Fim de ano é sinônimo de festas, reencontros, comida e viagens – uma receita perfeita para histórias hilárias. Aqui, nossos redatores compartilham os micos e confusões de brasileiros nas festas de fim de ano na Europa.

Histórias de micos e confusões de brasileiros nas festas de fim de ano na Europa
Índice De tênis sujo a havaianas: uma noite em Lisboa Sinterklaas chegou (e eu não sabia de nada!) Minha gafe natalina na Alemanha: a história da barriga cheia O Caga Tió e as loucuras do Natal catalão Uma porta fechada no Natal em Portugal Expectativas frustradas no ano novo em Paris Mais um réveillon em Paris O Réveillon dos desejos enterrados Paris outra vez: agora no dia da Epifania

Porque história que dá trabalho de viver sempre rende boas risadas depois. Que venha 2025 com novas histórias!

De tênis sujo a havaianas: uma noite em Lisboa

História da Rebeca Leite, residente em Portugal.

Então é Natal, e com ele se aproximam as festas de confraternização de fim de ano. Época de rever gente que só se encontra quase uma vez por ano e de comer até passar mal. O início de dezembro de 2022 não foi diferente – ou melhor, acabou por ser um pouco diferente.

Tinha um jantar marcado e me dei conta de que todos os meus tênis estavam sujos. Não eram bem sujos, eram… imundos. Em Lisboa havia chovido torrencialmente nos últimos dias e os tênis, cobertos de lama, eram testemunhas seguras do que vivemos.

A solução para o problema me pareceu simples: dar uma escovada, deixar secar e sair com calçados já limpos. A questão começou a se complicar quando descobri que não tinha escova em casa, logo, não poderia resolver o problema.

Mas eu (achei que) encontrei uma solução

Foi quando tive a brilhante ideia de colocá-los na máquina de lavar a roupa – só os tênis, obviamente. Depois de ler o manual, descobri inclusive que havia um programa apropriado exclusivamente para sapatos – maravilha! Tudo conspirava a meu favor.

Após posicioná-los com carinho no fundo do tambor prateado, olhei bem para a máquina e pensei ser um desperdício enorme de água e eletricidade ligar só para lavar um par de tênis. Lembrei da guerra da Ucrânia, do quanto as contas de eletricidade estavam mais caras e achei que, já que ia ligar, mais valia colocar todos os pares de sapatos que tinha em casa. Era muito mais ecológico, além de econômico.

Assim o fiz: fui à caça de todos os pares que pude encontrar e lotei o tambor até quase não haver espaço vazio. Segui as instruções, tirei os cadarços e palmilhas, pus o detergente apropriado e começou a alegria.

E achei que tudo estava resolvido

Sentei no sofá completamente aliviada e pensei em como tinha sido uma sacada mesmo brilhante ligar a máquina, assim não só resolver o problema dos tênis que usaria no jantar como de todos os outros pares de sapatos da casa.

Eis que a alegria durou pouco e, em menos de dez minutos, comecei a ouvir um barulho de obras intensas no prédio ao lado – ou seria tiroteio? Ainda demorei alguns segundos para perceber que a obra era afinal mais perto do que eu imaginava.

A máquina vomitava espuma por todos os cantos: pela porta, pelo fundo, pelo chão, pelas arestas. Cada ranhura que conseguir imaginar era inundada por bolhas cheirosas que claramente queriam fugir a todo custo do tambor.

A marquise (área de serviço em Portugal) ficou completamente inundada, agora combinava perfeitamente com a paisagem do lado de fora. Trágico e cômico.

Um desespero para resolver o caos

Tentei desligar a máquina, mas os botões já não respondiam aos meus comandos. Despluguei correndo da tomada e a porta já não abria.

A máquina ainda permaneceu regurgitando um bom tempo enquanto eu tentava secar a marquise com a esfregona (que saudade do nosso velho ralo brasileiro!).

E como eu fui para a confraternização?

Resultado: fui para o jantar de havaianas e meias, desviando das poças pelo caminho, e passamos os dias seguintes tentando salvar a máquina.

Afinal salvamos – os sapatos e a resistente Indesit, que continua lavando roupa (exclusivamente), agora um pouco mais barulhenta, é verdade, mas com a mesma eficiência de sempre.

lavar sapatos na máquina de lavar
Eu tinha a estratégia perfeita para lavar os sapatos. O que poderia dar errado?

Em minha defesa tenho a dizer que quando reli o manual novamente, à procura do conserto, reparei naquelas letrinhas pequenas no pé da página que diziam:

“O programa Spot Shoes aceita no máximo 2 pares de sapatos”. Matemática realmente nunca foi o meu forte.

Sinterklaas chegou (e eu não sabia de nada!)

História da Lara Delgado, que mora na Bélgica.

Fim de ano é sempre uma época festiva. Mas nós, criados no Brasil, estamos acostumados a dar de cara com a figura do Papai Noel bem no final do mês de dezembro. Mas não é bem assim na Bélgica.

Moro no país desde janeiro de 2022 e esse foi meu primeiro Natal por aqui. Até então, já tinha visto alguns Papais Noéis espalhados por aí, mas nada muito de perto. A escola da minha filha pediu para que no dia 6 de dezembro todas as crianças fossem vestidas de vermelho, “como sempre”.

Receba nosso conteúdo na sua Caixa de Entrada! 📩

Inscreva-se na nossa Newsletter e receba no seu email com exclusividade as melhores colunas, artigos e notícias sobre a Europa! É de graça, inscreva-se agora!

INSCREVER GRÁTIS→

Não dei muita atenção ao fato, apesar de ter comprado um lindo (e bem quente) vestido vermelho para ela. No dia 6, ao chegar na escola, todas as crianças usavam vermelho e tinha uma baita festa acontecendo, com músicas natalinas e presentes espalhados por toda parte.

Foi então que comecei a achar estranho

Quando entrei na sala da minha filha para deixá-la na aula, fui surpreendida por crianças com roupas parecidas com as de bobos-da-corte, com calças bufantes, sapatos pontudos, mangas enormes e, para o meu choque: os rostos todos pintados de preto. Um tempo depois descobri que esses eram os ajudantes do Sinterklaas, o Papai Noel holandês.

E não acabou por aí: ao sair da sala, uma professora me disse que os pais estavam convidados para ver o Sinterklaas chegando, afinal, era seu dia. Mas era 6 de dezembro, e eu não entendi nada. Pouco tempo depois, comecei a ouvir um barulho muito alto e umas risadas que só aumentavam, vindo de uma ponta da rua. Como todos os pais, fiquei ali parada olhando.

E eu conheci o Sinterklass

Subindo a rua, veio caminhando um senhor muito alto vestido de vermelho (parecia uma mistura de Papai Noel com bispo, e já explico o motivo para você), acompanhado de várias crianças caracterizadas da mesma forma que as da sala da minha filha.

Como se não bastasse, as crianças vinham fazendo malabarismo, andando de monociclos, girando bambolês, dando cambalhotas e fazendo mortais: um perfeito circo natalino!

Mas afinal, quem é essa figura?

Se você não entendeu nada dessa história, imagine eu. Mas depois descobri que na Bélgica e na Holanda, o Natal é comemorado separadamente do Papai Noel (o Sinterklaas), comemorado no dia 6 de dezembro. O Sinterklaas, em vez de duendes, tem esses ajudantes com rostos pintados de preto, porque as ilustrações que existem desses ajudantes sempre retratam pessoas pretas.

Essa é, inclusive, uma questão de debates informais na Holanda, já que algumas pessoas consideram as pinturas no rosto uma atitude racista, enquanto outras defendem que as pinturas representam a fumaça da chaminé, por onde os presentes são entregues.

Sobre o Sinterklaas usar roupas que se assemelham às de bispos, majoritariamente vermelha e dourada, isso acontece porque essa figura é inspirada no Bispo Nicolau de Mira. Esse bispo foi o primeiro a se preocupar publicamente com as crianças. Além disso, ele morreu em um dia 6 de dezembro e originou esse dia histórico.

É inclusive nesse dia que as pessoas trocam presentes, e não no dia 25, em que apenas famílias cristãs comemoram o nascimento de Jesus.

Difícil de imaginar? Vê essa foto para entender melhor!

Papai noel holandês
O Sinterklaas e os seus ajudantes no dia da comemoração com as crianças.

Em resumo, fui pega de surpresa em um país que possui as comemorações de fim de ano em dose dupla. Se você vai morar ou visitar a Bélgica, ou a Holanda nesse período, prepare-se para esbarrar com vários Sinterklaas e seus ajudantes pela rua.

E ah, não cometa a gafe de presentear alguém no dia 25, e lembre-se de que o dia de trocar presentes é no 6 de dezembro!

Quais são as coisas que todo brasileiro sente falta ao não morar no Brasil? Veja a nossa lista.

Minha gafe natalina na Alemanha: a história da barriga cheia

História da Marienne Pires, que morou na Inglaterra e em outros 5 países.

A minha Universidade no Brasil recebia muitos intercambistas e eu ficava amiga deles. E em 2012 eu fiz intercâmbio na Dinamarca e minhas amigas me chamaram para visitá-las. Passei o recesso de outono viajando pela Eslovênia com uma amiga e o recesso de Natal na casa de outra, na Alemanha.

Minha amiga é de uma cidadezinha bem pequena, nem todo mundo na cidade dela fala inglês, mas eu não tive muito problema porque ela, os irmãos e os pais dela falavam inglês super bem.

Mas a avó não falava inglês

A única pessoa da casa que não falava inglês era a vó dela, então nós conversávamos por mímica – literalmente, mímica e apontando o dedo.

Em um dos dias do recesso, eu acordei, tomei café da manhã com eles e a avó dela desceu mais tarde. Ela veio falar comigo e passava a mão na barriga dela. Eu respondi em inglês “obrigada, já comi, tô com a barriga cheia” – e passei a mão na minha barriga.

Ela continuou falando em alemão e passando a mão na barriga e eu disse outra vez: “ah, obrigada, estou bem satisfeita. E mais tarde vamos almoçar”.

Mulher abrindo presente
Gafes à parte, o Natal na Alemanha foi ótimo e até ganhei presentes. Foto: Marienne Pires.

Eu escutei minha amiga e a mãe dela rindo muito na porta da cozinha e olhando para a gente. Elas riam muito e a gente começou a rir também, sem entender o porquê, mas sabendo que elas estavam rindo da gente!

E só então eu entendi…

Minha amiga me explicou:

“Ela está dizendo que a sua blusa é muito bonita e que ela gostou da estampa e você dizendo que já comeu”.

E sabe o que aconteceu? Mesmo com esta gafe, eu e a vó dela continuamos batendo altos papos durante o Natal. Talvez estivéssemos falando de coisas diferentes, mas ela gostou muito de mim por tentar conversar com ela e eu gostei muito dela!

O Caga Tió e as loucuras do Natal catalão

História da Renata Losso, que mora na Espanha.

Já ouviram falar do Caga Tió? É o personagem de uma tradição de Natal bem difundida – e bem curiosa – na Catalunha.

Mais forte que o Papai Noel que conhecemos bem no Brasil, o Caga Tió é nada mais que um pedaço de tronco que as crianças dão uma carinha, colocam um chapeuzinho típico catalão vermelho (chamado barretina) e cobrem com um cobertorzinho durante aproximadamente um mês antes do dia do Natal.

A ideia é que elas “alimentem” o Caga Tió durante esse período, sirvam água e frutas e o que mais pensarem, e perto do Natal – pasmem! – o Caga Tió transforma as comidinhas em presentes. Ou seja, ele defeca presentes depois que as crianças “batem” nele com um graveto ou pedaço de pau. Não é muito maluco?

Como eu fiquei sabendo dessa tradição?

Sei disso porque morei com uma tia espanhola e tinha uma priminha de sete anos que cumpria com toda a tradição do Caga Tió. Então, durante mais ou menos um mês, vivi com esse personagem/tronco na sala de estar sendo diariamente alimentado.

O personagem meio que substitui o Papai Noel, muito embora na casa da minha tia, que não era catalã. Minha priminha ganhava presentes tanto do Caga Tió como do Papai Noel.

Além disso, como o Dia de Reis como um todo é bem mais importante que o Natal na Espanha propriamente, ela também ganhava presentes, ou seja: presentes do Caga Tió, presentes do Papai Noel e presentes dos Reis Magos. Haja presente!

Caga Tió feito em casa
O Caga Tió faz parte da cultura do Natal na região da Catalunha.

A origem dessa tradição eu não conheço direito, só sei que tem alguma relação com a lenha usada para aquecer as famílias nos séculos passados. Parece que tem, portanto, uma simbologia de boa sorte – muito embora antigamente o Caga Tió servia para ser jogado na lareira após “cagar” os presentes.

Esses presentes, aliás, eram doces a princípio – turrones, por exemplo, também típicos da época de Natal. Mas entendo que isso hoje depende de cada família – minha tia, por exemplo, evitava que minha sobrinha comesse muitos doces e acabava fazendo o Caga Tió “produzir” outras coisinhas.

O Dia de Reis é muito importante na Espanha

Outra curiosidade é que estive em Valência no Dia de Reis e existe uma comoção tão generalizada que acontece até um evento na cidade: é a chegada dos Reis Magos à cidade, que vêm acompanhados de uma imensa cavalgada que mescla personagens infantis com personagens mais tradicionais, de uma época medieval.

E os Reis Magos chegam por último e vão jogando doces para criançada – e na cabeça das pessoas. É praticamente um carnaval, de tanta gente que vai para rua esperar os reis com as crianças.

Uma porta fechada no Natal em Portugal

História de Vinícius Miranda, residente em Portugal.

Era natal e estávamos reunidos na casa de um casal de amigos brasileiros. Nosso primeiro natal no Porto. Eles já moravam há quase dois anos em Portugal e nós havíamos chegado há apenas dois meses. Era tudo novo e tudo lindo também.

Além de nós quatro, outro casal também foi convidado. Brasileiros e com um lindo bebê ainda pequeno, nascido já em terras portuguesas poucos meses antes.

A conversa seguia muito animada, regada a bons vinhos. Vinho verde de minha parte, porque apesar de ser inverno e já estar muito frio, vinho verde é a melhor maneira de se introduzir na enologia para um paladar ainda acostumado ao vinho, entre muitas aspas, “doce” que conhecemos no Brasil.

Dentre os muitos tópicos de conversa daquela noite, sem sombra de dúvida o que prevalecia eram as diferenças Brasil x Portugal.

Cuidado com as “palavras proibidas” em Portugal

Era quase meia noite e falávamos das palavras proibidas. Não citarei nenhuma aqui, mas com certeza alguém vai te advertir no primeiro momento que você chegar a Portugal e disser que está procurando emprego, mas que qualquer bico é bem-vindo. É… acho que acabo de cometer uma gafe aqui, mas o nosso público é só de brasileiros, certo?

Depois do tópico inicial do que não dizer, vem o tópico do que não fazer. E este é um alerta que você vai receber, tanto de portugueses quanto de brasileiros: sempre, mas sempre mesmo, confira se as chaves de casa estão com você antes de fechar a porta de casa. Sempre.

Isso acontece não só aqui em Portugal, mas é comum a outros países europeus. Uma vez que você fecha a porta de entrada de casa, ela tranca. Não é preciso conferir duas vezes se trancamos, porque a porta se tranca sozinha assim que fecha. Sempre.

Um casal e seu bebê trancados para fora de casa em pleno natal

Era quase meia noite e alguém levantou esse aspecto peculiar das portas europeias. Instantaneamente, pude ver a expressão de pavor nos olhos do casal com o bebê.

Seus olhares se cruzaram num misto de pavor e confiança de que o outro tinha se ocupado da complexa tarefa de garantir quem pegou as chaves. Além, claro, da igualmente importante tarefa de garantir que a bolsa do bebê tinha fraldas suficientes.

Como você já deve imaginar, não faltaram fraldas naquela noite de natal. Quando se deram conta de que se esqueceram das chaves de casa, começou a epopeia de procurar um chaveiro aberto na véspera de natal quase à meia-noite.

Porta com fechadura de segurança
Tenha atenção para não ter surpresas com as portas europeias ao morar no velho continente

Mas não basta ligar para um chaveiro às 23:40 e pedir para abrir a porta de casa. Você precisa também provar que você mora na sua casa.

Outra dica prática: quando se esquecer das chaves de casa, tente pelo menos se lembrar de ter algum documento que comprove que você mora na sua casa.

Uma senhora de 90 anos saltando uma varanda

Para encurtar essa história mais demorada que o tempo de cozimento de um peru inteiro no forno, eles também tinham esquecido os documentos.

Já passava da meia noite e nem o corpo de bombeiros estava muito disponível para abrir uma casa sem a garantia de que você morava nela. Nós já estávamos conformados de que teríamos hóspedes naquela noite, mas o casal resolveu arriscar a possibilidade de sua vizinha portuguesa de 90 anos ter decidido passar a ceia em casa.

Felizmente a vizinha estava em casa e só foi necessário acordá-la, explicar o acontecido, ela acreditar e pular de uma sacada do quinto andar para a outra.

Resumindo, a mensagem dessa história é: sempre confira se está com as chaves antes de bater a porta. E qualquer perrengue natalino fica mais suave com uma boa taça de vinho verde na mão.

Expectativas frustradas no ano novo em Paris

História da Andrea Côrtes, que reside na Inglaterra.

Ano Novo em Paris! Certamente uma daquelas viagens que está na bucket list de muita gente. E morando na Inglaterra, tão pertinho da França, como poderia deixar de aproveitar?

Me organizei em pouco mais de 2 meses e, quando estava com tudo pronto, faltando menos de um mês para a viagem, a surpresa: greve geral no país. Transporte público com as principais linhas de trem e metrô praticamente paradas, museus com horários reduzidos e muito caos.

Mas eu já não tinha mais tempo para mudar os planos e segui do jeito que dava! Logo após o Natal de 2019, peguei o Eurostar rumo a Paris.

As dificuldades logo apareceram

O primeiro resultado da greve? O meu hostel, que era muito bem localizado, ao lado da estação de metrô com as principais linhas da cidade, simplesmente deixou de ser prático já que eu precisava andar quase uma hora para chegar na área central de Paris. De lá, eu ainda precisaria andar mais um tanto para conhecer os principais pontos turísticos. Pernas para que te quero, não é mesmo?

Segundo problema? Os museus e outras atrações turísticas estavam com o horário de funcionamento reduzido. Foi uma verdadeira loucura encaixar as visitas que eu já havia comprado com antecedência. E algumas coisas eu não consegui ver, como o belíssimo Pantheon.

E claro que tinha mais. Eu estava sozinha e o plano era assistir à virada do ano e acompanhar os fogos de artifício na Torre Eiffel. Sim, clichê, mas já que eu estava em Paris, queria ver como era a experiência.

Uma amiga de Curitiba me colocou em contato com uma amiga dela que estava com um grupo de pessoas na cidade. Pensei que poderia ser divertido e aceitei o convite de encontrá-los na estação principal.

Chegar na Torre Eiffel não foi fácil

Problema 1: o metrô, já reduzido por causa da greve, estava um caos. Depois de muito debater (e eu quieta porque não conhecia ninguém) foi resolvido que pegaríamos um táxi até a estação central e, de lá, a ideia era tentar pegar o metrô até a torre.

Obviamente a estação estava fechada e com muita confusão. Todo mundo começou a ficar nervoso e, já chegando perto da meia noite, tivemos que nos dividir em dois táxis.

Um deles chegou mais rápido e levou a maioria do grupo. Eu e a amiga recém-conhecida esperamos por outro Uber, que estava bem atrasado e, no final, não ia conseguir nos deixar próximas da Torre Eiffel. Pagamos um absurdo e ainda teríamos que andar mais de 15 minutos.

Mulher em frente à Torre Eiffel
Depois de muita confusão, finalmente conseguir chegar na Torre Eiffel. Foto da Andrea Cortes.

Chegamos na praça central da Champs-Élysées faltando apenas 5 minutos para a virada. A solução seria passar ali mesmo, o que ainda seria uma experiência legal!

A contagem regressiva começou, estávamos tão longe que, obviamente, não conseguimos ver nada. Então, os fogos começaram e, para a minha surpresa, acabaram tão rápido que mal deu tempo de desejar feliz ano novo.

Foi muito rápido e meio sem graça. Assim que o show acabou, todo mundo começou a ir embora.

A noite acabou melhor do que começou

Nós resolvemos andar até a Torre Eiffel para encontrar o resto do grupo e, chegando lá, as luzes estavam todas apagadas. Não era 1 da manhã.

Eu sentei para comer a nossa ceia, no escuro e em um frio congelante, com algumas companhias não tão agradáveis, e ainda bem que logo fomos embora. Mais uma hora andando até voltar ao hostel que, aliás, estava tendo uma festa brasileira bem divertida!

Aí sim eu pude comemorar até o dia amanhecer!

Mais um réveillon em Paris

A Bruna Elias mora no Brasil e também conta uma história caótica de um fim de ano na capital francesa.

O “perrengue chique” estava por vir!

No final de 2022, eu, minha noiva e um casal de amigos embarcamos para uma Eurotrip. Começamos a viagem em Roma em dezembro e passamos a virada do ano em Paris, antes de seguirmos para Londres. Como muitos brasileiros, era um sonho passar o réveillon na Cidade Luz.

E o que poderia dar errado em uma das cidades mais desejadas para o Ano Novo, não é?

A chegada na Champs-Élysées

Decidimos que passaríamos a virada na Champs-Élysées, onde a festa prometia ser linda. Começamos a nos arrumar no hotel por volta das 18h, e tudo estava indo conforme o esperado.

Para economizar, optamos por ir até o Arco do Triunfo de ônibus, já que os preços de Uber estavam altíssimos naquela noite. Por volta das 19h, embarcamos no ônibus, imaginando que ele nos deixaria próximo ao destino. Porém, em certo ponto, o motorista parou e disse algo em francês.

Como só falávamos inglês, não entendemos nada, até que os outros passageiros começaram a descer. Foi então que percebemos que o ônibus só chegaria até ali e que precisaríamos continuar a pé. Sem problemas, começamos a caminhar com a multidão.

Finalmente, após alguns desvios, chegamos ao nosso tão desejado ponto de celebração!

Bruna e noiva em Paris no réveillon
Viajar traz imprevistos, mas são as boas lembranças que prevalecem. Foto: Bruna Elias

Já eram cerca de 20h, e, sem reservas de restaurante (os preços naquela noite estavam exorbitantes), decidimos improvisar. Entramos em um mercadinho express, compramos alguns doces, balas, um pacote de Pringles e uma Coca-Cola. Nossa ceia de Ano Novo foi no meio-fio da Champs-Élysées, às 21h.

O caos do metrô

Depois da queima de fogos, resolvemos ir embora e pegamos o metrô. Ao chegar na estação, nos deparamos com uma multidão apertada, empurrando-se no pequeno túnel. Crianças choravam, pessoas gritavam e, no meio do caos, tive uma crise de ansiedade.

Sentia-me sufocada e incapaz de me mover. Com muito esforço, consegui sair do túnel e respirar ar puro. A visão de toda aquela confusão lá embaixo me fez perceber o quão sério havia sido.

O retorno ao hotel e um pedido especial

Decidimos chamar um Uber, mas a espera foi longa e o trânsito caótico. Quando finalmente conseguimos um carro, o motorista estava nervoso e, em dado momento, parou sem explicação. Ele saiu do carro, nos deixando apreensivos. Para nossa surpresa, voltou sem o casaco, que havia guardado no porta-malas. Apesar do susto, finalmente chegamos ao hotel.

Apesar dos imprevistos, essa virada de ano foi única. E os dias que seguiram trouxeram ainda mais emoção, quando minha noiva me surpreendeu com um pedido de casamento em Paris.

O Réveillon dos desejos enterrados

História da Cláudia Rodriques, que mora em Portugal.

O ano era 2018, e nós (um grupo de cinco amigos brasileiros) decidimos celebrar o Réveillon em Lisboa. A capital portuguesa era o destino que planejamos para se livrar um pouco do mau tempo no Porto.

Para nós, estudantes de mestrado, sem muito dinheiro, esse primeiro ano em Portugal representava um marco especial, pois queríamos viver essa experiência com intensidade e aproveitar o início do ano novo com as energias renovadas e a esperança típica de quem está longe de casa.

Nosso orçamento era limitado, então nos hospedamos em um hostel simples e econômico, sem grandes confortos, mas que atendia às nossas necessidades. Porém, como a vida de estudante é cheia de adaptações, acabamos por nos deparar com alguns desafios; o hostel não tinha muita estrutura, e um desses detalhes que ficaram na memória foi a falta de água quente.

Sim, passar o inverno europeu sem banho quente foi um teste de resistência, mas isso nunca tirou nosso ânimo e a expectativa para a celebração que se aproximava.

Desejos de um bom novo ano

Todos nós carregávamos um desejo de iniciar um ano novo em um lugar diferente, sendo assim, como somos marcados por um sincretismo religioso, como bons brasileiros, acreditávamos no poder das simpatias para atrair boas energias e garantir um ano repleto de realizações.

E foi com esse espírito que surgiu a ideia de fazermos um ritual para a passagem de ano.

Uma das meninas do grupo sugeriu uma simpatia simples, mas significativa: escrever nossos desejos em um papel e enterrá-lo junto a uma árvore ou plantas, simbolizando o plantio das nossas aspirações para o novo ano.

Pareceu uma excelente ideia, afinal, estávamos prestes a iniciar 2019 e queríamos muito acreditar que nossos desejos e metas estavam bem plantados e prontos para florescer.

No dia 31 de dezembro, preparamos tudo, cada um pensou nos desejos com carinho e anotamos aquilo que mais queríamos alcançar; era quase uma pequena terapia coletiva, onde compartilhávamos nossas expectativas e refletíamos sobre tudo o que esperávamos da vida em terras portuguesas.

Papéis foram escritos e guardados, e tudo estava planejado para que, na virada do ano, encontrássemos um local onde poderíamos realizar o ritual.

Festa na Praça do Comércio

Com o cair da noite, seguimos para a Praça do Comércio, já lotada de turistas e moradores locais, todos animados para a grande contagem regressiva. A praça brilhava com as luzes do palco montado e do reflexo das águas do Rio Tejo, que cortava a cidade em sua grandiosidade.

À medida que a noite avançava, o clima de festa só aumentava, e a ansiedade pela chegada do novo ano tomava conta de todos nós.

Busca desafiadora para finalizar o ritual

A cidade estava cheia e parecia que todas as áreas verdes haviam desaparecido naquela multidão. Procuramos por pequenos jardins, canteiros, qualquer lugar que tivesse um pouco de natureza, mas não era fácil.

Caminhamos em meio à massa de pessoas que também buscavam um lugar para aproveitar o Réveillon, e o tempo foi passando. A cada minuto que se aproximava da meia-noite, nossa esperança de encontrar um espaço adequado diminuía.

Já meio desesperados, avistamos um conjunto de vasos de plantas grandes próximo à praça, não era o local mais discreto, mas era o que tínhamos. Decidimos que seria ali mesmo, e nos organizamos para executar a simpatia sem chamar muita atenção.

Para realizar o plano, criamos uma espécie de barreira humana, onde os colegas se posicionaram estrategicamente em volta dos vasos, protegendo a “operação” do olhar dos curiosos. No centro, um de nós se abaixou e começou a cavar um pequeno buraco na terra do vaso. Foi uma tarefa rápida, feita com as mãos e a precisão de quem sabe que o tempo está contra si, era quase meia-noite e o burburinho da contagem regressiva se aproximava.

Os papéis foram enterrados com a mesma seriedade com que haviam sido escritos, acompanhados por uma mistura de risos nervosos e suspiros de alívio. Estávamos determinados a fazer com que o ritual desse certo, e aquele momento, no coração de Lisboa, nos parecia mágico.

Por alguns minutos, esquecemos do frio, da falta de conforto no hostel e das dificuldades de estudantes longe de casa.

Festa de Ano novo em Lisboa
Depois de “enterrar os os sonhos”, ainda deu tempo de participar da festa da virada do ano. Foto: Cláudia Rodrigues

Quando terminamos, nos levantamos e nos juntamos à multidão para a grande virada. O show pirotécnico iluminou a Praça do Comércio, e o som dos fogos de artifício foi acompanhado por abraços e brindes, com o vinho barato do Mini Preço que havíamos levado nas mochilas.

A sensação de vitória era evidente em nossos rostos; não apenas por termos cumprido o ritual, mas por estarmos ali, em uma cidade tão especial, vivendo um momento único.

2019 chegou

E com ele novas experiências, desafios e, infelizmente, a chegada de uma pandemia que ninguém poderia prever. As coisas não saíram exatamente como esperávamos, o ano trouxe muitas dificuldades e incertezas, e nossos desejos enterrados naquela noite não floresceram da maneira como imaginávamos.

Talvez o ritual tenha falhado, ou talvez os vasos da Praça do Comércio não fossem o melhor lugar para enterrar nossos sonhos.

Mas, no final das contas, o que realmente ficou foi a memória de uma noite especial. Um Réveillon que, mesmo simples, foi marcado pela alegria de um grupo de amigos unidos pelo espírito de aventura que nos levou a tentar algo inusitado em uma terra estrangeira.

A simpatia nos proporcionou risadas, cumplicidade e um sentimento de pertencimento que, de certa forma, nos fez sentir um pouco mais próximos de casa.

Paris outra vez: agora no dia da Epifania

Finalizamos com a história da Bárbara Ábile, que se divide entre o Brasil e a França.

A primeira vez que coloquei meus pés em Paris foi no dia 2 de janeiro de 2018. Cheguei com um francês mega básico e sem conhecer muita coisa sobre as tradições do país. Como toda boa universitária, logo nos primeiros dias aprendi como usar o restaurante universitário (RU) da minha região e comecei a fazer todas as minhas refeições por lá.

Seguindo uma tradição bem francesa de cozinha, até mesmo nesses lugares as refeições são compostas de entrada, prato principal e sobremesa. Então, ainda que as comidas fossem simples, para mim, comer lá era descobrir um pouco da culinária do país.

Eu só não sabia que junto da culinária, eu descobriria também uma curiosidade cultural do Hexágono, e que ela colocaria a integridade de meus dentes em risco!

Meu primeiro contato com a tradição

Em um desses dias comendo no RU, a sobremesa em questão era um pedaço de uma torta de massa folhada. Coloquei na boca e fiquei impressionada com o sabor: muito açúcar, amêndoas, creme e manteiga! Mais francês impossível!

Comecei a comer com gosto, mastigando até meio rápido, ansiosa para colocar o próximo pedaço na boca. Eu nunca tinha sentido um sabor como aquele.

Até que mordo uma coisa dura, bem dura mesmo, daquelas que você sente o dente doer. Paro de mastigar por um momento e tento sentir com a língua o que era aquilo. O restaurante estava cheio e eu, estrangeira recém-chegada, não queria chamar a atenção tirando algo de minha boca naquele contexto.

Fiz um contorcionismo para conseguir separar aquele corpo estranho de um lado da boca e engolir o resto da torta. Consegui, enfim, tirar discretamente aquela coisa que não deveria estar lá.

Quando olhei, mal pude acreditar: era uma pecinha no formato de um prédio, todo colorido e com bastante detalhes. Nela estava escrito “Big Ben – Angleterre”.

Fiquei incrédula. Será que a cozinha do restaurante havia deixado isso cair por engano? Ou alguma criança levada resolveu colocar um brinquedinho lá dentro? Pensei em mil possibilidades e meu incômodo só crescia. Eu mordi forte aquela peça, era perigoso! 

Me senti irritada por não conseguir falar francês bem o suficiente para ir reclamar. Ao mesmo tempo, achei estranho demais tudo aquilo. Tive um breve insight e considerei: e se isso tiver sido proposital? Se essa torta for algo como o Kinder Ovo é no Brasil? Mas, quando olhei em volta, não vi ninguém com nada no tipo nas mãos ou na mesa.

Finalmente… a explicação

Foi só depois de alguns bons minutos que resolvi tentar buscar no Google alguma resposta. E vi que, dia 6 de janeiro é comemorado o Jour de l’Épiphanie (no Brasil, o equivalente é o Dia de Reis), e que na França come-se a Galette de Rois, exatamente aquela torta que estava em minha frente. 

A explicação para a miniatura do Big Ben, por sua vez, é que, em referência a uma tradição do século XIX, pequenas miniaturas em porcelana são escondidas dentro da torta.

Miniaturas do dia de Reis na França
A fève do Big Ben, que quase quebrou meus dentes, e a última fève que encontrei, em 2022. Foto: Bárbara Ábile.

Chamadas de fève, quem a encontra é nomeado o “rei” do dia. Como em cada torta só há uma fève, isso explica por que apenas eu estava com aquela pecinha.

Desde então, não apenas fiquei muito atenta na hora de comer galettes em janeiro, como sempre acabo comprando uma quando tenho oportunidade. Aliás, fica a dica: as galettes individuais sempre vêm com uma fève para chamar de sua!

Feliz Natal e um ótimo Ano Novo! A equipe do Euro Dicas deseja que todos passem por ótimas histórias nesse fim de ano. Nos vemos em 2025!