As cenas observadas no Reino Unido pareciam saídas de um filme, ou ao menos não era uma situação que eu esperava presenciar vivendo em um país desenvolvido como a Inglaterra. No entanto, na última semana de setembro de 2021, a maioria dos ingleses precisou enfrentar o caos: longas filas de carros se formaram nos postos de gasolina da Inglaterra, com britânicos preocupados em comprar combustível rapidamente. Um dos motivos que levou a população a agir de forma desesperada foi o anúncio do fechamento temporário de alguns postos de gasolina no país. Mas será que realmente existe uma crise de abastecimento na Inglaterra?

Acompanhe o nosso artigo e descubra os reais motivos da crise interna enfrentada pela Inglaterra e os demais países do Reino Unido. Além disso, confira quais são as principais medidas que estão sendo adotadas pelo governo britânico para contornar essa situação.

Existe uma crise de abastecimento na Inglaterra acontecendo nesse momento?

Conforme o governo britânico, não há falta de combustível nas refinarias no país e a população pode abastecer seus tanques como de costume. Portanto, não haveria razão para pânico ou consumo excessivo de combustível. Mas não é isso que cidadãos comuns presenciam nas últimas semanas de setembro.

O fato é que, no dia a dia, a situação parece ser bastante diferente e o motivo é bastante claro. Vários setores da economia enfrentam uma crise de abastecimento interna provocada pela escassez de caminhoneiros no país. A falta de mão-de-obra acarretou a interrupção das entregas de combustível nos postos, assim como de alguns alimentos e suprimentos em supermercados e indústrias.

Falta diesel na Inglaterra
Imagem de Posto de Gasolina sem Diesel na Inglaterra

Estima-se que o Reino Unido tem um déficit de 100 mil caminhoneiros, segundo levantamento da Road Haulage Association (RHA). Embora os países do Reino Unido já enfrentassem a escassez desses profissionais, o cenário foi agravado nos últimos anos por diversos fatores como o Brexit, pandemia de Covid-19 e falta de incentivos públicos para atrair mão-de-obra em setores específicos para o país.

Aliás, acompanhando as notícias desde antes da saída oficial do Reino Unido do bloco europeu, diversos especialistas e líderes de setores como construção civil, serviços e saúde pública já alertavam sobre a possibilidade de escassez de mão-de-obra devido ao Brexit. Muito se falou, mas a realidade é ainda mais dura do que as notícias divulgavam, especialmente com a crise causada pela pandemia.

Setores mais afetados

Certamente a escassez de mão-de-obra afeta a economia na totalidade. Mas, além da visível falta de combustível nos postos de gasolina, outros setores da economia também sentem o impacto pesado dessa crise de abastecimento. Dentre eles, podemos citar:

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  • Petrolíferas;
  • Supermercados;
  • Lojas;
  • Restaurantes;
  • Fast food;
  • Redes de varejo;
  • Indústrias de alimentos.

Conversando com amigos e conhecidos, eu pude realmente perceber que o problema era real e muito mais grave do que eu imaginava. E, até o momento, poucas pessoas conseguem achar alguma solução a curto prazo.

Atrasos nas entregas são frequentes

Nos últimos dias, várias empresas da Inglaterra relataram problemas de abastecimento devido ao atraso frequente de alguns insumos. Inclusive algumas delas interromperam o funcionamento do estabelecimento devido a esse problema.

Uma delas foi a rede de restaurante Nando’s, que fechou 50 estabelecimentos após ficar sem carne de frango. Algo semelhante ocorreu em 1.200 lanchonetes do McDonald’s na Inglaterra, País de Gales e Escócia , que suspenderam as vendas de ‘milkshakes’ e bebidas engarrafadas.

Também há reclamações de problemas no setor industrial e varejista no país. Na última semana de setembro, a gigante indústria de laticínios Arla precisou reduzir a entrega de leite aos supermercados por falta de caminhoneiros. A fábrica de doces Haribo também enfrenta problemas semelhantes.

E o problema vai além. A escassez de motoristas também impacta o abastecimento de insumos médicos em clínicas e outros estabelecimentos de saúde, com relatos sobre a falta de vacinas e atrasos no calendário de vacinação.

“Eu tentei fazer um agendamento para vacinar o meu gato, que seria agora em outubro, mas precisou ser remarcado para dezembro por falta de vacina”, explica Creusa Mason.

Segundo ela, a notícia é que a combinação de Brexit e falta de motoristas no Reino Unido está dando muitos problemas.

O que está causando a crise de abastecimento na Inglaterra?

Como já mencionado anteriormente, são vários fatores que estão causando a crise de abastecimento na Inglaterra. A pandemia é um dos principais deles. As restrições do isolamento social em 2020 e 2021, e o fechamento de alguns setores da economia, fizeram com que muitos motoristas europeus saíssem do Reino Unido. Isso agravou a escassez de caminhoneiros no país.

As medidas de isolamento influenciaram no processo de habilitação para condução de cargas pesadas, reduzindo assim a quantidade de caminhoneiros treinados para trabalhar no país. Segundo fontes da BBC, em 2020 haviam 25 mil candidatos a menos para realizar os testes de habilitação, se comparado com 2019.

A escassez dessa mão-de-obra no Reino Unido também é influenciada por fatores internos como o envelhecimento da força de trabalho, composta majoritariamente por homens brancos com mais de 55 anos. Além disso, os baixos salários e más condições de trabalho pioraram a situação.

William Teather, inglês que mora na cidade de Corby, interior da Inglaterra, explica:

“Não é a primeira vez que a gente vivencia uma situação semelhante a essa: longas filas em todos os postos de gasolina da cidade e cidades vizinhas, sem combustível e com bombas fechadas. Nós vivemos uma crise de combustível e o desespero da população para comprar o produto em 2000, quando as refinarias foram bloqueadas devido ao aumento dos preços dos combustíveis”.

Existe relação com o Brexit?

Sim, as novas medidas do Brexit, definitivamente, contribuíram para o agravamento da crise.

Quando o Reino Unido fazia parte da União Europeia, os motoristas tinham livre acesso para trafegar entre os países. Notícias recentes também afirmam que estão faltando cerca de 100 mil motoristas de caminhão no Reino Unido, sendo que 20% desse número são motoristas que deixaram o Reino Unido após o Brexit.

No entanto, após o Brexit, a burocracia nas fronteiras se tornou mais rigorosa e isso afetou a entrada e saída dos caminhoneiros. Ademais, como muitos motoristas são pagos por quilômetro percorrido, e não por hora, a demora nas fronteiras impactam no recebimento desses profissionais.

Além da burocracia, a desvalorização da libra em relação ao euro desde o início do Brexit tornou o trabalho no Reino Unido menos atraente para os motoristas da União Europeia. Isso, sem dúvida, agravou essa crise de abastecimento na Inglaterra.

O que o Governo tem feito para contornar a crise de abastecimento na Inglaterra?

O governo anunciou diversas medidas para contornar a crise de abastecimento na Inglaterra. Uma das soluções propostas é manter o exército britânico em stand-by e realizar uma força-tarefa com os militares, caso haja a falta de combustível para serviços essenciais. Contudo, para atuar nesse cenário, os militares serão treinados para realizar a entrega de combustível nas regiões mais necessitadas do país.

Outra medida anunciada é a suspensão temporária da lei de concorrência. A expectativa é que isso facilite a comunicação entre as empresas e o compartilhamento de informações sobre o fornecimento de combustível. Dessa forma, torna-se mais fácil identificar as regiões do país que mais sofrem pela falta de abastecimento e atuar pontualmente nelas.

Também serão realizadas campanhas de mobilização para essa categoria. O governo pretende enviar milhões de cartas para motoristas com licença HGV válida com o intuito de encorajá-los a retornarem ao trabalho.

Além disso, o secretário dos Transportes do Reino Unido, Grant Shapp, também pediu a colaboração dos empregadores para que eles ofereçam melhores salários e condições de trabalho aos caminhoneiros. A longo prazo, o governo também pretende estimular a capacitação de novos motoristas.

crise de abastecimento
Print do Site Aldi, que informa quebra em entregas

Boris Johnson considera flexibilizar as regras dos vistos para caminhoneiro devido à escassez de profissionais

Na tentativa de combater a crise, o primeiro-ministro Boris Johnson anunciou uma flexibilização nas regras do visto para essa categoria profissional. A expectativa é oferecer vistos temporários com validade de três meses, entre outubro a dezembro de 2021, para 10,5 mil motoristas de caminhão de alguns setores da economia.

Desse total, cinco mil vistos serão destinados para caminhoneiros de diversos setores, especialmente os de transporte de alimentos estrangeiros. Portanto, os outros 5,5 mil vistos serão reservados para motoristas de avicultores durante o período que antecede o Natal.

Infelizmente as notícias são reais e ainda não se sabe quais as demais consequências da crise de mão-de-obra e seu efeito cascata quase devastador. Se falta combustível, pode faltar comida? Durante uma consulta de rotina na clínica da minha cidade, eu ouvi a recepcionista ao telefone afirmar que eles só estavam marcando exames de sangue para cirurgias e emergências porque estão faltando tubos para coleta.

O que fazer nesse momento? Eu me fiz essa pergunta algumas vezes e já ouvi conselhos para antecipar as compras de Natal caso a situação piore. A situação pode ficar pior? Pode, mas o que nos resta é torcer para que o governo também faça a sua parte e tente tirar a Inglaterra, e o Reino Unido, da situação que se encontram agora.