Entrou em um bar ou restaurante em Portugal e ouviu um sotaque brasileiro? Não é coincidência. Segundo o Barômetro da Restauração e Similares, 59% dos estabelecimentos empregam estrangeiros, e os brasileiros representam 79% dessa força de trabalho.
A falta de mão de obra é um dos principais desafios para o setor HORECA (hotéis, restaurantes e cafeterias). Um terço dos empresários afirmou precisar de mais funcionários, principalmente para o atendimento e também para a cozinha.
A situação seria ainda mais crítica se muitos desses negócios não fossem pequenos, onde os próprios donos assumem todas as funções, desde o preparo até o atendimento.
Dados oficiais confirmam aumento do número de trabalhadores imigrantes
O Boletim Econômico de junho de 2024, do Banco de Portugal, analisa a situação dos trabalhadores estrangeiros no país. Os indicadores consideram trabalhadores registrados na Segurança Social, excluindo os autônomos.
Segundo o boletim, em 2014, o número médio de trabalhadores estrangeiros era de 55,6 mil, tendo aumentado para 495,2 mil em 2023. A fatia de empresas em Portugal com empregados estrangeiros passou de 7,9% em 2014 para 22,2% em 2023.
Os brasileiros são o principal grupo de estrangeiros, com quase 210 mil pessoas registradas na Segurança Social. Já as taxas de crescimento dos trabalhadores brasileiros foram de 58,5% e 43% nos anos de 2022 e 2023, respectivamente.
Em 2023, os estrangeiros encontravam-se, principalmente, três setores: atividades administrativas (95,7 mil), alojamento e restauração (93,3 mil) e construção civil (69,2 mil).

Perfil do brasileiro favorece o trabalho em bares e restaurantes
A reportagem do jornal Público Brasil ouviu um professor de economia da Universidade do Minho, João Cerejeira, para tentar entender a razão pela qual há uma fatia tão grande de brasileiros no setor.
Segundo o professor, não há uma só razão, mas sim um conjunto de fatores que favorecem a presença dos brasileiros tanto servindo mesas quanto preparando as refeições: “A primeira é a comunicação em português. No atendimento ao público, nos restaurantes e no comércio em geral, a língua é um fator diferenciador em relação às outras nacionalidades”, avaliou o professor na conversa com o Público Brasil.
“Há também uma maior proximidade entre Brasil e Portugal. A gastronomia brasileira tem muita influência portuguesa e, com isso, não é difícil para o trabalhador se integrar”, completou.
Além disso, continua o professor, “a forma de estar dos brasileiros é mais aberta e atrativa para os clientes do que a de pessoas de culturas mais reservadas, como as de países do Norte da Europa”.
Os desafios para a contratação e a retenção das pessoas
A pesquisa apresentada pela AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal) mostra que a falta de formação ou experiência (66%) é a principal dificuldade sentida no recrutamento de pessoas para trabalhar em Portugal nesse setor, seguida pela burocracia necessária (24%).
O professor da Universidade do Minho destaca também um elemento que gera uma grande rotatividade nos profissionais do setor.
“[…) horários de expedientes muito exigentes. É mais fácil ser uma profissão de entrada no mercado de trabalho de Portugal para quem chega ao país do que um emprego para quem tem compromissos familiares”.
Sobrecarga de trabalho é um ponto de crítica
A reportagem do Euro Dicas conversou com brasileiros em Portugal que trabalham ou já trabalharam em hotéis, bares e restaurantes e o cenário é exatamente este: além das características inerentes do negócio — como atividade que normalmente é realizada mesmo nos finais de semana e feriados — os turnos rotativos e os horários estendidos são um entrave.
O desabafo de um brasileiro que agora está num bar de pequeno a médio porte, e que prefere não se identificar, é um registro do que acontece em vários estabelecimentos.
“É claro que há muitos positivos nas tarefas ligadas ao setor, mas parece que a gente vive um círculo vicioso. Como há falta de pessoas, acabamos trabalhando mais horas e tendo que assumir, muitas vezes, diversos papéis além daquele para o qual fomos contratados. Então, as pessoas acabam cansando e desistindo”.
O brasileiro que trabalha em restaurante em Portugal completa: “A equipe diminui e outros funcionários chegam, mas nunca parece que temos um modelo ideal. Os que entram não dão conta de tudo o que precisa ser feito e a dinâmica segue desta forma”.
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Outro estudo encomendado pela AHRESP e produzido pelo laboratório KIPT mostra que para otimizar a retenção de talentos, é necessário haver uma gestão eficaz. Ou seja, ela deve ser adaptada às necessidades dos diferentes tipos de trabalhadores — mais jovens, imigrantes, profissionais com formação superior.
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Abrir Conta Multimoeda →Imigrantes contribuem, mas sobram vagas no setor
Em entrevista para o portal de notícias NIT, a secretária-geral da AHRESP, Ana Jacinto, falou sobre alguns dos desafios enfrentados pelo setor e o papel dos imigrantes.
“A falta de pessoas disponíveis para trabalhar na restauração é um problema estrutural e que já vem de há muitos anos, tendo as empresas muita dificuldade em contratar e reter colaboradores, especialmente com formação e qualificação adequada”, confirmou a executiva.
Segundo Ana Jacinto, em 2023, houve um registro de mais de 239 mil postos de trabalho na área de restauração e similares, um aumento de 0,2% em relação ao ano de 2019. Esses dados são referentes ao estudo do Instituto Nacional de Estatística (INE).
Ela reforça que as principais dificuldades para preencher essas vagas estão nos dias e horários, que tradicionalmente são de descanso. Contudo, destaca serem problemas inerentes, que só poderiam ser melhorados com organização do tempo de trabalho e negociação coletiva.
“A imigração pode e deve fazer parte da solução para a restauração, devidamente regulada, adequada às necessidades das empresas e com condições dignas de trabalho e de vida”, finaliza a secretária executiva da AHRESP.
O cenário seria mais crítico se não fossem os imigrantes
Logo após a pandemia, a AHRESP estimou que o país tinha um déficit de cerca de 40 mil pessoas no setor. Passados pouco mais de dois anos, a secretária executiva da entidade, que ainda não fez um novo balanço, calcula que o cenário não mudou muito.
O problema, segundo ela, tem sido atenuado pela contratação de trabalhadores imigrantes que moram em Portugal, mas está longe de ser resolvido.
“Ainda assim, já temos cerca de 120 mil imigrantes a trabalhar só na restauração e no alojamento. Sem estes imigrantes, a situação seria bem pior. O maior problema que todos os dias as empresas nos relatam é o da falta de trabalhadores”, concluiu Ana Jacinto.
Embora os imigrantes sejam fundamentais para minimizar o impacto da escassez de mão de obra, a solução para o setor ainda depende de esforços conjuntos entre empresários, governo e associações para garantir a sustentabilidade do setor a longo prazo.
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Marcos Freire