Morar no país da bota pode ser sinônimo de um estilo de vida mais lento, principalmente em cidades menores, onde o caos passa longe. Essa fuga da correria do dia a dia me levou a evitar dirigir e preferir cidades em que fosse possível me locomover a pé. Por isso, afirmo: viver na Itália sem carro é possível!
Mas não vou negar que abrir mão do carro é difícil. A Itália é um país movido a carro, não há como negar esse fato. Aqui, compartilho parte da minha experiência!
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TORNE-SE CIDADÃO ITALIANO→Viver na Itália sem carro é possível ao se deparar com a falta de estacionamentos
Em algumas cidades, como Bolonha, Turim ou Milão, é muito mais fácil viver sem carro. Ou até mesmo Roma, onde as reclamações sobre o transporte público são comuns, assim como o trânsito!
No geral, é mais difícil achar estacionamentos particulares, como no Brasil. Os estacionamentos, aqui, são simplesmente zonas azuis. Se é difícil nas grandes cidades, vocês podem imaginar em cidades pequenas o quão concorrido são essas vagas!
Prédio sem garagem e a ZTL
Outro problema é que nos centros históricos, quase não há prédios com estacionamento. É comum, portanto, deixar o carro na rua. Caso você for morador do centro, você precisa pagar o acesso à “ZTL”, ou zona di traffico limitato.
Como o próprio nome diz, é uma parte da cidade onde o acesso é proibido a carros e meios de transporte que não sejam coletivos. Pagando a taxa municipal da ZTL, moradores podem atravessar essa zona sem problemas, dando direito também a parar o carro próximo à própria residência.
É por esses motivos que viver na Itália sem carro é possível. Contudo, muitas famílias acabam se mudando do centro histórico para os subúrbios para viver em prédios novos, ter estacionamento, área verde e preços mais acessíveis.
Cadê as calçadas nesse país?
Caminhando muito a pé, outra coisa que notei em muitas cidades italianas é que, do nada, a calçada deixa de existir. Sim! Você está numa parte da cidade “normal”, avenida, casa, lojas, calçada. De repente, a calçada acaba. E você precisa caminhar no meio da rua.
Eu nunca entendi muito bem o motivo, mas recentemente reparei que as cidades italianas, fora do centro histórico, são quase avessas à ideia de caminhar.
Os italianos e sua mania de carros!
Segundo os dados do Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat), publicado em 2024, a Itália é o país europeu com maior número de carros no continente. Por exemplo, ao olharmos o ranking das dez regiões europeias com maior número de carros por mil habitantes, seis se encontram na Itália.
A campeã é o Vale de Aosta, no norte, com aproximadamente 2,34 carros para cada habitante.

O motivo? Acho que são muitos, todos juntos. No caso acima, basta olhar o mapa da Itália que ficará claro o paralelo entre infraestrutura ferroviária e número de carros por habitantes. É uma região montanhosa, o que por si só dificulta a construção de infraestruturas no geral.
Outro motivo que “pesa” bastante é o cultural. Assim como no Brasil, na Itália também existe o hábito de utilizar o carro para fazer (quase) tudo. Lembrando que, por décadas, boa parte da economia italiana foi baseada na indústria automobilística. Temos a Fabbrica Italiana Automobili Torino, fundada em Turim em 1899, a Lancia em 1906, a Ferrari na década de 1940, e assim por diante.
Mas e o trem?
Esqueça o estereótipo do país do trem, nas imagens que víamos quando crianças nas novelas das 9h. A ferrovia estatal, a famosa Trenitalia, funciona bem no norte do país. Já do centro para baixo, os serviços de transporte ferroviário deixam a desejar.
Quando viajo, já sei que chegarei atrasada, porque a Trenitalia raramente é pontual. O horário é indicativo, você sabe que chegará em seu destino depois do horário escrito no bilhete. Teve até uma vez que o trem saiu 30 minutos antes do horário previsto para “chegar no horário” na estação final. Não faz muito sentido, não é mesmo? Mas saiba que isso realmente aconteceu.
Quando preciso pegar outro meio de transporte, como ônibus ou avião, eu sempre calculo 1 hora de atraso. Principalmente se eu precisar pegar um “Regionale” ou “Regionale Veloce”, os quais são os trens mais comuns, que atravessam as regiões e cidades do país afora.
No geral, os trens atrasam bastante, ou não chegam nas cidades pequenas da Itália. Ou, ainda, você precisará fazer algumas (leia-se muitas) baldeações, o que pode se transformar numa viagem cansativa.
Mas não pense que os tens de alta velocidade, chamados Frecciarossa, Frecciargento e Frecciabianca, estão imunes aos atrasos. São apenas 1100 km de malha ferroviária de alta velocidade dos quase 24600 km totais no país. A maioria dessas estações encontra-se no norte do país.
Também devido a atrasos frequentes e pela falta de flexibilidade nos horários, além, claro, do tempo de viagem longo, muitos italianos preferem viajar de carro.
Eu mesma me sinto muito limitada ao ter que confiar e programar todas as minhas viagens pelos trens. Digo que viver na Itália sem carro é possível, mas sinto ter perdido um tanto de coisa porque não estava de carro.
Às vezes, a concorrente compensa
Além da Trenitalia, há também o Italo Treni, companhia ferroviária privada, concorrente da estatal. A empresa oferece somente serviços de alta velocidade, não existindo viagens de trens regionais.
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INSCREVER GRÁTIS→Portanto, há menos opções do que a Trenitalia. Se você for viajar de uma cidade grande para outra ou até mesmo na costa tirrênica (principalmente de Roma para a Calábria), a Italo pode ser uma boa opção.
Viver na Itália sem carro é possível se usar os ônibus!
Em algumas regiões da Itália, principalmente se a ferrovia for quase inexistente e só ligar as cidades principais (e olha lá), a melhor opção é pegar ônibus turístico. O que faço é utilizar empresas locais ou internacionais, como Flixbus.
Em alguns contextos, os ônibus são mais rápidos, pontuais e baratos do que os trens. Lembro que, quando morava em Perúgia, preferia pegar um Flixbus até Florença ou Roma do que o trem.
Eu nunca peguei trem noturno, mas já ouvi relatos não muito convincentes. Não tanto por ser perigoso, mas por ser sujo, às vezes desconfortáveis — não que os ônibus noturnos sejam diferentes.
Linhas low cost podem ser boas aliadas
Algumas linhas low cost podem ser atrativas, tanto pelo preço como pelas rotas. É o caso da famosa Flixbus, mas vale a pena mencionar também a Itabus e a Omio, plataforma que reúne diversos meios de transporte, incluindo as linhas low cost. Há muitas paradas no norte da Itália, inclusive conectando cidades e aeroportos.
Dependendo do destino, é melhor pegar avião
Romântica a ideia de ir até a Puglia de trem, mas dependendo de onde você for partir, vale mais a pena ir de avião mesmo. A Itália é um país pequeno, mas é muito cumprido, atravessado pelos montes Apeninos, o que significa que atravessar algumas regiões é um pouco mais difícil.
Isso sem contar nos destinos como Sicília e Sardegna. Até dá para ir de ferry, mas saiba que é uma longa viagem e nem sempre econômica.
Alternativas como BlaBlaCar
Já usei muito BlaBlaCar, achei seguro e econômico. Acho que vale a pena quando você tiver que ir para algum lugar onde o trem não chega — como em Urbino, onde estou morando na Itália.
Pode ser mais confortável também, já que você não precisa ficar fazendo baldeação com mala pesada.
E como me locomovo?
Eu só uso transporte público na Itália. Todas as opções que citei acima são frutos da minha experiência pessoal. Eu não tenho carro e não dirijo há muito tempo, então acabo sempre utilizando, principalmente, trem e ônibus.

No dia a dia, faço tudo a pé (vantagem de morar em cidade pequena), e se preciso ir até algum bairro mais longe, pego o ônibus.
E tenho muitos amigos com carro, então acabo ganhando muita carona também, principalmente aos fins de semana, quando dá aquela vontade de passear.
Um grande perrengue sem carro: mudança!
Viver na Itália sem carro é possível, mas o maior perrengue que vivi morando no país e sentindo falta de ter um veículo foi, de longe, a minha primeira mudança na Itália. Até o serviço de carreto, por exemplo, é caro aqui. Se eu tivesse carro, ou pudesse ao menos dirigir, teria evitado muita dor de cabeça — e claro, teria evitado incomodar meus amigos.
Mas por sorte, são pessoas pacientes e iluminadas, e me deram uma grande ajuda. Foram vários deles, e fica aqui o agradecimento em público: Grazie, Maristella, Lilian, Matteo, Riccardo ed Emilie!
Por que não dirijo?
Digamos que eu já não dirigia antes de trocar São Paulo por Perúgia. Sempre usei meio de transporte, principalmente metrô e Uber. Quando me mudei para a Itália, não consegui renovar a CNH — na época, você só podia entrar com pedido de renovação quando a carteira tivesse vencida. Como fiquei muito tempo sem voltar para o Brasil, não consegui dar entrada à conversão da carteira.
Inclusive, recentemente, a formalização da renovação do acordo entre Brasil e Itália para o reconhecimento mútuo das carteiras de habilitação deu mais um passo e está em análise pelo Senado Brasileiro.
Estamos todos no aguardo (apesar de meu caso ser um pouquinho mais complexo, já que sou residente na Itália há mais de 6 anos, limite previsto pela Motorizzazione civile, o Detran brasileiro).
E então, viver na Itália sem carro é possível?
Dá, mas não é tão simples, admito.
A comodidade que o carro oferece é incomparável. Quase todo dia me deparo com olhares surpresos ou até mesmo de pena quando digo que não dirijo ou não tenho carro. Acho que isso tem muito a ver com o quanto o carro faz parte da vida das pessoas — e nós, brasileiros, sabemos bem como é isso.
Frases como “Ah, você não tem carro?” ou “Ah, você não pode dirigir aqui?” são mais comuns do que eu imaginava.
Nos últimos anos, principalmente depois da guerra na Ucrânia, a inflação disparou e os combustíveis ficaram ainda mais caros. Além disso, muitas cidades italianas sofrem com a falta de vagas para estacionar. Isso sem falar no seguro obrigatório, que pesa no bolso, ainda mais em um país onde parcelar não é tão comum como no Brasil.
Apesar disso, quando decidi morar na Itália, escolhi viver em uma cidade onde pudesse fazer tudo a pé, sem depender de carro para me locomover. E, por enquanto, tem funcionado bem. Mas a vida muda, e sei que talvez meu estilo de vida precise se adaptar nos próximos anos. Até lá, vou vivendo e compartilhando essas experiências com vocês.