Vivi em cinco diferentes países, até o momento, e tive diferentes experiências profissionais desde 2001, primeira vez que imigrei. Somente na Espanha, já são mais de cinco anos, e neste tempo, minha trajetória de emprego na Espanha foi complexa, repleta de desafios, aprendizados e crescimento pessoal.

Minha trajetória de emprego na Espanha foi desafiadora, mas valeu a pena.
Índice Quando a ficha cai: as dificuldades da imigração Subemprego: uma realidade comum na vida do imigrante Com o passar do tempo, as portas se abriram De Barcelona a Madrid: novas oportunidades na capital Realização profissional: a conquista dos meus sonhos Os desafios antes da recompensa valeram a pena

A imigração é um tema que toca profundamente a vida de milhões de pessoas ao redor do mundo por diferentes razões, principalmente por muitas renúncias que fazemos em busca de realizar nossos sonhos.

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Quando a ficha cai: as dificuldades da imigração

Quando cheguei à Espanha, em janeiro de 2017, a sensação de estar em um novo país era ao mesmo tempo emocionante e assustadora. A língua, a cultura e até mesmo os hábitos cotidianos eram diferentes do que eu estava acostumado: no último ano havia vivido na fria Dublin, capital da Irlanda.

Como muitos imigrantes, minha expectativa inicial era de encontrar oportunidades que me permitissem melhorar minha qualidade de vida. No entanto, a realidade se mostrou bem diferente.

Eu imaginava que teria mais facilidade com o idioma, mas não foi bem assim. O espanhol, quando você não está habituado ao acento e à sonoridade dos nativos, é uma língua bastante difícil.

Subemprego: uma realidade comum na vida do imigrante

Meu primeiro trabalho foi no aeroporto de Barcelona, numa loja de cosméticos. Fiquei menos de um mês porque era algo extremamente cansativo: eu tinha que ficar na porta da loja chamando o público para entrar e conhecer os produtos, que eram desconhecidos para a maioria das pessoas.

Era uma abordagem agressiva, direta e o tempo não passava. Eram oito horas ali de pé tentando “fisgar” algum cliente, mas todos sempre estavam com pressa.

A questão do subemprego acabou se tornando uma parte significativa da minha trajetória de emprego na Espanha e, na verdade, de toda minha experiência internacional.

Passaporte europeu não é garantia de emprego

Em 2017 eu já tinha passaporte europeu, no caso, italiano. Em teoria, isso poderia abrir mais portas, porém, a realidade não é bem assim. Literalmente nem tudo são flores. Há muitos espinhos nessa caminhada.

Para muitos imigrantes, incluindo nós brasileiros, o subemprego é a realidade de aceitar trabalhos que não correspondem às habilidades ou qualificações que possuímos.

É um fenômeno comum entre aqueles que buscam se estabelecer em um novo país, especialmente quando a barreira do idioma e a falta de reconhecimento de diplomas e experiências profissionais entram em cena.

Foi o que aconteceu comigo: tinha documentos, mas não falava espanhol, muito menos catalão (idioma que se fala na Catalunha, onde vim viver) e meus estudos não estavam convalidados.

Diante da falta de oportunidades profissionais e tendo que sobreviver, fui obrigado a aceitar diferentes trabalhos que fugiam das áreas que eu almejava. No meu caso, fui para o setor da limpeza e da restauração (bares, restaurantes).

Ser garçom ou fazer faxina não eram coisas que me deixavam feliz – não que eu não valorize qualquer profissão, pelo contrário. Mas eu sabia que podia muito mais que aquilo e isso me doía profundamente.

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Nem tudo são flores, mas vale a pena buscá-las

Uma das experiências mais difíceis, sem dúvida, foi em uma sauna LGBTQIA+. Minha função era limpá-la todas as manhãs, e esse trabalho era muito desgastante.

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Quantas vezes fui para o banheiro respirar e até mesmo chorei porque estava fazendo faxina nas empresas e ouvia português nas mesas. Eram brasileiros que haviam conquistado uma vaga em um escritório. Eu me questionava: “por que não estou ali?”. Era uma sensação de tristeza e até de revolta.

Embora esses trabalhos fossem necessários para pagar as contas e me manter no país, a frustração e a desmotivação eram constantes.

Tive que ser forte e paciente. Essas experiências, no entanto, também me ensinaram lições valiosas. Cada trabalho, mesmo aqueles que pareciam insignificantes, contribuíram para meu crescimento pessoal.

Aprendi a valorizar a ética de trabalho, a resiliência e a importância de construir relacionamentos. Essas lições foram fundamentais para minha adaptação à nova realidade e para a minha trajetória de emprego na Espanha.

Com o passar do tempo, as portas se abriram

Em 2019, dois anos depois de ter chegado à Espanha, finalmente, tive uma grande chance profissional e decidi agarrá-la com toda força. Eu havia passado numa seleção de uma multinacional espanhola (hoje americana).

Trata-se de uma plataforma de casamentos e meu trabalho consistia em atrair os fornecedores que estavam no aplicativo no modo gratuito, mudando seus status para o pago. Com isso, eles teriam o contato dos noivos.

Eu fazia toda parte de assessoria de comunicação e marketing de suas vitrines (exposição na plataforma). Trabalhei dois anos nesta empresa e guardo as melhores recordações.

Este trabalho me deu segurança, amizades que mantenho até hoje, me abriu novas oportunidades (fui promovido a Customer Care), consegui publicar textos como jornalista. Enfim, ali eu me senti valorizado.

E olha que foi meu batizado espanhol, porque tínhamos que vender pacotes e reter clientes num dos momentos mais difíceis da humanidade, quando ninguém estava casando, pois foi justamente na época da pandemia.

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De Barcelona a Madrid: novas oportunidades na capital

Depois deste emprego, decidi sair da empresa, mudar de cidade e viver uma nova experiência. Eu queria provar como era viver na capital Madrid e ali tentar algum trabalho também como roteirista, outra profissão que divido com o jornalismo.

Fui contratado como jornalista e recebi o maior desafio profissional da minha vida: ser assessor de comunicação do presidente de Angola, na África, que buscava a reeleição.

O governo angolano contratou uma agência de comunicação espanhola, especializada em pesquisas eleitorais, e eles chegaram até mim porque necessitavam de um jornalista que falasse português, o idioma de Angola.

Foram poucos meses de trabalho, mas me orgulho muito por esta conquista internacional, ainda mais quando recordo meus trabalhos anteriores e tudo que tive que passar para chegar até ali.

O retorno à atuação: reencontrando uma paixão

Outro presente que a Espanha me deu foi a oportunidade de resgatar meu trabalho como ator. No Brasil, antes de imigrar, trabalhei como ator durante mais de dez anos para uma companhia de teatro e isso me garantiu o DRT de ator. Mas, até então, eu não havia atuado no exterior.

Em Barcelona, durante dois anos consecutivos, fui contratado para trabalhar como ator em campanhas temáticas em dois shopping centers da cidade.

Mas minha alegria, ou melhor, meu grande presente ainda não havia chegado e há anos eu esperava por ele: poder viver fazendo o que mais amava. E nunca escondi de ninguém que minha paixão sempre foi a comunicação, criar conteúdo.

Realização profissional: a conquista dos meus sonhos

Sou um repórter nato, destes que pode trabalhar 24 horas seguidas e não reclamará se estiver fazendo uma pauta porque é isso que me motiva e que me deixa feliz.

Em 2024, realizei meu maior sonho profissional como jornalista: cobrir uma Olimpíada. Trabalhei como correspondente nas Olimpíadas de Paris e tudo aquilo foi muito mais do que eu havia pedido.

André Luis Cia, jornalista brasileiro, nas olimpíadas de Paris
Realizando um sonho, trabalhando nas Olimpíadas de Paris em 2024. Foto: André Luis Cia

Paralelo a isso, no final do ano, também trabalhei numa feira internacional de turismo fazendo reportagens e ao mesmo tempo continuei atuando como ghostwriter e criador de conteúdo.

Os desafios antes da recompensa valeram a pena

E tanta luta valeu a pena: fui eleito como o criador de conteúdo e jornalista número 1 na Espanha por uma plataforma que faz o levantamento de mídias sociais em todo país. E um estrangeiro receber esse título é motivo de orgulho.

Minha jornada como imigrante e minha trajetória de emprego na Espanha tem sido uma montanha-russa de emoções. Assim como muitos, enfrentei desafios que testaram minha capacidade de superar obstáculos. No entanto, as experiências que vivi me moldaram de maneiras que eu nunca poderia ter imaginado.

O subemprego, longe de ser apenas uma desvantagem, tornou-se um trampolim para novas oportunidades e crescimento pessoal. Se eu tivesse desistido na primeira dificuldade, eu não teria chegado até aqui. Por isso, sempre dou um conselho: não desistam nunca dos seus sonhos. Eu sou a prova real de que vale a pena sonhar.

Se você é um imigrante ou está pensando em se mudar para outro país, lembre-se de que cada experiência conta. Aproveite as oportunidades que surgem, mesmo aquelas que parecem pequenas ou insignificantes. Elas podem ser as chaves para um futuro mais brilhante e cheio de possibilidades.

*A opinião dos colunistas não reflete necessariamente a opinião do Euro Dicas.