Era um fim de tarde cinzento e frio num sábado de março de 2012. Eu e meu pai cruzamos de carro a ponte que dá acesso a Amboise e, no meio da névoa, surgiu o Castelo que eu tantas vezes admirei em fotos antes de escolher esse destino para viver pelos próximos meses. Eu ia fazer um curso de línguas na França!
A cidade era tão charmosa quanto eu imaginava. Fomos dirigindo pelas ruas estreitas tentando encontrar o apartamento que eu tinha reservado. O céu foi escurecendo rapidamente e não achávamos o endereço indicado.
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INICIAR ATENDIMENTO →Por sorte, depois de algum tempo, apareceu um senhor caminhando. Tentamos pedir ajuda com o nosso francês que se resumia talvez a 10 frases (felizmente, minha coragem era maior que meu vocabulário). Telefonamos para a dona do imóvel, ela conversou com o homem para explicar melhor e, assim, finalmente chegamos ao meu novo lar.
A decisão de fazer um curso de línguas na França
Eu estava contente, mas também nervosa e com medo. Com 23 anos, não foi fácil tomar a decisão de estar ali com uma grande mala e sabendo que, no dia seguinte, meu pai voltaria ao Brasil. Coincidentemente ele estava em Paris à trabalho e, por isso, conseguiu me ajudar a me instalar. Depois disso, eu não o veria pelo próximo ano.
E como fui parar em Amboise, uma cidade de cerca de 13 mil habitantes, no Vale do Loire? Desde a minha primeira viagem à Europa, 4 anos antes da mudança, eu comecei a alimentar o sonho de morar fora, mas fui adiando porque estava cursando jornalismo, fazendo estágio em uma agência de comunicação conhecida e em um relacionamento cheio de idas e vindas.
Em 2012, eu começaria o último ano na universidade e pensei que talvez o melhor fosse fazer um intercâmbio na França antes de me formar. Assim, ainda teria a chance de fazer um novo estágio quando voltasse. Paralelamente, eu não achava, naquele momento, que comunicação corporativa era o que eu queria fazer da minha vida.
E aí o empurrão final foi o fim do relacionamento. Nada como um coração partido para motivar a gente a mudar de vida, né?
Eu já falava inglês fluentemente e tinha muita vontade de aprender francês. Na verdade, eu nutria uma fascinação pela França e sua cultura e então comecei a pesquisar sobre escolas de idiomas no país e consultei também agências de intercâmbio.
No final, estava dividida entre as cidades de Amboise e La Rochelle. A primeira, com seu charme interiorano, cafés aconchegantes, Castelo e o museu onde viveu o Leonardo da Vinci. A segunda, uma cidade estudantil vibrante na costa do Atlântico. E na dúvida, escolhi as duas. Passaria 3 meses em cada uma.
Como eu só poderia me matricular para voltar a universidade em 2013 (meu curso era anual), decidi passar os primeiros 6 meses fazendo um curso de línguas na França, depois viajar um pouco por Portugal, Espanha e Marrocos. Por fim, ficar mais alguns meses estudando espanhol em Málaga. Seria um ano dedicado ao aprendizado de idiomas e a explorar uma partezinha do mundo.
Planejando a temporada de estudos
Comprei os cursos de idiomas e o seguro de viagem através de uma agência de intercâmbio. Reservei com eles também acomodação em residência estudantil em La Rochelle. Em Amboise, resolvi por conta própria o aluguel de um apartamento.
Como eu passaria mais de 3 meses na Europa, precisaria de um visto de estudante para França. Para isso, o primeiro passo foi a entrevista no Campus France e, depois, compareci ao Consulado. Eu também solicitei um visto de estudante para a Espanha antes da viagem, já que o meu visto francês seria válido apenas pelo período daquele curso.
Com todo o planejamento para morar na Europa e a parte burocrática resolvidos, não demorou muito para eu embarcar para Paris com malas e alma pesadas, carregando muitos sonhos, mas também muitas incertezas. Talvez eu tivesse mais incertezas do que certezas, na verdade.
Primeiras impressões
Quando meu pai foi embora na manhã de domingo, me vi sozinha caminhando por ruas com lojas fechadas e pouca gente. O termômetro da farmácia marcava 4 °C. E eu, sem internet para falar com ninguém — o apartamento não tinha Wi-Fi e era uma época em que quase ninguém comprava chips internacionais. Portanto, eu só teria conexão na escola.
Me sentei na margem do rio Loire e fiquei pensando “onde estava com a cabeça quando tomei aquela decisão de fazer um curso de línguas na França”.
Me desesperei um pouco com a ideia de que aquele seria apenas o primeiro dia de um ano inteiro! O desconhecido me atravessava como o frio de março.
Fui dormir pensando que, ao menos, na manhã seguinte, eu conheceria meus colegas de classe, provavelmente faria algumas amizades e assim teria companhia para explorar a cidade.

Ao mesmo tempo, surgiu um medo infantil de estar sozinha em casa, e comecei a lembrar de todos os filmes de terror que já tinha assistido na vida. Resolvi dormir com a luz acesa e tirar da parede, perto da cama, uma gravura de Leonardo da Vinci. Não queria aquele senhor barbudo me olhando! Guardei-o em uma gaveta até o meu último dia em Amboise.
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Na segunda-feira cedo, ao entrar na escola, vi vários estudantes de diferentes idades sentados ou tomando um café. Aí já não me senti mais tão sozinha — apesar de ficar só observando, sem falar com ninguém.
A escola era pequena, muito acolhedora e com professores simpáticos. Após um teste de nivelamento, nossa turma foi formada: éramos três brasileiros e uma alemã.
Como o nível era iniciante, eu entendia bem o que diziam, já que falavam devagar, mas responder em francês era outra história. Na primeira semana, acho que me comuniquei mais com sorrisos do que com palavras.
Já na primeira tarde, eu e os outros dois brasileiros — um rapaz de 18 anos e uma mulher de 46 — fomos almoçar juntos em um restaurante local e, depois, fizemos um tour pelo Castelo. No fim do dia, ao nos despedirmos, eu estava muito mais contente do que no dia anterior.
A intensidade das amizades
Acredito que, em um intercâmbio, por todos estarem longe de casa e da própria zona de conforto, as amizades se formam e se fortalecem muito mais rápido. Por isso, no fim da semana, eu e meus novos amigos já estávamos viajando juntos para Bordeaux, aproveitando o feriado de Páscoa.
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INSCREVER GRÁTIS→De alguma forma, apesar das muitas diferenças, nós nos entendíamos. Provavelmente, uma das melhores coisas de morar fora seja justamente o quanto isso te abre para conhecer pessoas que, no Brasil, você nunca conheceria simplesmente por estarem fora da sua bolha. É quase por sobrevivência, mas isso te permite se conectar com seres humanos diversos.
Ao voltarmos de Bordeaux, estávamos ansiosos por uma nova segunda-feira, pois era quando chegavam estudantes na escola. Dessa vez, foi um grupo de engenheiros japoneses a chegar. Uma daquelas pessoas viria a se tornar minha melhor amiga, a Camila, que também era brasileira e tinha a mesma idade que eu.
Logo éramos 4 almoçando juntos todos os dias, passando a tarde buscando o que fazer quando não tínhamos aula e viajando em grupo. Fomos à Riviera Francesa por alguns dias e, apesar de nos divertirmos bastante, claro que também tivemos alguns conflitos.
A cada semana, conhecíamos mais gente, e nossa mesa no pub local, às quintas-feiras, ficava cada vez maior. Havia brasileiros, japoneses, uma equatoriana, uma sueca e alguns suíços. Nossos passeios se tornavam mais variados — e o mundo, de repente, parecia pequeno.
Eu e a Camila também viajávamos juntas praticamente todos os finais de semana dividindo garrafas de vinhos baratos por cidades como Paris, Poitiers, Rouen e Caen.
Por vezes nos assustando um pouco com a “França real”, que fugia bastante do glamour idealizado, com muitos moradores de rua, cidades sujas e um assédio masculino ostensivo, mas, ao mesmo tempo, conhecendo lugares lindos e interessantes historicamente.
Em alguma segunda-feira, chegou uma suíça de 21 anos, tímida e com cara de séria (e com um nome que soava engraçado para os brasileiros: Tosca). Inicialmente, não tivemos tanto contato — e eu nunca pensaria que no futuro seríamos como irmãs.
As dores das despedidas
A vida em Amboise não era feita só de chegadas — era também marcada por despedidas. E essas doíam, porque, por mais que tentássemos ser otimistas e prometêssemos nos reencontrar, no fundo todos sabíamos que, morando em países diferentes, provavelmente nunca mais nos veríamos.
Muitos amigos das primeiras semanas do meu curso de francês na França se foram muito antes de mim. Aos poucos, minha partida também se aproximava, e o coração doía ao deixar Amboise — onde eu tive tanta insegurança no início, mas depois me senti tão acolhida, como se realmente pertencesse àquele lugar.
Nesse ponto, eu já conseguia me comunicar bem em francês, entendia muita coisa e conhecia a maioria das ruas e restaurantes locais.
Uma semana antes de eu ir embora, foi a despedida da Tosca. Ela também iria para La Rochelle, e fiquei feliz por ao menos já ter uma conhecida. Embora a situação fosse muito mais fácil do que quando cheguei, acho que poucas pessoas gostam de ser novas em um lugar.
Meus últimos dias em Amboise foram arrumando malas, limpando o apartamento e chorando ao abraçar, pela última vez, as pessoas que foram parte daqueles intensos meses. Então, finalmente, coloquei o Leonardo da Vinci de volta na parede.
O novo começo de um curso de línguas na França
A Camila foi comigo até La Rochelle para me ajudar. Quando chegamos, a Tosca já nos esperava na saída do trem, com um plano detalhado para o fim de semana, combinando seu famoso planejamento suíço com uma grande dose de doçura! Dessa vez, tivemos o sol e um vento salgado nos recebendo.

Eu e a Tosca vivíamos na mesma residência estudantil e passamos todos os dias juntas até ela ir embora, algumas semanas antes de mim. Caminhávamos para a escola cedinho, passávamos o intervalo fofocando e, à tarde, saíamos para passear. Cozinhávamos no apartamento dela e só nos separávamos na hora de dormir.
Nos chamávamos sempre de irmãs e foi incrível como apesar de pertencermos a culturas tão diferentes, acabamos tendo tanta conexão.
No meio do verão, ela voltou para Zurique e, apesar de eu já estar familiarizada com a escola, falar francês intermediário e não faltarem coisas para fazer em La Rochelle, comecei a me sentir sozinha outra vez.
Eu procurava conversar com os outros estudantes e sair à noite com eles, e, ao mesmo tempo, comecei a fazer muitos passeios, viajar por conta própria e dedicar mais tempo à leitura e aos estudos de francês.
Au revoir, France!
Me lembro como se fosse hoje: eu saindo da residência estudantil em La Rochelle com meu mochilão nas costas enquanto caminhava em uma tarde ensolarada de verão para a estação. De lá, eu pegaria um trem para Bordeaux e, no dia seguinte, embarcaria em um voo para Madrid.
Já não tive despedidas doloridas. Fui com a certeza de que cumpri o que me propus com o curso de línguas na França: amadureci anos em seis meses, ganhei confiança em mim mesma e vivi momentos lindos com pessoas incríveis!
Amizades que ficaram
E não acabou por aí! Eu ainda visitei a Tosca em novembro daquele ano, em Zurique. Não nos vimos por quase 6 anos, até que me mudei para a Alemanha e, então, fui mais uma vez visitá-la na sua cidade.
Ela foi ao meu casamento, eu fui ao dela, ela nos visitou novamente para conhecer meus filhos. Posso dizer que até nossos cachorros se tornaram melhores amigos também. Continuamos nos chamando de irmãs e eu sei que essa conexão vai durar toda a vida.
Já a Camila, eu a vi muitas vezes depois de voltar a São Paulo. Mantivemos nossa tradição de planejar encontros em restaurantes franceses e até fomos uma ao casamento da outra, mas, desde que me mudei, não nos encontramos pessoalmente.
Trocamos mensagens, claro, e, com o tempo, os tópicos mudaram: hoje falamos sobre maternidade e nossos pequenos, em vez de planejarmos nossas próximas viagens juntas.
Os maiores aprendizados do meu curso de línguas na França
Eu aprendi o idioma e mergulhei na cultura local. Ao mesmo tempo, convivi com pessoas de outros países e conheci muito sobre a Suíça, o Japão, o Equador e principalmente sobre relacionamentos!
Apesar de ter lidado muitas vezes com o desconhecido, com a solidão e, eventualmente, ter me sentido como uma criança desamparada, foi assim que tive que superar a minha timidez e resolver as coisas.
E a melhor parte é que muitas vezes também tive pessoas incríveis ao meu lado, vivendo os bons momentos e também me ajudando com os desafios.
Ter feito um curso de línguas na França, foi sem dúvidas, um período da minha vida que vou lembrar para sempre. Apesar de não ter sido muito longo, deixou raízes. Foi na França que eu vi que aprender uma língua é mais do que decorar palavras. Foi praticamente como construir uma nova versão minha.
Provavelmente, isso também me deu confiança para, alguns anos mais tarde, me mudar para a Alemanha, pois me proporcionou a certeza de que sou capaz de me adaptar e de lidar com a saudade. Não foi uma pausa na minha vida em São Paulo, mas o início de uma nova vida.
*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do Euro Dicas.