“Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração”. A tão famosa frase é um trecho da música “Canção da América”, de Milton Nascimento. A letra nasceu em um momento em que o artista gravava em Hollywood e acabou fazendo uma grande amizade com um músico local. “Conversávamos sobre a solidão de Los Angeles e acabamos muito próximos”, contou Milton em uma entrevista para a televisão.

De volta ao Brasil, os contatos deixaram de acontecer e a amizade perdeu a força. “Voltei aos Estados Unidos tempos depois, mas infelizmente ele já não estava mais lá”, lamentou. E o sentimento de “perda” da amizade acabou servindo de inspiração para a música. “Sentei no quarto e durante a noite fiz uma letra toda em inglês, que depois foi passada para o português pelo compositor Fernando Brant, que estava comigo”. Nasceu assim a “Canção da América”.

Afinal, como ficam as amizades ao mudar do Brasil?

Manter os vínculos de amizade quando se deixa a sua cidade, ou o seu país, é realmente um desafio. Mais fácil para uns, mais difícil para outros.

Ainda que a tecnologia hoje tenha encurtado as distâncias, ficar sem a convivência do dia a dia, sem o contato físico, sem os programas juntos, sem aqueles momentos de conversas em que se pode abrir o coração, sem o ombro amigo, pode tornar o processo de adaptação em um novo país muito mais difícil.

Sem qualquer julgamento ou juízo de valor, há quem de fato não se adapte numa nova terra por sentir falta dos amigos e da família.

O que fazer? Quem sou eu para ter a fórmula da amizade. Mas uma coisa acho que posso afirmar: a vida em um novo país vai gerar alguns desencontros e afastamentos, sem dúvidas. Mas também pode abrir as portas para novas amizades. E falo isso com algum conhecimento de causa.

Nasci no Rio de Janeiro e aos 12 anos me mudei para São Paulo. Eram os anos 1970, quando a internet não aparecia nem nos Jetsons. Tinha amigos do colégio, turma com quem eu jogava bola, brincava no prédio. Mas, para cobrir a distância da via Dutra, existia apenas as cartas e o telefone convencional, com uma ligação interurbana a preços pouco camaradas.

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Resultado: não precisou muito tempo para que os antigos amigos cariocas ficassem realmente para trás.

Adaptação ao novo ambiente e a novos amigos

Em compensação, ganhei amigos paulistas e paulistanos que seguem na minha vida até hoje.

Anos depois, fui viver uns meses em Paris. Parece que foi ontem, mas era no longínquo final de 1990, início de 1991, também sem internet, sem Facebook (nem Orkut ou ICQ!), Whatsapp, email. Se já era caro usar o telefone entre Rio e São Paulo, imagina entre Paris e São Paulo. O negócio era a carta mesmo, que demorava uma semana para cada trecho.

Aliás, usei esta última experiência para ilustrar uma conversa que tive com o meu filho aqui em Portugal justamente sobre manter as amizades. Expliquei para ele que naquela época era assim: enviava uma carta para os amigos perguntado como estava a vida, se as coisas iam bem. Demorava uma semana para chegar. Se eles fossem muito rápidos e respondessem no mesmo dia em que receberam a carta, seriam mais sete dias até eu receber a resposta.

Ou seja, era um diálogo em que a gente perguntava e recebia a resposta 15 dias depois, na melhor das hipóteses. Fácil, não?

Aliás, quando penso nisso, acho que também a nossa relação com o tempo, com o imediatismo, era outra.

Só assim consigo explicar como é que as coisas davam certo. De volta à conversa com o meu filho, estava justamente falando que hoje tudo é muito mais fácil por causa da tecnologia.

Ele às vezes passa horas conectado com um amigo no Brasil conversando, jogando, se vendo e até mesmo brigando. Muitas vezes, conversam mais do que quando viviam no mesmo país, na mesma cidade.

Afinidade é fator essencial em qualquer amizade

Por outro lado, outros amigos que eram muito próximos nem sempre “ganham” a mesma dedicação, o que foi o gancho para eu insistir para ele ao menos enviar uma mensagem, um vídeo, uma foto da cidade onde moramos e coisas assim. Mas a verdade é que com alguns tudo flui, com outros não.

Talvez a tecnologia tenha chegado para ajudar e reduzir as distâncias, mas algumas coisas não mudam: mesmo quando temos a chance de estar lado a lado com qualquer pessoa, qualquer amigo, sempre haverá aqueles com quem teremos mais afinidade, mais vontade de conversar, mais disposição para trocar confidências.

Formas de driblar a distância para manter a amizade

Tentava forçar um pouco para que ele não deixasse de procurar os amigos do Brasil, usando – em contraposição com a minha experiência passada – o argumento de que hoje é tão mais fácil, sem perceber que nem sempre a tecnologia consegue criar afinidade.

Mas, se manter as amizades do outro lado do oceano é um desafio, mesmo que de magnitudes diferentes de pessoa para pessoa, criar novos amigos também pode ser desafiador em Portugal.

Fazer amigos em seu novo lar é tarefa para fortes

Mais uma vez, é difícil generalizar. Tenho amigos brasileiros por aqui já bastante entrosados com os portugueses, enquanto outros acabam se relacionando muito mais com o círculo de brasileiros em Portugal.

Há uma certa percepção (que carrega um pouco de preconceito) de que os portugueses são mais fechados e frios. Não conheço os 10 milhões de portugueses para fazer uma afirmação tão categórica, mas há um fundo de verdade nessa sensação. E aqui vou usar muito o meu exemplo.

Primeiro ponto: fomos muito bem-recebidos desde o momento em que pisei em solo português. Atenciosos e solícitos, os portugueses nos apoiaram muito desde a chegada, tanto com dicas e orientações práticas sobre a nossa nova vida, quanto com pequenas gentilezas cotidianas.

A senhora que nos ajuda com a limpeza de casa sempre nos oferece verduras e legumes da sua horta, o vizinho de porta empresta o controle remoto da garagem para fazermos uma cópia, os motoristas de táxi do ponto perto de casa sempre tem uma boa história para contar. Alguns outros indicam qual o melhor dentista, o melhor ortopedista, o que fazer em caso de doença e por aí vai.

Enfim, posso escrever sem parar sobre como fomos e seguimos sendo bem acolhidos. Claro que nem todos foram simpáticos, mas os rabugentos são a minoria.

Então já tem grandes amigos portugueses? Pois é, nem tanto.

A impressão que tenho é que vamos bem até certo ponto na “escala” da amizade, mas avançar na intimidade é menos automático. No Brasil, é relativamente normal conhecer alguém e já abrir as portas da sua casa. Amigos do escritório já estão tomando chopp no fim do primeiro dia de trabalho. Daí para ser chamado para o churrasco é um pulinho. E amigo do amigo é também amigo, não é?

Os portugueses têm fama de serem mais reservados

Por aqui não é tão rápido assim. Conversando esses dias com uma amiga do trabalho (pensando bem, ainda uma colega de trabalho), ela foi direta:

“nós gostamos das mesmas coisas, saímos para beber, fazemos almoços ou jantares em casa, chamamos os amigos… Mas não na mesma velocidade. É diferente do brasileiro, que já se abre mais. Somos mesmo mais reservados, mas não significa que não gostamos das mesmas coisas. Só demora mais para chegar lá”, explicou.

Ela tem toda a razão. E é preciso olhar sob esse ponto de vista para entender que não é nada pessoal com você. É que a confiança vai se criando num ritmo diferente. São mais formais realmente, e é preciso ser cuidadoso para não parecer invasivo.

O estereótipo do brasileiro em Portugal

Outro ponto que talvez dificulte um pouco essa abertura prematura é o perfil do brasileiro. Ou melhor, a falta de um perfil muito claro.

Com a chegada cada vez maior de brasileiros no país, muitos portugueses estão conhecendo gente de personalidades e características muito distintas. A imagem do brasileiro fanfarrão, esperto, que quer levar vantagem sempre, ou da brasileira “namoradeira” já caiu por água abaixo.

O jeito como o brasileiro é visto também carrega um pouco de preconceito. E, com o número cada vez maior de brazucas, os portugueses estão percebendo que as coisas não são exatamente como aquela imagem caricata que tinham dos brasileiros. Mas, na dúvida, ficam com um pé atrás até se sentirem mais seguros e confiantes.

Tudo isso muda muito quando separamos os grupos por idade e tipo de convívio. Entre os miúdos, fazer amizade é muito tranquilo. Para eles, sinto que tanto faz se o amiguinho nasceu no Brasil ou no Japão. Meu filho menor, por exemplo, é totalmente entrosado, tem grupos de whatsapp “internacionais” com brasileiros e portugueses se portando simplesmente como crianças, sem qualquer preconceito. Riem, brigam, fazem piadas, trocam memes. E tudo isso em grupo “bilíngues” de brasileiro e português.

Fazer amizades enquanto adulto pode ser mais difícil

Quando começam a crescer, talvez mude um pouco mais: na universidade, por exemplo, vejo que os brasileiros convivem mais entre eles, embora também tenham amigos portugueses. Talvez porque já chegaram ao país com muitas referências e hábitos brasileiros, ao contrário dos que chegam ainda pequenos.

Depois temos nós, os adultos. Convivo com portugueses no trabalho e na vida cotidiana. Paro para conversar com o vizinho, engato uma longa conversa com o dono do café, mas não posso ainda dizer que algum deles seja aquele tipo de amigo com quem eu abriria meu coração, falaria dos meus medos, minhas angústias, que ficaria bebendo madrugada adentro, rindo ou chorando.

Se esse é o conceito de verdadeira amizade, ainda não cheguei lá – vale uma ressalva: eu já não sou deste tipo expansivo com as coisas da alma nem com os amigos brasileiros de longa data, então, não tomem meus comentários como regras escritas em pedra.

Por outro lado, também tenho muitos amigos brasileiros por aqui e, ainda que também não seja aquela amizade sólida de anos de convivência, muitas vezes me sinto mais à vontade para falar sobre determinados assuntos, para fazer piadas e compartilhar percepções.

A diferença de comunicação mesmo falando a mesma língua

O fato de estarmos todos “no mesmo barco” como imigrantes acaba também gerando uma certa união, uma maior empatia, o que ajuda a aproximar as pessoas. Além disso, apesar de termos o mesmo idioma e nos entendermos em (quase) tudo, algumas expressões ou palavras carregam emoções ou intensidade que muitas vezes são diferentes entre os brasileiros e os portugueses.

Celebrando as novas amizades

Os portugueses são mais diretos e literais, o que muitas vezes nos deixa “ofendidos” pela maneira como falam, que soa meio grosseira para ouvidos brasileiros, mas que na verdade não é.

Nós somos mais prolixos, cheios de metáforas, menos diretos, usamos mais as nuances das palavras, os duplo-sentidos. Isso acaba, por outro lado, deixando os portugueses irritados e até mesmo confusos. Não é à toa que fazem até brincadeira com o nosso “vou não”. Afinal, você vai ou não vai?

Xenofobia em Portugal

De qualquer forma, o que nos une ainda é muito mais poderoso do que as eventuais diferenças. Sei de casos de xenofobia em Portugal, escuto relatos de gente que foi praticamente desprezada por ser brasileira e reconheço que há muito comportamento desprezível em relação aos meus conterrâneos.

Mas ainda acredito que é possível criar laços genuínos de amizade, de companheirismo e de respeito. Isso sem contar que os brasileiros, entre nós mesmos, não somos tão exemplares quando o assunto é preconceito, seja lá sob que forma.

Ajustar às expectativas ajuda no processo

Criar novas amizades é realmente um processo muito pessoal, provavelmente cheio de conquistas e de decepções, seja ao morar em Portugal ou em qualquer outro país. Como uma boa conversa é sempre a porta de entrada para o nascimento de um novo relacionamento, lembre-se que, entre brasileiros e portugueses, não faltam assuntos de interesse comum.

Posso dizer que os portugueses adoram a música brasileira, artistas brasileiros, as novelas, a literatura e a culinária. Aliás, conhecem muito mais o Brasil do que podemos imaginar.

Grande parte deles tem um parente vivendo em algum lugar do Brasil ou já esteve passeando no outro lado do Atlântico. Conhecem nossas gírias, nosso sotaque e nosso vocabulário “brasileiro”.  Nós, que chegamos aqui, temos muito mais a aprender, a descobrir. Se soubermos ajustar os nossos ritmos às nossas expectativas, fazer amizade é apenas uma questão de tempo. Talvez um pouco mais de tempo do que estávamos acostumados. Mas, no final, gostamos das mesmas coisas.

E, para quem acha que as amizades entre brasileiros e portugueses não são tão fáceis, deixo aqui a dica de um livro. “Com o Mar por Meio – Uma Amizade em Cartas” reúne a correspondência (sim, a boa e velha carta) entre dois dos maiores escritores da língua portuguesa, o português José Saramago e o brasileiro Jorge Amado, entre 1992 e 1998. É certo que já se conheciam antes disso, mas foi este período e esta troca de mensagens que acabou surgindo uma amizade que nenhum oceano conseguiu separar.

*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do site Euro Dicas.