Os sons da Itália fazem parte da experiência de quem mora ou viaja pelo país. Do eco dos passos nas ruas de pedra às buzinas incessantes de Nápoles, cada cidade tem uma trilha sonora própria. Foi essa riqueza sonora que me fez perceber o quanto os barulhos e silêncios do cotidiano moldam a nossa relação com um lugar.

Cidade italiana com mistura de sons
Índice O som sempre me impactou O impacto dos primeiros barulhos da Itália O silêncio das manhãs e os sons da Itália Descoberta do rock italiano O sotaque e os dialetos No trânsito: a buzina das motos em Nápoles O hino nacional: sons da Itália oficiais!

O som sempre me impactou

Lembro quando assisti O Som ao Redor, ainda na graduação, e fiquei surpresa ao perceber que existiam outras pessoas com essa sensibilidade, que prestavam atenção nos sons corriqueiros da vizinhança, da cidade. Até então, nunca tinha me perguntado se isso era algo comum.

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Dias atrás, uma amiga que voltou ao Rio de Janeiro depois de passar um ano na Itália comentou: “O único problema do meu novo apartamento é aquele barulho de motor do ar-condicionado ligado o tempo todo.”

Essa frase me transportou imediatamente para a infância, em Florianópolis: era o mesmo zumbido constante que eu ouvia do meu quarto (além do ronco do motor da pick-up do morador da cobertura).

O impacto dos primeiros barulhos da Itália

Quando decidi me mudar para a Itália, os sons passaram a ser outros. Acompanham meu cotidiano, agora fazem parte dele. E foram mudando à medida que fui me sentindo mais à vontade no país.

O som dos meus passos

De cara, a primeira coisa que mais me impactou foi o som dos meus passos. Quando me mudei definitivamente para o país, eu estava sempre correndo, não sei bem por quê. Até que, um dia, caminhando por um beco em Perúgia, e ouvindo somente o som do salto das minhas botas, me perguntei por que tanta correria. Lembro até de ter escrito um breve texto sobre isso.

A Itália é um país de cidades pequenas ou médias; poucas são as grandes. Então, o ritmo é realmente mais lento – pelo menos para mim, que sou de São Paulo.

O silêncio das manhãs e os sons da Itália

Quando morava em Perúgia, na Úmbria, a ausência de barulhos também me chamava a atenção. Aa Piazza IV Novembre, a praça principal da cidade, é onde moradores, estudantes, turistas e comerciantes se encontram.

À noite, o lugar dá espaço à vida noturna universitária, além de receber um dos palcos do festival de verão, o Umbria Jazz. Mas, nas monótonas manhãs de verão, é delicioso caminhar com aquele silêncio e o sol batendo na monumentosa catedral perugina.

As grandes cidades no verão

Ir para grandes cidades durante o verão é uma experiência única. Além do calor exagerado, há algo mais interessante: as cidades são praticamente silenciosas. Quase não há carros – ainda mais se for na metade de agosto –, poucos ônibus, pouca música na rua.

O silêncio e a rotina acadêmica

Essa ausência de sons no cotidiano, ao mesmo tempo, faz falta e dá uma certa paz interior. Agora morando em Urbino, uma pequeníssima cidade na região Marche, me ajuda muito a estudar (juro!).

Principalmente no começo do verão, quando os estudantes voltam para a casa dos pais e não fazem mais o giovedì universitario, ou seja, a quinta-feira dos universitários.

Descoberta do rock italiano

A música não podia faltar. Eu ouço muito rock, principalmente rock dos anos 2000 tipo The Strokes. Quando ouvi pela primeira vez Zen Circus e Verdena, duas bandas italianas que vi ao vivo, fiquei feliz por encontrar “a minha música”, mas em outra língua.

No verão, o choque de não ouvir música brasileira, mas sim música latina, e ver os jovens aprendendo de memória os refrões em espanhol, foi uma surpresa.

O sotaque e os dialetos

O primeiro intercâmbio que fiz na Itália foi em Parma, cidade na região da Emília-Romanha, conhecida pelo famoso queijo. Lembro da primeira vez que pedi uma torrrrrta frrrrritta con il prrrrrosciutto: olhei para a garçonete abismada. “Que som é esse?”.

O som da letra R dos parmigianos parece mais francês que italiano – e é isso mesmo: a cidade foi um ducado por alguns séculos, e no começo do 19, a duquesa era Maria Luísa de Áustria, mulher de Napoleão. Portanto, dizem, a influência francesa no modo de falar da cidade.

Outra coisa que me acompanha até hoje é a atenção ao dialeto local. Não ao sotaque, mas à língua local e aos sons daquela língua. Cada cidade que visito é uma emoção sonora. “Ah, aqui se fala assim”, “aqui arrasta o s”, “aqui as vogais são mais fechadas”, e assim por diante. Sou uma eterna aprendiz linguística, não tem jeito!

As feiras e os mercados

Não sou uma grande fã de feira livre barulhenta, admito. Mas convenhamos: é o momento em que os sons da Itália se tornam rei. A língua verdadeira, sem grandes formalismos, pura.

E mais uma vez, é nesse contexto que o dialeto e outras línguas (estrangeiras também!) se encontram. Me lembro quando fui ao Mercato di Ballarò, em Palermo. Ou no Mercato di Porta Portese, em Roma. Até mesmo no Mercato di Pian di Massiano, em Perúgia, fora do centro, aos pés do minimetrô.

A sirene da ambulância

Tem um barulho aleatório e nada romântico que me marcou bastante. Eu nunca tinha parado para pensar que o som da ambulância poderia mudar de país para país. Pois bem, quando ouvi uma pela primeira vez, tive esse lapso de pensar: “Nossa, é diferente!”.

Nada romântico, eu sei, mas genuíno, vamos combinar!

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No trânsito: a buzina das motos em Nápoles

Já em Nápoles, correndo o risco de cair em estereótipos, o barulho que mais me marcou foi a buzina e o som do motor das motos e vespas passando pelas vielas estreitas do centro histórico.

Vespas em Nápoles fazem parte dos sons da Itália
O trânsito em Nápoles é bem conhecido por ser caótico! E sonoro!

É um barulho constante; imaginar a cidade sem as motos é certamente imaginar outra cidade!

Os alertas do transporte público

Tem outra coisa que eu morro de rir. Sabem quando o motorista passa o ponto e as pessoas gritam “Vai descer”? Pois bem, existe a versão italiana. É a “Devo scendere!”. O mesmo desespero, mas numa língua diferente. Os sons do metrô de cidades como Roma e Milão são únicos também, principalmente nos vagões mais antigos.

Falando em transporte público na Itália, como não lembrar do aviso da Trenitalia nas estações? Attenzione! Allontanarsi dalla linea gialla(Atenção! Afastem-se da linha amarela).

Um verdadeiro clássico, presente até nos livros didáticos de italiano como língua estrangeira!

O hino nacional: sons da Itália oficiais!

O hino nacional nos eventos oficiais é algo curioso. No Brasil, geralmente só o ouvimos na Copa do Mundo. A primeira vez que participei de uma cerimônia oficial e não ouvi aquelas primeiras notas foi impactante. Aprender o hino do novo país também é!

Fogos de artifício: Ferragosto x Ano-Novo

Fogos de artifício no meio de agosto ou falta dele no ano-novo! Pois bem, todo 15 de agosto, aqui na Itália, comemora-se o Ferragosto, um feriado que existe desde o Império Romano (as férias de Augusto), incorporado pela Igreja Católica, culminando na Ascensão de Maria. É o feriado italiano por antonomásia.

Além dele, comemora-se também a noite de São Lourenço, onde no hemisfério norte, é possível assistir a verdadeiras chuvas de meteoros. O segredo é estar num lugar onde quase não há luz.

Acho que o melhor que passei foi aos pés do Castello di Le Castella, na Calábria, na beira do Mar Jônico! São dias de festa, fogos de artifício, música, aperitivos e baladas ao ar livre, na praia, no campo…

Já no ano-novo na Itália, não espere aquela tempestade de fogos de artifício, nem muita gente na rua – claro, mais uma vez, exceções para as cidades grande e turísticas. Nada de grandes shows luminosos (que pena!) ou de minutos intermináveis de rojões (ainda bem!). Claro que acontece de ouvir, mas não é nada exagerado.

Os sons da Itália vão muito além da língua e da música. Eles compõem a experiência de estar aqui, de viver cada cidade, de entender a cultura de um jeito único.

Seja o silêncio das manhãs em Perúgia, as buzinas de Nápoles ou os fogos de artifício do Ferragosto, cada barulho da Itália faz parte dessa jornada sensorial.