De tempos em tempos, a dúvida sobre permanecer no país ou buscar oportunidades no exterior volta a ganhar força. A diferença é que, agora, essa dúvida virou dado de pesquisa: 40% dos brasileiros dizem que pensam em morar fora do país.
Esse número cresce especialmente entre os mais jovens. Quando se olha para o mapa do planejamento, a Europa aparece com destaque, seja em Portugal, Itália, Espanha ou outros países, enquanto Estados Unidos, Canadá e alguns destinos na Ásia completam a lista.
Quando o desejo de emigrar vira dado de pesquisa
A mais recente edição da pesquisa Observatório Febraban, pesquisa feita com 3 mil pessoas em todas as regiões do Brasil mostra que 4 em cada 10 brasileiros manifestam desejo de emigrar. A pesquisa foi realizada entre 15 de novembro e 2 de dezembro de 2025.
Em números absolutos, isso significa que, em um país onde quase 5 milhões de brasileiros já vivem no exterior, o contingente de quem gostaria de seguir o mesmo caminho é muito maior.
Esse percentual de 40% é o patamar mais alto já registrado pelo levantamento, indicando a ideia de que “morar fora” deixou de ser um plano distante e se transformou em uma possibilidade concreta para uma fatia importante da população.
Intenção de emigrar varia entre gerações
A intenção de emigrar varia bastante de acordo com a geração. Entre os mais jovens, o desejo de sair do país é significativamente maior. Na Geração Y, formada por pessoas que hoje têm aproximadamente entre 28 e 43 anos, metade dos entrevistados afirma que gostaria de emigrar. Na Geração Z, que reúne os mais jovens adultos, esse percentual também é elevado, chegando a 44%.
Esse interesse diminui à medida que a idade avança. Na Geração X, composta por pessoas em torno dos 44 aos 59 anos, a vontade de deixar o país cai para 35%. Já entre os Baby Boomers, grupo que reúne pessoas com 60 anos ou mais, apenas 25% manifestam esse desejo.

Os dados podem ajudar a entender como a decisão de emigrar está diretamente ligada ao momento de vida, às responsabilidades acumuladas e às prioridades que mudam com o tempo.
Quem pensa mais em sair do país?
Nos últimos anos, diferentes pesquisas de opinião vêm apontando uma tendência consistente no Brasil: o desejo de emigrar é mais forte entre os mais jovens e diminui progressivamente com a idade. A escolaridade influencia essa intenção, já que pessoas com maior nível de instrução tendem a considerar com mais frequência a possibilidade de viver no exterior.
Isso sugere que se trata de uma busca por contextos com maior previsibilidade econômica e valorização profissional.
Além disso, o crescimento real do número de brasileiros no exterior reforça que o desejo não é só discurso. A combinação entre mais gente saindo de fato e mais gente declarando que quer sair aponta para uma tendência de longo prazo.
Dado sobre emigração aparece em pesquisa com outro foco
Um ponto interessante do estudo é que esse dado surgiu em uma pesquisa com foco principal em economia, imagem internacional do Brasil e percepção sobre temas como COP30, não em um estudo exclusivo sobre migração.
Ou seja, mesmo quando o assunto central não é “emigrar”, a disposição para deixar o país aparece, mostrando que a intenção de emigrar pode surgir mesmo em contextos não diretamente ligados à mobilidade internacional.
O levantamento é produzido pela Febraban em parceria com o Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (IPESPE) e apresenta recortes geracionais, de percepção de imagem do Brasil, confiança, otimismo e avaliação de eventos.
A pesquisa, no entanto, não afirma, de forma direta, que as pessoas querem sair por estarem “contra” um governo específico, mas os dados dialogam com um contexto de frustração com economia, segurança e perspectivas, que atravessa mais de um ciclo político.
Por que tanta gente quer sair?
Embora o questionário do Observatório Febraban divulgado publicamente dê mais destaque a quem quer emigrar e para onde, outros levantamentos recentes ajudam a entender por que esse desejo cresce. Os fatores mais citados são:
Segurança pública
Violência urbana, sensação de insegurança e medo de crimes são apontados de forma recorrente como motivação central para deixar o Brasil.
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Muitos não veem perspectiva de crescimento profissional, valorização salarial ou estabilidade, especialmente em áreas que sofrem com informalidade e baixos salários.
Qualidade de vida
Acesso a serviços públicos de saúde e educação de melhor qualidade, transporte mais eficiente e uma rotina menos desgastante aparecem como grandes atrativos fora do país.
Frustração com o futuro
Pesquisas e análises sobre o chamado “voo de galinha” da economia brasileira mostram que o país costuma ter curtos períodos de crescimento, seguidos por longos períodos de estagnação ou baixo desempenho.
A expressão “voo de galinha” é uma metáfora: assim como uma galinha consegue levantar voo por pouco tempo e logo volta ao chão, a economia brasileira frequentemente apresenta pequenos avanços que não se sustentam por muito tempo. Isso alimentaria a sensação de que, apesar de esforços e expectativas, “o Brasil não decola” economicamente.
Europa: atrativos e desafios para quem deseja emigrar
A Europa aparece como o principal destino de desejo para quem pensa em emigrar: o continente concentra 60% das preferências, segundo a pesquisa da Febraban. Dentro desse grupo, a preferência por morar em Portugal lidera com 22%, seguido por Itália (12%), Espanha (8%), Inglaterra (7%), Suíça (6%), Alemanha (3%) e Irlanda (2%).
Os atrativos que mantêm a Europa no centro desse imaginário passam por alguns pontos-chave:
Segurança e estabilidade institucional
Países europeus, de modo geral, registram índices de criminalidade mais baixos do que o Brasil e contam com instituições públicas que funcionam com mais previsibilidade.
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Diversidade de caminhos de migração
A Europa oferece vias para trabalho qualificado, estudo, reconhecimento de dupla cidadania, empreendedorismo e reagrupamento familiar, ainda que com regras cada vez mais rígidas em alguns países.
Laços culturais e linguísticos
No caso de Portugal, o idioma em comum e a forte comunidade brasileira já estabelecida (mais de 500 mil pessoas) facilitam a adaptação.
Europa também impõe barreiras a imigrantes
Ao mesmo tempo, a Europa contemporânea está longe de ser um “paraíso sem contradições”. Países como Portugal endureceram regras de imigração, devem aumentar o tempo de residência para cidadania e apertaram exigências para vistos, o que torna o caminho mais burocrático e seletivo.
Há também relatos crescentes de xenofobia, precarização do trabalho e dificuldades para validar diplomas, especialmente em setores altamente regulados.
Ainda assim, quando se compara o pacote geral (segurança, rotina, acesso a serviços, previsibilidade), muitos brasileiros percebem a Europa como um destino com maior previsibilidade e qualidade de vida.
O resultado é esse paradoxo: um continente que se torna mais exigente com a entrada de imigrantes, mas que continua em destaque na lista de desejos de quem sente que, no Brasil, as portas estão se fechando para o futuro que gostaria de construir.
Antes de fazer as malas: o que avaliar
Vontade de sair não é suficiente para mudar de país com segurança e a experiência de brasileiros na Europa mostra, cada vez mais, que improviso pode sair caro. Alguns pontos precisam ser considerados com calma.
Não basta querer: é preciso ter o visto certo
Mudar de país não é só “comprar passagem e tentar a vida”. Na Europa, salvo raras exceções (como cidadania europeia, dupla cidadania ou status especial), é obrigatório ter visto ou autorização de residência adequados ao objetivo: trabalho, estudo, reunião familiar, empreendedorismo, pesquisa, entre outros.
Em países como Portugal, a regra que antes permitia a entrada como turista para depois tentar regularizar desapareceu com as mudanças recentes na legislação.
A tendência é clara: planejamento prévio, processo ainda no Brasil e documentos em dia se tornaram a norma, tanto em Portugal quanto em outros países europeus que controlam rigorosamente a imigração.
Custo de vida na Europa exige atenção no planejamento
Uma ilusão comum é achar que “na Europa tudo é mais caro, mas o salário compensa automaticamente”. Na prática: em muitas capitais europeias, o custo de vida com moradia (aluguel, condomínio, contas básicas) é bem mais alto que no Brasil, especialmente quando convertido a partir de uma renda em real.
O impacto do euro forte para quem recebe dinheiro do Brasil (aposentadoria, renda remota em real, aluguel de imóvel no país) é um dos principais desafios para manter o padrão de vida.
Comparando Brasil e Portugal, por exemplo, viver nas principais cidades portuguesas costuma ser mais caro do que viver em boa parte das capitais brasileiras, quando se considera aluguel, alimentação e contas do dia a dia.
A conta tende a fechar melhor para quem consegue salário em euro em áreas de maior demanda ou tem renda em moeda forte e não para quem depende de converter real todos os meses.
Idioma é barreira real na adaptação de brasileiros
Outro ponto frequentemente subestimado são as barreiras de idioma. Em Portugal, a língua portuguesa facilita, mas diferenças culturais, sotaques e expressões podem gerar diversos ruídos, especialmente em atendimentos formais ou ambientes de trabalho mais tradicionais.
Em países como Itália, Espanha, Alemanha, França ou Suíça, o idioma local é crucial para acessar melhores empregos, serviços públicos com autonomia e construir rede de contatos.
Na prática, quem chega sem falar a língua do país costuma ficar restrito a trabalhos de baixa qualificação, com salários menores, maior precariedade e mais dificuldade de se integrar plenamente à sociedade. Investir em estudo de idioma antes de emigrar aumenta muito as chances de uma mudança bem-sucedida.
Validação de diplomas: caminho lento que pode custar caro
Para profissões reguladas, como nas áreas de medicina, enfermagem, engenharia, direito, educação, entre outras, a validação de diplomas é um capítulo à parte. Em muitos países europeus, esse processo envolve:
- Análise documental e pagamento de taxas;
- Complementação de disciplinas ou estágios;
- Provas teóricas e práticas;
- Domínio comprovado da língua local.
É um processo possível, mas costuma ser longo, burocrático e custoso, o que obriga muitos profissionais a aceitarem atividades abaixo da qualificação que tinham no Brasil, pelo menos nos primeiros anos. Planejar tempo e recursos para essa transição é fundamental.
Demanda existe, mas mercado de trabalho tem limitações
A Europa precisa de trabalhadores, especialmente em áreas como saúde, tecnologia, serviços, turismo, construção civil e cuidados a idosos. Mas isso não significa que “é fácil conseguir emprego”.
Imigrantes enfrentam, em média, taxas de desemprego mais altas do que a população local, além de maior presença em contratos temporários, informais ou mal remunerados.
Em países como Portugal, há casos de sobrequalificação: brasileiros com ensino superior trabalhando em funções de baixa exigência técnica por falta de reconhecimento de diplomas ou oportunidades compatíveis.
Ao mesmo tempo, quem chega com qualificação em áreas demandadas, experiência sólida e boa preparação tende a encontrar oportunidades mais interessantes, principalmente quando fala bem o idioma, entende a cultura local e tem uma estratégia clara de inserção profissional.
Entre o desejo de partir e a necessidade de planejar
O dado de que 40% dos brasileiros pensam em emigrar não é apenas uma estatística curiosa: é um retrato da forma como boa parte da população enxerga o futuro no país.
A Europa, com 60% das preferências entre esses potenciais emigrantes, aparece como cenário de segurança, estabilidade e qualidade de vida, enquanto Estados Unidos, Canadá, Japão e China completam o mapa de expectativas.

O fenômeno expõe duas camadas ao mesmo tempo. De um lado, revela a força do imaginário sobre “uma vida melhor lá fora”, alimentado por relatos positivos, redes de apoio consolidadas e uma comparação crítica com a realidade brasileira em temas como segurança, renda e serviços públicos.
De outro, mostra as limitações de um país que, mesmo sendo visto por 85% dos próprios brasileiros como um destino turístico muito atraente e acolhedor, ainda não consegue oferecer, de forma consistente, perspectivas de longo prazo para quem vive nele.
Escolher emigrar hoje exige mais do que vontade
Ao mesmo tempo, a escolha de emigrar ficou mais complexa. As regras de imigração na Europa estão mais rígidas, a burocracia aumentou e a competição por vagas se intensificou, especialmente em países que vinham sendo vistos como “porta de entrada fácil”, como Portugal.
O desejo de viver fora do Brasil segue presente entre muitos brasileiros, mas transformar esse sonho em projeto exige cada vez mais informação e preparo.
O lado positivo é que, quando bem planejada, a mudança de país pode abrir caminhos reais de crescimento profissional, segurança e amadurecimento pessoal.
Maurício Martins