Muitos alemães já saem de um hotel ou camping reservando a estadia para as férias do ano seguinte, e os mais aventureiros reservam com meses de antecedência. Já os brasileiros se planejam para viagens internacionais alguns meses antes, mas férias nacionais podem ser uma decisão de último minuto. Como fica, então, o jeito de viajar de um casal como nós, em que eu sou brasileira e ele, alemão?

O jeito de viajar é diferente em cada cultura, o que pode gerar desentendimentos.
Índice Onde está o jeito de viajar alemão? E o jeito de viajar brasileiro? Qual é o jeito de viajar nas férias em família? Tradições familiares X explorar novos destinos Um jeito de viajar que não cansa de surpreender E como conciliar dois estilos diferentes?

Já adianto que muitas vezes é difícil de conciliar, mas não pelos motivos que vocês podem estar imaginando. No nosso caso, parece que trocamos de identidade.

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Onde está o jeito de viajar alemão?

Vamos nos transportar rapidamente para uma viagem que fizemos antes de ter filhos, em um mês de junho, durante um feriado. Sexta-feira à tarde, o sol brilhando, nós havíamos dirigido cerca de 4 horas até Freiburg, na Floresta Negra.

Ao invés de explorar a cidade, estávamos há mais de uma hora sentados dentro do carro estacionado num posto de gasolina, fazendo ligações para diversos hotéis, tentando conseguir alguma acomodação por duas noites. 

E, para surpresa de todos, a ideia de partir sem nenhum plano veio do meu marido.

Ele, que segundo a lenda, deveria ter um cronograma impresso em duas vias e uma mochila equipada para enfrentar dias em uma travessia alpina, vai para uma viagem com a confiança de que tudo vai simplesmente funcionar, em meio ao caos.

E quando lembro dessa tarde, ainda tenho sentimentos nada positivos em relação a ele porque não compartilho o mesmo otimismo. Eu passei a semana perguntando se não íamos viajar, e ele dizendo que tínhamos que ver…e não decidia. 

A (falta de) preparação para a viagem

Quando finalmente decidiu, já não havia quase nada disponível nos arredores de Freiburg ou Estrasburgo, na França. Contatei apartamentos de temporada, mas todos me diziam que não conseguiam arrumar o local para o mesmo dia e os hotéis estavam lotados.

Conseguimos um hotel em Estrasburgo para a segunda noite, mas a primeira noite estava uma missão impossível. E qual foi a ideia dele? “Vamos até lá e aí conseguiremos algo”. Pois é, foi assim que fomos parar no tal posto de gasolina.

E ele ainda tinha a capacidade de perguntar nas primeiras ligações se havia algum evento especial na região, porque todos os hotéis estavam cheios. Claro que a resposta era: “porque é feriado e o tempo está lindo”

Para a nossa imensa felicidade, depois de falar com muita gente, conseguimos uma acomodação num pequeno hotel de um vilarejo a 30 minutos dali, chamado Endingen, onde o hóspede tinha ligado poucos minutos antes para cancelar.

Já estávamos realmente muito próximos de ter que dirigir todo o caminho de volta para casa sem ver nada. 

Turistas e locais passeiam pelo movimentado centro de Estrasburgo, representando nossa falta de planejamento prévio para essa viagem e os nossos diferentes jeitos de viajar
Estrasburgo atrai muitos turistas do mundo todo, especialmente no verão e no Natal. Foto: Larissa Wittig

Para a sorte do meu marido, passamos um feriado lindo em Estrasburgo e eu esqueci temporariamente o perrengue de viagem que passamos, mas pensei que ele tinha aprendido e que iria finalmente começar a se comportar como um alemão no seu jeito de viajar. 

E o jeito de viajar brasileiro?

Nós nos conhecemos no Brasil, em 2016, e apesar de morarmos na Alemanha desde 2018, me parece que ele ainda carrega muito da sua temporada sul-americana nele. 

Eu acho que sempre tive algumas características um pouco alemãs: costumo ser pontual e odeio esperar, gosto de planejar os meus compromissos e as minhas viagens e provavelmente aprendi um pouco com a “dor”, pois já perdi dois voos no Brasil por conta de congestionamentos.

É claro que já fiz muitas viagens espontâneas quando morava em São Paulo, com um jeito de viajar bem brasileiro. Cheguei a comprar uma passagem aérea para Salvador à noite para viajar na manhã seguinte, mas ao menos reservei um hotel antes de embarcar e o barco para Morro de São Paulo.

Quando era para planejar uma viagem para a Europa antes de conhecer ele, por exemplo, eu começava com meses de antecedência e reservava todas as acomodações e muitas vezes os passeios também, pois não queria arriscar perder algo que eu realmente tinha vontade de conhecer. 

Qual é o jeito de viajar nas férias em família?

Hoje em dia, que temos dois filhos pequenos, eu acho ainda mais importante pensar com calma num destino que atenda às novas necessidades que surgem ao viajar com crianças e pensei que meu querido marido iria concordar. Porém, me enganei mais uma vez!

Eu, preocupada com destino, acomodação, malas, sono, lanches, fraldas, humor instável, e ele continua relaxado e “deixando rolar”. Eu imagino que ele veja liberdade nisso, mas eu me preocupo com o antes, o durante e até mesmo com o depois.

A única coisa que ele faz com antecedência é conversar no trabalho sobre as datas em que pode tirar férias. E mesmo assim, creio que isso só acontece porque o chefe dele deve ter um jeito de viajar bem alemão e quer planejar a própria vida. 

Nas primeiras férias com meu filho mais velho, em pleno verão europeu, quando ele tinha um ano e dois meses e eu estava grávida do segundo, não sabíamos nem se íamos para a Riviera Francesa ou se para uma praia na região do Veneto, na Itália.

Acabamos reservando no dia anterior uma casa na ilha italiana de Albarella. E meu marido reclamou de pagar caro e prometeu que no ano seguinte faria diferente. 

Funcionou por exatamente um ano, quando ele aderiu ao jeito de viajar alemão e alugou a casa vizinha da que ficamos em Albarella para o verão seguinte. Mas logo depois desandou outra vez. 

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Tradições familiares X explorar novos destinos

Muitas famílias alemãs têm essa tradição de ir em todas as férias de Pentecostes ou de verão para o mesmo local, e meu marido fazia isso quando criança. Ia com os pais e os irmãos para o mesmo camping na Itália, na primavera, onde alugavam um bungalow. Só que, claro, meu sogro reservava um ano antes.

Ao mesmo tempo que meu marido gosta bastante disso e tem uma certa nostalgia, ele nunca conseguiria aderir a esse estilo. 

Eu não tenho uma opinião formada sobre o assunto. Ao mesmo tempo que acho muito interessante e reconheço os benefícios de ter tradições familiares como essa, acredito que se perde muito ao não explorar lugares novos na Europa. É um continente tão diverso e com tanto a oferecer em termos de turismo.

Os alemães gostam da segurança e da previsibilidade e eu reconheço que têm muito valor, especialmente com crianças pequenas. Mas eu também não quero acabar com a aventura, né?

Onde ficam as oportunidades para todos nós, adultos e pequenos exploradores, de conhecer uma nova cultura, comidas diferentes, uma língua estrangeira e aprender com outras realidades? 

Viajando com pequenos exploradores

A gente acaba geralmente optando por viajar para lugares diferentes ou até mesmo redescobrir com os pequenos destinos que já visitamos antes de ser pais.

Nossos filhos, com 5 e 4 anos atualmente, conhecem 13 países, tanto no continente europeu quanto americano.

Eles amam viajar, se interessam de verdade em descobrir novos locais e acabam se apaixonando por todos. O olhar infantil realmente é curioso e encontra beleza mesmo nas coisas mais improváveis.

Querem morar na Itália em uma praia, em Viena, em Los Angeles e também na casa dos avós, no Brasil. E amanhã surge uma lista nova de cidades para onde querem voltar ou onde pretendem viver um dia. 

Entre o improviso e o planejamento: um novo jeito de viajar

Eu gosto da imprevisibilidade ao optar por destinos diferentes, que algumas vezes eu e meu marido também nunca estivemos, mas eu não sou fã do improviso, de não saber para onde vamos dois dias antes de viajar. Por isso, acredito que o meu jeito de viajar mistura o brasileiro e o alemão. 

Já o meu marido adotou o jeito de viajar do mais espontâneo dos brasileiros. No ano passado, mais uma vez após infinitas discussões, ele reservou no último minuto um apartamento na cidade praiana de Chiavari, na Itália. Mas eu diria que foi quase que por engano, já que ele não sabia ao certo nem onde ficava. 

Chiavari na Itália é uma ótima cidade para viajar com filhos na Europa
Chiavari é uma cidade costeira pequena, charmosa e tranquila. Foto: Larissa Wittig

Novamente, ele teve sorte, já que acabou sendo um destino com poucos turistas e no qual pudemos ter mais contato com a vida local, desfrutar de comidas italianas deliciosas e pagar valores mais acessíveis.

Para completar, estava próximo de locais muito conhecidos, como Portofino, Cinque Terre e Gênova, que pudemos visitar fazendo bate e voltas. 

Um jeito de viajar que não cansa de surpreender

Felizmente, no início do verão desse ano, eu já tinha feito uma roadtrip com as crianças e meus pais para a Croácia e a Eslovênia. Como meu marido não estava envolvido, o roteiro foi bem planejado. Portanto, eu não estava depositando tantas expectativas nas férias com ele.

Ficamos muito tempo de novo discutindo por causa da eterna indecisão dele, mas até aí nada de novo… até ele decidir que queria comprar um trailer. Isso era meados de julho e íamos viajar em agosto.

Já tínhamos alugado um trailer, um ano e meio antes, quando fomos passar um feriado na Alsácia, e tivemos uma ótima experiência no camping. Os meninos amaram e sempre pediam um. Por isso, de vez em quando, olhávamos no E-bay alguma possibilidade de compra ou conferíamos se havia novamente uma boa promoção para aluguel.

Até fomos olhar um, mas há meses meu marido não tocava no assunto. Pois bem, ele estava decidido a comprar um para viajarmos em duas semanas

Como estou longe de desencorajar alguém a seguir os seus sonhos, dei o meu apoio, mas não estava muito confiante de que iria funcionar. E não é que ele conseguiu achar!?

O desafio da inspeção obrigatória

Compramos e aí veio o próximo desafio: a inspeção obrigatória estava vencida há um mês. Ainda era possível viajar com o trailer pela Alemanha por mais um período (existe uma tolerância após o vencimento), mas não ir para outro país. E o que ele queria de todo jeito? Sim, ir à Itália! 

Ele passou o fim de semana embaixo de uma chuva torrencial consertando tudo que ele podia no trailer, o que ele achava que poderia dar algum problema na inspeção.

Como é um veículo antigo, precisava de vários reparos no chão e nas janelas. E na segunda-feira levou para a inspeção e foi aprovado! 

Na mesma noite, ele reservou um dos poucos campings que ainda tinha lugar disponível para aquela semana, na cidade praiana de Ravenna. Eu corri para limpar o trailer, organizar tudo, comprar as coisas que precisávamos e fazer as malas. Na sexta-feira de manhã, partimos.

Piscina do camping em Ravenna com algumas famílias aproveitando a água ilustra como nossas viagens podem sair bem diferentes do esperado
O camping onde estivemos em Ravenna oferecia uma boa estrutura para famílias, mas foi uma solução de última hora. Foto: Larissa Wittig

E como conciliar dois estilos diferentes?

De alguma forma, o jeito de viajar dele, com essa falta de planejamento e organização, acaba dando certo no final e tivemos muitas experiências maravilhosas. Mas é muito estressante fazer tudo no último minuto, precisar trabalhar com inúmeras variáveis e ter um grande receio de tudo dar errado. 

Eu já tive muita esperança de conseguirmos nos organizar de outras formas, aderir um pouco mais à sabedoria alemã nesse caso (para muitos outros prefiro evitar, mas esse em particular me parece sensato), só que depois de tanto tempo, entendi que posso desistir.

Encontrando o nosso próprio caminho

O importante é que, de alguma forma, conseguimos viajar e, agora com o trailer, ao menos não vamos ficar sem lugar para dormir. Já é um grande alívio!

Pode ser que tenhamos que passar a noite em um local totalmente diferente do que pensamos, mas cama e banheiro teremos. É uma oportunidade de ir a lugares menos óbvios se apresentando, se eu tentar ver de uma forma otimista.

Conheço muitos alemães que também têm trailers e, nesse caso, eles se tornam um pouco mais espontâneos com viagens de curta duração.

Como férias aqui são muito mais flexíveis do que no Brasil, pode acontecer que se o tempo estiver bom, eles decidam emendar uma sexta e uma segunda e ir para algum camping aproveitar a vida. Porém, as sagradas férias de verão eles seguem planejando com antecedência. 

Nossos jeitos de viajar são muito diferentes, com as identidades alemã e brasileira trocadas. Nos desentendemos muitas vezes, no entanto, felizmente, conseguimos nos complementar.

No fim, esquecemos as brigas quando estamos todos brincando no mar ou à noite quando eu e meu marido tomamos um vinho ao ar livre desfrutando o vento quente do verão, em meio às vozes alegres dos italianos.

*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.