Lembrar como aprendi a falar francês me remete aos primeiros anos de minha carreira acadêmica, os dias em Paris e a vontade que eu tinha de me comunicar no idioma. Nesta coluna, divido com você meu percurso para entender a língua de Molière. C’est parti !
Tão difícil, mas tão lindo
Desde quando vi O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, me apaixonei pelo idioma francês. “Sans toi, les émotions d’aujourd’hui ne sont que la peau morte des émotions d’autrefois” foi a primeira frase que me fez prestar atenção na beleza da língua.
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INICIAR ATENDIMENTO →Lembro de tentar repeti-la com minhas amigas, mas o som que saia da nossa boca estava muito longe daquele que vinha da atriz Audrey Tautou. A pronúncia deste nome, aliás, me intrigou por muito tempo.
Um tempo depois, estourou nas rádios aquela famosa música de Carla Bruni, Quelqu’un m’a dit. Fiquei fascinada e ouvia sem parar. Eu não conseguia cantar junto e não entendia absolutamente nada do que ela falava, mas aquela sonoridade me levava para outra dimensão.
Um pouco de coragem, um pouco de criatividade
Apesar de admirar muito a beleza da língua, só fui buscar aprender francês mesmo quando entrei no Mestrado, em 2016. Em uma de minhas primeiras reuniões com meu orientador, ele me perguntou se eu conseguia ler textos no idioma.
Afinal, produções essenciais para o meu tema de pesquisa – a moda – estavam escritas em francês. Me vi sem muita opção e disse um corajoso “não sei ler, mas posso aprender”.
Eu tinha dois textos obrigatórios que eu deveria entender para aquele primeiro momento de pesquisa. Imprimi os textos em questão e mentalizei uma frase que eu ouvi de um amigo anos atrás:
“o francês tem a mesma raiz do português, a latina, então, com um pouquinho de criatividade, você consegue entender o que está escrito”.
Para ajudar, me matriculei em um curso comunitário do idioma oferecido em minha Universidade. Também me comprometi a comparecer em todas as aulas, além de fazer as extensas listas de exercícios.
Com algumas semanas, muito esforço e várias visitas ao Google tradutor, consegui finalizar os dois artigos indicados pelo meu orientador. Achei divertido a saga para finalizar a leitura, e comecei a me arriscar em outros artigos. E foi assim que começou minha trajetória com o idioma.
Primeiros passos de como aprendi a falar francês
Pouco tempo depois, enquanto confabulávamos sobre o melhor lugar para fazer um estágio de pesquisa, ele sugeriu Paris. Novamente, me vi sem muita opção a não ser concordar (quem em sã consciência negaria um Mestrado na França?), e disse um outro corajoso “não sei falar, mas posso aprender”.
Ainda que a bolsa de estudo que eu receberia não exigisse uma proficiência da minha parte, eu sabia que era preciso ter um domínio mínimo do idioma para que eu conseguisse aproveitar bem minha estadia no país. Continuei estudando por conta própria e com a ajuda das aulas, no fim de 2017, já conseguia ler mais, entender e falar melhor uma coisa ou outra.
Isso não impediu o choque linguístico quando cheguei para morar na capital francesa. Eu até conseguia me arriscar em alguns diálogos simples, mas assim que a coisa aprofundava, eu me perdia nas informações.
Minha primeira conversa em francês foi exatamente assim: eu, com toda coragem do mundo, duas malas de 23kg nas mãos e um celular sem internet, perguntei a um senhor como chegar em determinado lugar.
Usei o vous certinho, verbo no condicional, inversão verbo sujeito. Ele me entendeu e respondeu. Mas, quem não entendeu fui eu! Situações como essa se repetiram inúmeras vezes. E de duas, uma: ou eu misturava o francês com o inglês, ou eu começava a falar em francês, mas precisava finalizar o diálogo em inglês por não entender.
Dicas do professor para aprender francês
Foi em uma dessas que resolvi retomar as aulas, dessa vez particulares, com um professor nativo. Para além de ensinamentos maravilhosos, ele me deu algumas dicas que fizeram muita diferença em como aprendi a falar francês.
A primeira delas foi a compra de um livro chamado Grammaire Progressive du Français. Ele sugeriu que eu fizesse pelo menos uma página de exercícios por dia, e eu segui o conselho.
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Abrir Conta Multimoeda →Uma outra dica que ele me deu foi que eu prestasse atenção aos sons ao meu redor: nas conversas em minha volta, nos programas de televisão, nos anúncios do transporte público.
Nessa época, aboli completamente o fone de ouvido e andava nas ruas atenta a tudo, tentando entender o máximo possível de conversas alheias e a forma de pronunciação. No metrô, eu repetia baixinho o nome das estações e prestava atenção no som que cada conjunto de vogal formava. Em casa, deixava ligado programas de notícias ou podcasts na língua.

Por fim, meu professor sugeriu que tentasse o máximo possível me comunicar em francês, o que foi realmente essencial não apenas para minha produção oral, como para minha compreensão. Em situações em que falavam em inglês comigo, eu explicava que estava estudando francês e que gostaria de praticar a língua, por exemplo.
Outra coisa que percebi que ajudava era não apenas me atentar ao som, mas também na boca da pessoa que falava – não à toa, eu morria de medo de atender o telefone. O fato de não ver a boca do meu interlocutor se mexendo me fazia ter a impressão de que seria impossível entender qualquer coisa!
Listas e mais listas de exercícios
Posso dizer que ao fim desse meu primeiro intercâmbio na França, eu já tinha aprendido bem a falar francês. A compreensão era bem mais clara, eu lia muito na língua, fazia todos meus fichamentos no idioma e me arriscava um pouco mais na produção oral – ainda que sentisse vergonha de conversar e cometer algum erro.
Quando voltei para o Brasil, em meados de 2018, tive que parar o curso particular. Mas, resolvi seguir fazendo os exercícios de minha Grammaire: finalizei o livro A2-B1, que eu havia comprado. Segui para o B2 e, depois, para o C1-C2. Eu continuei fazendo, ao menos, uma página por dia, religiosamente.

Mais do que uma vontade ou necessidade de aprender, eu sentia falta da língua. Era saudade do som, de escrever, de ler as placas das ruas ou ouvir os anúncios publicitários.
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INSCREVER GRÁTIS→Então, junto da Grammaire, comecei a fazer o famigerado Duolingo e zerei as lições de francês. Imprimia listas e listas de exercício e me divertia!
Também passava algumas horas ouvindo músicas antigas francesas e lendo as letras, para acompanhar. Me apaixonei por Edith Piaf, Charles Aznavour e Françoise Hardy. Descobri YouTubers, podcasts, séries e filmes.
Uma paixão compartilhada
Fiz muitos exercícios da Rosetta Stone, indicação do meu companheiro, que também estava dedicado em seus estudos da língua. Isso permitiu com que a gente trocasse muito em francês, descobrisse novas palavras e fizesse do francês uma coisa que também era nossa. O idioma virou uma verdadeira paixão compartilhada!
Dividimos algumas horas de estudos, e a gente se ajudava: ele, falando das palavras novas que aprendia, e eu, das regras gramaticais que havia decorado.
Lembramos até hoje, rindo muito, de como demorávamos para entender algumas palavras nos áudios dos exercícios, como ski nautique ou trait-d’union. Ou ainda, das regras de pronunciação do “s” no plus, ou da dificuldade em pronunciar a junção de certas consoantes.
Com ele, entendi o significado de aprender algo par coeur, isto é, pelo coração. Entendi também que aprender a falar francês junto de alguém que você ama é bem mais divertido!
Como aprendi a falar francês? Ensinando!
Em 2019, frente ao fim do mestrado e a necessidade de começar um novo emprego, resolvi me candidatar em uma escola de idiomas para uma vaga de professora de francês.
Fui aprovada e, a partir daí, descobri que eu também conseguia matar a saudade do idioma de outra forma: ensinando. Na mesma época, resolvi me matricular em um curso preparatório para o DALF, o exame oficial de proficiência para a língua francesa.
Após conseguir o diploma de DALF C1, passei um tempo me dedicando somente ao ensino do idioma: fui sendo chamada para trabalhar em outras escolas e alunos particulares apareceram. Ao final de 2020, eu dava aulas para crianças, adolescentes e idosos; em turmas online e presencial; animava ateliês de conversação e montava aulas de gramática.
Olhando em retrocesso, percebo como essas experiências em sala de aula foram essenciais para aprender a falar francês. Foi por elas que eu me organizei para estudar o suficiente para saber ensinar. E mais que isso, foi por conta delas que pude continuar falando em francês praticamente todos os dias da semana.
Voltando muito mais preparada
Quando retornei a Paris 4 anos depois, eu cheguei sedenta para falar em francês. Já contei em outra coluna que o destino me colocou nas situações mais estranhas e confusas, e em pouco tempo, eu pude matar a saudade de conversar no idioma.
O doutorado na França exigia uma carga maior de leitura, de escrita e habilidades de comunicação, mas eu me sentia segura na língua, conseguia me articular bem, ainda que com um ou outro deslize.
Passei a frequentar ateliês de conversação e não perdia a oportunidade de conversar. Mas, não é porque eu aprendi a falar francês que significa que os perrengues com a língua acabaram!
Os perrengues continuam, mesmo após anos de estudos
Quem já teve a oportunidade de conversar com um francês adolescente ou com um jovem adulto deve saber do que estou falando. Eles não apenas falam muito rápido (para um estrangeiro entender, claro), como usam uma série de gírias que, eu pelo menos, levo um tempo para entender.
É como se houvesse um francês que aprendemos nas escolas e outro falado na rua.
Foi com essa faixa etária específica que tive minhas maiores dificuldades, mais precisamente, em situações de atendimento.
Uma vez, enquanto fazia meu pedido no caixa de um restaurante, solicitei não sei quantas vezes para que o atendente repetisse o que ele havia dito: era “fontaine d’eau” (fonte de água, em português), e ele queria informar que havia uma disponível dentro do estabelecimento.
Em outra vez, na boulangerie, a atendente me perguntou “ça sera tout ?” (“isso será tudo?” em tradução literal) para saber se eu queria mais alguma coisa além do que havia pedido. Demorei tanto para entender que um outro cliente teve que intervir em inglês para me ajudar!
Para além da rapidez na fala (que dá a impressão de que menos sílabas que o normal são pronunciadas), há ainda o hábito que os franceses têm de cortar as palavras. Professeur, vira prof; restaurant vira restau; à plus tard vira à plus; comme d’habitude vira comme d’hab; hebdomadaire vira hebdo.
Junte tudo isso e você tem a receita para um estrangeiro que mora na França ficar completamente perdido!
Confira no Instagram do Euro Dicas algumas expressões de países europeus que podem te pegar de surpresa!
Eterna estudante
Após bons anos estudando a língua, posso dizer que aprendi a falar francês, mas falo do meu jeito: em uma velocidade confortável para mim, com meu sotaque de brasileira, sem muitas gírias, nem cortes nas palavras.
Sigo estudando e tendo contato com a língua o máximo que minha rotina permite. Sou realmente apaixonada por ela – o que não é de se espantar, visto que nasci no mesmo dia em que se comemora a francofonia!
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