Inegável dizer que alguns hábitos italianos já fazem parte da minha rotina. O país que me acolheu me mudou um pouco, isso é fato.

No começo de 2024, voltei ao Brasil após longos sete anos morando na Itália e sem voltar para o meu país. Passei 45 dias na minha cidade, entre um abraço dos parentes e amigos, volta à minha universidade e cotidiano em São Paulo, pude vivenciar algumas situações que faltavam no meu dia a dia no país europeu.

Por isso, decidi reunir aqui algumas situações em que me sinto “mais italiana” do que brasileira.

Hábitos italianos e comida

Morar na Itália e não falar de comida é quase impossível. Ainda mais de pizza! Então começamos por ela:

Pizza sem talheres

Nada mais gostoso do que comer um pedaço de pizza com a mão, sem o auxílio de garfo e faca – até mesmo em pizzaria!

Com isso, não quero dizer que todo mundo come com as mãos, mas sim que esse costume, tão frequente na Itália, ainda não é muito comum em São Paulo. Confesso que a pizza com a mão tem um gostinho a mais!

Precisa de guardanapo?

Falando em comida italiana, acho que outra coisa que deixei de fazer é usar guardanapos para comer. Eu lavo a mão antes das refeições, mas preciso comer uma coxinha ou um arancino com a mão mesmo. E se sujar a mão, é só lavar.

Feijão e salada no mesmo prato: jamais

Ver a alface murchar porque encostou no caldinho do feijão… Que cena triste! É verdade que misturar arroz, feijão e carne no mesmo prato não faz parte dos hábitos italianos, mas feijão e salada nunca estarão no mesmo prato por lá. E nisso fico do lado dos italianos!

WhatsApp para resolver tudo: na Itália não

É, sem dúvidas, um app útil, mas o uso não é igual na Itália. Fui marcar cabeleireiro em São Paulo e simplesmente não existia a opção de falar com um atendente. Tinha de ser tudo através das opções que plataforma disponibilizava.

Porque acho ruim: prefiro usar meu número pessoal para me comunicar com pessoas que conheço ou trabalho.

O aplicativo é muito presente na vida dos brasileiros mesmo. Segundo dados oficiais, o mercado brasileiro é o segundo maior do mundo, com quase 140 milhões de contas ativas, enquanto na Itália, esse número cai para cerca de 38 milhões de usuários. Então, o Whatsapp vira uma ótima ferramenta de comunicação.

enviar mensagem pelo whatsapp
O Whatsapp não é tão popular na Itália e muitas burocracias ainda são resolvidas “à moda antiga”.

Acredito que nesse ponto, a Itália esteja menos atualizada. Aconteceu de, em pleno 2022, eu ter que enviar um fax para resolver uma burocracia italiana, que não é pouca (inclusive, em dezembro de 2023, o aparelho foi o protagonista de uma polêmica envolvendo a política italiana). Esse, com certeza, não está na lista dos costumes italianos do meu dia a dia!

O clássico lixinho do banheiro

O hábito de jogar o papel no vaso sanitário pegou em mim. Nos primeiros dias da minha viagem para o Brasil, corri o risco de alagar muitos lugares por São Paulo! Brincadeiras a parte, é um gesto tão cotidiano que é também automático, você faz sem pensar.

O lado bom é que os velhos costumes não falham a voltar! Então, logo me reacostumei. Mas claro, do ponto de vista da higiene, a lista dos hábitos italianos ganhou um pontinho.

O frio é relativo

O clima “esfriou” em janeiro, enquanto eu estava em São Paulo, e no metrô vi cada casaco pesado, que até deu calor! O corpo acostuma com as temperaturas de onde vivemos, então para mim, 17 °C não é frio!

Realmente, o inverno na Itália não é o mais rigoroso da Europa. Claro, às vezes a temperatura cai muito, mas nada difícil de se acostumar (infelizmente o aquecimento global está aí).

Atendimento e cordialidade

Tinha esquecido como agradecemos e temos medo de incomodar! Nos restaurantes, principalmente, as pessoas e funcionários, de forma geral, pedem muitas vezes licença, agradecem mais de uma vez.

Cordialidade, sim (coisa que falta nos italianos que trabalham em atendimento), mas acho que não precisa de tanto agradecimento.

Cumprimentar desconhecidos com beijinho

Essa também é um grande clássico dos choques culturais. Eu nunca fui uma pessoa de abraçar e beijar os amigos, então desse ponto de vista, eu continuei “fechada”. Realmente, não tem porque tem contato próximo com quem você não conhece muito. Nesse quesito, também fico com os italianos.

Sair de chinelo de dedo na rua

Fui à feira de havaianas e fiquei pensando na última vez em que eu tinha caminhado na rua de chinelo na Itália. Fazia muito tempo! Nem na praia. E percebi que, realmente, não faz sentido sair na rua de chinelo: o pé fica sujo. Dou razão aos italianos!

Marquinha de biquíni

Entre os costumes italianos que encarnei, está o “medo da marquinha”. A moda das marquinhas de biquíni não pegou na Itália, e confesso não ser muito fã também. Inclusive, por muitos anos usei só usei o biquíni tomara-que-caia.

Passei alguns dias na praia, no Brasil, e tentei ao máximo fugir delas!

Sair só de batom?

Acredito que no quesito cuidados pessoais, as brasileiras e as italianas dedicam muito e igual tempo.

Muitas mulheres, no Brasil, saem só de batom – e fica lindo (nelas). Eu não consigo, e acho que se for para sair de maquiagem, precisa passar no rosto inteiro e não só em uma parte dele. Ou é melhor sair sem (o que faço, na maior parte dos casos).

Porém, acredito que o Brasil é muito mais relaxado com a aparência e com a forma física. De forma geral, apesar de existir um padrão de beleza muito forte, nosso país dá mais liberdade aos corpos. Apesar de eu, pessoalmente, não conseguir, acho bom que seja algo democrático.

E aí, mais italiana ou brasileira?

Brasileira, sem dúvidas! Apesar de tudo, minha identidade não mudou. Alguns costumes, como contei aqui, mudaram ou foram influenciados pela cultura italiana – não podia ser diferente. Mas, no fundo, o que fica é quem sou de verdade, a minha essência.

Eu gosto de reconhecer o lado bom em ambas culturas e adotá-las em minha vida, no meu dia a dia. É mais ou menos como digo sempre: a perfeição está no meio!

*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do site Euro Dicas.