Atraídos pela qualidade de vida, a segurança, as oportunidades de trabalho e estudo, milhares de brasileiros decidiram atravessar o Atlântico para morar na Itália nos últimos anos. Mas, um receio muito comum entre aqueles que pensam em realizar esse sonho é entender se o imigrante brasileiro é bem recebido na Itália.

Neste artigo, reunimos dados de estudos e a experiência de outros imigrantes para que você entenda como o país da bota recebe os brasileiros, se existe preconceito e, finalmente, se é possível encontrar um novo lar no país.

Brasileiros são bem recebidos na Itália, mas também existem esteriótipos

São mais de 157 mil brasileiros vivendo legalmente na Itália, como aponta o último relatório Comunidades Brasileiras no Exterior do Itamaraty. Dessa maneira, a Itália ocupa o quinto lugar no ranking de países com as maiores comunidades brasileiras na Europa.

É de se esperar que em uma comunidade tão extensa e em constante crescimento, existam experiências e opiniões diferentes sobre o modo como a Itália recebe os estrangeiros e, sobretudo, os brasileiros, que representam cerca de 3% dos mais de 5 milhões de imigrantes no país.

Após anos morando no país, posso dizer que, de uma forma geral, o imigrante brasileiro é bem recebido na Itália. Eu, Giovanna, considero que a minha experiência no país foi positiva, já que fui muito bem recebida por italianos e também por outros estrangeiros — e explico o porquê.

No geral, a reação mais comum dos italianos quando encontram um imigrante brasileiro, seja no trabalho, na universidade ou em outro ambiente, é positiva, pois na Itália existe um imaginário do Brasil como um país alegre, feliz e alto astral.

Assim, os comentários que mais recebi ao longo dos anos quando revelava a minha nacionalidade eram “Brasileira? Gosto muito do Brasil, é um país muito lindo!”. Muitas pessoas também reagiam com entusiasmo e demonstravam curiosidade em relação à cultura brasileira, à língua ou a outros aspectos do país.

Mas, mesmo com esse imaginário positivo, também já ouvi alguns comentários baseados em estereótipos sobre o Brasil. Perdi as contas, por exemplo, de quantas vezes ouvi que eu não parecia brasileira porque tinha a pele branca, demonstrando a existência de um problema de falta de informação sobre o povo brasileiro e a nossa identidade.

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Os desafios do imigrante brasileiro

Enquanto brasileira, o mais desafiador para mim nos últimos anos não foi a xenofobia diretamente, mas a necessidade de me impor em determinados momentos, principalmente quando questionada exclusivamente pela minha nacionalidade.

Quando buscava um novo apartamento para alugar em 2023, por exemplo, a proprietária me perguntou: “mas, tem certeza de que você pode pagar o valor do aluguel?”. Mesmo tendo apresentado comprovante de renda, recebi essa pergunta após ter revelado que era brasileira.

Até mesmo a questão da cidadania italiana já gerou questionamentos: já tive a minha “italianidade” questionada várias vezes, mesmo apresentando documentos italianos e possuindo os mesmos direitos que qualquer italiano que vive no país.

Ainda quando estava alugando um novo apartamento, precisei responder perguntas como: “você tem cidadania italiana mesmo ou só o passaporte?” ou “tem certeza de que eu posso fazer um contrato como se você fosse italiana?”.

Mesmo com os diversos fluxos imigratórios de italianos para diferentes países ao longo da história, a falta de conhecimento da própria história de parcela da população é perceptível e ainda existe ignorância quanto à situação de um estrangeiro que também possui a dupla cidadania.

A recepção é positiva, mas existem diferenças regionais

Como dissemos, o imigrante brasileiro é bem recebido na Itália. Mas, a receptividade pode variar muito de acordo com uma série de fatores, principalmente a região do país em que você se encontra.

A Itália é um país marcado por significativas diferenças regionais, principalmente entre o norte e o sul do país, que influenciam também o modo de receber o estrangeiro.

Há anos, ocorre um importante movimento de brasileiros em direção às regiões do Vêneto e do Friuli Venezia Giulia e à província de Trento, no norte da Itália. Essas são, porém, as regiões consideradas tradicionalmente mais conversadoras e preconceituosas.

Porém, preciso ressaltar que isso é uma tendência, mas não uma regra. Eu, por exemplo, moro no norte da Itália há anos e nunca sofri nenhum tipo de preconceito por ser estrangeira e o mesmo é válido para os brasileiros que conheço e que também vivem aqui.

Pessoas aglomeradas em Roma.
Os imigrantes brasileiros são bem acolhidos em Roma, capital da Itália e uma cidade cosmopolita.

Além disso, outro fator importante que influencia a recepção que um brasileiro pode encontrar é a cidade em que se mora no país. As cidades menores e no interior tendem a ser mais conservadoras, pois não estão acostumadas a receber muitos imigrantes.

Já os moradores dos grandes centros urbanos e capitais, como Roma, Turim, Milão e Bolonha, vivem em um ambiente cosmopolita e internacional e, por isso, possuem a mente mais aberta e estão acostumados a lidar com imigrantes de diferentes países.

Além disso, as cidades universitárias também tendem a receber bem os estrangeiros. Pádua, onde moro, possui quase 7 mil estudantes internacionais, o que faz com que os italianos que vivem na cidade estejam acostumados a conviver com pessoas de fora, incluindo os brasileiros.

Existe xenofobia na Itália?

Caso você esteja se perguntando: sim, existe xenofobia na Itália.

Um brasileiro (ou estrangeiro de qualquer outra nacionalidade) que vier para a Itália como turista dificilmente irá sofrer preconceito. Mas, para os estrangeiros que imigraram e residem fixamente no país, a situação é diferente.

Na Itália, é muito comum observar a associação do estrangeiro à criminalidade, uma imagem que, embora não seja verdadeira, é propagada em larga escala no país, principalmente pelos políticos de extrema-direita.

As campanhas políticas que antecederam a ascensão ao poder de Giorgia Meloni, do partido Fratelli d’Italia, também contribuíram para a expansão da xenofobia e do racismo na opinião pública. O discurso é evidente em uma afirmação polêmica do ministro da Agricultura italiano, indicado por Meloni:

“Os italianos estão tendo menos filhos, estão sendo substituídos por outras pessoas. Devemos apoiar mais nascimentos, não a substituição étnica” disse Francesco Lollobrigida, em abril de 2023.

As afirmações intolerantes geram consequências diretas na sociedade italiana. Um estudo mostra, por exemplo, que um a cada três italianos afirma que a discriminação contra estrangeiros pode ser justificada em alguns casos. Além disso, mais da metade dos italianos (53%) afirma que existem estrangeiros em excesso no país, mesmo que os imigrantes representem somente 8% da população.

“Com base na minha experiência, eu diria que a xenofobia pode afetar o cotidiano dos brasileiros não diretamente com agressões físicas ou verbais, mas principalmente dentro do mercado de trabalho, já que alguns empregadores preferem contratar italianos e não estrangeiros, por possuírem algum tipo de preconceito e intolerância”.

Porém, não se pode dizer que a xenofobia é um fenômeno generalizado no país: ainda segundo o Editoriale Domani, os italianos não são, em sua maioria, preconceituosos, principalmente no sul do país e entre os jovens.

A recepção não é a mesma para todos os estrangeiros

A xenofobia de parte dos italianos está diretamente relacionada à cor da pele: muitas vezes, o tom de pele é diretamente associado à “ser ou não ser estrangeiro”.

Enquanto mulher branca que fala bem italiano, posso dizer que estou muito menos sujeita à xenofobia ou, ao menos, a um tipo diferente de preconceito do que uma mulher negra que tenha acabado de se mudar para a Itália, por exemplo. Além da nacionalidade, existe o preconceito étnico, sem dúvidas.

Enquanto podemos dizer que o imigrante brasileiro é bem recebido na Itália, a recepção pode ser muito diferente para estrangeiros de outras nacionalidades. Alguns estrangeiros podem sofrer mais preconceito do que outros, como os africanos ou árabes. Para esses imigrantes, pode ser mais difícil conseguir uma oportunidade de emprego ou alugar uma casa na Itália, por exemplo, devido à xenofobia.

Mas, também não é regra: conversando com a minha amiga do Irã, ela me contou que nunca sofreu nenhum tipo de preconceito e que conseguiu um bom emprego em poucas semanas após chegar à Itália.

O estereótipo da mulher brasileira no exterior

Se a xenofobia não é um fenômeno que afeta os imigrantes brasileiros na Itália com frequência, como mencionamos, não podemos dizer o mesmo do estereótipo de gênero.

Sempre que preciso dizer que sou brasileira, me preparo para ouvir comentários machistas e perceber uma instantânea mudança de comportamento no meu interlocutor. Infelizmente, o preconceito contra a mulher brasileira é muito mais frequente do que a xenofobia com os brasileiros em geral.

A imagem distorcida que muitos italianos têm da mulher brasileira é fruto, principalmente, de propagandas promovidas pelo Governo brasileiro nos anos 60. O objetivo das campanhas era atrair turistas estrangeiros com imagens de mulheres estereotipadas e com slogans de duplo sentido.

Essa visão distorcida persiste até hoje

E é difícil encontrar uma brasileira na Itália que não tenha ouvido comentários preconceituosos por ser mulher e brasileira no país. Estar sujeito a esse preconceito “duplo” é, muitas vezes, cansativo, mas me ensinou a me impor quando necessário. E, é claro, a melhorar ainda mais a minha proficiência da língua italiana.

Para ouvir outra opinião sobre como é ser uma imigrante brasileira na Itália, assista o vídeo da Verinha Simões, em que ela conta um pouco sobre a própria experiência no país.

A recepção de imigrantes brasileiros qualificados e não qualificados

Na Itália, o imigrante não-europeu é frequentemente considerado “menos qualificado” e “menos competente”. Essa imagem pejorativa pode ser acompanhada de preconceito, direcionado aos brasileiros que trabalham nas áreas consideradas “subempregos”.

Dessa forma, o italiano parece ter uma confirmação de uma xenofobia preexistente ao encontrar um imigrante não qualificado, principalmente porque a Itália é um dos países que menos concede autorizações de trabalho para os estrangeiros qualificados, contribuindo para a construção imagem pejorativa dos imigrantes sem qualificação na opinião pública.

Mas, a recepção de trabalhadores estrangeiros na Itália não é homogênea e a situação pode ser oposta para os brasileiros qualificados, propensos a uma recepção calorosa por parte dos italianos.

Pessoas na Universidade de Pádua, Itália
No ambiente universitário, a recepção de imigrantes brasileiros qualificados é muito positiva. Foto: Giovanna Mauro.

A impressão que tenho é que os italianos deixam, até mesmo, de te enxergar como “estrangeiro” quando você está trabalhando em uma área qualificada e demonstrando as suas competências: é como se o possível receio preconceituoso que poderia existir no começo “desaparecesse”.

Além da minha experiência pessoal, conheço brasileiros que trabalham como pesquisadores e professores na Universidade de Pádua, por exemplo, que relatam a mesma experiência positiva.

Também concluímos que, nos ambientes mais qualificados de trabalho e estudo, estão os italianos de mente mais aberta, que tendem a receber os imigrantes com grande entusiasmo. Eles reconhecem a importância dos estrangeiros não somente para a economia da Itália, mas também para compor um rico panorama diverso e de perspectivas múltiplas.

O domínio da língua italiana faz toda diferença

Desde que me mudei para a Itália em 2020, percebi que, além da qualificação profissional, o domínio da língua italiana é um fator decisivo para a integração no país: o imigrante que consegue se comunicar em italiano é recebido com entusiasmo no país.

Eu já tinha a proficiência na língua antes de morar na Itália. Isso não me impediu de viver algumas situações chatas no país enquanto imigrante, mas foi um aspecto fundamental para que eu pudesse me integrar na sociedade italiana e conseguisse, pouco a pouco, construir um lar no país.

Dá para se sentir em casa na Itália?

Sim. Apesar das dificuldades da imigração, é perfeitamente possível se sentir em casa na Itália.

Fazendo um balanço geral da minha experiência, devo dizer que o preconceito e a ignorância não são predominantes: ao longo dos anos, conheci mais italianos que me receberam bem do que outros que agiram preconceituosamente.

É claro que nós, imigrantes brasileiros, nos sentimos abalados após viver qualquer tipo de preconceito devido à nacionalidade. Mas, as situações desagradáveis foram mínimas em comparação a forma positiva como a Itália, os italianos e outros estrangeiros me receberam desde que cheguei.

Após anos no país, posso dizer que construí o meu segundo lar aqui e não me arrependo minimamente da minha decisão de morar na terra da pizza.

Estudantes em Arquà Petrarca, Itália
Na Itália, encontrei uma recepção calorosa e fiz melhores amigos. Foto: Giovanna Mauro

As proximidades culturais entre Brasil e Itália também facilitam o acolhimento de brasileiros no país. A gastronomia, o jeito expansivo, a paixão pela música são algumas das coisas que nos aproximam dos italianos. Existem diferenças culturais, como o fato de os italianos serem mais reservados, mas eu diria que as proximidades são mais abundantes e colaboram com o processo de integração.

Além disso, existem inúmeras comunidades brasileiras em cidades italianas de norte a sul, o que é muito positivo, principalmente nos primeiros meses no país. Afinal, sabemos como é ótimo ouvir uma língua familiar ou encontrar pessoas com os mesmos costumes no exterior, não é?

Mesmo com possíveis desafios, principalmente a necessidade de se impor enquanto estrangeiro em determinados momentos e as possíveis dificuldades da integração, o imigrante brasileiro é bem recebido na Itália, principalmente quando fala domina o idioma.

Se tem vontade de viver essa experiência, recomendo a leitura do e-book “O Sonho de Viver na Europa”, que reúne a história e experiência de outros brasileiros espalhados pelo continente. Vale a pena conferir!