Quando a gente vive na Europa, pular de um país para outro é mais fácil e perto do que cruzar a via Dutra. Cerca de 400 km de estrada que separam o Rio de São Paulo servem para unir até três países por aqui. Então, falar que vai dar uma passadinha ali na Espanha no domingo, saindo de Portugal, não é exatamente um grande feito, certo? De Portugal para França? Também está fácil!

Família em Monte Saint-Michel, na França.
Índice Mas a distância muda quando o assunto são filhos Um pouco de contexto Manda um, recebe dois Sofrendo por antecipação Por um momento, achei que ia virar um “encontro às cegas” Vai que é sua! Brincadeiras e estudo Fim do primeiro tempo O dia da glória chegou Um pouquinho de escola e muita diversão Três idiomas e mímica Pastel de nata e pão de queijo, o melhor dos dois mundos Pais brasileiros, pais franceses E no fim, tudo deu tudo certo

Mas a distância muda quando o assunto são filhos

Quando essa escapadinha é feita pelo seu filho pré-adolescente, que decide que quer encarar o desafio de passar uns dias longe, numa casa em que não conhece ninguém e onde todos falam uma língua que ele praticamente desconhece, o “pulinho” logo ali ganha contornos de uma verdadeira odisseia. Ao menos na cabeça dos pais!

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Ciclopes? Sereias sedutoras? Tempestades, vendavais? A aventura tem mesmo seus desafios, mas longe de qualquer grande susto que foi essa aventura de um curto intercâmbio promovido pela escola dos miúdos (na verdade, a molecada enfrentou tão bem a nova experiência, que deveríamos mesmo é chamá-los de “graúdos”!)

Um pouco de contexto

Não é a primeira vez que eles promovem essa troca: a escola do meu filho — uma escola pública, diga-se — organiza esse intercâmbio com colégios de outros países por um período curto, em torno de uma semana. Já foram para a Polônia e para a Inglaterra, por exemplo.

Desta vez, o intercâmbio na França, mais precisamente uma charmosa cidade na Bretanha, perto da igualmente linda Saint Malo. De modo geral, crianças do oitavo ano, na faixa dos 13 ou 14 anos. Desta vez, abriram a possibilidade de os mais novos, do sétimo ano, também irem.

E assim foi. Uns iriam, outros viriam. Uns dias de portugueses (e brasileiros, por nossa conta) por lá e outros dias, semanas depois, de franceses por cá. Durante o dia, as crianças ficam juntas, com uma programação preparada pelos anfitriões, incluindo um pouco de turismo e algumas atividades letivas.

Mas ao fim da tarde… bom, aí é cada uma na sua casa, com os “pais” e o “irmão” (ou irmã) que ganham por uma semana.

Manda um, recebe dois

Este ano, havia mais alunos franceses do que portugueses (os dois grupos tinham em torno de 20 jovens), o que criou um dilema: se cada menino ou menina daqui fosse ficar na casa de um outro lá na França, iria sobrar alojamento por lá e faltar aqui. Mas tudo resolvido.

Lá, duas famílias se dividiram para receber um único estudante, partilhando os dias e as atividades. Em contrapartida, algumas famílias de Portugal se comprometeram a “adotar” dois francesinhos ou francesinhas.

Crianças comendo hambúrguer.
Meu filho rapidamente se enturmou com os colegas franceses. Foto: Marcos Freire

E nem precisa dizer que o lar brasileiro se voluntariou (outras quatro famílias portuguesas também): “podem enviar dois meninos para gente!”, assumimos na reunião de preparação na escola.

Querem saber? Podia até ser mais. Meninos gente boa, divertidos e educados. Até meu francês enferrujado (eles certamente devem ter ouvido um “nós vai” em francês) ficou feliz.

Meu filho também curtiu ter duas casas na Bretanha, duas famílias paparicando ele, dois irmãos franceses. Passou uns dias em cada casa. E os meninos bretões, que eram bem amigos, com famílias igualmente próximas, também pularam de uma casa para outra e ficaram juntos todos os dias.

Sofrendo por antecipação

Como disse, a escola já organizou outras viagens e todos são muito responsáveis. Eram três as professoras portuguesas à frente do projeto, que acompanharam a turma. Cuidaram de tudo, das passagens para França ao seguro viagem.

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A programação é feita pelo país que está recebendo a turma e partilhada com todos, algumas semanas antes da viagem. Existe até mesmo um portal na internet para que os jovenzinhos já comecem a se conhecer virtualmente antes do encontro presencial.

Então, qual o motivo da ansiedade (no nosso caso, apenas por parte dos pais. Meu filho parecia estar se arrumando para ir ali na esquina comprar pipoca).

Bom, a gente — e acho que posso falar em nome da maior parte dos pais que estavam sempre nas reuniões preparatórias — quer controlar tudo, saber de tudo, nome dos pais, profissão, antecedentes criminais, se a casa tem banheiro, se tem cachorro, se é perto do colégio… ufa! E, claro, não recebemos (e nem precisávamos) tantos detalhes.

“Como meu filho vai dormir na casa de alguém que nem sei quem é?”, “E se a família for de gente esquisita?”, “Quem serão as crianças com quem meu filho vai conviver?”. A angústia ia seguindo nessa toada. Ansiedade à parte, acho que as preocupações até fazem sentido mesmo.

Por um momento, achei que ia virar um “encontro às cegas”

Confia, confia, confia! A gente ia repetindo como um mantra. Já sabíamos a programação, o horário dos voos, partida, chegada, dicas para arrumar a mala. Não faltava nada, a não ser o nome dos jovens franceses e dos pais que iriam nos receber. Segura a ansiedade.

O portal acabou não sendo efetivo. Algumas crianças produziram pequenas apresentações em PowerPoint e publicaram na área restrita para os alunos e pais. Mas não houve nenhuma interação, o que nos afligia um pouco mais.

Até que fomos salvos pelo bom e velho WhatsApp: recebemos os nomes e os contatos dos nossos “filhos” franceses e dos pais, criamos nossos grupos e cada família foi estabelecendo sua rotina de comunicação, suas trocas de informações e fotos.

Pré-adolescente faz intercâmbio de Portugal para a França.
A estadia na França foi muito bem, obrigado! Foto: arquivo pessoal do Marcos Freire

Não seria mesmo um encontro às cegas. A família que receberia meu filho tinha nome, sobrenome e rostos. E gradualmente, como acontece com todos os encontros, a gente foi se conhecendo, aprendendo a confiar e a acreditar que tudo correria bem.

No nosso caso, por termos duas famílias hospedando o meu filho, criar esse vínculo, mesmo que com as limitações normais de relacionamentos virtuais, foi sendo uma conquista diária.

E mesmo estando com o coração mais leve, sabíamos — eu e minha mulher — que só nos sentiríamos mais tranquilos quando o víssemos entre os franceses, cercado por rostos alegres e sorridentes das famílias que o receberam.

Vai que é sua!

Ficamos mais tranquilos, é verdade, mas não deixamos de saber que os desafios seriam grandes. E que bom que tenha sido assim. A preocupação era apenas com a segurança e com o acolhimento. E isso estava resolvido. Quanto ao resto, “vai que é sua, filho!”.

Hábitos de alimentação, rotina da casa, banhos, horários e tudo em um idioma que, no caso dele, soava compreensível apenas com o “Bonjour” e pouco mais.

Mas funcionou. Mímica, um pouco de inglês e muita boa vontade dos dois lados transformou as limitações do idioma em algo irrelevante. E a comunicação também “bombou” entre nós, os pais, no grupo especialmente criado para essa aventura.

Aliás, vale destacar a sensibilidade que as famílias francesas demonstraram, sempre nos dando notícias, mandando fotos da programação dos fins de tarde e da noite. “Soirée Burger”, “Soirée pizza” e a noite do “pai-o-que-é-raclette?”. Tudo devidamente documentado e registrado, como se estivéssemos num Big Brother. Pensando bem, coitado do meu filho!

Brincadeiras e estudo

Não foram exatamente dias puxados de estudo, de trabalho em grupo e coisas assim. Teve apresentação na escola e até algumas interações com a rotina dos estudantes franceses (incluindo, claro, os almoços na cantina), mas o que mais marcou foram mesmo os passeios com todos juntos.

Do “city tour” pela pequena cidade de 5 mil habitantes à descoberta das belezas do Monte Saint-Michel, a vivência ao ar livre certamente ensinou mais do que as poucas horas que passaram nos bancos escolares.

Grupo de alunos reunidos em frente ao Monte Saint-Michel.
Durante o intercâmbio, meu filho conheceu o Monte Saint-Michel ao lado de muitos amigos. Foto: Marcos Freire

E mesmo que tenham sido “escoltados” por professores portugueses e franceses, desbravar as ruas e vielas desconhecidas, cuidar do dinheiro, ficar atento às sutilezas e aos hábitos locais, aos costumes, conhecer os museus, os parques, seguir rigorosamente as instruções de horários foram as aulas mais importantes que certamente tiveram.

Fim do primeiro tempo

A primeira parte da odisseia terminou sem mortos e tampouco feridos. Algum choro na despedida, uma grande festa na escola, com músicas locais e todos os pais e miúdos reunidos. Molecada dançando ao som do ritmo da Bretanha, muitas risadas, comida farta.

E nós por aqui? “arrumou a mala direitinho?”, “agradeceu seus anfitriões?”, “cuidado com os documentos! Não vai perder o passaporte!”, “tá levando um lanche para o aeroporto?”, “não saia de perto do grupo!”. Já entenderam, né?

O dia da glória chegou

Segundo tempo da jornada: le jour de gloire est arrivé (o dia da glória chegou), como diria o hino francês. Algumas semanas após o retorno do grupo português, foi a vez de recebermos os franceses.

E quase com o “dever” de não deixar por menos: se foram bem cuidados e bem acolhidos por lá, queríamos garantir a mesma experiência na terra do pastel de nata (aliás, as tartelletes de natá fizeram um super sucesso).

Aqui em casa já estava tudo pronto: despensa recheada, agendada fechada com programação para cada um dos fins de tarde e noite, joguinhos de toalha sobre as camas (na verdade, montamos um “camping” para que os três meninos dormissem no mesmo quarto, com direito a colchão no chão).

Alunos em sala de aula.
Não é só de diversão que se faz um intercâmbio escolar. É preciso estudar! Foto: Marcos Freire

Dias antes, imaginando que os pais de lá sejam como os de cá, fomos dando vários sinais de que éramos pessoas certinhas, gente boa mesmo, e que os jovens franceses estariam em boas mãos. Na prática, fotos da família, vídeos sobre a nossa cidade, agenda com a nossa sugestão de atividades e tudo mais que pudesse, de alguma forma, tranquilizar as duas famílias na Bretanha.

E vale um reconhecimento: nosso jovenzinho deu uma força, se mostrando bem simpático, educado e responsável nos dias que esteve por lá (fora de casa, eles são realmente filhos exemplares. Em casa, nem sempre…). Se o filho é assim, os pais não podem ser tão esquisitos. Foi o que pensamos que eles poderiam pensar.

Um pouquinho de escola e muita diversão

Aqui no intercâmbio em Portugal também teve uma agenda diversificada para os alunos franceses. Um pouco de convívio com a rotina da escola, almoço na cantina, e muitos passeios. As três professoras à frente da organização capricharam e até a Câmara Municipal deu uma força.

Grupo de estudantes no Porto, Portugal.
Mergulhar na cultura foi um dos aprendizados de Portugal para França e vice-versa. Foto: Marcos Freire

Teve passeio por Aveiro, com direito a desbravar os canais de barco moliceiro e a aprender a fazer ovos-moles (“achamos muito doce”, confessaram nossos dois miúdos franceses) e bate e volta ao Porto para comer francesinhas, claro.

Também teve city tour pela nossa simpática cidade, pintura de azulejos, produção de pão de ló, caminhada pelo mercado e pelo parque urbano, sorvete na praia e jogo de basquete na quadra ao lado de casa.

Três idiomas e mímica

Receber dois jovenzinhos em casa, que passou a ter um trio de pré-adolescentes, não é exatamente algo corriqueiro para nós. E quando eles falam outro idioma, temos mesmo que ser ecléticos na comunicação.

Meu francês enferrujado, o inglês deles também não ajudava. No final, meu filho foi o que se virou melhor: falava em português, dando um toque de sotaque francês nas últimas sílabas, arriscava no inglês e também no francês. E quando apertava, ia mesmo na mímica.

Ainda assim, demos boas risadas, aprendemos muita coisa da vida na Bretanha e pudemos partilhar um pouco da história, dos hábitos e da cultura portuguesa (ah, da brasileira também, claro). Lembrei das cantigas de roda do meu tempo de Aliança Francesa e dos diálogos do Petit Nicolas.

Pastel de nata e pão de queijo, o melhor dos dois mundos

Sou meio suspeito para falar, mas cair numa família brasileira que mora em Portugal foi um bônus para os meninos. Além de tudo que viram e experimentaram — das francesinhas ao bacalhau, dos ovos-moles ao pão de ló — ainda rolou muito pão de queijo e “guaraná”.

Falamos de Cristiano Ronaldo, mas também de Ronaldinho. De fado e de MPB (fomos até ousados e levamos os meninos a um show de jazz, que não fez tanto sucesso). Aprenderam o que é autocarro e que também é ônibus; aprenderam que os meninos falam “obrigado” e que as meninas falam “obrigada”, não importa se estão se dirigindo a outros meninos ou outras meninas.

Estudantes da Escola Secundária José Macedo Fragateiro, em Portugal.
O mais incrível dessa experiência é saber que a iniciativa vem de uma escola pública. Foto: Marcos Freire

Ah, fica a dica: não vale investir tanto em iogurtes, cereais, presunto, queijo e ovos no café da manhã. O que funcionou mesmo foi suco de laranja e fatias de pão de forma dobradas e recheadas com toneladas de nutella.

Na verdade, a gente deveria ter desconfiado: trouxeram de presente para nós um pote de um creme de avelãs com chocolate produzido localmente (vai que os brasileiros não conhecem a nutella). E era isso e mais nada. O único concorrente quase a altura foi o pão de queijo.

Pais brasileiros, pais franceses

Já li muito sobre as diferenças no modo de educar dos franceses. Mas mesmo que possamos notar alguns comportamentos diferentes pontualmente, tem sentimentos que são universais: preocupação de pai e mãe, por exemplo, é uma emoção universal, sem dúvida.

E se ficamos preocupados com o nosso “bebê” circulando pela Bretanha, imaginamos que as duas famílias também ficariam com os respectivos filhos.

De Portugal para a França e de lá para cá, a programação foi intensa.
De Portugal para França e vice-versa, a programação de atividades foi intensa! Foto: Marcos Freire

A solução foi a edição de um diário de bordo enviado no nosso grupo diariamente: “hoje foram brincar na praia e tomaram sorvete”; “esta noite vamos comer hambúrguer”; “amanhã vai ser dia de pizza”; “ah, vamos a um festival de jazz daqui a pouco!”. E, claro, tudo devidamente ilustrado pelo repórter fotográfico que vos escreve.

E no fim, tudo deu tudo certo

Também teve choro na despedida do grupo, teve uma linda festa com música e dança de um grupo folclórico português, muita comida, muita corrida pelas quadras da escola, risadinhas e trocas de olhares (acho que não passou disso, mas talvez eu já esteja ficando velho) entre jovenzinhos e jovenzinhas portugueses e franceses.

Professoras de cá e de lá assoberbadas, mas nitidamente se sentindo orgulhosas pelo trabalho (e com toda a justiça!). Pais também orgulhosos dos seus filhos de sangue e dos que “adotaram” por uma semana. Deu certo? Tenho certeza que sim!

Talvez alguns percam o contato. Outros, quem sabe, até voltem a se ver. Como disse no começo, ir de um país a outro na Europa é um pulinho.

Mas tenho certeza que a experiência ficará marcada na história de vida dessas crianças. Quanto aos pais, não sei se posso falar por todos, mas, para mim e para minha mulher, foi uma evolução e um grande aprendizado.

Não diria que as nossas preocupações foram bobas. Acho que teremos o mesmo coração apertado quando nosso miúdo (ops, graúdo!) sair de casa para fazer faculdade em outra cidade ou país, por exemplo; ou quando, ainda mais velho, for trabalhar em outro continente.

Vamos querer saber se está seguro, que está se cuidando, que está atento e por aí vai. A preocupação sempre vai existir. Mas o que tem ficado cada vez mais claro é que ele — como os outros colegas — estão mais bem preparados para a vida do que a gente às vezes imagina. É confiar, confiar, confiar. Essa turma dá conta do recado!