A recuperação da economia da Espanha está atrasada. O produto interno bruto voltou a valores positivos, entretanto, o Instituto Nacional de Estatística, INE, fez uma correção do crescimento e a redução do indicador surpreendeu as projeções oficiais. A alteração dos dados – a maior feita até hoje no país – alterou as expectativas para 2021 e, consequentemente, a recuperação pós-pandemia.

Neste artigo você vai conferir as novas previsões para o país, a situação do mercado de trabalho e o impacto da pandemia nos aluguéis.

Quais as previsões para a economia da Espanha pós-pandemia?

Segundo o economista Juan Bosco Plaza, as previsões para a economia da Espanha são boas, mas piores do que se imaginava.

Até pouco tempo atrás, o FMI previu que a Espanha seria o país desenvolvido em que o PIB mais cresceria: 6,2% em 2021 e uns 5,8% em 2022. Entretanto, o Instituto Nacional de Estatística, INE, reviu as suas estimativas para o segundo trimestre de 2021 e rebaixou o PIB em quase dois pontos.

Ou seja, o PIB não cresceu de abril a junho 2,8%, como o Instituto Nacional de Estatística havia dito em julho, mas ficou em 1,1%, de acordo com os dados atuais. Com isso, a Espanha ficou atrás de outros países da União Europeia na recuperação econômica.

“Este cenário não significa que a recuperação não tenha ganhado força e que, apesar de tudo, o PIB espanhol cresça 6% este ano, ou uma porcentagem próxima”, afirma Juan Bosco Plaza.

Essas previsões, na opinião do economista, têm várias explicações:

A Espanha foi um dos países mais afetados pela pandemia

Em 2020, a economia da Espanha estava paralisada, seu PIB contraiu 11%, então o crescimento que está ocorrendo é em grande parte um efeito de recuperação.

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No entanto, a recuperação é muito desigual entre os setores, ou seja, alguns já atingiram ou ultrapassaram os níveis de 2019 e outros, como o turismo, que é muito importante para a Espanha, não o farão até pelo menos 2022 quando o patamar de 2019 será globalmente alcançado.

Consumo aumentou

O consumo privado, que foi contido durante os meses mais agudos da pandemia, explodiu. Os espanhóis estão gastando agora boa parte do que economizaram e isso está funcionando como uma grande força de tração econômica.

Aporte financeiro da UE

O auxílio do European Next Generation EU Recovery Plan (NGEU), envolverá uma injeção de dinheiro de 140 milhões de euros para a Espanha até 2026. Deste montante, 70 milhões não terão que ser reembolsados e outros 70 milhões estão em empréstimos em muito boas condições.

O plano de vacinação foi um sucesso

Atualmente, mais de 80% da população espanhola estão totalmente vacinada e embora ainda haja casos de infecções, eles ocorrem, sobretudo, na população não vacinada (a que atualmente é atendida nas UTIs) e com um nível de incidência muito baixo. Isso permitirá a normalização da atividade econômica em poucos meses caso não apareçam variantes mais agressivas de Covid.

Atuação do Estado

A ação do Estado tem sido decisiva por meio de vários canais. Além do crédito às empresas com o aval do Estado, que está permitindo a subsistência de muitas delas, houve um apoio massivo aos trabalhadores. Com o Expediente de Regulação Temporária de Empregos (ERTE), o governo acredita ter evitado cerca de 3 milhões de demissões.

Controle da dívida espanhola

A atuação do Banco Central Europeu, BCE, garantiu um financiamento massivo a 0% de juros. Isso fez com que a dívida soberana espanhola fosse mantida com um prêmio de risco muito baixo.

Então apesar da dívida ter aumentado notavelmente, o pagamento de juros se manteve praticamente o mesmo. O financiamento do BCE chegou diretamente para muitas empresas e indiretamente para a maioria delas por meio do sistema bancário.

Problemas que podem atrasar a recuperação

Apesar de tantos dados bons, Juan Bosco Plaza afirma que convém não ser muito otimista, nem muito ingênuo já que a Espanha tem uma série de problemas graves pendentes. O economista cita alguns desafios em uma ordem hierárquica, da maior à menor importância:

  • As mudanças climáticas serão especialmente graves na Espanha e isso poderá afetar o turismo que é um setor tão importante para o país;
  • O desemprego, muito alto, principalmente entre os jovens que, além disso, sofrem com a precariedade do mercado de trabalho (há muitos empregos temporários e de meio período);
  • O aumento dos preços, principalmente da energia elétrica;
  • A desigualdade entre homens e mulheres ainda é muito marcante no mercado de trabalho onde as mulheres ganham salários inferiores mesmo exercendo as mesmas funções.

Quais foram os impactos da pandemia na economia espanhola?

Os efeitos da pandemia na economia espanhola foram muito graves. O PIB sofreu uma queda brutal e o turismo que impulsiona a economia (representa entre 12% e 13% do PIB e do emprego) ficou praticamente paralisado.

Muitas empresas fecharam as portas e não vão reabrir mais, milhares de trabalhadores perderam seus contratos de trabalho, e tudo isso aconteceu em um período muito rápido.

“Foi uma queda vertiginosa e a Espanha foi salva graças à ação contundente do Estado, da União Europeia e do BCE”, analisa o economista.

Crise de 2008 x Crise do coronavírus

A comparação entre a crise financeira de 2008 e a pandemia provocada pelo coronavírus é muito ilustrativa, segundo Juan Bosco Plaza. A economia da Espanha sofreu um choque maior e mais repentino em 2020. O PIB despencou 11% em 2020, enquanto as quedas causadas pela crise financeira foram mais suaves, mas se repetiram por vários anos: -1,4% em 2013, -3,0% em 2012,- 0,8% em 2011 e -3,8% em 2009.

O mercado de trabalho sofreu um forte golpe em 2020. O ano terminou com 622,6 mil postos de trabalho destruídos e mais 527,9 mil desempregados. O número total chegou a 3,71 milhões de desempregados, de acordo com o Inquérito à População Ativa (EPA) e a taxa de desemprego terminou em 16,13%.

economia na espanha entrevistado
O economista Juan Bosco Plaza fala sobre as previsões para a economia espanhola

Mas, de acordo com o economista, é preciso levar em conta que o percentual de 2020 é relativamente enganoso porque, além do número total de desempregados citado acima, havia ainda cerca de 3,5 milhões de trabalhadores que não estavam desempregados tecnicamente.

Porém, estavam cobertos pelos planos específicos que o Governo espanhol tinha em vigor para evitar as suspensões de contratos. Felizmente, a maioria dessas pessoas está trabalhando atualmente e a Previdência Social vem batendo recordes de inscrições nos últimos meses.

Durante a crise de 2008, o desemprego foi próximo ou superior a 4 milhões de pessoas durante os anos de 2010, 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015. Em 2016 havia quase 3, 7 milhões de desempregados. Portanto, tanto o crescimento econômico quanto o emprego caíram mais e de forma acentuada durante a crise pandêmica, mas a recuperação em ambos os casos foi mais rápida e mais forte agora.

Qual é a razão para um desenvolvimento tão diferente entre as duas crises?

Sem dúvida, a chave foi a intervenção do Estado e das instituições e suas diferentes abordagens.

Em 2008 a prioridade foi salvar o sistema financeiro e desta vez foi salvar empresas, empregos e cidadãos. Nesse sentido, a reviravolta foi notável porque demonstrou a eficácia do “Estado”. Segundo o economista, o retorno às políticas keynesianas, em comparação com as neoliberais que foram aplicadas nos últimos anos e durante a crise de 2008, é bastante evidente na Europa e mais ainda nos Estados Unidos.

“Biden está desenvolvendo políticas impensáveis em comparação com meses atrás. O presidente dos Estados Unidos é bem claro sobre isso, se o seu país, se qualquer país quer prosperar, precisa de boas infraestruturas que garantam serviços básicos aos cidadãos (saúde e educação) e possibilidades para um bom desenvolvimento empresarial com uma cidadania coesa porque não sofre uma desigualdade salarial escandalosa.”

Quais os setores mais importantes da economia da Espanha?

Se fizermos uma breve análise dos números, constatamos que a maior contribuição dos setores da economia da Espanha vem dos serviços e, entre eles, comércio, transporte e hotelaria. Entretanto, houve uma grande mudança a partir da pandemia provocada pelo coronavírus.

A agricultura, por exemplo, ganhou peso, mas essas podem ser alterações temporárias. Se tomarmos 2019 como referência, 2,65% do PIB teve contribuição da agricultura, 20,2% da indústria e 67,87% dos serviços.

Na área do emprego, vemos números semelhantes, com 75,5% dos ocupados no setor de serviços, conforme se reflete na tabela a seguir:

Setor Porcentual de ocupados – 2021 – 1º trimestre
Agricultura 4,2%
Indústria 13,8%
Construção 6,6%
Serviços 75,5%

Ainda se examinarmos o emprego proporcionado por cada setor, encontramos os seguintes dados referentes ao segundo trimestre de 2021:

Ambos sexos Número de empregados – 2021 – 2º trimestre
Agricultura 811,1 mil
Indústria 2.665 milhões
Construção 1.324 milhões
Serviços 14.870 milhões

Histórico do PIB espanhol

O produto interno bruto da Espanha é o conjunto de todos os bens e serviços finais produzidos no país durante um ano. Para mostrar o histórico fizemos a tabela a seguir da última década, com base nos dados do Instituto Nacional de Estatística.

Ano  Taxa anual (em %)
2020 -10,8
2019 2,1
2018 2,3
2017 3,0
2016 3,0
2015 3,8
2014 1,4
2013 -1,4
2012 -3,0
2011 -0,8

Taxa de desemprego na Espanha

A crise provocada pelo coronavírus colocou o mercado de trabalho espanhol em uma área de forte turbulência aumentando a taxa de desemprego no país em um momento em que a economia na Espanha começava a respirar após a crise financeira global de uma década atrás.

O número total de desempregados na Espanha era de 3.257.802 milhões de pessoas em setembro de 2021, o que representa -2,28 % em relação ao mês anterior, ou seja, -76.113 desempregados, de acordo com os dados do Ministério do Trabalho e Segurança Social.

Veja na tabela abaixo o número de desempregados em meses comparáveis na Espanha.

Mês/ano Número de desempregados
setembro 2018 3.202.509 milhões
setembro 2019 3.079.711 milhões
setembro 2020 3.776.485 milhões
setembro 2021 3.257.802 milhões

A pandemia afetou muito a oferta de empregos?

Sim, a pandemia afetou a oferta de empregos na Espanha, mas segundo o Instituto Nacional de Estatística, a taxa de desemprego em 2021 continua a diminuir e atualmente o país gera mais empregos do que destrói. A taxa que era de 16% no primeiro trimestre caiu para 14% em julho.

Em alguns setores e cargos a demanda é maior do que a oferta. O portal de empregos InfoJobs destacou uma lista de profissões com as vagas não preenchidas em 2020. Confira na tabela abaixo.

Profissão Vagas não preenchidas
Enfermeiros 26.776
Arquiteto de software 4.173
Auxiliar de transporte escolar 3.169
Planejamento financeiro 2.260
Engenheiro de rede TIC 1.155
Assessoria educativa 1.153
Dentista especializado 848
Arquitetura de sistemas TIC 463
Desenhador de banco de dados 186

Apesar dos números positivos, o economista Juan Bosco Plaza alerta que o grande problema da economia da Espanha ainda é o desemprego. “O percentual de desemprego na Espanha sempre está acima da média da União Europeia e ocorre principalmente entre os mais jovens”, afirma.

De acordo com os números anteriores ao mês de julho de 2021 (que podem ter sido afetados por causa da temporada turística que cria muito emprego), o desemprego entre os menores de 24 anos estava na casa dos 38%. Além disso, os mais jovens são aqueles que sofrem as piores condições laborais: contratos temporários de 6, 8 meses, contratos de meio período (não têm turno de 8 horas) e salários mais baixos.

Em idades mais avançadas, o desemprego é menor, mas também elevado, entretanto, as pessoas costumam ter empregos e remunerações melhores. “A Espanha é uma sociedade segregada onde acontecem coisas surpreendentes. Na área da construção, por exemplo, atualmente quase não há desemprego”, cita o especialista.

A formação, segundo ele, é o problema chave. “É verdade que muitos estudantes já graduados estão desempregados ou fazendo trabalhos que não correspondem a sua formação, mas há lacunas, como as da lista citada anteriormente, onde há trabalho”.

Impacto da pandemia nos aluguéis na Espanha

Esta questão é complexa. Os alugueis tem um impacto muito grande no custo de vida na Espanha, mas não podemos generalizar. As variações costumam ser muito grandes de uma cidade para outra. Se observarmos a variação do total nacional encontramos esta curva e com estes valores referentes ao mês de agosto de 2021, de acordo com o portal Idealista:

Localização  Valor do m2 em agosto Variação mensal Variação trimestral Variação anual Máximo histórico Variação máxima
Espanha 10,7 €/m2 -0,3% -0,4% -6,7% 15,5 €/m2 – set 2020 -7,1%
Catalunha 13,4 €/m2 -0,2% +0,6% -8,2% 15,2 €/m2 – maio 2020 -11,8%
Barcelona 13,9 €/m2 -0,2% +0,6% -8,2% 15,9 €/m2 – maio 2020 -12,9%
Comunidade de Madrid 13,8 €/m2 +0,4% +0,4% -8,1% 15,4 €/m2 – maio 2020 -10,3%
Madrid 13,8 €/m2 +0,4% +0,4% -8,1% 15,4 €/m2 – maio 2020 -10,3%

Como podemos ver, os preços dos aluguéis em Madrid, assim como os custos dos imóveis em Barcelona, em que há um mercado de trabalho mais forte, continuam altos para quem ganha um salário mínimo espanhol ou um pouco mais do que isso. O valor impede que muitos jovens e trabalhadores tenham uma moradia decente ou faz com que gastem uma boa parte do salário com este item.

Se formos para o outro lado da escala e tomarmos como exemplo uma pequena cidade de província como Zamora, junto a Portugal, a situação muda:

Localização  Valor do m2 agosto 2021 Variação mensal Variação trimestral Variação anual Máximo histórico Variação máxima
Castilla y León 7,1 €/m2 +0,3% +0,9% +1,9% 7,1 €/m2 – agosto 2021 0,0%
Zamora 5,3 €/m2 +1,3% +5,9% +3,4% 5,3 €/m2 – agosto 2021 0,0%

O problema é que nas cidades onde o aluguel é mais barato, o mercado de trabalho é muito pequeno. Entretanto, o teletrabalho, que converteu milhares de casas em escritórios, já impulsiona fortemente o desejo de mudar de moradia.

Nas cidades mais baratas da Espanha para morar , além de espaços mais amplos e econômicos, há também uma ótima qualidade de vida. De acordo com o observatório AEDAS Homes, 34,7% das pessoas que trabalham em casa três ou mais dias por semana gostariam de morar em outra casa nos próximos 2 anos, um percentual que sobe para 55,5% em cinco anos.

“Dito tudo acima, a moradia nas principais cidades da Espanha ainda é um problema muito sério. Continuamente buscam-se fórmulas para resolver essa questão, mas ainda não há uma solução. Possivelmente a única possível, que não está em discussão hoje, é a criação de um grande estoque de moradias públicas com aluguéis baixos que, por sua vez, tornariam os preços gerais mais baixos. Mas isso ainda está longe de ser uma realidade”, afirma o economista.

Qual a expectativa para 2022 na oferta de trabalho?

Uma coisa a ter em mente ao avaliar a economia da Espanha e as expectativas de trabalho é o Plano de Recuperação Europeia NGEU. Este plano, já mencionado anteriormente, que pode envolver um investimento “extra” de 140 milhões de euros até 2026, enfatiza os investimentos tecnológicos e a luta contra as mudanças climáticas.

“Os especialistas em novas tecnologias muito provavelmente não terão problemas de desemprego, pelo contrário, haverá muita demanda nesta área. E o mesmo pode acontecer com especialistas em energia renovável e reabilitação de edifícios para alcançar maior eficiência energética. Isso pode ser um paradoxo já que muitos dos fundos europeus disponíveis podem não ser utilizados por falta de ideias, de projetos. Se eu fosse um especialista em novas tecnologias, eu pensaria quais ideias podem servir para as empresas, instituições públicas, educação, entre outros”.

Os estrangeiros foram mais impactados economicamente pela pandemia?

Os estrangeiros foram afetados pela pandemia, mas não por serem estrangeiros, mas pelo trabalho que realizaram. Lembramos que cerca de 3,5 milhões de trabalhadores ficaram desempregados de repente e muitos postos de trabalho foram perdidos em empregos onde os estrangeiros são mais numerosos como construção, cuidados com os idosos, etc.

“A discriminação no trabalho pode existir pelo empregado ser um estrangeiro, não tenho dúvidas. O idioma pode ser uma deficiência, mas acho que a maior dificuldade que um estrangeiro enfrenta para poder trabalhar é ter a documentação adequada, isso é realmente um grande problema”, afirma Juan Bosco Plaza.

Vale a pena morar na Espanha no cenário econômico atual?

Para Juan Bosco Plaza a resposta é sim. Ele afirma que a Espanha é um país hospitaleiro, tranquilo e vai ter uma forte recuperação econômica nos próximos meses e anos. “Os brasileiros são muito bem-vindos aqui, mas se eu pudesse, iria morar no Brasil”, conclui o economista.

Na minha opinião, se você já tem um emprego garantido vale a pena morar aqui mesmo com o atual cenário econômico, mas se você vier para tentar a sorte esse não é o melhor momento. A concorrência por uma vaga está mais acirrada e é preciso tem um bom currículo para conseguir trabalhar no país, além da documentação necessária.

O melhor mesmo agora é fazer uma boa pesquisa sobre o custo de vida, clima, tipo de vistos e saber tudo que é necessário para que a mudança não tenha surpresas desagradáveis ou imprevistos. Por isso, recomendamos a leitura do nosso e-book Como morar na Espanha. Ele tem quase 300 páginas de conteúdo prático e é um grande aliado para você realizar o sonho de morar no país.