Porquê eu voltei para o Brasil

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Sempre em que alguém me pergunta por que eu voltei para o Brasil (principalmente aqueles que buscam opiniões sobre sair do país), é preciso ter muita delicadeza na hora explicar os motivos. Enfatizar que, não é porque eu voltei, que não valha a pena ir – muito pelo contrário.

Me mudei em 2015 para Portugal, com meu marido, e retornamos em 2016. Foi pouco mais de um ano de intensas experiências, positivas e negativas, onde voltar nos pareceu a melhor decisão, antes que estivéssemos desgastados demais.

Ao longo desse tempo, conhecemos outros brasileiros que se mudaram na mesma época que nós, mas que não voltam de jeito nenhum ao Brasil; outros que estão lá há mais de 10 anos e nem sequer cogitam a possibilidade de retorno. No entanto, também conhecemos pessoas que voltaram ou se deram uma segunda chance de tentar a vida em outro país.

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Ficar ou voltar, além dos motivos particulares a cada um após a mudança, envolve contexto de vida. De onde você veio? Quais eram suas perspectivas no seu país? Quem você deixou para trás? Tudo isso passa a pesar com o tempo, e você tende a colocar as coisas numa balança.

Por que eu voltei para o Brasil?

Dificuldade de adaptação e muita coisa dando errado ao mesmo tempo: foi a combinação de ambos os fatores que me fizeram querer voltar. Com eles, a tristeza era um sentimento presente, constante, e não dava mais para insistir.

Problemas emocionais

Tenho lá meus problemas, mas era daquelas que não acreditava totalmente nas consequências de uma depressão. Dentre tantos percalços que acometeram a nossa vivência no país, a desestabilização emocional certamente foi o maior deles, e o que nos fez bater o martelo para voltar.

Apesar de também deprimido, meu marido foi quem me fez sair de casa, levantar da cama, trocar de roupa e tentar aproveitar o que havia lá fora. Hoje, melhor, eu enxergo o quanto mais podíamos ter vivido ali. Mas é de longe que conseguimos analisar melhor as situações pelas quais passamos.

Um dia, pouco antes de decidirmos ir embora do país, voltava para casa enquanto tocava no rádio do carro “Let Her Go”, da banda Passenger. Chovia, e minha roupa ainda estava molhada da neve que pegamos na cidade vizinha. Foi então que alguns trechos dessa música se transformaram em nó na garganta.

Algo como: “você só sente falta do Sol, quando começa a nevar (…) você só sabe que se sentia bem, quando se sente mal (…) você só odeia pegar estrada, quando sente saudades de casa”. Tentei por muitas vezes me fazer acreditar de que tudo estava bem e que não havia motivos para voltar, mas havia.

Motivos que me fizeram voltar para o Brasil

Alimentação

A alimentação foi uma das coisas que mais pesou durante a vida no exterior. A começar por um detalhe crucial: eu não como carne de porco. Basicamente toda a Europa consome o animal de tudo quanto é jeito – essa que também é uma das carnes mais baratas por lá – e eu não conseguia nem chegar perto dela.

Falta da comida brasileira

Falta da comida brasileira
Tenho algumas frescuras para comer, mas ainda assim, como muito. Eu sentia é falta dos nossos rodízios japoneses, de comer pastel na feira, da tapioca, do açaí com leite em pó, do arroz e feijão com bife e farofa, dos doces caseiros, de um belo bolo de fubá com erva doce, dos quitutes de festa junina, das pizzas que a gente joga até ovo cozido por cima, da abundância em frutas, verduras e legumes fresquinhos, dos churrascos em família, de miojo da Turma da Mônica, e tantas outras coisas.

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Comíamos bem em Portugal, e improvisávamos no que era possível para que as coisas se assemelhassem ao nosso gosto. Mas justamente coisas que nos faziam falta eram difíceis de se encontrar por lá – ou somente eram encontradas em lojas de produtos brasileiros (a preços exorbitantes).

Para mim, comer também é relembrar, e certamente cada um dos meus pratos favoritos remetem a determinado momento da minha vida. Então sim, esse fator foi muito importante para decidir o retorno.

Clima e a tristeza

Ah, o clima. Desde a minha adolescência, prefiro passar longe de todo o frenesi por trás do verão brasileiro – que dura praticamente o ano todo. Era daquelas que ia a praia de bermuda e camiseta, e não saía debaixo do guarda-sol.

Pois bem, a vida adulta não mudou muito esse cenário, e eu continuo não sendo uma grande apreciadora de praias, piscinas e eventos sob sol quente. Mas por outro lado aprendi a apreciar atividades ao ar livre. Caminhadas, corridas ou até mesmo um piquenique num parque já me fazem feliz.

Clima europeu

Em se tratando de clima europeu, são bem poucos os meses do ano em que essa façanha é possível. Nos mudamos em maio, ainda na primavera, com temperaturas deliciosas para longos passeios a pé. Veja como é o clima em Portugal.

No entanto, o verão se revelou desesperador, com temperaturas muito altas e nem uma gota de chuva sequer. Somente outubro chegou com chuviscos. A chuva veio, mas infelizmente só foi embora perto de março; e não falhou um dia.

Este mesmo mês de outubro marcou o período em que me mudei do Porto para uma pequena aldeia no Concelho de São Pedro do Sul, região central do país. Finalmente, era ali que eu queria estar. Estava encantada com a arquitetura, com o cenário pitoresco, com o verde, os moradores cuidando de hortas e puxando papo… tudo parecia perfeito.

Inverno no interior de Portugal

Inverno no interior de Portugal
Mas então, logo em seguida chegou o inverno. Aquela localidade, por estar entre as montanhas, era muito mais fria que o Porto, por exemplo. Havia chuva, neve e, por ser uma aldeia totalmente voltada ao turismo, tudo, absolutamente tudo, literalmente lacrou as portas até a chegada da primavera.

Durante esse período, éramos só nós dois dentro de casa, abarrotados de roupas (a proprietária do apartamento só “esqueceu” de avisar que a lareira voltava fumaça para dentro), tentando distrações com filmes, séries e jogos. Foi aí que eu descobri que não gostava tanto assim do inverno.

Morávamos no térreo, com um quintal e, para nossa preocupação, um filhote de gato passou a dormir exatamente na nossa porta. Colocamos esse pequeno presente para dentro, e ele foi muito importante para nos tirar da fossa. Bom, virou um filho, e veio conosco para o Brasil.

Saúde

Nossa, mas saúde? Sim, o sistema de saúde. No Brasil, eu felizmente vivia em uma cidade onde o sistema público de saúde funcionava bem (nem sempre, mas funcionava), mas por outro lado, não tive a mesma sorte em Portugal.

Atualmente, existe a tentativa de re-implementar os “médicos de família” por aqui, no entanto, em Portugal isso já funciona há algum tempo. Essa foi uma das maiores “propagandas” que nos foi feita antes da viagem, mas nem no Porto, nem em São Pedro do Sul e arredores, haviam médicos disponíveis.

Nossa experiência na saúde pública

Quando meu marido precisou utilizar um pronto-socorro, o profissional nem sequer olhou para ele enquanto digitava uma ficha no computador. No entanto, são muitas as pessoas que relatam excelência na disponibilidade e prestatividade do sistema de saúde português. Obviamente, não estou generalizando, mas para nós, não foi dessa vez.

Durante o período em que vivemos em Portugal, felizmente não tivemos nenhum problema grave. Mas sempre que algum desconforto surgia, farmacêuticos foram nossos salvadores. Pesquisavam medicamentos equivalentes, orientavam e acabavam resolvendo tudo.

Veja como funciona a saúde pública em Portugal.

Interação social (ou a falta dela)

Dificuldade na interação social no exterior
Nem tanto pela questão familiar, mas principalmente pela interação social em qualquer que fosse o nível. Sabe quando você encontra aquele conhecido no supermercado e puxa papo? Então, é mais ou menos disso que eu sentia falta. E olha que sou o maior bicho do mato.

Logo nos primeiros meses vivendo em Portugal, consegui um trabalho remoto como redatora e pegava uns freelas com design gráfico. Enquanto tentava me estabelecer assim, meu marido conseguiu um trabalho em uma academia, como vendedor (sim, muitas academias por lá têm vendedores que devem te orientar e convencê-lo a treinar ali).

Ele trabalhava quase 14 horas por dia e, apesar do cansaço, estava constantemente tendo esse contato, essa prosa com outras pessoas. Eu ficava em casa, e minha única companhia era a TV, reuniões por Skype e eventualmente um “oi” para as pessoas que eu encontrava com frequência no ginásio em frente de casa, quando ia treinar.

Fora isso, tivemos algumas companhias no Porto, todos brasileiros, mas os interesses não eram os mesmos. Era difícil fazer amigos. Sentíamos falta de compartilhar os mesmos assuntos, de ter gostos semelhantes e aquela liberdade para convidá-los a tomar uma cerveja em casa.

Emprego

Trabalhado isolada no exterior
Sim, se não tivéssemos um emprego garantido, definitivamente não teríamos voltado. Nosso retorno se deu durante um período em que o Brasil engatinhava na tentativa de sair da crise financeira (não que isso tenha melhorado).

No entanto, em Portugal tínhamos trabalho remoto, ou seja, estávamos livres para trabalhar a partir de qualquer lugar do mundo.

Seria loucura abrir mão de tudo o que conquistamos para voltar a um país “quebrado”. No entanto, como havia a oportunidade, achamos que seria a melhor coisa a se fazer no momento – ao menos até corpo e mente tivessem se recuperado o suficiente para tentar algo novo.

Veja como trabalhar em Portugal, melhores sites de emprego e média salarial no país.

Tivemos “azar”

Pois bem, além dos motivos palpáveis que qualquer outro brasileiro possa ter para voltar ao seu país, devo ressaltar que “azar” pode ter sido uma palavra que definiu muito de nossa estadia em Portugal. Se tivéssemos que repetir o feito mais uma vez, certamente faríamos 80% das coisas de forma diferente.

Alguns meses antes da viagem, mudamos nossos planos iniciais, com base em sugestões e “conselhos” de pessoas em redes sociais e canais no YouTube. Dentre alguns dos revezes que fizeram parte de nossas vidas, tivemos de chamar a polícia por conta de uma vizinha no Porto e enormes problemas com a casa em São Pedro do Sul (principalmente com a proprietária do mesmo, que não resolvia nada). Ah, isso sem contar o carro, que só deu dor de cabeça – e uma multa de 200 euros, na lata. Infelizmente, foi impossível manter o equilíbrio diante de acontecimentos como esses.

Enfim, muitas coisas podiam ter dado errado, e deram. Hoje damos risada lembrando de tudo, e sentimos uma saudade gostosa dos bons momentos que passamos. Na verdade, nem foi azar, foi inexperiência e uma grande dose de ingenuidade.

Nem que seja por uma temporada, nós vamos voltar, e seremos capazes de identificar os tropeços. Errar e aprender com isso é o que te move e motiva a tentar de novo.

O período de readaptação ao Brasil

Mesmo tendo estado longe do Brasil por pouco mais de um ano, houve sim um período de readaptação. Já faz quase dois anos desde o nosso regresso, e acredite: ainda estamos nos readaptando.

Tudo continuava do mesmo jeito, no mesmo lugar, como se o tempo tivesse parado durante a nossa ausência. Mas enquanto o relógio parou aqui no Brasil, ele acelerava para nós lá fora. Ainda é difícil entrar no ritmo das coisas por aqui e, apesar de estar de volta, ainda repetimos costumes de lá e nos questionamos entre infindáveis “e se…”. Estamos diferentes, e isso é muito perceptível.

Cansados, talvez, mas muito mais experientes e com uma noção de mundo transformadora.

Família próxima

Readaptação ao Brasil
Nem tudo é dor e estranheza. Estar de volta ao lugar onde você nasceu e cresceu é como um abraço de mãe. Afinal, são 10 minutos até conseguir passar um almoço de domingo ao lado da família; 40 até a chácara onde vocês vão comemorar o aniversário da avó; e 45 se quiser rever um amigo seu dos tempos de faculdade. Você sabe como as coisas funcionam, e passa a dar ainda mais valor às coisas que te faziam feliz antes da partida.

No entanto, devo admitir que a distância nos desperta um certo compromisso em entrar em contato, em querer ter informações sobre as pessoas que amamos. Embora estivesse em outro continente, era muito mais frequente o contato com meus familiares do que hoje, a poucos quilômetros de distância deles. A zona de conforto nos deixa, de certo modo, desleixados.

Ritmo diferente

Dentre os fatores negativos desse retorno, é ter novamente a necessidade de precisar se acostumar mais uma vez ao ritmo do país, principalmente com relação a insegurança. A aldeia onde vivíamos em Portugal tinha pouco mais de 3 mil habitantes, e ali ficamos acostumados com janelas abertas, portas destrancadas e a sair para correr tarde da noite.

De volta ao Brasil, mesmo em uma cidade de interior, grades, cadeados e cuidados para chegar e sair de casa precisaram ser relembrados (a paranoia voltou de forma latente, ao menos para mim).

Não necessariamente um ponto contra…, mas a saudade ainda incomoda. Quanto mais o tempo passa e aprendemos a identificar o que deu errado, maior é a vontade de voltar. Talvez não para morar, mas para aproveitar com o devido carinho o país que nos acolheu e transformou nossas vidas para sempre.

Veja o artigo de opinião, de outra autora, sobre a mesma temática: Por que eu não volto mais para o Brasil.

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Brasileira, tem formação em Design de Games e Comunicação em Computação Gráfica. Apaixonada por tecnologia, cinema e literatura, desapegou e foi viver na Europa em 2015. De volta ao Brasil, hoje é grande entusiasta de um estilo de vida quase nômade.