Até pouco tempo atrás, manchetes em jornais europeus ecoavam a necessidade de mão de obra estrangeira para sustentar economias em recuperação e sistemas de previdência ameaçados pelo envelhecimento populacional. Agora, a questão que recai é: afinal, a Europa não quer mais receber imigrantes?

Entenda se a Europa não quer mais receber imigrantes
Índice Curva acentuada à direita Uma virada no discurso migratório Contexto das novas restrições O que realmente mudou nos principais destinos dos brasileiros O fim do sonho ou o começo do planejamento?

O discurso político, em muitos dos principais destinos procurados por brasileiros, parecia de relativa abertura. O cenário, porém, está tomando um novo curso e sendo marcado pelo que a The Economist categorizou em 2023 como uma relação de “necessidade e ódio” para com os estrangeiros.

Curva acentuada à direita

A guinada à direita no ocidente, e sobretudo em países do continente europeu, estabeleceu uma agenda dominada por debates sobre fronteiras mais rígidas, regras mais duras e um crescente sentimento contra estrangeiros.

Exemplos anti-imigração podem ser encontrados em destinos populares como a Itália de Georgia Meloni, a Alemanha dividida pelo partido AfD e Portugal, até pouco tempo considerado reduto da comunidade brasileira na Europa e que agora começa a endurecer suas leis de imigração.

Mas o que, de fato, mudou para além do tom inflamado de alguns discursos? O sonho de construir uma vida na Europa tornou-se inviável ou apenas um pouco mais complexo? A Europa não quer mais receber imigrantes?

Vamos analisar o que está por trás dessa virada, contextualizando as novas restrições e detalhando as mudanças práticas nos países mais procurados por brasileiros, para que o planejamento substitua a surpresa.

Uma virada no discurso migratório

Até recentemente, governos de nações como Alemanha e Portugal reforçavam ativamente a importância da imigração para preencher vagas de trabalho e garantir o futuro demográfico e fiscal do continente.

A narrativa era de que os imigrantes eram uma peça-chave no motor da economia europeia. Contudo, essa percepção deu lugar a uma narrativa de ceticismo e controle, refletida em políticas institucionais e jurídicas cada vez mais restritivas.

Essa transição não é meramente retórica. Vemos movimentos concretos, ainda que com intensidades diferentes em cada país.

Exemplos superficiais, mas ilustrativos, incluem o novo sistema ETA (Electronic Travel Authorisation) no Reino Unido, que cria uma camada de controle pré-viagem, e as crescentes dificuldades burocráticas para o já penoso reconhecimento da cidadania italiana por descendência (tema que, por si só, merece outro artigo). 

O recado é claro: a “espontaneidade de mudança” está dando lugar à exigência de um planejamento minucioso.

Contexto das novas restrições

Essa mudança de rota não ocorreu sem sinais. Diversos fatores interligados explicam o endurecimento das políticas migratórias na Europa.

O mais visível é o avanço de partidos de extrema-direita em todo o continente, que utilizam o discurso anti-imigração como o sistema nervoso de sua plataforma política, explorando medos e inseguranças da população local.

A retórica alarmista encontra terreno fértil em situações reais. A crise de habitação, que torna o acesso à moradia um desafio caro e competitivo em grandes cidades como Lisboa, Berlim e Paris, é frequentemente associada à pressão demográfica causada por imigrantes. 

Pedido de visto aceito
Pedidos de visto estão sendo analisados com mais rigor, acompanhando as novas posturas migratórias de cada país.

Soma-se a isso o desemprego persistente entre os jovens locais em alguns países, criando um ambiente de competição por recursos e oportunidades (embora fique evidente que jovens europeus não querem fazer trabalhos que imigrantes aceitam sem pestanejar – em particular as tarefas menos qualificadas). 

A guerra na Ucrânia, por sua vez, gerou um fluxo de refugiados sem precedentes, sobrecarregando os sistemas de acolhimento e servindo de argumento para quem defende um controle mais rígido de todas as fronteiras. As mútuas retaliações entre Irã e Israel também devem pressionar ainda mais a velha Europa.

O que realmente mudou nos principais destinos dos brasileiros

Para o brasileiro que planeja a mudança, o impacto prático varia conforme o destino. É crucial entender as novas regras do jogo em cada país para se planejar antes de comprar as passagens. A sugestão é não “viajar no susto”.

Portugal

O país, que por anos foi a porta de entrada mais flexível para brasileiros na Europa, mudou suas regras de forma significativa. O fim da “Manifestação de Interesse” como meio de regularização para quem já está no país foi a alteração mais impactante. 

Agora, a regra geral é que o imigrante deve solicitar e obter a aprovação do visto de trabalho, estudos ou residência ainda no Brasil, o que tornou o processo mais formal e demorado. As mudanças recentes também limitaram e aumentaram as exigências para vistos de procura de trabalho e restringiram o reagrupamento familiar, por exemplo.

Além disso, os relatos sobre a lentidão e as dificuldades para renovar autorizações de residência existentes são cada vez mais comuns. Conforme O Globo, brasileiros têm recorrido à Justiça para conseguir atendimento na Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) para, de alguma forma, tentar regularizar a situação.

Reino Unido

Após o Brexit, o controle migratório se tornou uma prioridade. A implementação do ETA, vigente a cidadãos brasileiros desde abril deste ano (2025), exige uma autorização eletrônica paga antes mesmo do embarque para estadias curtas. 

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Para quem busca morar na Inglaterra, o sistema de vistos baseado em pontos é rigoroso, privilegiando profissionais com ofertas de emprego qualificadas e salários mais altos, e aumentando os custos e a burocracia para empregadores e candidatos.

Alemanha

A potência europeia vive uma política de duas velocidades. Por um lado, implementou a “Chancenkarte” (cartão de oportunidade, em tradução livre) e novas leis para atrair profissionais altamente qualificados em setores carentes para trabalhar na Alemanha

Por outro, o governo tem endurecido a postura contra a imigração irregular e dificultado o acesso para aqueles que não se enquadram nos perfis técnicos e acadêmicos desejados, aumentando a fiscalização e acelerando processos de deportação.

Espanha

O país apresenta políticas que podem parecer ambíguas. Ao mesmo tempo que criou vistos atrativos, como o de nômade digital, para atrair talentos e investidores, também aumentou a fiscalização contra a imigração irregular. 

Pessoas atravessando a rua na Plaza de España, em Madrid.
Em meio ao vai e vem da Plaza de España, a burocracia migratória cresce também em Madrid.

A pressão social e política por mais controle é crescente, especialmente em regiões como a Catalunha e Madrid, o que se traduz em mais burocracia e um escrutínio maior sobre os imigrantes.

Itália

O foco principal do enrijecimento tem sido a concessão da nacionalidade. O governo atual promoveu mudanças que visam restringir e burocratizar o reconhecimento da cidadania por descendência, um direito de milhares de brasileiros.

O processo, que já era demorado, enfrenta agora mais obstáculos e incertezas jurídicas.

O fim do sonho ou o começo do planejamento?

O cenário migratório europeu está mais complexo, e ignorar essa realidade é o primeiro passo para o fracasso. A fase de imigração baseada na “espontaneidade” (e na regularização após a chegada) não é um caminho adequado. Contudo, isso não significa o fim do sonho europeu, senão uma transformação na forma de alcançá-lo.

A mensagem para os brasileiros é de que o impulso deve ser acompanhado, mais do que nunca, por um planejamento robusto, inclusive do ponto de vista financeiro. 

A nova realidade exige pesquisa constante sobre as regras do país de destino, uma organização financeira mais sólida e um período de adaptação potencialmente mais longo. Em muitos casos, o suporte de uma assessoria jurídica especializada pode vir a calhar. A Europa não fechou suas portas para receber imigrantes, mas está mais seletiva para quem quer morar por aqui.

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*A opinião dos colunistas não reflete necessariamente a opinião do Euro Dicas.