póvoa de Varzim, também no norte de Portugal. Como as outras, a pista segue o caminho dos antigos trilhos que ligavam as duas cidades, inaugurados no final dos anos 1800 e desativados em 1995.

São cerca de 28km entre áreas rurais e florestas, em percurso relativamente plano. Mas para quem realmente não quer fazer muita força, o sentido interior-litoral é mais tranquilo.

O percurso em Amarante é imperdível

Indo um pouco mais à direita no mapa de Portugal, outra ecovia que aparece é a do Tamega, que liga a linda cidade de Amarante, banhada justamente pelo rio Tamega, a Cabeceiras de Basto. Ainda passa pelo município de Celorico de Basto, num total de aproximadamente 40km. O ramal desativado em 1990 é deslumbrante. Muitas pontes, túneis, aldeias, antigas estações reformadas, equipamento da antiga infraestrutura ferroviária recuperado. E, claro, o visual maravilhoso de toda a região do Tamega.

Do Tamega para o Douro, outra ecopista gostosa até no nome: ecopista do Sabor, em pleno Alto Douro Vinhateiro, num percurso ainda não totalmente finalizado, mas que permite um pedal de mais de 30km. A antiga Linha do Sabor, inaugurada nos anos 1930 e desativada no final da década de 1980, tem mais de 100km, de Pocinho até Miranda do Douro e já está “pedalável” em um trecho inicial até Torre de Moncorvo.

Ciclovias alentejanas

Uma opção mais curta é a ecopista do Montado, na cidade de Montemor-o-Novo, distrito de Évora, na região do Alentejo. São pouco mais de 12km a partir da antiga estação de Montemor-o-Novo até a estação de Torre de Gadanha, no mesmo município. Pelo caminho, a ponte sobre o rio Almansor, mirantes e as antigas construções também tornam o passeio muito bonito. O trecho original da via férrea esteve em operação de 1909 a 1988 e foi transformado em ecopista em 2009.

Ainda na mesma região, a ecopista de Mora parte de Évora com destino a Mora, também ocupando o antigo ramal ferroviário que unia as duas cidades, com aproximadamente 60km de extensão (ainda há pequenas interrupções ao longo do trajeto), o que fará dela a maior do país. Sair de Évora já é uma atração. A cidade é realmente encantadora e o que não falta são lugares para conhecer e delícias conventuais para experimentar antes de encarar a pedalada.

andar de bike pelo interior do Pais
Foto: Marcos Freire

O percurso ainda passa pelo Solar da Sempre Noiva, considerado um dos Monumentos Nacionais desde 1910, próximo de Arraiolos, a cidade conhecida pelos tapetes. A linha férrea foi inaugurada em 1908 e estava desativada desde 1990.

Por fim, já no distrito de Setúbal, mais perto de Lisboa, a curta ecopista de Montijo, no trecho da ferrovia desativado em 1989, vai da estação de Pinhal Novo, na cidade de Palmela, até o município vizinho de Montijo. Percorre cerca de 6km, de um total que deverá chegar a 10km. Originalmente, a linha era utilizada para transporte de carga, principalmente porcos, até a estação de Montijo.

Uma ótima maneira de conhecer toda a riqueza de Portugal

Ainda que todas essas ecopistas não sejam integradas, é uma deliciosa maneira de conhecer o país. E quando as bikes não puderem percorrer as ferrovias desativadas, façam como eu: embarque com a magrela nas linhas em operação e rode o país.

Dos trilhos, ou melhor, trilhas do interior, para a praia: o Turismo do Algarve lançou um novo Guia de Percursos Cicláveis, com mais de 20 roteiros turísticos circulares, para todos os níveis de ciclistas, percorrendo estradas e caminhos de terra.

As trilhas passam por 16 cidades da região e foram definidas levando em conta os pontos de interesse turístico e a dificuldade técnica.

A tradição da menor corrida de ciclismo em Portugal

Mas quem não quer pedaladas tão longas e prefere a emoção de uma competição, pode participar da “mais pequena corrida de ciclismo do mundo”. Talvez seja mais fácil pedalar mil quilômetros. Mas vale pelo menos para conhecer uma das mais tradicionais provas de ciclismo de Portugal, que em 2020 acabou sendo cancelado por causa da pandemia.

São só 265 metros de distância. Moleza, não? Ó, pá! Na verdade, haja panturrilha e quadríceps para encarar esses metrinhos. A Subida à Glória é uma rua íngreme, a Calçada da Glória, que a liga a Baixa de Lisboa (Praça dos Restauradores) ao Bairro Alto (Jardim de São Pedro de Alcântara). Normalmente, esse trajeto é feito por um pequeno bonde que corre sobre trilhos. Ou também a pé, o que já é bem cansativo.

A corrida recupera uma tradição centenária das provas de rua em Lisboa. Disputada desde 1910, e oficializada em 1913, a “Subida à Glória” não sofreu alterações de percurso e é um grande desafio com sua inclinação vertiginosa. Depois de um longo intervalo em que a prova não foi realizada, a pequena grande corrida voltou a desafiar os ciclistas amadores e profissionais recentemente.

Como funciona a prova?

Todas as subidas são cronometradas e os quatro melhores tempos, masculinos e femininos, disputam as semifinais e a finalíssima para descobrir quem é o “Torpedo da Glória”. Na primeira edição oficial, que aconteceu em 1913, a melhor marca masculina foi de 1 minuto e 5 segundos. Mais de cem anos depois, o recorde baixou para pouco mais de 35 segundos. Entre as ciclistas, o recorde é de cerca de 1 minuto.

Os profissionais sobem quase que sem sentar no selim. Vão empurrando com força o pedal e seguem firmes. Mas há aqueles que se aventuram com bicicletas bem simples, aro 16 ou 20, dobráveis, movidos basicamente pela energia da torcida que fica atrás do gradil montado ao longo da subida. Uns param no meio do caminho de curvas, chão de pedras e ainda os trilhos de ferro do bondinho que sobe sem grande esforço.

A “Subida à Glória” marca o início da Comemoração da Semana Europeia do Desporto, iniciativa promovida pela Comissão Europeia com o Instituto Português do Desporto e Juventude. Ainda não há data para a realização do desafio em 2021. Eu nunca treinei para isso e acho que não chegaria ao final da prova. Mas há uma alternativa para aqueles “atletas” como eu: a prova também premia os competidores mais originais, independentemente do tempo gasto.

Meio de transporte fundamental no dia a dia do país

Mas o que dizer das bicicletas como meio de transporte do dia a dia em Portugal, e não apenas como competição ou cicloturismo? Há muita coisa acontecendo por aqui. O país aprovou recentemente a sua Estratégia Nacional para a Mobilidade Ativa Ciclável 2020-2030, proposta para fazer frente aos grandes desafios de sustentabilidade da próxima década. E a bicicleta tem um papel de destaque neste compromisso.

São mais de 50 medidas para promover o uso da bicicleta, incluindo um grande investimento na construção de ciclovias e em ações que promovam a mudança de hábitos dos portugueses. Portugal pedala para frente (metafórica e literalmente) e trata o assunto com a seriedade que merece. As ações governamentais se apoiam em três grandes frentes: a promoção do transporte público, a eletrificação dos veículos e a transferência de utilizadores para modos de deslocação mais sustentáveis e ativos, como a bicicleta.

O documento apresentado foi direto: “a utilização da bicicleta contribui para a maioria dos objetivos de desenvolvimento sustentável definidos pela Organização das Nações Unidas, e a sua promoção deve ser encarada de forma objetiva, sistematizada, transversal e ambiciosa”.

Próximos passos para Portugal se tornar o país da bicicleta

Em termos práticos, Portugal deverá ter 10 mil quilômetros de ciclovias até 2030, além de criar incentivos para fazer com que as bicicletas respondam por 7,5% de todas as deslocações no país. Este é o valor atual da média europeia e está muito acima da realidade atual de Portugal.

Para as cidades, a meta é ainda mais ambiciosa: as bicicletas devem, nos centros urbanos, ser o meio de transporte escolhido em 10% de todas as viagens. E não são apenas os trajetos do dia a dia que irão se beneficiar: um dos pilares importante da nova estratégia é o turismo de bicicleta.

explorar Portugal de bicicleta
Foto: Marcos Freire

Estudo apresentado pelo Parlamento Europeu em 2012 apontou que as viagens nas magrelas geraram 20 milhões de estadias, com um impacto econômico de 44 milhões de euros ao ano na União Europeia. Ou seja, se o apelo ambiental não sensibiliza todos, o dinheiro no bolso com certeza faz a roda girar.

A Federação Europeia de Ciclistas (ECF), em parceria com a indústria e entidades setoriais, apresentou uma série de recomendações e dados para a elaboração da proposta que incrementa o uso da bicicleta em 50% até 2030, reduzindo pela metade os acidentes fatais e graves e ampliando o investimento europeu para 3 bilhões de euros (2021/2027) e 6 bilhões de euros (2028/2034).

Economia e desenvolvimento em duas rodas

Hoje, a indústria e os serviços em torno da bicicleta já geram cerca de 650 mil postos de trabalho na Europa. Em todas as estatísticas, já se consideram também as bicicletas com assistência elétrica, que devem superar os 60 milhões de unidades em 2030.

Curiosamente, Portugal, apesar de não estar entre os maiores usuários das bicicletas, é o principal fabricante da União Europeia. Infelizmente, é algo tipo “aqui se faz, mas aqui não se usa”. Ou seja, a maior parte da produção é exportada. O país assumiu a liderança em 2019, fabricando 2,7 milhões de bicicletas e deixando para trás a Itália, com os seus 2,1 milhões de unidades fabricadas anualmente.

Em terceiro no ranking veio a Alemanha (1,5 milhão), seguido pela Polônia (900 mil) na quarta posição. Ao todo, a União Europeia produziu pouco mais de 11 milhões de bikes. Em 2020, os dados de exportação, por exemplo, mostram a manutenção desta tendência: o crescimento em valor foi 5% superior ao ano anterior, atingindo 424 milhões de euros.

Mercado consolidado na exportação de bicicleta em Portugal

Portugal tem praticamente consolidado um mercado de mais de 50 países para onde tem enviado as magrelas portuguesas ao longo das duas últimas décadas. Há uma lista de cerca de 30 deles que compram sem interrupções neste período.

Essa regularidade ajuda a explicar o salto nos montantes exportados: de pouco mais de 50 milhões de euros em 2000 para os mais de 400 milhões antes da pandemia. O Brasil é um importante comprador, mas não de forma constante neste período de 20 anos.

O desafio português de subir no ranking de usuários de bicicletas

Mas para mudar a posição de Portugal no ranking dos usuários, e não dos fabricantes, realmente ainda há muito o quer fazer. E um outro ranking recente dá sinais de que é possível ter mesmo um país movido pelo pedal: em Murtosa, cidade vizinha de Ovar, a bicicleta responde por quase 17% de todos os deslocamentos feitos pela cidade para ir ao trabalho ou escola, o maior índice de Portugal (lembram que o índice nacional fica em torno de 1%?).

O número faz parte do primeiro Bike Friendly Index (BFI), uma grande radiografia nacional, preparado a partir de 12 critérios em cinco dimensões, entre elas: a topografia, a infraestrutura e os projetos/investimentos do poder público. Murtosa tem a topografia a seu favor, pois é uma cidade plana como Ovar.

Mulheres são as maiores usuárias de bicicleta em Portugal
Foto: Marcos Freire

Na segunda posição aparece Lisboa, mesmo as bikes correspondendo por menos de 0,5% dos deslocamentos na cidade. A vice-liderança veio mais pela infraestrutura disponível (algumas dezenas de quilômetros de ciclovias) e o grande investimento em projetos de mobilidade. Ou seja, o índice aponta se a cidade está preparada para as bicicletas e os ciclistas, mesmo que as pedaladas não ocupem um lugar de destaque na matriz de todas as modalidades de transporte disponíveis.

Homens são a maioria dos usuários de bicicleta em Portugal

O estudo também identificou uma importante diferença: as mulheres são as principais usuárias de bike em Murtosa (53%), enquanto são minoria em Lisboa (18%). Já na média nacional, há muito mais homens (85%) sobre os selins do que mulheres (15%). Esse resultado, na avaliação do estudo, vem da preocupação com a segurança. Ou, neste caso, a falta dela. Diante destes dados, Murtosa é realmente uma grande exceção.

Cidades bike-friendly em Portugal

Quando falamos de deslocamentos urbanos em bicicletas, Murtosa também continua sendo uma grande exceção. Mas, pode não ser tão justo comparar uma cidade com pouco mais de 10 mil habitantes (2011) e distâncias pequenas com uma metrópole como Lisboa.

Para evitar essas distorções, o BFI também fez o ranking apenas das maiores cidades. Quando analisadas as capitais de distrito (algo como os nossos estados), Lisboa aparece em primeiro lugar, seguida por Porto e Aveiro, praticamente empatados na segunda posição. Aveiro, aliás, é o distrito ao qual pertence a cidade de Murtosa.

Os municípios de Aveiro, Porto e Lisboa, vale dizer, tem feito grandes investimentos em mobilidade e tecnologia. A liderança, portanto, não vem por acaso e não é apenas uma questão de ser uma cidade plana (alguém acha que Porto e Lisboa tem topografia favorável para as pedaladas?).

Índice global avalia cidades bike-friendly

O ranking português segue o modelo do Copenhagenize Index: o índice global realizado a cada dois anos, desde 2011, e que aponta as cidades mais amigas da bicicleta em todo o mundo. Os dados de 2019 colocam Copenhague no topo da lista, posição que vem mantendo nos últimos anos, assim que ultrapassou Amsterdam, em 2015, que ainda mantém a segunda posição, seguida por Utrecht, também na Holanda.

A diferença nos indicadores de uso de bicicletas em relação às grandes cidades portuguesas, como Lisboa e Porto, ambas com menos de 0,5% é abismal: na capital dinamarquesa, mais de 60% de todos os trajetos para a escola ou trabalho são percorridos de bicicleta. Os dinamarqueses pedalam quase 1,5 milhão de quilômetros todos os dias. Mesmo Murtosa ainda precisa pedalar muito para atingir esses impressionantes dados globais.

Ah, e Ovar? Não poderia deixar de falar da minha cidade, que está acima da média nacional portuguesa em todas as cinco dimensões do BFI, com a pontuação 9 (no máximo de 10) na que avalia a topografia (declives/aclives), por exemplo. Ou seja, pedalar por aqui é uma “baba” mesmo.

E aí, vamos pedalar?