Ao emigrar, somos obrigados a deixar para trás muitas coisas, tanto materiais quanto simbólicas, para começar uma nova vida em um lugar diferente. Isso faz com que o imigrante enfrente múltiplos lutos ao mesmo tempo, como o luto da nossa versão que ficou no Brasil. Isso pode ser difícil de entender, pois se trata de um luto vivido enquanto ainda estamos em vida.

Despedida da nossa versão que ficou no Brasil
Índice Os tipos de lutos do imigrante Os lutos podem ser diferente para cada imigrante O luto nas crianças Como lidar com o luto?

E o luto é um sentimento que surge diante de perdas. Embora seja geralmente associado ao falecimento de alguma pessoa, também pode ocorrer de forma simbólica, envolvendo a ausência de objetos, lugares, pessoas que, embora ainda existam, não fazem mais parte do nosso dia a dia.

Os tipos de lutos do imigrante

O luto é uma resposta emocional natural diante de uma perda significativa, que pode causar reações físicas, emocionais e psicológicas, como tristeza, dor, saudade e mudanças no comportamento.

Esse processo de adaptação é essencial para lidar com a ausência e encontrar formas de seguir em frente, mantendo o equilíbrio emocional.

O luto simbólico, por outro lado, refere-se à perda de algo não material, mas com grande valor emocional, como a mudança para outro país. Durante a transição, o imigrante enfrenta várias perdas, sendo as mais comuns:

  • Luto pela família e entes queridos: mesmo que seja possível visitar ou manter contato, os familiares e amigos não farão mais parte do cotidiano e de muitos momentos especiais;
  • Luto pela língua: dependendo do país de destino, o imigrante precisa deixar sua língua materna para aprender a se expressar e se adaptar a um novo idioma;
  • Luto pela cultura: embora não abandone completamente sua cultura, o imigrante precisa aprender novos valores, costumes e regras para se integrar;
  • Luto pela terra: relaciona-se ao lugar onde cresceu, cada ambiente tem suas cores, cheiros, paisagens e clima que moldaram sua visão de mundo;
  • Luto pelo status social: envolve os papéis profissionais e oportunidades de carreira, pois redefinir a trajetória profissional pode ser um desafio significativo;
  • Luto pelo contato com o grupo de pertencimento: refere-se à identidade do imigrante e ao sentimento de pertencimento ou exclusão no novo ambiente;
  • Luto pelos riscos à integridade física: abrange casos de imigrantes que enfrentam maus-tratos, xenofobia, medo de deportação ou outras condições adversas em comparação com a vida no Brasil.

Essas perdas representam desafios profundos que o imigrante precisa superar para se adaptar ao novo contexto.

Os lutos podem ser diferente para cada imigrante

Todos os imigrantes passarão por algum tipo de luto, embora as formas e intensidades possam variar. Para alguns, lidar com certas perdas pode ser mais fácil, enquanto outras serão mais difíceis, dependendo de como a imigração acontece.

Por exemplo, quem emigra com a família pode não se sentir tão solitário, e quem se muda com uma oferta de trabalho pode não perceber tanta mudança no status social.

No entanto, toda mudança envolve deixar algo para trás para conquistar outra coisa. O imigrante precisa abandonar um estilo de vida familiar e seguro para perseguir seus sonhos e objetivos no exterior. Esse processo é natural, mas pode ser confuso.

A vida no exterior pode ser encantadora e cheia de descobertas, mas também exige lidar com o desconhecido e sair da zona de conforto com frequência. Cada pessoa reage de forma diferente às perdas, mas o luto é uma experiência inevitável, e aceitar isso é essencial para a adaptação.

O luto nas crianças

Para muitas crianças que migram, lidar com o luto pode ser ainda mais difícil do que para os adultos. Isso ocorre porque elas ainda estão em fase de desenvolvimento e podem ter mais dificuldade em entender e expressar suas emoções.

A forma como a família encara a mudança de país pode impactar profundamente a vida emocional da criança. Se a transição for repentina, a criança pode não ter tempo suficiente para assimilar e compreender o quão significativa é essa mudança.

E se você for receber a família na Europa, confira nossas dicas de como se preparar.

Preparando os filhos para a imigração

Muitas vezes, na tentativa de proteger os filhos, os pais evitam falar sobre as mudanças que estão por vir, o que pode deixar a criança despreparada e confusa. Isso pode resultar em sentimentos de frustração e tristeza, impedindo que o luto seja vivido de maneira adequada e saudável.

É importante ter cuidado também com o que se diz e revela para a criança, evitando assuntos que são exclusivos dos adultos e que possam gerar ansiedade ou preocupações desnecessárias.

O ideal é conversar com a criança de maneira equilibrada, fornecendo informações que a ajudem a se preparar e se sentir segura diante da mudança.

Acolher e abraçar a criança
Conversar e acolher as inseguranças da sua criança vai ajudar muito na mudança e na adaptação dela.

Dependendo da idade, é válido explicar como a mudança ocorrerá, usando uma abordagem adequada, até mesmo lúdica. Por exemplo, falar sobre a experiência de voar de avião, a nova casa e os novos amigos. E o mais importante é oferecer apoio quando surgirem sentimentos de tristeza e saudade.

A família toda passará por lutos juntos, e para tornar essa transição mais leve, é essencial fortalecer os laços e a conexão entre todos, já que, no novo país, terão apenas uns aos outros. Mesmo que surjam conversas difíceis, os pais devem estar dispostos a ouvir e aceitar que os filhos podem ter sentimentos confusos e desconfortáveis ao longo dessa jornada também.

Você sabe por que você quer mudar para o exterior? Confira o que já falei sobre o tema.

Como lidar com o luto?

Enfrentar o luto envolve lidar com emoções intensas e desconfortáveis, e o primeiro passo é permitir-se senti-las e aceitá-las. Sentimentos como raiva, medo e tristeza são normais e precisam ser acolhidos para que o imigrante possa, aos poucos, superar a dor e encontrar seu lugar no novo país.

Ao vivenciar essas emoções, o imigrante começa a aceitar suas perdas. Aceitar não significa esquecer a vida no Brasil, mas reconhecer que, embora sinta falta de muitas coisas, elas não fazem mais parte de sua vida atual. Isso permite focar em criar raízes e construir novos momentos especiais no exterior.

Mesmo aceitando que a vida no exterior traz perdas e ganhos, é natural que, em alguns momentos, a saudade e a nostalgia se intensifiquem. No entanto, é importante ficar atento se esses sentimentos se tornam frequentes e causam sofrimento, pois, nesse caso, pode ser útil buscar apoio para lidar com o luto.

Lidar com o luto simbólico não é fácil, pois as perdas são subjetivas e os sentimentos, muitas vezes, confusos. Por isso, não hesite em procurar ajuda profissional de um terapeuta, que pode ajudar a compreender suas emoções e viver o luto de forma segura, melhorando sua qualidade de vida no novo país.