Refletir sobre como é ser brasileira na Itália significa repensar a minha condição de ser estrangeira. Afinal, morar em outro país significa justamente viver em um lugar que não é nosso. A origem latina da palavra “estrangeiro”, inclusive, se refere a “estranho”, “de fora”. Indica um não-pertencimento: ser estrangeiro é, portanto, “não fazer parte de”.
Dessa maneira, morar no exterior escancara a nossa condição de “disparidade”. É viver, diariamente, em uma espécie de via de mão dupla cultural. Será que tal sensação um dia irá embora? Ou será que morar no exterior é ser estrangeiro para sempre? E ainda, como é ser brasileira na Itália e ter que driblar o preconceito de não pertencer àquela cultura?

Como é ser brasileira na Itália?

Responder à pergunta “Como é ser brasileira na Itália?” é mais difícil do que parece. Por se tratar de algo subjetivo, chegar a uma conclusão depende de muitas variáveis e tem relação direta com o contexto no qual cada uma de nós vivemos.
Uma das coisas negativas sobre morar na Itália é ter que lidar com o estereótipo da mulher brasileira. Sinceramente, às vezes dói ter que dizer Sono brasiliana. Não porque me vergonho da minha nacionalidade, muito pelo contrário. O problema é a reação dos italianos e, claro, os comentários que somos obrigadas a ouvir, os quais podem variar de Dai, balla la samba a Ma davvero? Ma sei bianca!, passando por Ma sei… diversa e Non sembri brasiliana (“Você não parece brasileira”).
Três brasileiras na Itália
Cada vez que eu tenho que falar de onde sou, eu me preparo para o pior. Independentemente da reação, esses comentários resumem o grande e perigoso estereótipo da mulher brasileira no exterior.
O lugar-comum da mulher brasileira, na verdade, não tem nada de novo. Como aponta uma pesquisa, é fruto de intensas campanhas de incentivo ao turismo, promovidas pelo Governo brasileiro no final dos anos 1960, em que veiculavam imagens de mulheres com forte apelo sexual e slogans com duplo sentido.
Por mais que essa imagem bastante distorcida tenha sido criada há mais de 50 anos, esse é, ainda hoje, é um fantasma que persegue muitas brasileiras no exterior e influencia o dia a dia de como é ser brasileira na Itália.
Voltemos à pergunta inicial: “É complicado”.

Existe preconceito?

O preconceito existe e isso é um fato inegável. O que é “relativo” não é preconceito, mas o contexto e a condição de cada mulher. Elementos como cor da pele, nível de conhecimento da língua italiana, gênero, classe social vão decidir a forma como você poderá ser”julgada”. Acrescente à lista a profissão, caso você trabalhe na Itália.
Uma mulher branca que fale bem italiano vai sofrer um preconceito diferente em relação a uma mulher negra que tenha se mudado há pouco tempo para a Itália, por exemplo. Isso porque além do gênero e da nacionalidade, existe o preconceito étnico, claro.
Frequentemente, noto que existe uma certa arrogância por parte de homens italianos mais velhos do que eu – normalmente acima de 40 anos – em relação a algo que conheço, ou até mesmo sobre o Brasil, por exemplo! Tudo isso faz parte de como é ser brasileira na Itália.

Preconceito com estrangeiros em geral ou voltado para brasileiros?

O preconceito contra os estrangeiros existe, isso é inegável.
Em ordem, eu diria que o preconceito maior é contra os imigrantes africanos subsaarianos (originários da Nigéria, Senegal e Gana), norte-africanos (Marrocos, Egito e Tunísia), do centro e leste-europeu (Polônia e Romênia, Albânia, Ucrânia, Moldávia, Bulgária e Macedônia do Norte), asiáticos (China, Filipinas, Índia, Bangladesh, Paquistão e Sri Lanka) e, claro, da América do Sul (Peru, Equador e Brasil). Todavia, pode ser que seja só uma impressão minha.
Preconceito sobre como é ser mulher na Itália
Nos anos 1990, por exemplo, o país viu a primeira onda migratória tomar conta de sua costa. Barcos cheios de imigrantes albaneses partiram em busca de uma vida melhor e desembarcaram na costa Adriática.
Anos mais tarde, foram os imigrantes africanos a fazerem o mesmo. E não foram poupados pelos jornais.
Você deve estar se perguntando: Como pode um povo de migrantes, como os italianos, terem preconceito de imigrante? A coisa que mais me surpreende é a falta de conhecimento da própria história.
Em linhas gerais, os italianos estudam bem pouco a história da imigração italiana no Brasil, por exemplo. Conhecem um pouco mais a imigração italiana nos Estados Unidos, na Argentina e até mesmo na Austrália porque muitos têm parentes nestes países, mas muito pouco se estuda a respeito.
Segundo dados do ISTAT, o número de estrangeiros residentes na Itália corresponde a 5.259.483 pessoas.

O gênero influencia no preconceito?

Mil vezes sim! Ser mulher + ser brasileira = preconceito ao quadrado!
Parte de como é ser brasileira na Itália reside em um duplo preconceito: gênero e nacionalidade, como dito acima. É bastante cansativo fazer parte desse “combo”. Ao mesmo tempo, essa sensação de ser constantemente desafiada me motivou a melhorar o meu italiano e me impor quando é necessário.

Machismo: Brasil x Itália

Se formos falar uma forma geral, o povo italiano é machista e preconceituoso, sim. Mas não diria que é muito longe da realidade brasileira. O que muda em relação aos italianos é que neste caso, somos nós as estrangeiras – e claro, vivemos na pele o preconceito e o machismo de uma forma diferente.
Por exemplo, o machismo se faz vivo e sentido através de comentários em relação ao corpo, igual no Brasil. Mas aqui, somos “de fora”. Então, o preconceito e a violência de gênero jogam exatamente com o “você é diferente, e eu preciso te mostrar como e porquê”.
Além do corpo, o preconceito tem a ver com estereótipos ligados a um presumido comportamento sexual das mulheres brasileiras, idealizado pelos estrangeiros. Haja paciência…
Saiba como fazer um intercâmbio na Itália e vivenciar o país.

Como é ser brasileira na Itália: a minha relação com o povo italiano

De modo geral, eu me considero uma pessoa “integrada” na sociedade italiana (sempre com aspas, pois tudo depende). Eu sempre morei com italianos e isso me ajudou bastante tanto a compreender os costumes e diferenças culturais, como a melhorar o meu nível de conhecimento do idioma.
A maior parte dos meus amigos aqui são italianos. E sou bastante sortuda, uma vez que com eles, eu nunca vivi todo o estresse de preconceito citado anteriormente. Acredito que não seja sorte, mas sim, porque são pessoas curiosas e que se interessam por outras culturas – além de muitos terem morado fora ou terem estudado outra língua. Enfim, pessoas que também se sentiram “estrangeiras”.

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E a comunidade brasileira?

Não vivo em contato muito próximo com a comunidade brasileira. Tenho duas grandes amigas brasileiras aqui em Perugia, cidade onde moro. Tentamos sempre fazer com que os nossos namorados e amigos italianos conheçam um pouco do Brasil não estereotipado (ou pelo menos, tentamos acabar com o mito da mulher brasileira, do Brasil único e exclusivamente país do futebol, entre tantas outras coisas…).
Sei que em cidades como Florença, Roma e Milão, a comunidade brasileira é muito forte. Certamente, nesses contextos, os desafios de como é ser brasileira na Itália serão ainda maiores.

Integração na Itália: língua italiana, um fator decisivo

A língua é um instrumento, seja de comunicação, seja de interação e, para muitas pessoas, de trabalho, como no meu caso.
Você já parou para pensar que é através da língua que temos o primeiro contato com uma cultura diferente da nossa? Morando em outro país, a língua adquire um valor importante. É necessária em todos os âmbitos: burocrático, social, cultural, profissional, pessoal, etc.
Amigos na Itália
Diante disso, a língua se faz necessária. E digo mais, é imprescindível para morar em outro país. Sem ela, não conseguiremos nunca compreender, de fato, o outro. Portanto, eu afirmo que o conhecimento da língua italiana é um fator decisivo para a integração sociocultural no país.
Morar na Itália sem saber o idioma? Difícil. Por isso, aprenda o idioma!

O que os italianos mais gostam dos brasileiros?

As características “típicas” dos brasileiros que conquistam os italianos, são sem dúvidas, a força de vontade, alegria e resiliência.
De modo geral, os brasileiros são vistos como pessoas muito positivas e otimistas, dinâmicas e animadas.

E o que menos gostam?

Se por um lado os brasileiros tendem a ser mais abertos sobre a vida pessoal, por outro lado, os italianos tendem a ser mais reservados. Essa diferença cultural pode causar provocar uma certa dificuldade na hora de fazer amizades.
É normal ouvir que os brasileiros estão sempre atrasados, não são muito confiáveis, muito curiosos e um pouco preguiçosos. Preferem se divertir a trabalhar (mais preconceito!).

E então, como é ser brasileira na Itália?

É desafiador. E é difícil. Ao passar por uma situação desagradável, eu logo fico triste. Mas quando vejo os meus amigos e lembro que pessoas inteligentes e interessantes existem, eu paro e penso que não é a ignorância que vai me abater.
Afinal, eu não me imagino fora daqui, sem a minha rotina e essa língua que agora também é minha. Aqui na Itália, eu também me sinto em casa.