Em números relativos, a população portuguesa é a que mais emigra em toda a Europa. Em média, entre 2001 e 2020, mais de 75 mil pessoas deixaram o país anualmente. Os dados fazem parte do mais recente Atlas da Emigração Portuguesa, lançado no final de 2023.

Segundo o estudo, o número de pessoas que deixa o país coloca Portugal entre os oito países com maior taxa de emigração em todo o mundo. Foram cerca de 1,5 milhão de pessoas neste período de 20 anos, cerca de 15% da população total de Portugal.

De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), há mais de 2,1 milhões de pessoas nascidas em Portugal vivendo em outros países atualmente. A maioria está na França, onde vivem em torno de 600 mil portugueses.

Por outro lado, aproximadamente um terço dos que deixaram o país neste período acabaram retornando. Isso amenizou, juntamente com o volume de imigrantes, o impacto negativo no crescimento demográfico do país.

Salários, habitação e poucas perspectivas levam jovens a deixar o país

A emigração portuguesa não é um fenômeno novo e se repete, em maior ou menor escala, ao longo das décadas. Mas o movimento recente do segmento mais jovem da população se deve, principalmente, à falta de perspectiva profissional e às dificuldades no setor da habitação.

O sociólogo Rui Pena Pires, diretor científico do Observatório da Emigração, afirmou, em entrevista para a imprensa portuguesa, que a diferença salarial é um dos principais gatilhos para que os mais jovens e qualificados busquem novas oportunidades fora do país.

“Nós pagamos salários muito baixos em comparação com os países mais desenvolvidos na União Europeia”, declarou.

Segundo ele, a crise na habitação e a escalada de preços dos aluguéis também incentivam as viagens. Soma-se a isso o fato de que os rendimentos no exterior são bem maiores, portanto ainda sobra mais dinheiro, mesmo para quem paga aluguel.

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“Antes, era muito mais barato alugar um apartamento em Lisboa do que em Amsterdam, o que acabava desestimulando algumas pessoas. Hoje, porém, os preços já se equiparam”.

Atualmente, mais da metade dos emigrantes portugueses que saem para os países do norte da Europa, como Holanda, Bélgica, Suécia e Noruega, por exemplo, possuem nível superior.

Jovens são os que mais saem de Portugal

Pelas estimativas do Observatório da Emigração, cerca de um terço (30%) dos que deixam o país, estão na faixa de idade entre 15 e 39 anos, representando cerca de 850 mil pessoas. Este fenômeno contribui para o envelhecimento da população residente no país.

“É um número muito alto, com um efeito muito complicado na fecundidade, já que quase um terço das mulheres em idade fértil saíram para a emigração”, afirmou um Rui Pena Pires, coordenador científico do Observatório da Emigração, em entrevista para o jornal Expresso.

Apesar da grande representatividade desta faixa etária entre os que deixam Portugal, um retrato mais amplo dos emigrados mostra uma população bastante heterogênea: em países como Brasil e Estados Unidos, que deixaram de ser destinos mais relevantes, o que se vê é uma população de portugueses mais envelhecidos e em número cada vez menor.

No sentido oposto, os países anglo-saxônicos e escandinavos — com fluxo crescente de portugueses — apresentam uma população mais jovem.

A Holanda, por exemplo, é um dos países que confirmam o crescimento da saída dos jovens portugueses: passou de 1.000 pessoas para 3.000, no intervalo de 2000 a 2023. Hoje, cerca de 20 mil portugueses moram na Holanda, que busca profissionais mais qualificados e oferece a vantagem de ter a língua inglesa utilizada por todos.

“Em resumo, encontramos hoje na emigração portuguesa populações numerosas, mas envelhecidas, em número decrescente e pouco qualificadas, ao mesmo tempo que temos populações jovens, em crescimento e, na sua maioria, qualificadas”, aponta o relatório do Atlas da Emigração Portuguesa.

Virada do século marca mudanças nos destinos escolhidos

O destino mais comum dos portugueses emigrados era, até os anos 60 do século passado, o Brasil, os Estados Unidos e o Canadá. Hoje, os países europeus superaram os países americanos.

Gráfico aponta emigração portuguesa por continente antes do 25 de abril.
Emigração por continente de destino antes do 25 de abril, fim da ditadura em Portugal. Fonte: Atlas da Emigração Portuguesa

Já no século XXI, a grande emigração teve apenas uma pausa nas crises financeiras de 2009/2010, mas atingiu um número recorde em 2013, com a saída de mais de 120 mil portugueses do país.

No total, entre 1960 e 2019, o número de portugueses que viviam no exterior mais do que duplicou, passando de pouco menos de um milhão para mais de dois milhões, especialmente em países europeus.

Atualmente, a emigração para as Américas e para a África é minoritária. Na Europa, cinco países são os principais destinos, que tem se alternado ao longo do tempo: Inglaterra, Suíça, França, Espanha e Alemanha.

No Brasil, há cada vez menos portugueses

Segundo as informações do Atlas da Emigração Portuguesa, o Brasil foi o principal destino da emigração portuguesa até o final dos anos 1950, quando a Europa começou a substituir as Américas. Um pequeno pico voltou a aparecer em 2013, quando cerca de 3 mil portugueses foram para o Brasil.

A maioria dos portugueses que ainda vão para o Brasil são da região de Lisboa e costumam se concentrar nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

Presença de portugueses nas regiões brasileiras. Fonte: Atlas da Emigração Portuguesa

No sentido contrário, imigração em Portugal bate recordes

Se por um lado o número de portugueses que deixam o país tem se mantido estável nos últimos anos e, segundo especialistas, sem perspectiva de mudança, o caminho contrário tem mostrado números em constante subida, com o total de imigrantes dobrando praticamente em 10 anos.

Em 2022, segundo os dados do agora extinto SEF (hoje substituído pela AIMA), os títulos de residência mais emitidos foram para o Brasil (48,3 mil), Índia (7,4 mil), Itália (6,9 mil), Angola (6,9 mil) e Bangladesh (6,1 mil).

Hoje, Portugal já tem cerca de um milhão de estrangeiros vivendo no país, com os brasileiros ocupando a primeira posição entre as nacionalidades “forasteiras”.

E é graças aos números de imigrantes que o saldo dos movimentos migratórios tem sido positivo, especialmente nos últimos oito anos, quando a entrada de estrangeiros voltou a superar a saída de portugueses de forma mais consistente, como mostra o mais recente relatório do Observatório das Migrações.

Imigração e emigração em Portugal entre 2004 e 2022. Fonte: Relatório do Observatório das Migrações.

Apesar da crescente entrada de estrangeiros, Portugal não pode ser considerado um país de imigrantes, como mostra o gráfico dos países da União Europeia com percentual de estrangeiros em relação ao total da população residente (janeiro de 2022).

Pelos indicadores do portal Eurostat (o Gabinete de Estatísticas da União Europeia), Portugal ocupa a 18ª posição no ranking do bloco econômico.

Países da UE Estrangeiros residentes Porcentagem total de estrangeiros
Luxemburgo 304,167 47,1
Malta 107,374 20,6
Chipre 170.061 18,8
Áustria 1.586.709 17,7
Estônia 203.383 15,3
Irlanda 671.267 13,3
Alemanha 10.893.054 13,1
Letônia 245.010 13,1
Bélgica 1.514.866 13,0
Espanha 5.407.491 11,4
Dinamarca 562.248 9,6
Itália 5.030.716 8,5
Suécia 880.826 8,4
Eslovênia 172,442 8,2
França 5.315.290 7,8
Grécia 747.867 7,1
Países Baixos (Holanda) 1.256.246 7,1
Portugal 698.887 6,8
Finlândia 292.464 5,3
República Tcheca 538.237 5,1
Hungria 202.525 2,1
Bulgária 140.003 2,0
Romênia 247.219 1,3
Lituânia 34.310 1,2
Polônia 456.110 1,2
Eslováquia 63.066 1,2
Croácia 36.092 0,9

Fonte: dados consultados no Relatório do Observatório das Migrações.

Aumento da imigração é fundamental para diminuir o peso da emigração portuguesa

Segundo o relatório do Atlas da Emigração Portuguesa, “Portugal é, hoje, um país em recessão demográfica, com uma das mais baixas taxas de natalidade não só da Europa como do mundo”. E acrescenta:

“Essa dinâmica recessiva é ampliada pela emigração. E não é provável que se observe, no curto prazo, uma redução substancial dos valores atuais da saída de portugueses.”

Ainda segundo o relatório, somente o aumento da imigração “com níveis relativamente elevados e persistentes” vai ser capaz de aliviar algumas das mais importantes consequências da emigração dos últimos anos: o número de nascimentos no país e as taxas de natalidade.