Não vou negar: dediquei algumas sessões de terapia para tentar me preparar psicologicamente para a minha primeira visita ao Brasil depois de dois anos e meio morando na Itália. Spoiler: eu não estava preparada para visitar o Brasil — nem para as coisas ruins, tampouco para as maravilhosas.

O frio na barriga que antecede a viagem

Não é exclusividade minha… todo mundo que mora fora e vai para o Brasil pela primeira vez, sobretudo se já faz algum tempo que se mudou e ainda não teve a oportunidade de visitar o país, relata a mesma coisa: é uma miscelânea de emoções com uma salada mista de sensações conflituosas e o prato de entrada é um tira gosto de crises de ansiedade para digerir.

Ao mesmo tempo que você está feliz porque vai rever as pessoas que mais ama nesse mundo todinho, já começa a sentir uma angústia só de pensar em como vai fazer para encontrar todo mundo que você quer ver. E ainda conseguir administrar a agenda apertada que precisa encaixar consultas médicas, exames e mais um monte de compromissos burocráticos.

Embarcando de volta para casa?

Mesmo voando em direção à minha terra natal e, em tese, “voltando para casa”, a sensação era a de estar indo para um território completamente desconhecido. Eu ficava tentando imaginar como ia ser, como eu ia me sentir, mas eu não tinha a mais vaga ideia do que me esperava.

“O que me consolava era que, apesar de o meu desembarque no Rio de Janeiro ser de madrugada — um horário para lá de inconveniente —, meu primo estaria me esperando para me receber e dar aquele primeiro abraço que me faria sentir de volta a um lugar familiar”.

Ter um rosto amigo para te receber pelos aeroportos do mundo é um dos maiores privilégios que eu conheço. Uma espécie de afeto vip que companhia aérea nenhuma consegue proporcionar nem mesmo para quem viaja de primeira classe. Um luxo para poucos!

E por falar em privilégios…

Uma das coisas mais interessantes que descobri nessa minha ida ao Brasil é que quando a gente vira “visita”, algumas vantagens vêm de brinde nesse combo. Explico:

Se por um lado a vida de imigrante é permeada por momentos dolorosos de profunda saudade, longos períodos de solidão, limitações das mais variadas formas, cores e sabores e toda sorte de privações; quando a gente volta para casa e tem a sorte de ter uma família amorosa ou um círculo de amigos que entende (ou pelo menos imagina) as coisas que precisamos abrir mão para viver no exterior, eles fazem de tudo para tornar aquele curto período que estamos no Brasil o mais proveitoso possível.

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Isso inclui passar o máximo de tempo de qualidade juntos, fazendo coisas que antes, quando vivíamos perto, não fazíamos ou não nos esforçaríamos tanto assim para fazer porque sempre pensávamos que poderíamos deixar para depois. E agora, com a distância, tudo fica urgente. Tudo é para ontem. Inadiável. Porque a gente sabe que aproveitar o agora é o nosso maior compromisso.

Os mimos da família nos fazem transbordar de amor

Vi meus pais e minha irmã adiando compromissos num dia de semana para aproveitar um dia de sol comigo numa ilha que eu desejava voltar com eles desde criança. Vi todo mundo se movimentando para estar ali, junto, vivendo aquele momento que — só depois nos demos conta — não acontecia há décadas. E foi mágico. Um daqueles dias que vamos nos lembrar para sempre.

Em um mês tivemos mais refeições juntos do que teríamos, talvez, ao longo de um ano. Isso é o que chamo de tempo de qualidade.

Roberta Simoni com a família na praia.
Aproveitar cada momento com a família foi revigorante na minha passagem pelo Brasil. Foto: Roberta Simoni.

Papai, tão bonitinho, ia quase todos os dias à feira para comprar maracujás e preparar o meu suco preferido porque sabe que eu não tenho acesso a isso morando na Itália. E mamãe, a coisa mais linda do mundo, já me recebeu com meu prato favorito e, não satisfeita, quando me via manifestar um novo desejo, já tratava de preparar outra receita: milho cozido, cachorro-quente, canjica, purê de aipim, arroz-doce… foi o paraíso na terra.

Chorei escondida mais de uma vez após viver momentos assim. Um choro de profunda gratidão. Sabe quando você se sente inundado de amor e transborda? Então. Acho que era por isso que eu preferia transbordar quando estava sozinha. Não era um choro que carecia de consolo. Eu só queria agradecer. E eu agradeci muito a eles. Ao universo. À vida. E sigo profundamente grata.

Talvez eu esteja transbordando de novo agora, enquanto escrevo. Nesse caso, melhor continuar falando de comida, que me emociona, mas pelo menos não me faz chorar…

A Itália que me perdoe, mas nada supera a comida brasileira

Um dos desejos que eu estava guardando há meses era o de entrar num restaurante de comida a quilo e me esbaldar.

Colocar macarrão com feijão no mesmo prato, ovo de codorna, batata, banana, farofa. Tudo junto. Com todo respeito ao “primo e secondo piatto” das refeições italianas, com carboidratos, proteínas e vegetais balanceados, mas o PF (Prato Feito) é fundamental.

Eu não estava preparada para visitar o Brasil, mas a comida me emociona.
A comida brasileira tem os seus encantos e em boa companhia, fica melhor ainda. Foto: Roberta Simoni.

Seguindo na lista de desejos, vinha o pastel com caldo de cana de feira! Nessa missão, eu fui acompanhada do meu pai e do meu sobrinho, que se divertiram vendo minha alegria devorando um pastel enorme de carne com queijo, sem me importar com a gordura escorrendo pelo meu braço.

Papai ficou incrédulo quando contei que não tinha isso na Itália e voltamos para a casa rindo, dizendo que não dava para levar a sério um país que não tem pastel com caldo de cana.

Mas nem tudo são flores

Se por um lado eu estava aproveitando para gozar de tudo que eu não vejo aqui na Itália, logo o contraste das coisas ruins também não escaparam do meu radar:

Além da sujeira das ruas, do caos generalizado, do trânsito congestionado que eu já não precisava enfrentar há anos, o que mais me pegou (e doeu) foi ver cães e gatos abandonados nas ruas.

Ficar horas parada no trânsito da Ponte Rio-Niterói? Moleza. Voltar a andar com os vidros da janela do carro do Uber fechado com medo na hora de atravessar a Linha Vermelha e Amarela. De boa. Já é instintivo. Mesma coisa o celular. Foram mais de vinte anos vivendo no Rio.

Cachorro de rua deitado na calçada.
Voltar a ver cães abandonados nas ruas do Brasil, me cortou o coração. Foto: Roberta Simoni.

Parece que o corpo guarda memórias. Eu simplesmente não pegava o celular na rua como já fazia antes. Não foi nenhum choque. Mas voltar a ver animais abandonados, desnutridos e maltratados nas ruas, isso, sim, foi dilacerante porque, na verdade, eu nunca me conformei com essa realidade.

Viver num lugar onde há um controle maior e, consequentemente, não há tantos casos de animais em situação de abandono, traz um alívio para o meu coração, mas não significa que não continue acontecendo ao redor do mundo e ter de lidar com isso voltando para o Brasil foi doloroso.

E o que mais incomodou?

É engraçado… a gente pensa em tantas coisas nas vésperas de visitar o Brasil, mas não tem como imaginar quais serão as naturezas do incômodo da nossa nova versão, da pessoa que nos tornamos quando passamos a habitar um novo continente e nos adaptar com uma nova cultura.

Eu, por exemplo, me vi profundamente incomodada com a falta de coleta de lixo. Logo nos primeiros dias, quando estava na casa das pessoas, perguntava onde podia descartar o lixo reciclável, pela força do hábito. Só então me dava conta de que não havia essa cultura na maioria dos lugares e ficava me sentindo péssima de não fazer a separação do lixo como me acostumei a fazer desde que mudei para cá.

Não tinha o que fazer, porque mesmo que eu separasse, depois ia tudo para o mesmo lugar. Tive que fazer vista grossa, como tentei fazer para os cachorros de rua. Sem muito sucesso, diga-se de passagem.

Qual é o significado da faixa de pedestre no Brasil?

Mas os dois últimos dessa lista que, não por acaso, eu deixei para o final, foram os que, de longe, me saí pior:

O penúltimo foi tentar desviar (do meu medo) de barata. Não é que eu tenha nojo, eu tenho horror à barata! E pode até parecer frescura, mas considero uma dádiva estar vivendo num lugar há quase três anos e só ter visto uma barata uma única vez (e ela estava morta — detalhe importante).

Para mim, é um alívio saber que vou ao banheiro de madrugada e não vou dar de cara com aquele monstro. E, vale dizer, alívio é um sentimento que considero mais até do que amor.

Por último, mas não menos importante, meu maior impacto foi lembrar que as faixas de pedestre no Brasil são de mero enfeite. Inclusive, no passado, eu já fui atropelada bem em cima de uma delas.

Com meus hábitos italianos, eu fiquei (bem ou mal?) acostumada a pisar na faixa e os carros pararem quase que imediatamente para gente atravessar e, de repente… ué? Pifou?

Tiveram que me puxar mais de uma vez, porque eu simplesmente ia para faixa e já fazia o movimento automático de atravessar a rua. Os carros tiraram fino de mim algumas vezes até eu ficar esperta de novo e lembrar que eu estava no Brasil. E o Brasil, meus amigos, não é para amadores.

O Brasil não é para amadores, mas é lá que estão os meus amores

E é aí que mora o dilema…

Estar no Brasil por esses dias, apesar de ter sido uma grande maratona de médicos e exames, me renovou as energias pelos próximos meses.

E essa foi mais uma lição que aprendi: não dá para negligenciar a saúde como andei fazendo porque fica muita coisa acumulada para tratar durante a curta estadia no Brasil, enquanto o tempo poderia estar sendo aproveitado de forma mais lúdica e tranquila.

E não tem jeito: por mais que o sistema de saúde na Itália funcione razoavelmente bem, tem coisas que sempre vamos preferir fazer na nossa terrinha.

Nessa minha primeira visita ao Brasil, eu priorizei cuidar da minha saúde e passar o máximo de tempo com a minha família e acabei não conseguindo ir a vários lugares e encontrar com muitas pessoas queridas.

Roberta Simoni tomando um banho de mar.
É impossível não voltar para a Itália com o coração transbordando felicidade. Foto: Amaro Lima.

Mas a emoção que senti cada vez que reencontrei um amigo, que tive a chance de dar um abraço apertado em alguém que eu estava morrendo de saudade… cada momento desse, por mais que tenha sido bem mais breve do que eu gostaria, teve um valor imensurável.

Eu não me importo de ter que encarar horas de voo, fazer aquelas escalas desumanas, enfrentar aeroportos lotados e até baratas voadoras para estar com as pessoas que eu amo.

E é no Brasil que grande parte delas está. É lá que um pedaço enorme do meu coração continua batendo. E eu preciso voltar lá sempre que possível para me lembrar que estou viva e o quanto sou amada.