Os vinhos portugueses são um verdadeiro tesouro líquido, guardiões de séculos de tradição e criatividade. Do robusto Douro ao elegante Alentejo, cada garrafa carrega uma história única, moldada por terroirs distintos e mãos apaixonadas. Mas o que faz Portugal se destacar em um mercado global tão competitivo?
Nesta coluna, exploraremos o que torna os vinhos lusitanos tão especiais, discutindo seu impacto cultural e econômico, e por que merecem mais reconhecimento internacional. Um brinde à autenticidade e à diversidade que só Portugal sabe oferecer!
As regras ficaram mais rígidas e o improviso acabou. Quem quer morar legalmente em Portugal hoje precisa de planejamento, informação correta e decisões bem feitas desde o Brasil.
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Tem sido comum, desde que chegamos a Portugal, há quase sete anos, ouvir os amigos perguntarem como é a vida por aqui, se é melhor, quais as principais diferenças e por aí vai.
– “É mudar da água para vinho”, respondo.
– “Dá pra imaginar”, retrucam. Primeiro mundo, né? Tudo funciona, saúde, economia, segurança, educação…
E antes que a conversa descambe para os discursos extremistas que tanto têm ocupado as redes sociais, já vou logo dizendo que minha mudança da água para o vinho aqui em Portugal não é mera força de expressão e nem traz qualquer viés de comparação sociopolítica embutida.
É que realmente nunca tomei tanto vinho na minha vida (sem exageros, vale frisar). Pode não ter água na mesa, mas sempre há espaço para uma tacinha do tinto, do branco, do rosê.
Mas se o tema aqui não passa pelas discussões políticas, vale lembrar que o vinho também gera debates calorosos e tem defensores ferrenhos de determinadas regiões, tipos de uva e coisas do gênero.
Nesse campo, me classifico como um bebedor quase ignorante, apesar de gostar de uma tacinha e sempre lembrar de ótimos momentos da vida em que o vinho teve papel fundamental.
Aliás, minha memória afetiva ligada ao vinho é da época em que eu passava ainda bem longe de experimentar a bebida. Novinho, na época em que morava no Rio de Janeiro, lembro bem das garrafas características de Casal Garcia, com os rótulos “rendados” que ainda hoje destacam a marca. Era comum, na mesa dos meus avós, lá pela década de 1970, ter o tradicional vinho verde acompanhando as refeições.
De lá para cá, claro, aprendi a ir além do apelo do rótulo e passei a me encantar com o conteúdo. E foram de todos os tipos, em épocas diferentes da vida e, principalmente, com orçamentos igualmente variados. Do garrafão ao vinho “chapinha” (quem nunca, não é?), das garrafas azuis e marrons daqueles alemães doces que infestavam os casamentos até alguns bons bordeaux.
Havia também muitos argentinos, muitos chilenos. Mas os vinhos portugueses, apesar de terem sido a minha primeira referência de vinho, demoraram mais a entrar na minha vida de apreciador. De uns anos para cá, porém, passaram a ocupar um lugar de destaque nas minhas listas.
Um pequeno mercado ao lado de onde morava no Brasil, e que tinha um português à frente dos negócios, era a minha pequena fonte. Sempre com rótulos de vinhos portugueses e um preço bem honesto.
Acho que a vida já ia me preparando para essa recente experiência de viver na terrinha, o que, poucos anos atrás, eu jamais diria que fosse acontecer. A vida tem dessas coisas e, como já diziam os romanos: in Vino Veritas.
Os maiores bebedores do mundo
E por falar em verdade, dá para dizer que as pessoas por aqui bebem de verdade: dados da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) mostram que os portugueses foram os que mais beberam vinho no mundo em 2023.
São quase 62 litros (61,7, para ser mais preciso) por pessoa por ano, ou seja, mais do que uma tacinha por dia. Nossos vizinhos espanhóis bebem menos da metade, 24 litros por pessoa por ano. Os dados da OIV são contabilizados considerando a população acima dos 15 anos (e com 15 anos já bebem vinho?).
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ENTRAR EM CONTATO →Claro que as estatísticas consideram todos os tipos de vinho, desde aqueles das jarrinhas que fazem parte das “diárias” dos restaurantes, passando pelos que são vendidos em embalagens de cartão, do tipo longa vida, até aos que custam algumas centenas de euros por garrafa.
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Abrir Conta Multimoeda →Esses últimos, com certeza, não se encaixam nos bolsos da maior parte dos portugueses e nem são os que elevam os índices de consumo.
Mas ninguém precisa gastar dezenas ou centenas de euros para ter um bom vinho em casa ou na mesa do restaurante (fica aqui a ressalva: a avaliação é minha, ou seja, de um bebedor que, de olhos fechados, nem diferencia um tinto de um branco).
Aquela comparação divertida que sempre aparece em postagens por aí costuma ser verdadeira: muitas vezes sai mais barato tomar um vinho (o popular “da casa”, nos restaurantes), do que uma água mineral de grife ou um refrigerante.

E mesmo quem quer comprar uma garrafa nos supermercados vai encontrar boas alternativas por menos de 5€ (aqui não se trata apenas da minha pobre e limitada lista de vinhos, mas também a dos amigos que muitas vezes nos convidam para tomar uma tacinha na casa deles). Das duas, uma. Ou nós estamos bebendo vinhos bem aceitáveis ou estou escolhendo mal os amigos.
Apesar de mim e dos portugueses, consumo global em queda
Mas não adianta a gente fazer a nossa parte e beber quase 62 litros por ano. O consumo global diminuiu, apontam os dados da OIV, também publicados em jornais como o Diário de Notícias. De acordo com a entidade, foram consumidos 221 milhões de hectolitros em 2023 (1 hectolitro vale 100 litros), uma queda de 2,6% em relação ao ano anterior. É o valor mais baixo desde 2020.
A queda, segundo a OIV, se deve ao pico nos custos de produção e distribuição, impulsionado por pressões inflacionárias, o que levou a preços mais altos do vinho para os consumidores (pensando bem, vou continuar com os meus amigos e os nossos vinhos portugueses de menos de 5€).
A redução só não foi maior porque os 5 países que representam o maior consumo global (51%) conseguiram lidar bem com os desafios dos custos. Portugal, que já sabemos que tem o maior consumo mundial per capita, não tem tanto peso, como um país pouco populoso, nos dados globais.
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A liderança está com os Estados Unidos (33,3 milhões de hectolitros), seguido pela França (24,4 milhões de hectolitros) e Itália (21,8 milhões de hectolitros). Portugal aparece na 10ª posição no consumo total.
O Brasil também está na lista, mas na 19ª posição entre os países que mais consumiram vinho em 2023, apesar da grande população. A considerar os dados da OIV, os brasileiros parecem que são mesmo da caipirinha, da cerveja e da cachaça: no que diz respeito ao vinho, são 2,4 litros por pessoa, por ano. Ou seja, menos de uma garrafa de vinho a cada 3 meses.
Menos bebedores, menor produção e vice-versa
Uma coisa não tem a ver com a outra, obrigatoriamente, mas o fato é que a produção mundial de vinho também caiu no último ano, confirmam os dados da OIV.
O relatório da associação culpa as condições climáticas extremas e as doenças generalizadas causadas por fungos como as responsáveis pela queda na produção dos vinhos portugueses. Em 2024, foram produzidos 237 milhões de hectolitros, 10% a menos do que em 2022. É a menor produção desde 1961.
Na União Europeia o volume ficou em 145 milhões de hectolitros, 11% abaixo do total do ano anterior. No hemisfério Sul, o que inclui, por exemplo, os vinhos brasileiros, chilenos e argentinos, a queda foi ainda maior: 15% menos do que em 2022.
França, Itália, Espanha, Estados Unidos e Chile são os cinco países que produziram mais da metade de todo o vinho do mundo no ano passado. Portugal, apesar de ser o país “mais bebedor”, também aparece na 10ª posição entre os maiores produtores.
Eu, apesar de ter aumentado muito o meu consumo de vinho, agora ajudo o mercado interno português, ao contrário do que acontecia antigamente, quando minhas tacinhas contavam pontos nas estatísticas de exportação de Portugal.
De acordo com os dados consolidados mais recentes, Portugal aparece como o 8º maior exportador de vinho, em volume, com o total ficando, em 2023, 2% abaixo do registrado em 2022.
O maior exportador é a Itália, seguida pela Espanha e pela França. Quando a métrica deixa de ser o volume e passa a ser o valor, França lidera o ranking dos maiores exportadores.
Portugal pode até parecer pequeno, mas é gigante em vinhos
Os números que já mostrei podem não posicionar Portugal na liderança dos principais indicadores do setor, com exceção, claro, do consumo per capita. Mas esse país é de uma indiscutível grandeza no mundo dos vinhos.
Para começar, Portugal foi um dos poucos países que andou na contramão do mercado e produziu um volume maior (+10%) em 2023 do que em 2002. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), é a maior produção desde 2006.
Portugal continental é dividido em 12 grandes regiões vitivinícolas, com vinhos portugueses que podem gerar discussões acaloradas entre especialistas e bebedores apaixonados, além das regiões da Madeira e dos Açores. É comum ouvir comentários do tipo “os vinhos do Douro são muito melhores do que os alentejanos” ou “não há nada tão bom como um tinto do Dão” e por aí vai.
Eu, como já deixei claro, pouco palpito. Acho todos muito bons e não tenho nenhuma relação emocional com qualquer região. O que faço é o seguinte: se estou no Alentejo, peço vinho alentejano; vou comer leitão na Mealhada, encaro vinho da Bairrada; passeio pela região do Douro, vinho da mesma região; e por aí vai.
Em casa, costumo ter garrafas de todas as regiões. Compro algumas, ganho outras, e vamos montando uma “adega” de vinhos portugueses onde o que menos se vê é o preconceito. Até porque os meus dotes olfativos e gustativos devem estar esperando uma próxima encarnação para se manifestarem.
Regiões produtoras de vinho em Portugal continental
Como comentei, esse país tão pequenino é dividido em 12 grandes e importantes regiões produtoras de vinho, cada uma delas com suas características muitas vezes distintas de uvas, solo, clima, método de produção, etc., sem contar com as duas outras regiões das ilhas (Madeira e Açores).
De norte a sul, seguindo a classificação do próprio Instituto do Vinho e da Vinha (IVV), estão as seguintes regiões (apenas as de Portugal continental abaixo):
- Verdes;
- Trás-os-Montes;
- Douro;
- Távora-Varosa;
- Bairrada;
- Beira Interior;
- Dão;
- Lisboa;
- Tejo;
- Península de Setúbal;
- Alentejo;
- Algarve.
E cada região demarcada pode ter mais do que uma Denominação de Origem, como mostra a imagem abaixo:

No site do IVV também é possível consultar as regiões demarcadas da Madeira e dos Açores.
Vinhos verdes não são da cor verde nem são produzidos com uvas que não amadureceram
Apesar da minha ignorância, eu já supunha que os vinhos realmente não eram da cor verde. Mas admito que sempre fiquei na dúvida se o termo “verde” era uma contraposição ao “maduro”.
Até que tempos depois da minha chegada por aqui, aprendi que Verde é apenas o nome da região onde tais vinhos – os vinhos verdes – são produzidos. Podia ser azul, vermelho, amarelo. Mas calhou de ser verde (na verdade, dizem que o verde escolhido faz referência à rica vegetação da região).
Nada de uvas verdes ainda não amadurecidas. As uvas dos vinhos verdes são tão maduras quanto as uvas de qualquer vinho. Há vinhos verdes brancos, verdes tintos, verdes rosês, como outros vinhos do Douro ou do Alentejo, por exemplo.
Apesar disso, a coisa mais comum aqui é chegar em um restaurante e ouvir alguém – e português – oferecer um tinto verde ou um tinto maduro, como se realmente o verde fosse o oposto do maduro.
O que noto é que acabam usando o termo maduro para identificar qualquer outro vinho que não seja produzido na região dos vinhos verdes, sem que haja realmente qualquer relação quanto às uvas serem verdes (ou seja, ainda mais “novinhas”. Lembrem: são todas maduras, mesmo as dos vinhos verdes).
Então, quando alguém te oferecer um branco verde ou um branco maduro – considerando que agora já sabe que são todos maduros – lembre que é assim mesmo. Talvez seja um complô para nos confundir, nós os ignorantes do vinho.
O vinho verde tem mais de 400 anos
Segundo o IVV, a menção mais antiga conhecida ao vinho verde data de 1606, época em que a região ainda não era demarcada e nem trazia este nome.
Em 1908, são estabelecidos os limites geográficos da Região dos Vinhos Verdes, através da atribuição da respectiva demarcação, pela Carta de Lei de 18 de setembro, considerando-se uma das mais antigas regiões vitivinícolas reconhecidas em Portugal.
Esta região estende-se por todo o noroeste do país, na zona tradicionalmente conhecida como Entre-Douro-e-Minho. Tem como fronteiras, a norte, o rio Minho (que separa a região da Galiza espanhola), a leste e a sul, zonas montanhosas que constituem uma barreira natural com as zonas do país mais interiores, com características mais mediterrânicas, e, por último, o oceano Atlântico que constitui o seu limite a poente.
A associação que representa os produtores da região, a Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV), reforça:
“É desta terra, densamente povoada e de solos férteis, que nascem vinhos incomparáveis. Desde os Vinhos Verdes de estilo clássico, jovens, leves, frescos e com baixo teor alcoólico aos Vinhos Verdes sofisticados, com grande potencial de guarda, aromas e sabores complexos, intensos e minerais.”
Ou seja, a diversidade encontrada na extensa área onde são produzidos os vinhos verdes é descomunal.
Trás-os-Montes: terra do “vinho dos mortos”
Trás-os-Montes, no norte de Portugal, é uma região mesmo bonita. E não precisa ser especialista em vinho para reconhecer a beleza e a riqueza cultural e histórica da região.
Mas já que estamos nos vinhos portugueses, algumas características ajudam a explicar a diversidade da produção: são três sub-regiões, com microclimas diferentes e solos com perfis que também não se repetem. O resultado são vinhos brancos que, na definição da associação dos produtores locais têm um equilíbrio e intensidade de aromas e:
“[…] na boca revelam uma acidez correta não sendo excessivamente pronunciada. No caso dos vinhos tintos, são vinhos com uma intensidade corante muito consistente e elevada, aromaticamente muito frutados, na boca relevam-se estruturados, e apesar dos teores alcoólicos normalmente elevados verifica-se uma acidez fixa correta, tornando-se vinhos robustos, mas agradáveis e muito equilibrados.”
A região transmontana conta com cerca de 85 produtores, 50 castas e uma área de vinha superior a 11 mil hectares. Uma curiosidade da região são os “vinhos dos mortos”, denominação que surgiu no início do século XIX, na época da invasão napoleônica.
Os produtores de vinho enterraram garrafas de vinho no chão para evitar que fossem roubadas pelos soldados. Terminados os combates, os vinhos foram desenterrados e a surpresa foi boa: a bebida das garrafas estava com sabor ainda melhor, um vinho com graduação de 10 °C/11°C e uma gaseificação natural em função da temperatura constante e da escuridão.
Hoje, a tradição do “Vinho dos Mortos” se mantém em um espaço museológico especialmente criado para valorizar essa importante história da produção local, o “Repositório Histórico do Vinho dos Mortos”.
O meu vizinho Douro
Muitas vezes ainda me encanto quando lembro que muitos dos vinhos que tomava no Brasil eram produzidos na então distante região do Douro, que eu conhecia apenas de nome, mas que agora é quase o meu “quintal”, sem qualquer conotação negativa nesta comparação.
É que esses vinhos portugueses que já fizeram parte da minha vida passada são realmente produzidos aqui ao lado.
Quantas vezes já dirigi por poucos minutos até me deparar com uma grande área repleta de cachos de uva. Ou já me vi emparedado por parreiras nas encostas do rio Douro, a bordo de um dos muitos barcos que navegam pela região. Hotéis fantásticos cercados por parreiras? Também tem. Tomar banho de rio, numa das muitas praias fluviais do Douro? Igualmente bom. E mesmo que navegar pelo Douro ou nadar nas suas águas não tenham necessariamente uma ligação com os vinhos, é difícil não lembrar da bebida num ambiente que é uma das mais importantes referências quando se pensa em vinhos.
E a associação não é à toa. O Douro Vinhateiro é a região vitivinícola demarcada e regulamentada mais antiga do mundo. Foi criada em 1756 quando o Marquês de Pombal instituiu a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro.
Em 2001, o Alto Douro Vinhateiro foi classificado pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade pela sua “paisagem cultural, evolutiva e viva”.
São 250 mil hectares de superfície total com 44 mil de vinhas para produzir dois tipos de vinhos: Porto e Douro.
“A vinha no Douro é fruto de um trabalho de vários séculos. Uma das suas expressões é o seu valioso património genético, com mais de uma centena de castas autorizadas, que se adaptam aos vários terroirs durienses”, explica o documento do IVV.
Do volume total de vinho produzido na Região Demarcada do Douro, cerca de 50% são destinados à produção de vinho do Porto, enquanto os restantes vinhos da região (Douro, Moscatel Douro, Espumante Douro, Duriense e vinhos sem DOP/IGP) representam os restantes 50%.
Do que vem da região do Douro, gosto de (quase) tudo. Só costumo deixar de fora os espumantes. Mas a culpa não é do Douro. O problema sou eu mesmo, que não me empolgo muito com os vinhos “com bolinhas”, sejam eles franceses, italianos, brasileiros, portugueses e por aí vai.
Por outro lado, um vinhozinho do Porto ou um bom Moscatel caem sempre muito bem, principalmente no inverno. E por falar em vinho, no Porto não tem como não se encantar com os “rolês” pelas caves dos principais produtores, todas quase enfileiradas no cais de Gaia.
Mesmo para mim, que pouco distingo uma marca da outra, acho maravilhoso conhecer todas, provar tudo, ouvir as histórias, saber as diferenças entre todos os tipos, descobrir as técnicas de produção. Já fui em tantas que eu deveria até saber um pouco mais do que sei, mas parece que o cérebro faz eu esquecer de propósito para depois ter que voltar e ouvir as mesmas histórias como se fosse a primeira vez.
O que sei é que os vinhos do Douro são produzidos a partir das mesmas uvas com que se produzem os Porto, mas com processos e etapas diferentes. “A diversidade que distingue a Região Demarcada do Douro é a sua grande riqueza, tratando-se de uma das regiões vitivinícolas do mundo com duas denominações de origem: DOP Porto e DOP Douro”, explica o IVV.

Em tempo: enquanto escrevo e pesquiso informações para este artigo, adivinhem o que ajuda a aflorar a inspiração! Uma tacinha com Porto tinto – modesta e comportada, claro – repousa aqui ao lado do meu mousepad.
Távora-Varosa: região de espumantes
A região que faz fronteira entre os vinhos do Douro e os do Dão pode não ser grande em extensão (são cerca de 3 mil hectares), mas carrega muita história.
Pelas suas terras já passaram os povos que, de uma forma ou de outra, ajudaram a dar forma ao país que conhecemos hoje. Romanos, Suevos, Visigodos deixaram seus passos na linha do tempo do nascimento e formação de Portugal.
A produção de Vinho e Espumante remonta ao século XVII, ano de 1678, pelos monges de Cister. Em 1989, foi a primeira região vitícola nacional a ser demarcada para a produção de espumante com Denominação de Origem Távora Varosa.
Os rios Távora e Varosa dão o nome à região, cujas vinhas são plantadas em solos graníticos, litólicos e de transição, o que garante boas condições para a criação de vinhos geralmente frescos e com teores de acidez ideais para a produção de vinhos espumantes.
Eu não sou grande fã dos espumantes, como já falei, por isso nem ouso palpitar. Por outro lado, posso dar “pitacos” em algo mais proteico: os presuntos de Lamego, uma importante cidade que faz parte da região Távora-Varosa.

Vale lembrar que quando os portugueses falam presunto estão se referindo ao que chamamos de presunto cru. O presunto cozido, aquele que usamos para fazer misto quente, por exemplo, é o fiambre em Portugal.
E como uma coisa sempre puxa a outra, minhas visitas a Lamego acabam na duplinha presunto e vinho, de preferência um produzido localmente.
Na Bairrada tem vinhos portugueses, espumantes e… leitão
Sei que o foco do texto são os vinhos portugueses, mas não consigo pensar na Bairrada sem lembrar dos famosos leitões. Aqueles que vem crocantes, em generosos nacos. É mais ou menos o “frango a passarinho” na versão porco.
Parece meio agressivo, reconheço, muitas vezes ver o leitão inteiro a sair do forno, dourado, para ser cortado em grandes pedaços, que chegam à mesa acompanhados simplesmente de batata frita, daquelas cortadas em rodelas e bem crocantes. Mas vejam onde quero chegar: toda essa experiência se completa com a devida parceria de um bom vinho ou espumante da Bairrada (um dos raros momentos em que dou uma chance aos espumantes). Perfeito.
Diz a história que a tradição dos vinhos da Bairrada começou lá na época de D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, que autorizou a plantação das vinhas na região, com a condição de ser dada uma quarta parte do vinho produzido.
A região da Bairrada situa-se entre Águeda e Coimbra, delimitada a norte pelo rio Vouga, a sul pelo rio Mondego, a leste pelas serras do Caramulo e Buçaco e a oeste pelo oceano Atlântico.
As fronteiras oficiais da Bairrada foram estabelecidas em 1867, tendo sido uma das primeiras regiões a adotar e a explorar os vinhos espumantes, uma vez que o clima da região garante uvas de baixa graduação alcoólica e acidez elevada, condição indispensável para a elaboração dos vinhos espumantes.
“Os vinhos da Bairrada, ricos e cheios de alma, retratam a terra farta de onde provêm numa variedade surpreendente para uma só região, onde a Baga, variedade que pode originar vinhos base espumante, vinhos rosados e vinhos tintos, assume particular destaque”, informam os produtores da região no seu portal oficial.
Ainda de acordo com o portal Baga Bairrada, a criação de espumantes aconteceu há 125 anos, quando a região “importou” os preceitos do método Champanhês (método clássico de fermentação em garrafa). Apesar da sua longa história, o reconhecimento da região da Bairrada como área vitivinícola demarcada tornou-se oficial apenas no ano de 1979.
Beira Interior e o vinho nas alturas
Sintam a responsabilidade: a Beira Interior tem como vizinhos as regiões do Douro, do Alentejo, do Dão, e numa das laterais, a Sierra da Salamanca, de onde também saem grandes vinhos espanhóis.
“Rodeada de vizinhos tão distintos, a conclusão só pode ser uma: o vinho da Beira Interior tem de ser bom, não obstante ser pouco conhecido dos portugueses”, reconhece a associação dos produtores.
De acordo com o levantamento histórico da Comissão Vitivinícola Regional da Beira Interior (CVRBI), a tradição vitícola da região remonta à época romana (já notaram que fica difícil saber qual região começou a produzir vinho antes. Quando uma delas conta que a bebida já era conhecida desde a época medieval, vem outra e volta ainda mais no tempo).
Uma importante descoberta arqueológica, em pleno coração da Beira Interior, demonstra que por lá se produziu vinho romano em quantidade superior à necessária para o autoconsumo.
As primeiras prospecções permitiram identificar estruturas tecnológicas para a produção de vinho que permitem imaginar uma produção de vinho em grande volume para comercialização no exterior.
Muitos desses achados ligados ao vinho estão em exposição no Museu Arqueológico do Fundão, entre as quais uma talha romana intacta, destinada à fermentação e armazenagem de vinho.
O significado da Beira Interior
A Denominação de Origem “Beira Interior” encontra-se subdividida em três sub-regiões, Castelo Rodrigo, Pinhel e Cova da Beira. As duas primeiras partilham as mesmas especificidades materiais, apesar de se encontrarem separadas por cadeias montanhosas com picos de mais de mil metros de altitude, com a combinação de solos pobres, acidez elevada e maturações robustas.
A Cova da Beira expõe características divergentes e alternativas, estendendo-se desde os contrafortes a leste da Serra da Estrela até ao vale do Tejo, a sul de Castelo Branco.
Na avaliação dos produtores locais, a altitude é talvez a característica que mais facilmente define a Beira Interior. Rodeada de serras (Estrela, Gardunha, Malcata e Marofa), as vinhas, que ocupam uma área total de cerca de 16 mil hectares, estão normalmente plantadas em zonas planálticas ou de encosta, entre os 350 e os 750 metros de altitude, garantindo à Beira Interior o título de região vitivinícola mais alta de Portugal.
“Num clima continental, caracterizado por invernos frios e rigorosos e verões quentes e secos, a altitude pode fazer toda a diferença na fase mais crítica de amadurecimento das uvas amenizando os choques de calor. Por outro lado, a menor densidade atmosférica favorece a amplitude térmica entre o dia e a noite: noites frescas no verão é algo que os produtores de vinho adoram, pois permitem uma maturação menos apressada e mais equilibrada das uvas, conservando a sua acidez natural e outros compostos importantes.” (Site da CVRBI).
Portanto, altitude significa, sobretudo, acidez e frescura, “um bem raro e precioso nas regiões de vinho mais afastadas do litoral”, explica a entidade aos leigos – mas curiosos – como eu.
Vinhos portugueses do Dão: meus preferidos do momento
Estou muito longe de ser um influenciador no mundo dos vinhos, portanto as minhas preferências pouco valem. E, para piorar, elas mudam frequentemente. Mas agora tenho gostado mais dos vinhos do Dão, admito. Não sei se tenho feito melhores escolhas ou se dei sorte com os rótulos, mas o fato é que os tintos do Dão tem sido meus “queridinhos da hora”.
Segundo a própria entidade que representa os produtores da região, não é possível determinar com exatidão quando começou a prática da vitivinicultura no Dão. Mas, como em praticamente todas as outras, sabe-se que o vinho já era conhecido e produzido na região antes de Portugal ser Portugal.
Em 1908, aí sim quando o país já existia como tal, uma Carta de Lei estabelece formalmente a Região Demarcada do Dão.
De lá para cá, a produção viveu alguns altos e baixos: no início, ganhou fama pelos vinhos portugueses nobres, com elevado potencial de guarda e até com algumas semelhanças com a prestigiada região francesa da Borgonha.
No século XIX, antes da demarcação oficial, era exportados para o Brasil e até mesmo para a França. Décadas depois, já na segunda metade do século XX, a produção dos vinhos do Dão foi-se deteriorando, uma vez que se começou a apostar mais no volume de produção e menos na qualidade, conforme explica a entidade que representa os produtores.

A área geográfica atualmente identificada como sendo “Terras do Dão” possui, na verdade, duas Denominações de Origem: a DO Dão e a DO Lafões.
A primeira está cercada pelos picos e serras do Caramulo, do Buçaco, da Estrela e da Nave, uma importante barreira contra as massas úmidas do litoral e os ventos secos continentais.
Enquanto a DO Lafões um pouco mais ao norte, é uma pequena região de transição, entre as denominações do Dão e Vinho Verde, cortada pelo rio Vouga, com solos majoritariamente graníticos.
A região de Dão-Lafões é formada pelos municípios de Aguiar da Beira, Carregal do Sal, Castro Daire, Mangualde, Nelas, Oliveira de Frades, Penalva do Castelo, Santa Comba Dão, São Pedro do Sul, Sátão, Tondela, Vila Nova de Paiva, Viseu e Vouzela.
E como eu acabo associando a experiência do vinho a outros momentos que me trazem boas lembranças, isso talvez ajude a explicar a razão da minha atual queda pelos vinhos da região: não conheço todas essas cidades, mas de onde já estive – Oliveira de Frades, Santa Comba Dão, São Pedro do Sul, Viseu e Vouzela – guardo grandes momentos. Aliás, mesmo para os abstêmios, passear na região do Dão é delicioso.
Vinhos portugueses de Lisboa e suas 9 denominações de origem
Lisboa é uma das maiores regiões vitivinícolas do país em termos de área de vinha e de produção de vinho, se estendendo por uma faixa de terra que abrange todos os concelhos da faixa atlântica a norte do estuário do Tejo. É uma produção anual que ronda um milhão de hectolitros.
Mas o que chama mais atenção são as 9 denominações de origem espalhadas por essa grande região dos vinhos de Lisboa: Bucelas, Carcavelos, Colares, as três mais ao sul; Alenquer, Arruda, Torres Vedras e Óbidos, todas na região mais central; Lourinhã e Encostas d’Aire, a primeira mais junto ao oceano e a segunda mais ao norte.
A DO Carcavelos é a menor área produtora de vinhos portugueses, ao lado da vizinha e também pequena DO Colares, e uma das menores do mundo. De suas uvas saem os chamados vinhos generosos, aqueles mais adocicados, licorosos e com maior teor alcoólico.
Outro destaque da região é a DO Lourinhã, demarcada para Aguardente Vínica. É a única de Portugal e a 3ª em todo o mundo, ao lado das de Cognac e de Armagnac, ambas na França.
A Aguardente Vínica é obtida pela destilação de um vinho. Ela é usada, por exemplo, para a produção de vinho do Porto, num processo em que é adicionada para interromper a fermentação alcoólica e preservar a doçura natural da uva.
Assim, ao abrir uma garrafa de vinho do Porto, poderá ter em mãos uma bebida com DO Douro e também um pouquinho de DO Lourinhã (nem todos os vinhos do Porto, porém, usam a Aguardente Vínica de Lourinhã).
Ainda na grande região demarcada de Lisboa, a DO de Arruda tem histórias cativantes que vão além do vinho. O município de Arruda dos Vinhos, inserido na área delimitada que produz os vinhos com DO Arruda, tem uma personagem que já faz parte da história da região: a Bruxa da Arruda.
“Na cultura popular de Arruda ainda permanece na memória de uns e imaginário de outros a Bruxa da Arruda, a famosa curandeira, ou curandeiras, que segundo a tradição descendem de uma geração de mulheres da mesma família”, explica o portal da Câmara Municipal de Arruda dos Vinhos.
A Bruxa da Arruda era Ana Lerias, também chamada de Ana Loira, pelo tom dos cabelos. Dizem que viveu no final do século XIX e que deixou herdeiras com o mesmo dom e conhecimento das ervas para as curas. A história da bruxa segue sendo lembrada ao longo dos séculos e ainda hoje há quem se identifique como descendente da boa curandeira.
E para quem quiser saber mais sobre as bruxarias, as curas e as lendas, que tal passar por Arruda dos Vinhos e abrir uma garrafa produzida a partir da safra local? Os bons vinhos não se harmonizam apenas com alimentos, mas também com boas conversas. E se for sobre bruxas, melhor ainda.
As margens do Tejo: onde tudo começou
Não é exagero dizer que tudo começou no Tejo, um dos mais importantes rios que cruzam Portugal (apesar de nascer na Espanha, ele encontra o mar na região de Lisboa, percorrendo grande parte das terras portuguesas).
Do texto de apresentação do portal da associação que representa os produtores podemos tirar que “a arte de produzir vinho remonta a 2000 a.C., quando os Tartessos iniciaram a plantação da vinha junto às margens do rio que lhe dá o nome”. Ou seja, são mais de 4 mil de história!
Na Região do Tejo existem atualmente cerca de 20 mil hectares plantados de vinha, dos quais 60% são de castas brancas e 40% são castas tintas, segundo dados do IVV.
A região produz aproximadamente 665 mil hectolitros de vinho. Os vinhos com Denominação de Origem “Do Tejo” têm de ser provenientes exclusivamente de uvas produzidas dentro da área geográfica da DO “Do Tejo” e vinificados dentro da região, a exemplo do que é feito nas demais regiões do país.
De acordo com a entidade setorial, há ainda outros critérios para a denominação de origem “do Tejo”:
“os vinhos devem ser produzidos a partir de um conjunto de castas autorizadas pela DO e a sua produção é limitada, não sendo admitido mais do que 80 hl/ha para as uvas tintas e 90 hl/ha para as uvas brancas”.
Na minha já declarada limitadíssima experiência com os vinhos portugueses (a não ser como bebedor), sempre tive mais dificuldade em ter opinião formada sobre que tipo de vinho da região eu mais gosto, quais os rótulos mais representativos e por aí vai.
Mas não dei muita bola pra isso, pois achei que era realmente um “gap” meu, não do Tejo. Até que recentemente li artigo publicado no jornal Público e fiquei um pouco aliviado. Uma grande reportagem mostra como o Tejo tem avançado com uma revolução silenciosa:
“O Tejo será a região vitícola mais difícil de explicar aos consumidores. Produz vinho há séculos, e, ainda assim, não tem um perfil de vinho que faça alguém entrar num restaurante e dizer, com convicção, ‘Hoje apetece-me algo do Tejo e não me venham cá com propostas do Alentejo ou do Douro’”.
E parte desta revolução está centrada na volta da valorização das castas locais e na qualidade, em detrimento da quantidade. Então, se já teve alguma experiência com os vinhos do Tejo, certamente poderá perceber que há boas novas saindo das garrafas dos tintos e dos brancos, principalmente.
Ah, sempre vale lembrar que a região do Tejo não é apenas dos vinhos: há cidades, vilas e monumentos importantes. Aliás, todas as 12 regiões produtoras de vinho podem se gabar do gigantesco patrimônio histórico, arquitetônico e cultural que oferecem a todos que queiram se aventurar pelas suas terras.
Tomar uma boa taça de vinhos portugueses é apenas um pretexto para descobrir Portugal. Ou, para os mais fanáticos pelos vinhos, o contrário: descobrir Portugal é apenas um pretexto para, na verdade, experimentar os melhores vinhos.
E para não me estender muito no quesito atrações, cito apenas duas que estão dentro da região do Tejo: o Convento de Cristo, em Tomar, e as construções em estilo Gótico pelas ruas de Santarém, uma das 10 cidades mais baratas para viver em Portugal.
Península de Setúbal: terra do Moscatel, do choco e do Azeitão
Sei que estarei sendo injusto com a riqueza cultural e gastronômica da região, mas sempre que penso em Setúbal já salivo ao imaginar apenas um bom prato de choco frito, um queijinho do Azeitão e uma bela tacinha de Moscatel.
Não digo que tenha que ser tudo ao mesmo tempo, porque talvez nem harmonizem. Mas tento sempre incluir esse trio ao longo de um dia de passeio pela região.
A Península de Setúbal ganhou as primeiras castas trazidas pelos Fenícios e pelos Gregos. Depois vieram os romanos e os árabes, que deram grande incremento à cultura da vinha nesta península.
Situada no litoral oeste a sul de Lisboa, é nesta região vitivinícola que se produzem os famosos Moscatel de Setúbal e Moscatel Roxo de Setúbal.
Com uma área total de cerca de 9.500 hectares de vinhas, a viticultura local espalha-se pelos 13 concelhos que compõem o distrito de Setúbal, com maior incidência em Palmela, Montijo, Setúbal, Grândola e Alcácer do Sal. Em 1907, recebeu a demarcação da Região do Moscatel de Setúbal, a segunda mais antiga região demarcada de Portugal.
Os vinhos da Península de Setúbal podem ter duas Denominações de Origem: a DO Setúbal e a DO Palmela. A Denominação de Origem Palmela abrange os concelhos de Setúbal, Palmela, Montijo e, ainda, a freguesia do Castelo, no concelho de Sesimbra.
É a mesma área que a DO Setúbal, mas exclui a produção de Moscatel de Setúbal. Há vinhos brancos e tintos com DO Palmela, alguns dos quais bastante conhecidos do público brasileiro, como o vinho Periquita. Também são certificados com a denominação DO Palmela, vinhos rosados, espumantes, vinhos licorosos e frisantes.

A designação DO Setúbal abrange a mesma região dos vinhos produzidos com a DO Palmela, mas difere em relação ao tipo de vinho produzido, que é licoroso.
Na DO Setúbal são elaborados exclusivamente vinhos generosos (licorosos), conhecidos como o Moscatel de Setúbal e Moscatel Roxo de Setúbal, que devem ter pelo menos 85% da casta Moscatel de Setúbal ou Moscatel Roxo na sua produção.
Mas o Moscatel não é uma exclusividade de Setúbal. Aliás, já escutei algumas conversas acaloradas do tipo “o meu Moscatel é melhor que o seu”. Há duas regiões portuguesas que produzem o vinho Moscatel: além de Setúbal, o Douro.
O método de produção é igual nas duas regiões, ou seja, a interrupção da fermentação por adição de aguardente vínica, resultando num vinho doce e alcoólico. A diferença está basicamente na uva. Enquanto o Douro usa o Moscatel Galego, Setúbal produz a partir das variedades Moscatel Graúdo e o Moscatel Roxo.
Eu costumo ter uma garrafa de cada em casa. Bebo ambos os tipos sem qualquer preconceito e até mesmo sem saber diferenciar muito bem cada um deles. Nunca fiz uma degustação para valer em casa, provando um e outro. Tomo uma tacinha de vez em quando, principalmente agora no inverno.
Mas os que entendem mesmo dizem que os Moscatéis de Setúbal são mais frescos e com uma acidez mais vibrante, enquanto os Moscatéis do Douro costumam ser mais “potentes”.
Alentejo e as talhas de barro
Os personagens que fazem parte da trajetória dos vinhos alentejanos não diferem muito dos que já conhecemos. Fenícios, gregos, romanos, árabes e por aí vai. Segundo a associação dos produtores locais:
“é mesmo provável que a produção alentejana tenha proporcionado a primeira exportação de vinhos portugueses para Roma, a primeira aventura de internacionalização de vinhos portugueses!”
Mas a marca romana mais visível – e ainda hoje – é o aproveitamento das talhas de barro para a fermentação de mostos e posterior armazenagem de vinho, uma prática ainda viva em parte dos produtores locais. As talhas de barro de todos os tamanhos e feitios, que podiam chegar a conter 2 mil litros de mosto, mediam até quase 2 metros de altura.
Dos romanos para cá, passando pela invasão muçulmana e, posteriormente, pelas próprias crises e guerras internas no período em que Portugal já existia como país, a região viveu muitos altos e baixos.
Em 1988 regulamentaram-se as primeiras denominações de origem alentejanas, fundamento para o estabelecimento, em 1989, da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), entidade que, a exemplo das CVR “irmãs” das outras regiões, garante a certificação e regulamentação dos vinhos portugueses do Alentejo.
A região alentejana produz uma grande gama de vinhos tintos, brancos, rosês, espumantes, licorosos. Há rótulos como o Pêra Manca, que podem chegar a algumas centenas de euros (e eu aqui me vangloriando das minhas escolhas de até 5€), e se posicionam perto de outras marcas, como a Barca Velha, esta do Douro, que também bate fácil o preço em torno de mil euros a garrafa.
Há também as marcas que cabem no meu bolso e costumam estar sempre deitadinhas na minha modesta adega, tais como o Monte Velho e o EA (já peço desculpas aos entendidos mais refinados, mas para mim estão ótimos), dois que eu já bebia no Brasil.
Mas o Alentejo também se destaca por ser, em Portugal, o grande guardião dos vinhos de talha, produzidos a partir de técnicas que vêm sendo passadas de uma geração para outra desde a época dos romanos.
Os processos atuais podem trazer alguma inovação, mas a essência é a mesma de mais de mil anos atrás. De forma muito simples, as uvas são pisadas e esmagadas, antes de serem colocadas dentro das grandes talhas de barro, onde são mexidas de tempos em tempos e deixadas por lá para fermentarem.
Ao fim da fermentação, já saem como vinho destes grandes recipientes de barro. Minha explicação foi bem simples e resumida, mas quem tiver interesse em conhecer um pouco mais (e melhor), pode checar a animação no site da CVR Alentejo.
Ah, nem preciso dizer que o Alentejo também tem muito mais do que os vinhos. Uma região que reúne Évora, Monsaraz, Estremoz, Elvas, Arraiolos (sim, aquela da origem dos tapetes do mesmo nome), Marvão e tantas outras cidades e vilas deslumbrantes merece uma visita, nem que seja para só tomar água (duvido que consiga).
Quem disse que o Algarve é só praia?
Falamos em Algarve e logo vem à mente as praias, o tempo mais quente, o mar menos frio. Mas o Algarve também é vinho. Aliás, a região tem quatro Denominações de Origem: Lagoa, Lagos, Portimão e Tavira.
Lá na ponta sul de Portugal continental, o Algarve é uma zona bem definida, ao contrário de outras regiões que podem ter solo e clima distintos dentro de uma mesma área delimitada.
No Algarve, a proximidade do mar, o clima, a vegetação natural e a cultura marcada pela longa ocupação árabe são marcas relativamente homogêneas em toda a região.
É um clima marcadamente mediterrânico: quente, seco, com poucos ventos, amplitudes térmicas muito reduzidas e uma média de insolação acima das 3000 horas de sol por ano.
A Região Vitivinícola do Algarve tem hoje cerca de 1 427 hectares de Vinha – a segunda menor área de vinha em produção de Portugal. E apesar do caráter uniforme que marca a região, as particularidades existentes no litoral e na serra algarvia, originam a divisão em quatro regiões com Denominação de Origem.
A Denominação de Origem Lagos foi criada em 1990 e abrange os concelhos de Aljezur, Vila do Bispo e Lagos; a de Portimão foi criada em 1993 e engloba o concelho do mesmo nome; Lagoa, a mais antiga das quatro, é de 1983 e inclui os concelhos de Albufeira, Lagoa, Loulé e Silves; Tavira, a mais recente de todas (2001), abrange os concelhos de Faro, Olhão, São Brás de Alportel, Castro Marim, Tavira e Vila Real de Santo Antônio.
Na região do Algarve produzem-se vinhos tintos, brancos, rosados, espumantes e licorosos. E me dei conta, escrevendo esse artigo, que nunca experimentei um vinho do Algarve, nem mesmo nas poucas vezes que estive por lá. Enfim, vou ter que voltar!
Tanto a escrever sobre os vinhos portugueses
Tentei dar uma “pincelada” nas principais regiões dos vinhos portugueses, mas sei que há muito mais a ser dito (não falei dos vinhos Madeira, por exemplo), a ser explorado, e provavelmente por pessoas com muito mais propriedade do que eu.
Mas algumas das informações que aparecem neste texto – a maioria vinda de fontes como o IVV e as comissões que representam cada região, que se juntaram às minhas experiências e aventuras com uma taça na mão – talvez já sirvam de inspiração para que os leitores:
Quem sabe, juntem “a fome com a vontade de comer”(neste caso, com a vontade de beber) e partam para conhecer os vinhos portugueses através dos passeios pelo país.
Ou, como já sugeri lá no início, façam o contrário: saiam em busca dos vinhos portugueses e acabem descobrindo as outras belezas de Portugal.
Eu não posso dizer nem que sou um entendido amador. Pesquiso rótulos, vasculho as prateleiras dos supermercados, vejo promoções (e há sempre muitas), uso aplicativos que avaliam as melhores escolhas, pergunto para quem sabe mais, mas ainda tenho muito a aprender.

De qualquer forma, minha relação com os vinhos portugueses nunca foi tão prazerosa. Continuo sem ser um especialista, mas ainda acho lindo o rótulo rendado do Casal Garcia (e agora já posso ir além de apreciar o rótulo).
Encaro o friozinho com uma taça de vinho do Porto ou com um bom Moscatel, seja ele de Setúbal ou do Douro. Nos dias mais quentes, já misturo vinho do Porto com água tônica e umas pedras de gelo. E na cozinha? Uma tacinha de branco bem gelado quanto estou encarando o fogão e um tinto mais barato para marinar o lombo.
E umas histórias curiosas para encerrar: logo que cheguei por aqui fui fuçando o mercado em busca de oportunidades de trabalho e novas experiências.
Acabei sendo chamado para fazer figuração em dois pequenos filmes de uma campanha muito bacana de uma marca igualmente importante e que admiro muito. Adivinhem qual? Sim, Casal Garcia. Apareci em dois filmes curtos da marca, que foram veiculados apenas nas redes sociais. Mas eu estava lá, com muito orgulho.
Tempos depois, trabalhei numa agência de comunicação cujos principais clientes eram empresas do setor do vinho. Foram muitos eventos, produção de diversos materiais, feiras, degustações. Como produtor, levei algumas caixas de vinho de um lado para o outro, ouvi palestras, conheci gente bacana que vive com paixão o mundo dos vinhos. Que bom!
Um brinde a Portugal, esse pequeno gigante das vinhas, dos vinhos. E vamos beber com moderação e responsabilidade!
*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.