Descobrir e conhecer a origem e, possivelmente, o significado do próprio sobrenome italiano… Quem é que não foi atrás dessa informação? Não é para menos. Em um país tão rico culturalmente, como o Brasil, o seu nome de família denota a sua origem. Morando em outro país, será que essa visão muda? Entenda porque o sobrenome na Itália pode ser mais importante que o nome.

Não sou meu nome

Quando eu me mudei para a Itália, descobri que o nome da minha família é quase mais importante do que o meu próprio nome! E comecei a me dar conta que é, sim, uma questão cultural.

Por exemplo, os nomes Paolo, Francesco, Fabio, Andrea dizem algo? E que tal Rossi, Totti, Cannavaro, Pirlo? Reparem: é pelo sobrenome que chamamos os jogadores de futebol italianos. Isso porque esse pedacinho final é o que te dá identidade: dessa forma, sabemos de quem você é filho, de onde você vem, etc.

Burocracia e papelada

E na burocracia não é diferente. Nos formulários italianos, por exemplo, é bem comum que o item “nome” venha depois do “sobrenome”.

Em outras palavras, preciso primeiro preencher o meu sobrenome, depois o nome. Tudo isso sem a necessidade de preencher a minha filiação (necessário somente para menores de idade).

Nos formulários italianos, o sobrenome (chamado de cognome) é solicitado antes do nome.

Na universidade, por exemplo, era através do sobrenome que os professores me identificavam, o nome vinha só depois. Inclusive, quando ia fazer uma prova, a ordem alfabética dos inscritos era decidida pelo sobrenome.

No trabalho também é assim, sou a “dottoressa Paroni” (“dottore” ou “dottoressa”, neste contexto, significa “bacharel” ou “bacharela”, respectivamente).

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Quase sempre ignoram o meu sobrenome português (acham sempre que é um segundo nome). Já tive alguns pequenos problemas burocráticos por causa disso!

“Quantos sobrenomes!”

No Brasil, é bastante comum e difuso ter dois ou mais sobrenomes. Normalmente, temos o nosso preferido, ou aquele que “escolheram” por nós (eu, por exemplo, passei pela fase em que me chamavam pelo materno, depois o paterno).

Na concepção e percepção dos italianos, porém, não há distinção entre “materno” e “paterno”: é um “único” sobrenome (por mais que sejam, numericamente, mais de um). Em outras palavras: na Itália, “sobrenome” significa “todos os seus sobrenomes”.

E se eu tiver mais de um?

Os italianos acham um pouco exótico ter mais de um sobrenome. Consideram uma característica da Espanha e de Portugal, e não entendem bem como funciona a “ordem” que seguimos.

Mas como amo falar sobre esse tema, eu posso ficar horas explicando os detalhes. Até porque não entendem como fazemos para “escolher” o sobrenome que daremos ao nosso filho, se temos mais de um.

Cuidado! Eu, por exemplo, tenho dois. Quando preencho papelada, recibo, ou assino documentos, preciso escrever ambos (ou, pelo menos, o primeiro). Parte do codice fiscale, o CPF italiano, é composto pelo sobrenome. Por isso é importante e correto assinar ambos os sobrenomes, e não somente o último, como acontece no Brasil. Poderá dar conflito com o seu documento.

Alguns italianos têm dois

Tenho amigos com sobrenome duplo, mas isso ocorre porque, por algum motivo, o pai tem dois sobrenomes (os quais, por sua vez, não têm nada a ver com a nossa junção dos sobrenomes materno e paterno).

Sobrenome duplo indica nobreza também!

Muitos italianos com mais de um sobrenome são de origem nobre, e mantiveram dois (ou mais) sobrenomes. Isso porque as famílias aristocráticas, para evitar que os sobrenomes desaparecessem, começaram a levá-los adiante através dos herdeiros.

Não é o meu caso, infelizmente!

Interfone e caixinha de correio

Pois bem, em muitos casos, são os sobrenomes a identificar quem mora em uma casa ou em apartamento na Itália! Isso mesmo, nada de nome ou nome completo, somente os sobrenomes!

E se você quiser compartilhar apartamento na Itália, pode apostar que a sua caixinha estará cheia de sobrenomes! O mesmo acontece com uma família: você verá o sobrenome dos dois cônjuges.

Caixas de correio comsobrenomes dos moradores
Na Itália, ainda é muito comum ter os sobrenomes dos moradores no interfone e nas caixas de correio.

Esse costume pode parecer estranho no Brasil, e até perigoso, mas na Itália é muito comum (talvez menos em cidades grandes, como Roma ou Milão).

Outra língua, nova pronúncia!

Pessoalmente, um aspecto que me deixa rindo sozinha é a pronúncia do meu sobrenome não italiano. Você passa anos falando em voz alta, e em português, e acha que é assim que se fala. De repente, em outro país, aquela “certeza” vai por água abaixo!

E claro, para evitar que as pessoas cometam erros ortográficos, você passa a pronunciar tudo como os nativos… Un casino! Isso acontece com o nome também. Meu irmão, por exemplo, brinca sempre que mudou de identidade!

O contrário também acontece: tenho muitos amigos italianos que, quando foram ao Brasil, passaram pela mesma coisa (mas ao contrário).

Questão cultural

A lei italiana dos sobrenomes está passando por mudanças, impulsionadas pela brasileira Manuela Magalhães, a qual entrou com um processo na Justiça italiana para poder dar seu sobrenome ao filho, prática até então ignorada pelos escrivães.

Isso porque o país europeu, até 2022, só aceitava o sobrenome paterno, não só do ponto de vista jurídico, mas também cultural: essa visão (de mundo) é defendida pela Constituição italiana, levada adiante desde o Império Romano, quando o sobrenome era utilizado para declarar publicamente a sua estirpe.

Conheço casais que, apesar das dificuldades, conseguiram registrar os filhos com o “duplo sobrenome”. Inclusive, conheço mães italianas que optaram por mudar o nome das crianças já “grandinhas”. Uma pequena grande revolução.

“Os filhos, então, terão quatro sobrenomes, e os netos, oito?”

Quando o debate sobre o tema se tornou público, muitos amigos ficaram confusos com a regra.

“Então, na terceira geração, quantos sobrenomes a criança terá?”.

Esse raciocínio está ligado ao que contei acima sobre a concepção “única” do nome de família. Não é para menos, sendo algo novo na sociedade italiana. Ainda não há uma lei específica que leve em conta a escolha – provavelmente dará aos pais a possibilidade de escolher um dos sobrenomes, caso tenha mais de um.

Se for assim, o entendimento do nome de família mudará completamente no país. Espero que seja um modo de a Itália abraçar a sua pluriculturalidade.

Sobrenome do marido?

Por outro lado, o Código Civil italiano, de 1942, estabelece que quando um marido e uma esposa se casam na Itália, esta última pega o sobrenome do marido, ainda que não o use ou não seja especificado nos documentos. Ele só “desaparece” completamente da papelada em caso de divórcio.

Além disso, a composição do sobrenome também é um pouco diferente: acrescenta-se a preposição “in” ao sobrenome da esposa. Por exemplo, se Rosa Bianchi se casar com Roberto Rossi passa a constar, nos registros, como Rosa Bianchi in Rossi. Essa prática é bastante comum entre as pessoas mais idosas (comecei a reparar nisso ao ler os anúncios fúnebres afixados pelas famílias nos muros das cidades).

Mas isso é uma característica do sistema burocrático italiano, que continua reproduzindo um aspecto patriarcal muito forte, já que reproduz leis dos séculos XIX, em que o marido era proprietário, através do dote, da esposa.

Uma “nova” identidade

Já parou para pensar que a condição de imigrante ressignifica todas as suas certezas, inclusive o seu nome? Pois bem, em outra cultura, ganha outro peso e valor. Pode demonstrar a sua origem, e, ao mesmo tempo, o seu não-pertencimento. Sobretudo, uma mudança de sua identidade.

Eu, particularmente, não acho ruim: tenho sempre boas histórias para contar sobre a minha origem!