O primeiro relatório trimestral macroeconômico espanhol de 2024 aponta para a estabilização e a desinflação da economia da Espanha. Mas estabilizar-se é bom ou ruim? Será que a redução da inflação finalmente poderá ser percebida no bolso da população?

Vamos ver com isso afeta a vida dos cidadãos e residentes analisando a economia espanhola e todos os seus principais indicadores.

Economia da Espanha: qual o cenário atual?

Alguns números podem não ser tão gritantes, mas a economia da Espanha tem passado por uma longa recuperação que vem arrastada desde a crise de 2008, passando também pela Covid-19 e a Guerra na Ucrânia. E parece que 2023 foi o ano em que os indicadores econômicos começaram a recuperar-se de fato.

Oussama Chemlal é docente especializado em economia de universidades públicas espanholas como Carlos III e a Autônoma de Madrid. Ele explica que apesar do cenário estar sendo de crescimento, este pode não ser contínuo.

“Espera-se uma recuperação nos anos posteriores, ainda que seja desigual em diferentes setores e regiões”.

Publicado em 12 de março de 2024 pelo Banco de España, o Relatório Trismestral e Projeções Macroeconômicas da Economia Espanhola destaca que o país passou por um dinamismo da atividade econômica no ano passado.

E isso levou a uma aceleração inesperada: o crescimento financeiro intertrimestral em dezembro de 2023 chegou a 0,6%, enquanto a previsão indicava que este seria apenas de 0,3%. Os motivos para tal crescimento se concentram no dinamismo do consumo público e na acumulação de inventários.

O que pensam os cidadãos espanhóis?

Por outro lado, do ponto de vista dos cidadãos, de acordo com a pesquisa “What Worries the World 2024” realizada pela consultora Ipsos, a maior preocupação é o desemprego, —mesmo levando em conta que os últimos esforços governamentais para reduzir a taxa de pessoas sem trabalho parecem estar obtendo êxito.

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No primeiro trimestre de 2023, a taxa de desemprego era de 13,26%, enquanto nos últimos três meses deste mesmo ano, caiu para 11,76%. Os dados são do Instituto Nacional de Estatística (INE).

E ainda com este crescimento, o desemprego continua sendo relativamente alto. Se compramos com países vizinhos, como França e Portugal, este mesmo indicador foi de 7,5% e 6,5%, respectivamente, em janeiro de 2024.

O PIB está em constante crescimento

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), por sua vez, indica que o PIB espanhol crescerá 1,5% em 2024 – cifra mais elevada do que a média do continente, que deve ser de 0,6%.

Já segundo o Índice de Gestores de Compra (PMI), o setor de serviços é o principal catalisador das melhorias econômicas na Espanha. A notícia foi divulgada pela agência Europapress e aponta que, dentro deste setor, o crescimento foi impulsado pela introdução de novas medidas comerciais, ações de marketing e o aumento da demanda, em geral.

Principais indicadores da economia da Espanha

Como qualquer outro país, os principais indicadores econômicos permitem avaliar os resultados da economia nacional e fazer previsões. Diante disso, vamos olhar os dados da economia da Espanha.

PIB

Nos últimos anos, a Espanha tem apresentado um crescimento moderado do seu Produto Interno Bruto (PIB), que aumentou de 2,5% em 2023, segundo o INE. Este valor pode ser considerado alto, já que a OCDE tinha como previsão o aumento de 1,2%. Ainda assim, nota-se uma desaceleração crescimento, que foi de 5,5% em 2022.

Para que possamos entender o histórico de crescimento, vejamos os dados do INE.

Ano Taxa Anual de crescimento
2023 +2,5%
2022 +5,5%
2021 +5,5%
2020 -11,3%
2019 +2,1%
2018 +2,3%
2017 +3,0%
2016 +3,0%
2015 +3,8%
2014 +1,4%
2013 -1,4%

É preciso destacar que, apesar do crescimento ter desacelerado, não significa que o país vá de mal a pior. Considere que em 2020, a taxa foi de -11,3%. Então, os dois anos seguintes representaram um grande esforço para a sua recuperação. Agora, a tendência é que a economia encontre uma via mais estável.

Mas o que estes números dizem sobre a economia da Espanha?

Enrique Palacios, economista e Chief Compliance Officer da Onyze, explica que o PIB é a criação de valor de um país e beneficia todos os agentes da economia.

“Historicamente, diz-se que o emprego é gerado a partir de 2% do PIB. Entretanto, é necessário analisar qual dos componentes deste dado tem mais peso, seja o consumo, o investimento, a exportação… E, dependendo da resposta, podemos dizer que um cidadão ou empresa o percebe mais diretamente”, explica.

Ele ainda aponta que os indicadores mais palpáveis para o cidadão são o desemprego, a inflação e a taxa de juros, já que estes afetam diretamente a cesta de compras e a hipoteca.

Enrique Palacios, economista espanhol
Palacios é especializado em digitalização de bancos, acumulando experiência na Espanha, Irlanda e Portugal.

Ele também explica que qual será o desafio depois da expansão monetária dos bancos centrais, que beneficiou a todos – como ele mesmo ressalta:

“[…] será um desafio para os governos nos próximos anos administrar o ajuste às políticas mais ortodoxas. Isso faria que aqueles indicadores ‘menos visíveis’, como o déficit público ou a dívida externa, afetem o mínimo possível os cidadãos, evitando aumentos de impostos que atrasem a atividade econômica”.

Dívida pública

A dívida pública pode ser um dos fatores menos visíveis para o cidadão. Contudo, é um dado primordial já que afeta a capacidade do governo de investir e implementar políticas econômicas.

Em 2023, a Espanha fechou o ano com uma dívida pública de 107,7% do PIB, o que faz com que o país seja o quarto mais endividado da Europa. Com relação a 2022, este índice indica uma recuperação de quatro pontos percentuais, um resultado melhor do que o esperado, que era de 108,1% para 2023.

Segundo uma notícia do jornal El País:

“Este é o terceiro ano consecutivo em que a relação dívida/PIB diminuiu graças ao crescimento econômico robusto, deixando para trás os picos de mais de 120% atingidos durante a pandemia, embora permaneça em máximos históricos em termos de volume”.

Inflação na Espanha

Desde a pandemia Covid-19, a inflação tem sido reduzida, mas de maneira pouco uniforme e enfrentando flutuações em diferentes setores.

“Em resumo, a inflação na Espanha na última década foi variável, embora tenha se mantido relativamente baixa”, destaca Chemlal.

Também chamada de Índice de Preços ao Consumidor (IPC), a inflação em março de 2024 é de 2,8%. De certa forma, este número é positivo, pensando que correspondia a 6,5% há um ano. Porém, esta queda nem sempre é percebida no bolso do cidadão, já que a inflação sobre os alimentos e bebidas não alcoólicas é de 5,3%.

Outro valor que afeta o dia a dia das pessoas é o preço dos imóveis, que aumentou 4,1% em 2023. Apesar de não estar diretamente vinculado com a inflação e sim com uma crise imobiliária europeia, este tema tem sido alvo das maiores queixas entre os espanhóis.

Taxa de juros de empréstimos

Para os que necessitam recorrer a crédito bancário, as notícias não são tão positivas. Em dezembro de 2023, a taxa de juros foi de cerca de 4,5%, um valor que vem subindo continuamente desde janeiro de 2022. Porém, em 2024, estima-se que número cairá para 3,2%, como resultado das melhorias econômicas recentes no país.

“Anos de políticas monetárias e de liquidez expansionistas levaram a excessos inflacionários, que vieram à tona muito rapidamente, forçando as taxas de juros a subir de forma acentuada para esfriar as economias”, explica Palacios.

E se os juros caem, é provável que mais hipotecas sejam solicitadas. Segundo a empresa de consultoria EY, a previsão é de que os empréstimos hipotecários da zona do euro cresçam 2,4% em 2024. Mas ainda assim, isso representa uma recuperação muito lenta, já que a demanda do consumidor por crédito bancário deve crescer apenas 1,9% neste mesmo ano.

Pessoa fazendo as contas da casa
Com a taxa de juros em alta, menos pessoas realizam compras imobiliárias, acentuando ainda mais a crise no setor.

Com a queda lenta dos juros, a taxa de inadimplência não diminui de maneira progressiva. Em 2023, o valor foi de 3,56%, contra 3,86% em 2022.

Segundo Palacios, o preço crescente dos aluguéis, especialmente nas grandes cidades, é um efeito do excesso inflacionário e da subida da taxa de juros. Ele indica que as taxas altas acabam sendo um desestímulo para as pessoas que pretendem comprar uma casa com uma hipoteca.

“Juntamente com a precariedade do emprego entre os jovens, que faz com que opte-se por alugar em vez de comprar. Sem mencionar o efeito de que, em cidades como Barcelona, Madrid ou Málaga, há um excesso de demanda de aluguel devido à chegada de pessoas que querem viver e trabalhar ali”, detalha.

Taxa de desemprego

O IPC, os juros e o desemprego parecem funcionar como uma espécie de efeito dominó.

Por isso, com os dados que acabamos de apresentar, já é de se esperar que haja uma falta de trabalho no país. De fato, segundo o INE, a taxa de desemprego é de 11,76% em março de 2024, sendo a mais alta da Europa. Mas o país já viu dias piores.

Veja os dados o históricos também publicados pelo órgão público:

Ano Taxa de desemprego
2023 11,76%
2022 12,87%
2021 13,33%
2020 16,13%
2019 13,78%
2018 14,45%
2017 16,55%
2016 18,63%
2015 20,90%
2014 23,70%
2013 25,73%

Palacios menciona que o desemprego é o calcanhar de Aquiles da Espanha.

“Naturalizamos o desemprego estrutural de 12% e o assumimos como aceitável, o que é intolerável.”

Ainda segundo o economista: “as causas são diversas e têm suas raízes nas negociações de acordos coletivos, a rigidez das leis no mercado de trabalho sobre demissões e novas contratações, a porcentagem entre emprego público e privado e a economia ilegal, que em muitos setores e comunidades autônomas ainda está mais enraizada do que em outros países da OCDE”.

E como podemos ver na tabela, já faz mais de 10 anos que a Espanha não vê a uma taxa de desemprego inferior a 10%. Mas esta é uma das promessas iminentes do governo atual, que aponta que chegaremos lá em 2026, segundo uma notícia do El País.

Onde acompanhar os indicadores da economia espanhola?

Na Espanha, diários tradicionais e outros tipos de mídia fazem uma boa cobertura sobre o tema. Os jornais tradicionais que têm a economia da Espanha como tema principal são elEconomista e Cinco Días. Para quem prefere informar-se em portais financeiros, o Bolsamanía é o mais conhecido.

Ainda mais, algumas organizações bancárias contam com blogs ou site de notícias, como o Bankinter e o BBVA Research. Ambos tendem a ser mais explicativos e educativos e, por isso, podem ser uma boa opção para quem não tem muita familiaridade com o tema.

Já as instituições nacionais e internacionais, como o site do INE e do Fundo Monetário Internacional (FMI) podem oferecer dados, notícias e comunicados à imprensa esclarecedores.

O impacto dos imigrantes na economia da Espanha

O país é considerado muito aberto a imigrantes, com diferentes opções de visto para Espanha, até mesmo visto para aposentados, empreendedores e, o mais recente de todos, para visto nômades digitais na Espanha.

Para além de abrigar estrangeiros, todas estas oportunidades também são uma forma de atrair investimento, consumo e mão de obra.

“Para a economia de um país, a chegada da imigração preenche esta lacuna e fornece valor. Isto é importante para equilibrar as contas da previdência social, embora haja o risco de aumentar o déficit público se a chegada de imigrantes não for feita de forma equilibrada”, alega Palacios.

Previsões para a economia da Espanha em 2024

Para que possamos ter uma visão geral, consultamos o painel de previsões da Funcas, um centro de análise espanhol dedicado à investigação econômica e social.

Como já comentamos, o último trimestre de 2023 trouxe um crescimento inesperado de 0,6% do PIB. De certa forma, isso fez com que o cenário para 2024 melhorasse. De momento, esperamos que o PIB aumente 1,9% até ao final do ano.

Contudo, a inflação não verá grandes melhorias. É verdade que o grande salto foi dado em 2023, de mais de 6% a 2,8% no final de dezembro. Porém, até 2025, espera-se que esta métrica seguirá acima de 2%.

Mercado de trabalho

O mercado laboral, por sua vez, está cada vez melhor: em 2023, o desemprego caiu cerca de 2%, comparando os valores de janeiro de 2023 e janeiro de 2024. Até o final do ano, espera-se uma redução total de mais 2%.

A economia da Espanha precisa de suportes econômicos mais estáveis

Chemlal explica que, apesar das melhorias, a economia precisa de suportes mais estáveis, como a formação bruta de capital fixo (FBCF) e o consumo privado. Mas ambos desempenharam um comportamento pior do que o esperado no final de 2023. Isso significa que, para o futuro, pode ser que haja dificuldade para encontrar fôlego para manter o crescimento.

Por exemplo, a FBCF é uma maneira de ampliar a capacidade produtiva de uma economia visando o futuro, por meio de investimentos em ativos fixos.  No último trimestre de 2023, esta taxa caiu 2% (dado intertrimestral). Isso aponta para um enfraquecimento do investimento empresarial.

Oussama Chemlal, docente e especialista en economia
Oussama Chemlal é doutorando de Economia e Empresa na Universidade Complutense de Madrid.

E como na economia tudo funciona em efeito dominó, se o investimento das empresas não cresce, é mais difícil gerar empregos, aumentar o PIB e incentivar o consumo. Ou seja, o dinheiro deixa de circular e o país precisa optar por outras fontes de fortalecimento econômico – que é uma necessidade para 2024.

Ainda mais, uma das maiores debilidades da economia espanhola é a produtividade, que acaba sendo um fator limitante para o crescimento econômico a médio e longo prazo. Outro ponto que dificulta o crescimento estável é o aumento dos custos laborais, que faz com que a produção local perca a competitividade internacional.

Eleições espanholas e os desafios na economia

Diante das dificuldades mencionadas anteriormente, o governo tem tentado fortalecer a economia por meio de ações como o favorecimento da inovação empresarial, a reformulação das cláusulas legais dos contratos de trabalho temporais e uma reforma laboral, que entrou em vigor em 2022.

Mas o cenário político é altamente instável, e não se sabe se poderemos entender de fato o impacto destas medidas a longo prazo, caso haja novas mudanças governamentais.

Por sua vez, as eleições espanholas (em julho de 2023) instauraram uma grande polêmica no país. Pedro Sánchez não foi o presidente eleito pela população, mas segue no poder. Isso porque, a Espanha é uma monarquia parlamentarista e, para assumir o posto de chefe de estado, o candidato precisa obter não só a maioria dos votos de urna, mas o apoio de pelo menos metade das cadeiras do parlamento.

Neste embate, Sánchez foi obrigado a negociar com partidos separatistas da Catalunha, o que causou uma onda de manifestações no país. O vídeo da CNN Brasil explica como foi esta negociação e o que ela representa para o futuro socioeconômico do país.

Além do caos e da instabilidade política causada pela anistia de Pedro Sánchez explicada no vídeo, existem desafios econômicos que impactam diretamente o dia a dia da população.

Desafios econômicos para a Espanha em 2024

O primeiro deles é continuar a diminuir o desemprego. “Apesar dos esforços feitos para a recuperação econômica, o desemprego continua sendo um dos principais problemas econômicos da Espanha, um problema endêmico e estrutural”, aponta Chemlal.

E junto com isso, vem a precarização das ofertas para trabalhar na Espanha.

“Muitos trabalhadores enfrentam contratos temporários, baixos salários, falta de estabilidade no emprego e oportunidades limitadas de progressão na carreira. Essa situação pode dificultar o planejamento de longo prazo, a poupança e a obtenção de crédito para moradia ou outros fins”, continua.

Ou seja, se não é possível gerar mais emprego, o dinheiro não circulará, afetando todos os indicadores.

No âmbito demográfico, o principal desafio é o envelhecimento da população: com a baixa taxa de natalidade, a preocupação de não ter meios durante a aposentadoria ronda a cabeça dos espanhóis.

A inovação também é uma questão na qual o governo tem investido nos últimos anos. Alguns exemplos são a lei das startups, lançada para incentivar o empreendedorismo na Espanha, e o uso dos fundos Next Generation.

Porém, não basta só investir em tecnologia, o país precisa estar preparado para receber empresas digitais.

“Embora isso ofereça oportunidades em termos de criação de empregos e desenvolvimento de novos setores, também exige investimento em educação e treinamento para garantir que a população esteja preparada para as mudanças tecnológicas e ambientais, esforços que estão sendo prejudicados pela baixa taxa de investimento em P&D”, explica professor.

Com o atual cenário da economia da Espanha, vale a pena investir no país?

Depende do setor.

É certo que a Espanha é um país que tem grandes pilares da sua economia no turismo, no setor imobiliário e na hospitalidade, de forma que os três podem ser opções tradicionais e menos arriscadas. Por outro lado, o país tem aberto as portas para o investimento empresarial.

Além da Lei das Startups, o ICEX (Instituto de Comércio Exterior) tem incentivado áreas mais inovadoras, como energia renovável, tecnologia da informação e da comunicação, farmacêutica e biotecnologia.

“A Espanha está emergindo como um centro de inovação e tecnologia na Europa, com startups e centros de pesquisa ativos em áreas como inteligência artificial, biotecnologia, comércio eletrônico e fintech. Isso tem atraído investimentos de capital de risco e fundos de investimento interessados no potencial de crescimento desses setores”, conta Chemlal.

Quais os melhores setores para investimento?

Segundo Enrique Palacios, esta não é uma pergunta fácil de responder, já que depende do risco a assumir e da duração do investimento.

“Tradicionalmente, os investimentos imobiliários nas grandes cidades e no setor de turismo e hospitalidade têm sido as opções preferidas pelos investidores. Existem outros setores, como as energias renováveis, nos quais a Espanha tem grande potencial, embora as incertezas legais precisem ser removidas”, revela.

Bandeiras da União Europeia, Madrid e Espanha na Plaza Mayor, em Madrid
No dia a dia, os indicadores mais sentidos pelos cidadãos são a taxa de desemprego e a inflação. Foto: Bianca Alves

Ele também aponta que o setor da tecnologia também pode ser promissor. “Cidades inteligentes estão sendo promovidas, e municípios como Málaga estão se tornando uma referência na Europa para atrair talentos e empresas de tecnologia”.

Para latino-americanos, Palacios destaca que a Espanha pode ser a porta de entrada para a Europa. “Há muitas oportunidades no setor de serviços, com talentos altamente qualificados, que viajaram ao exterior e que têm muita experiência em setores tecnológicos”.

Quais os principais setores da economia da Espanha?

O setor de serviços é o que gera mais valor ao país. Segundo o Guia de Negócios na Espanha 2023, o último publicado pela ICEX, estes são os dados:

Classificação Setor  % PIB
1 Serviços  74,28%
2 Indústria 17,00%
3 Construção 5,76%
4 Agricultura e Pesca 2,96%

Por setor de serviços entende-se tudo o que abrange o comércio de varejo e atacado, hospitalidade, transporte e logística, intermediação financeira, atividades imobiliárias, administração pública, educação, atividades sanitárias e veterinárias e outros serviços sociais prestados à comunidade.

Produção e exportação espanhola

A Espanha é um país que enfrenta historicamente um déficit comercial. Porém, comparando janeiro de 2023 e o mesmo mês de 2024, este déficit diminuiu 5,7%. Ou seja, a Espanha tem comercializado um volume maior de produtos ou tem utilizado produções internas para cobrir alguma necessidade no país. O dado é do Relatório Mensal de Comércio Exterior, publicado no dia 18 de março.

Em 2023, as exportações trouxeram 391,5 bilhões de euros ao país, o que representa 29,33% do seu PIB – uma queda de 0,85% comparado ao ano anterior.

Entre os principais produtos exportados estão bens de capital ou maquinário, alimentos, automóveis, semimanufaturas não químicas, manufaturas de consumo e produtos energéticos. Já entre os serviços intercambiados, podemos encontrar os empresariais, de viagens, transporte, informáticos, financeiros.

Histórico da economia da Espanha

Em termos de crises e recuperações, a Espanha parece não ter uma brecha. De 2008 para 2023, já somamos três crises financeiras, as quais vamos olhar mais a fundo a seguir.

Crise de 2008 na Espanha

Para contextualizar, a Grande Recessão teve o seu estopim em 2008, tendo como principais atores o mercado imobiliário e o Lehman Brothers, que era a quarta maior instituição bancária dos Estados Unidos e declarou falência.

Na Espanha, por sua vez, pode-se dizer que o setor imobiliário já não ia tão bem. Entre 1997 e 2007, o país já enfrentava a sua maior bolha imobiliária e o fato de ter um consumo mais elevado que a produção.

Com a economia encarecida e a dívida pública nas alturas, uma das saídas para desaguar a crise foi um corte nos empregos. Apenas em 2012, já sem poder realizar qualquer tipo de autofinanciamento, a Espanha pediu fundos à União Europeia para financiar o resgate dos bancos.

Em 2013, o índice de desemprego chegou a quase 27%, correspondendo a mais de 6,2 milhões de desempregados, o auge do século 21. Muitos atribuem a alta do desemprego contínua a esta crise. E, de fato, desde então o menor índice se deu no segundo trimestre de 2022 (12,48%). Antes disso, o país tinha visto dias melhores, como no segundo semestre de 2007 (7,93%). Os dados são do INE.

Crise da Covid-19 na Espanha

E adivinha um dos indicadores que a crise da Covid-19 afetou profundamente? O desemprego. Em 2020, houve uma alta de 16,26%.

Mas não foi só isso. Neste ano, a economia da Espanha estava paralisada e o seu PIB contraiu 11%. Por um lado, as recuperações de 2021 e 2022 deram uma boa ajuda. Mas, ainda assim, três anos após a pandemia, a Espanha é o único país da zona do euro que ainda não recuperou este indicador.

Precisamos lembrar que o turismo é um dos setores que mais impulsiona a economia espanhola e, em 2020, o fechamento total das atrações e aeroportos praticamente conteve a indústria. Segundo os dados da Confederação Sindical de Comissões Obreiras (CCOO), mais de 578 mil trabalhadores do setor de hospitalidade perderam o emprego devido à pandemia.

Guerra da Ucrânia e o impacto na Espanha

O principal efeito da guerra da Ucrânia na economia espanhola é o preço da energia e do combustível, que afeta todas as indústrias e setores de alguma maneira. Isso porque, a Rússia detém grande parte da reserva mundial de gás e ostenta o segundo lugar no ranking de exportação do petróleo.

Ainda mais, o aumento da inflação também está relacionado à guerra, já que o conflito causa perturbações na oferta. Somado ao alto preço do combustível, tanto a Rússia, como a Ucrânia são grandes exportadores de trigo, fertilizantes e algumas matérias-primas utilizadas na indústria, principalmente automotiva.

Na Espanha, algumas medidas foram tomadas e podem ser percebidas pelo cidadão, dentre elas estão o aumento do preço de eletricidade e incentivos para a utilização de transporte público.

Guerra no Israel impacta a economia espanhola?

O fato é que afeta o mundo inteiro, ainda que não seja diretamente.

Historicamente, os conflitos causam cenários de incerteza mundial. E diante destas situações, a maioria dos investimentos acabam se concentrando em mercados mais seguros, o que pode gerar grandes quedas nas bolsas de valores internacionais.

Em suma, as tensões recorrentes no Oriente Médio afetam os setores de energia, defesa e turismo. Isso sem contar o aumento do preço do petróleo, que eleva os custos de produção e transporte na Europa, impactando também a inflação.

Vale a pena morar na Espanha na atual situação econômica?

Sim, mas com algumas ressalvas.

Precisamos considerar muitas variáveis para decidir se vale a pena viver em um país. Por um lado, a Espanha tem oferecido facilidades para a imigração e para a criação de empresas, o que pode trazer investimentos e, ao mesmo tempo, gerar empregos. Mesmo que haja uma previsão de estagnação do crescimento, a Espanha pode demonstrar melhores resultados que os países vizinhos.

Por outro lado, o índice de desemprego tem se recuperado lentamente, o que pode significar um grande risco para quem quer deixar tudo no Brasil e tentar a vida por aqui. O governo já prometeu várias vezes que este índice será menor de 10% em 2026. E, de fato, no ano de 2023, cumpriu a sua promessa, porém os números continuam altos, e este não deixa ser um problema estrutural.

Mas cabe lembrar que a Espanha é um país que oferece alta qualidade de vida. De certa forma, podemos dizer que é mais “fácil” conseguir ter o básico aqui do que no Brasil – desde você esteja em situação legal.

Se você está em dúvida sobre mudar para a Espanha ou não, saiba que é preciso preparar-se bem, tanto do lado psicológico, quanto financeiro. Pergunte-se se você não está abrindo mão de muita coisa, a fim de saber se vale a pena mergulhar nesta aventura.

Neste meio tempo, você já pode ir se organizando, a começar pela leitura do nosso ebook Como Morar na Espanha. Nele, poderá entender mais sobre todos os assuntos possíveis, dos documentos e burocracias às dicas valiosas para viver na terra do jamón!