Viver uma experiência no exterior, seja viajando ou estudando, é um assunto comum entre boa parte dos brasileiros. Muitos, como eu, inclusive, acabam seguindo o caminho de intercambista a residente, transformando uma experiência temporária em um novo estilo de vida.

Residente admirando a paisagem de Dublin
Índice De intercambista a residente e como tudo começou Rede de apoio é essencial Poder de compra e viagens Um pouco do Brasil na Irlanda Nem tudo são flores (nem pints) Depois de ser intercambista e virar residente, ainda tem muito ciclo para viver por aqui

Seja pela vontade de aprender outra língua, buscar melhores oportunidades, o conforto de viver em um local mais seguro e com melhor poder de compra. Enfim, são inúmeros os motivos que nos mantêm a milhares de quilômetros do nosso país nativo. Neste texto, compartilho como essa transição aconteceu comigo e por que, mesmo com os desafios, decidi ficar de vez na Irlanda.

De intercambista a residente e como tudo começou

Desde que terminei a faculdade em 2015 comecei a mapear minhas opções, pois tinha o sonho de fazer um intercâmbio na Irlanda. O país sempre esteve no topo da lista.

Claro que o clima chuvoso e cinzento para uma pessoa que ama sol e calor deixava um pouco de dúvida. Mas em 2022, após um tempo de espera por conta da pandemia, me despedi da família para embarcar em uma aventura que, até então, seriam oito meses morando fora. 

“Você vai voltar em menos de um ano!”

Se eu tivesse feito uma votação ou aposta entre todos os amigos e familiares, a maioria teria dito que eu com certeza voltaria rapidinho e que não aguentaria ficar longe de casa.

Muito pelo fato de eu ter uma família muito unida, que se reúne todos os finais de semana na casa da minha avó, uma família festeira que ama estar junto. 

Mas o inesperado aconteceu: já estou há 3 anos morando na Irlanda. E então surge a pergunta inevitável: como decidi ficar de vez? Vou te contar.

Rede de apoio é essencial

Me mudei para Dublin em abril de 2022, sozinha e sem conhecer ninguém aqui, em um período um pouco delicado, pós-Covid, com uma crise imobiliária agravada. Mas logo no meu primeiro dia conheci pessoas legais no walking tour que a agência de intercâmbio promovia.

A partir dali, criei minha conexão mais forte por aqui — uma amizade que me apresentou outros grandes amigos na Irlanda.

Essas conexões iniciais são preciosas, principalmente nos primeiros meses. São elas que irão te ajudar com documentação, tradução, moradia ou emprego, até tornar a experiência menos solitária.

Grupo de amigos fantasiados no Halloween em Dublin
O Halloween tem raízes irlandesas, e viver essa tradição cercada de amigos fez tudo ter ainda mais sentido e menos saudade. Foto: Bianca Evangelista.

Afinal, se o seu sonho for deixar de ser intercambista na Irlanda para virar residente, serão muitos natais, aniversários e datas especiais longe de quem a gente ama. Compartilhar as dores e os amores faz tudo ficar mais leve.

Receptividade irlandesa

Por mais que a Irlanda e o Brasil tenham muitas diferenças culturais, o povo irlandês é “caloroso” com os brasileiros, e também adoram uma boa festa.

Claro que há uma parcela da população que tem na mente que o imigrante é o maior culpado por certos problemas do país, no entanto, aqui a maioria é bem receptiva e respeitosa conosco, principalmente os empregadores, que costumam gostar do perfil ‘hardworking‘ do brasileiro. 

As minhas experiências trabalhando para irlandeses sempre foram positivas. Fui praticamente a primeira brasileira a trabalhar no pub que estou atualmente e entre os muitos irlandeses e alguns romenos.

Os clientes regulares, que são locais e vão ao bar há mais de 60 anos, aceitaram com respeito e paciência a minha chegada no pub. Sempre me ensinaram muito e tiveram paciência com o sotaque ou com as minhas primeiras pints de Guinness colocadas.

Pints de cerveja Guinness em pub irlandês
Pints cheios, corações abertos e os pequenos gestos que tornaram o pub que trabalho um lugar de acolhimento. Foto: Bianca Evangelista.

Os colegas de trabalho também me acolheram tentando fazer parte do meu mundo e me mostrando também mais a fundo a cultura irlandesa.

Obviamente esses são relatos pessoais, mas no geral ouvimos dos brasileiros que os irlandeses gostam da gente.

Poder de compra e viagens

O salário mínimo na Irlanda é um dos mais altos do mundo (13,50€ por hora). Isso impacta diretamente no poder de compra e impressiona logo nos primeiros dias.

Coisas que no Brasil pareciam inacessíveis — roupas, eletrônicos, cosméticos — aqui podem ser adquiridas com poucas horas de trabalho.

Além disso, há uma facilidade de deslocamento para outros países através das empresas aéreas low cost. Muitas vezes uma ida para outro país custa menos do que uma corrida de táxi até o centro de Dublin.

Sendo assim, dependendo da sua organização financeira, não será muito difícil visitar alguns países (e isso vale tanto para residente quanto para intercambista, viu?).

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Um pouco do Brasil na Irlanda

Não dá para negar: às vezes parece ter mais brasileiro na Irlanda do que o próprio irlandês por aqui. Isto pode ser uma desvantagem se o foco é realmente aprender e falar inglês morando na Europa.

Por outro lado, é bem reconfortante saber que sempre que bater uma saudade de casa terá como resolver. Afinal, quase 5 milhões de brasileiros deixaram o país até 2023 e se aventuraram a viver longe de casa — e muitos deles estão por aqui também!

Tem mercado brasileiro em vários bairros, restaurante, pub vendendo coxinha e festa brasileira quase todo dia. Manicure, cabeleireiro, barbeiro, loja de cosméticos… tudo com jeitinho de casa! Claro que isso é mais comum em Dublin, mas outras cidades também oferecem opções.

Seja em intercâmbio ou como residente, é possível comer feijoada brasileira na Irlanda
Entre tantas distâncias, um prato quente pode ser o atalho mais rápido até o Brasil. Foto: Bianca Evangelista.

Nos dias difíceis ou de saudade, um pão de queijo, uma feijoada ou um bolo de cenoura fazem milagres!

Nem tudo são flores (nem pints)

O clima na Irlanda será sempre o assunto por aqui, principalmente durante o outono/inverno. O período de outubro a março será o maior desafio: os dias escuros e curtos mexem realmente com o psicológico.

Por mais que o período natalino na Irlanda seja uma das experiências mais bonitas por conta das luzes e da decoração, a saudade da família aperta e é sempre o momento em que se pensa “por que estou aqui?”. Mas tenho que admitir que, mesmo não tão quente, as coisas melhoram na primavera

Grupo de amigos comemorando o natal na Irlanda
Celebrar o Natal longe de casa fica mais fácil quando se tem amigos que viram família. Foto: Bianca Evangelista.

Além do clima e do tempo, o problema de aluguel na Irlanda, principalmente nas grandes cidades, também é um assunto delicado, afinal, é difícil achar um bom lugar para morar sem “pagar um rim” por isso.

Muitas vezes vai pagar 700€ ou mais para alugar um quarto que, se quer, vai ter tempo de curtir. Sem contar todas as “brigas” que enfrentará por ter que dividir a casa com estranhos. 

De intercambista para residente, ser estudante na Irlanda também não é tarefa fácil. Se quiser continuar estudando, muitas vezes será preciso pagar um curso ou uma faculdade — o que impede de juntar dinheiro ou te faz trabalhar muitas horas, principalmente nas férias.

Ou seja, há sempre um período de muita exaustão antes de renovar o visto, período esse que inexplicavelmente muitas coisas começam a dar errado ao mesmo tempo, sabe?

Uma confusão na casa onde vive, poucas horas no emprego, algum eletrônico quebra, algo acontece com a família no Brasil, enfim… mas saiba que é passageiro e logo após as coisas voltam a ser boas de novo. 

A real é que, assim como no Brasil, os perrengues também acontecem por aqui. A diferença é que, fora de casa, o fator psicológico pesa mais — e lidar com tudo em outra língua parece deixar tudo ainda mais difícil. Mas nada que uma terapia em dia e uma boa conversa com alguém de confiança não ajudem a colocar as coisas nos eixos de novo.

No final do dia, quando percebe que enfrentou tudo isso em inglês, ou quando compra uma passagem para um destino dos sonhos parece estranhamente tudo valer a pena!

Depois de ser intercambista e virar residente, ainda tem muito ciclo para viver por aqui

A vida na Irlanda não é um morango, mas, estranhamente, me apaixonei por esse país. Depois de alguns anos enfrentando os perrengues da vida de estudante, agora estou curiosa para viver os tão falados dias de glória por aqui.

A Irlanda costuma abrir portas para estrangeiros de fora da Europa — e sinto que ainda há muito a ser vivido, muitas pessoas incríveis para conhecer e tantos sonhos para realizar.

Talvez eu continue por aqui pensando na cidadania que pode chegar em alguns anos — ou simplesmente pelo fato de que este lugar tem se mostrado um ótimo solo para transformar sonhos em realidade. Foram muitos os que realizei com trabalho e esforço, conquistas que, no Brasil, pareciam menos palpáveis.

Acredito muito em começar e encerrar ciclos, e sinto que o meu aqui ainda não terminou. Por isso, me acompanhe aqui no Euro Dicas para as futuras histórias e dicas sobre a vida na Irlanda! Até já.

*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.