Quando decidi me mudar, a pergunta que mais recebia era justamente: e aí, vale a pena morar na França? Eu também me questionei muitas vezes antes de embarcar. A resposta não é simples, e eu ainda não sei ao certo, mas ao longo do tempo fui colecionando experiências (boas e ruins) que ajudam a entender e modular melhor essa escolha.
Neste artigo compartilho minha vivência, desde burocracias até os pequenos prazeres do dia a dia, para que você possa refletir se o país faz sentido para o seu momento de vida.
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INICIAR ATENDIMENTO →Por que escolhi morar na França
Minha mudança aconteceu em um contexto misto: desde a busca por novos horizontes até a necessidade de me ver perto da minha companheira. A vontade surgiu em 2017, eu estava imerso em um contexto acadêmico e a França se revelou como oportunidade.
O que era para durar bastante, porém, acabou sendo reduzido um pouco já que a vida joga conosco, mas essa é uma história para uma coluna em uma próxima ocasião.
Fato é que sempre me atraiu a ideia de viver em um país com tanta história, cultura e qualidade de vida. Não foi uma decisão simples, mas foi motivada por curiosidade, desejo de crescimento e também pela vontade de experimentar o cotidiano europeu.
Pontos positivos de morar na França
Eu poderia passar horas justificando se vale a pena morar na França (e os motivos que me inclinam a dizer que sim), mas vou me ater aos principais aspectos dessa escolha.
O que pra mim pode ressoar mais forte, pra você talvez não seja uma prioridade, então leia minhas indicações como pontos de partida para que você analise seus desejos, interesses e necessidades. É uma troca, não um guia!
Transporte público eficiente
Morar em uma cidade como Paris (ou em qualquer outra cidade de dimensões semelhantes) significa ter acesso a metrô, ônibus e trens que funcionam bem (ainda que sejam extremamente lotados em horários de pico).
Mesmo quando você está na região periférica ou numa pequena cidade da França, como Pantin, por exemplo (situada a nordeste de Paris), é possível utilizar a linha 5 do metrô para chegar ao centro de Paris em 25 minutos. É muito diferente de São Paulo, onde trajetos semelhantes podem levar mais de uma hora e meia.

Fora que o metrô é apenas um dos modais. Você tem tram, trem, ônibus novinhos e bicicletas por toda a cidade (com muitas ciclovias e ciclofaixas), além dos onipresentes Ubers e Táxis (que eu não recomendo, mas tem dias que não dá pra escapar).
Sampa, que eu resolvi pegar pra Cristo nesse artigo, também tem metrô, ônibus e até bikes laranjinhas do Itaú (mas que ficam restritas a pontos específicos da cidade). A rede de metrô perde para a sua contraparte parisiense e, em geral, as conexões são menos favoráveis quando comparadas à rede da cidade luz.
Sistema de saúde acessível
Um dos maiores pontos positivos é o sistema de saúde na França. Depois de obter a carte vitale, você garante a tranquilidade poder ter as consultas médicas reembolsadas em boa parte do valor.
Por exemplo: uma consulta de clínico geral custa em média 30€, mas cerca de 70% desse valor volta para a sua conta quando se tem a carte. Isso traz uma segurança financeira enorme, especialmente para quem vem de um país onde saúde privada pesa bastante no orçamento.
Dito isso, é preciso observar que o SUS no Brasil é um modelo invejável e que funciona bem, dentro do possível. Por isso, peço que por apenas um instante você reflita antes de querer comparar o incomparável.
A qualidade do atendimento na França, que é um país de primeiro mundo com 68 milhões de habitantes, sempre será diferente do Brasil, que se encontra na condição “em desenvolvimento” e supera os 200 milhões de habitantes.
As dimensões não permitem comparações diretas. Então, grosso modo, a saúde no país gerido por Macron vai sempre passar a impressão de que é melhor do que no Brasil. É bom, só não é comparável.
Valorização do tempo livre
Na França, percebi que existe um respeito maior pelas horas fora do trabalho (embora eu não tenha trabalhado no esquema 9-5, é visível como isso é valorizado pelos “CLTs” do país – os chamados CDD e CDI).
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Abrir Conta Multimoeda →Aqueles que decidirem trabalhar na França vão logo perceber que as férias são mais longas (por aqui estamos falando de 30 dias úteis de férias por ano, diferente do Brasil) e existe uma cultura de realmente se “desligar” quando não se está no expediente.
Aos domingos, por exemplo, quase tudo fecha. No começo estranhei, mas depois entendi que isso favorece o descanso, a vida em família, e exige que nos programemos para fazer compras de mercado e a resolver outras obrigações de segunda a sábado. Domingo é dia de paz, punto e basta.
Cultura e gastronomia: comparando capitais
Não dá para negar: estar cercado por museus, cinemas, concertos e, claro, padarias (boulangeries) com baguetes fresquinhas faz parte do charme francês. Não significa que eu não tenha saudade dos famosos PFs (prato feito!) de São Paulo. Cada qual tem seu lugar!
Além disso, muitas atividades culturais são gratuitas ou têm descontos para residentes legais, algo que me incentivou a explorar as opções muito mais do que eu fazia em terra Brasilis.

No Brasil, há polos culturais que exigem que você se desloque para aproveitar e. Para fins de comparação para esse artigo estou me restringindo a comparar com São Paulo, a cidade que tem de tudo e a qualquer hora.
Embora bem localizada, cada pulinho à cidade para ir ao SESC, MASP, Pinacoteca, MAC ou MUBE exige pelo menos 2 horas de deslocamento na ida e mais 2 horas na volta (eu nunca morei na capital, então sua experiência pode ser diferente).
Em Paris, por exemplo, tudo também fica concentrado. A diferença é que o tempo gasto para chegar aos lugares na capital é uma fração do que gastamos no Brasil.
Some-se a isso as iniciativas do Estado francês que oferecem gratuidade em uma imensa variedade de museus e atrações turísticas a cada primeiro domingo do mês e pronto: para um amante das artes como eu isso já seria suficiente para explicar se vale a pena morar na França.
Desvantagens de morar na França
Nem tudo são flores, apesar de a França propagar o mantra la vie en rose. Os franceses são burocráticos, são fechados (pouco importa se isso é “cultural” ou não, é chato) e viver no país custa caro.
Isso é suficiente para te desanimar a levar a vida no país? Não deveria ser, mas precisa estar no seu radar para que as expectativas não fiquem além do esperado.
Burocracia interminável
Se existe algo que realmente desanima é a burocracia francesa. Para alugar um apartamento é necessário traduzir todos os documentos (do imposto de renda às certidões mais obscuras). E mesmo com um dossiê sem defeitos, espere por várias negativas.
Você não terá fiador, não terá renda no país, não terá emprego de imediato. É uma encruzilhada: como procurar emprego sem ter onde morar, e como morar em algum lugar sem ter emprego e renda?
Nesse vai e vem, Airbnb, Uniplaces e outros sites para alugar apartamento na França serão seus parceiros até você encontrar um cantinho pra chamar de seu.
Ah, só mais um detalhe: parece que a França ainda está no século XX. Muitas comunicações oficiais permanecem sendo transmitidas por carta. Eles têm muito o que aprender com a gente.
Custo de vida nas grandes cidades
Morar em Paris, Lyon, Montpellier e outras cidades custa caro. Um aluguel de 900€ por um estúdio de 25 m² consumia toda a minha renda (sim, você leu direitinho, toda). O custo de vida na França, em termos de moradia nos grandes municípios, é assustador.

Nos supermercados, alguns produtos básicos como frutas e legumes podem ser mais caros do que no Brasil, embora vinhos e queijos sejam incrivelmente acessíveis. O preço da baguete também é baratinho, menos de 2€…
Uma pena que a gente não possa viver só bebendo vinho e comendo pão com queijo. Pensando bem… não, é melhor não!
Brincadeiras à parte, a solução é ir para a França com uma poupança feita. E bem feita. E aqui, preste atenção no que te direi: não dê ouvidos àqueles sujeitos malucos que estão em grupos de Facebook dizendo para você ir com a cara e a coragem: a cara você vai quebrar; e ter medo é melhor do que ter coragem de vez em quando.
Economize
Economize muito. Tudo o que puder. Se seu objetivo é morar na França, cada centavo conta. Saiba que você será julgado no Brasil ao recusar aquela ida ao bar, a visita à nova confeitaria ou a pizza toda semana, mas não importa. Logo você estará na França.
Consulte a cotação do euro com frequência, faça compras regulares de moeda usando contas multimoedas (como a Wise) e esqueça os grupos de WhatsApp e Facebook que propagam mentiras travestidas de esperança.
Se seu plano é vir para a França, você vai conseguir. Mas precisa ter pé no chão e não dar ouvidos a qualquer bobagem.
Barreira do idioma
Sabendo pouco francês nos idos da minha mudança, percebi rapidamente que para se integrar de verdade é preciso de um domínio intermediário (a fluência vem com o tempo, não precisa pirar).
Digo isso para te alertar que em situações burocráticas (banco, prefeitura, saúde) ninguém tem paciência para o “francês enrolado”. No início, isso gera bastante frustração.
As pessoas falam rápido e pouco importa se você está se esforçando ou não. Há exceções? Sim, como em todos os contextos da vida em sociedade. Mas, via de regra, é chato e desanimador receber julgamento quando você espera receber ajuda.
Uma coisa é falar pouco quando se está de férias. Outra bem diferente é falar pouco e estar no país sabendo que vai permanecer por um bom tempo. Vale a pena aprender francês e minha recomendação é que você comece agora.
Adaptação cultural
Os franceses podem parecer frios ou distantes no começo (e alguns são mesmo). Vai levar um tempo até que você possa trocar cumprimentos mais calorosos, estabelecer conexões e relações duradouras.
Com o tempo, percebi que embora seja uma situação incômoda, não se trata de falta de simpatia, apenas diferenças culturais.
No início eu pensei: “será que vou me tornar um chato que nem esses caras?”. E isso logo passou. Eu aprendi a modular meu discurso e a praticar a indiferença quando notava falta de abertura. Você não precisa ser como eles, mas pode adotar um pouco de frieza no cotidiano.
Para quem vale a pena morar na França
A experiência de morar na França pode ser afetada a depender do que você espera da nova vida. Tem filhos (ou pretende ter)? É solteiro ou vive em casal? É estudante ou profissional em início de carreira? Como é sua relação com o Brasil e com as pessoas de quem vai se despedir, ainda que temporariamente?
Honestamente, eu queria ter uma resposta preto no branco para você que lê esse artigo. O problema é que eu ainda não tenho a resposta nem pra mim mesmo.
Mas, se ajuda em algo, diria que na fase da vida em que me encontro, tenho considerado muito mais o Brasil como moradia fixa e a França como destino para longas férias todos os anos.
Não por falta de oportunidade de morar na França, tampouco por não gostar daqui (é um lugar que eu amo com todas as forças), mas as prioridades se alteram conforme o tempo passa, conforme envelhecemos e à medida que aqueles que amamos envelhecem (e estão no Brasil).
Vale a pena morar na França para estudantes?
Sim, e bastante. Esse é o perfil que não deveria sequer pensar duas vezes caso surja a oportunidade de ir estudar na França.
O ensino superior na França é de alta qualidade e, comparado a outros países europeus, tem custos acessíveis tanto para a graduação quanto para mestrado e doutorado, com oportunidades frequentes sendo publicadas no Campus France.

Além disso, existe o sistema de assistência do CROUS, que pode ajudar com moradia estudantil derrubando os preços dessa que é a principal barreira para se estabelecer no país. Um quarto em residência universitária pode custar em média 400€, enquanto um estúdio no mercado privado passa facilmente dos 900€.
Vale a pena morar na França para aposentados?
Sim, mas vamos detalhar. Para quem busca tranquilidade e boa qualidade de vida, cidades menores podem ser ideais. E esse é meu plano de futuro particular.
Há uma porção de pequenas cidades da França bem posicionadas, como Annecy ou Aix-en-Provence, que oferecem segurança, contato com a natureza e infraestrutura de saúde.
Mesmo a periferia parisiense (“periferia”, na França, não tem a mesma conotação pejorativa brasileira), como Pantin, Charenton-le-Pont, Montreuil, Clichy e j’en passe (e daí por diante) oferece um estilo de vida pacífico a dois passos de Paris. E a uma fração do preço da capital.
O desafio para os aposentados estrangeiros na França é a documentação
Não existe um visto específico para aposentados na França, mas é possível aplicar para um visa long séjour se houver comprovação de renda suficiente para se manter.
Desde muito tempo antes de reconhecer minha cidadania europeia em 2022, meu objetivo era um só: acumular o máximo de dinheiro possível no Brasil para poder me aposentar na França e viver o país de outro modo: sem sofrer para encontrar uma moradia, sem ter a ansiedade de renovar um visto, sem ter a sensação de que o regresso está próximo pois a bolsa X ou as férias Y vão acabar.
Eu diria àqueles que estão em vias de se aposentar (seja por idade ou porque acumularam patrimônio suficiente para largar tudo) e que buscam algo realmente novo: busquem a França.
Planejem-se financeiramente, invistam em bons cursos para aprender francês, passem um mês em alguma cidade e avaliem se a mudança valeria a pena.
A surpresa pode ser boa.
Vale a pena morar na França para trabalhadores qualificados?
O mercado francês valoriza áreas como tecnologia, engenharia, pesquisa e gastronomia.
Tenho colegas que conseguiram vagas em laboratórios de ponta, mas é preciso saber que há excelentes profissionais vindo de toda a Europa e Índia (um país que cada vez mais projeta seus profissionais no mercado francês).
O que eu quero dizer com isso é: a concorrência é feroz.
Tenha em mente que para aplicar para posições na França você terá de reconhecer seus diplomas, realizar a tradução juramentada e ter um bom domínio do francês.
Dá para se virar falando apenas inglês, em particular em empresas com forte presença global (ou em pequenas startups promissoras). Mas fato é que a França leva o idioma muito a sério, e cedo ou tarde a falta dele poderá te colocar em desvantagem.
Vale a pena morar na França para trabalhadores sem qualificação?
É preciso ser realista: oportunidades existem, principalmente em setores como limpeza, construção civil, restaurantes e cuidados domiciliares.
Mas as vagas mais acessíveis costumam ser remuneradas de acordo com o piso (espere pelo salário mínimo (SMIC) francês que, na data dessa publicação, estava em 1.801,80€ brutos por mês ou 1.426,30€ líquidos) e exigem escalas um pouco maiores.
Soma-se a isso o fato de que uma parcela significativa dos trabalhadores sem qualificação partem para o país sem o adequado visto para França, o que torna a estadia sempre preocupante.
Se você vier com um visto adequado, trabalhar ganhando o SMIC não é de todo ruim. Se vier em casal, duas pessoas trabalhando e recebendo o salário mínimo podem começar a vislumbrar uma vida com menos perrengues!
Vale a pena morar na França para famílias com criança?
O hexágono tem uma boa rede de creches públicas (as crèches) e um sistema de Educação na França gratuito e estruturado. Até hoje preservo relações com famílias que elogiam a licença parental e os auxílios do governo.
Em termos de lazer, há muitos parques, atividades culturais e segurança maior do que em grandes cidades brasileiras. O ponto de atenção, novamente, é o custo de vida nas capitais.

Se você puder se distanciar um pouco mais dos grandes centros (olhe para a banlieue, as áreas de subúrbio), encontrará bons locais, por preços mais convidativos e com espaço para acomodar um berço ou um quarto com cama extra para a molecada entrando na adolescência.
Em anúncios, busque por termos como zone pavillonnaire (área residencial), valorize imóveis situados nas proximidades de pontos de ônibus, trem, tram, metrô ou RER (tudo o que compõe o excelente transporte público na França) e esqueça a possibilidade de ter um carro, a não ser que sua situação exija E permita.
Por fim, não se deixe levar pelo charme de morar na cidade luz. Se quiser ir com a família até Paris, vá! Passe o dia, divirta-se, tome um verre (beba alguma coisa) e volte para casa no subúrbio com sorriso no rosto e dinheiro no bolso.
Afinal, morar na França vale a pena?
Com base na minha experiência, diria que sim, vale a pena morar na França. Mas não é pra todo mundo: você precisa aceitar viver no cerne de uma cultura diferente, com um clima diferente (muito quente no calor, muito frio no inverno) e com pessoas que não têm a mesma “euforia” que talvez você esteja acostumado.
Para quem busca estudo, qualidade de vida em cidades médias ou oportunidades em áreas qualificadas, é uma excelente escolha. Já para quem imagina vir sem preparo financeiro, sem visto adequado ou sem interesse em aprender francês, as dificuldades podem ser insuperáveis.
Eu estou sendo bastante honesto: quero que você que me lê venha pra cá, mas venha preparado(a).
No fim, todo artigo de mudança para o exterior termina da mesma forma. Quero dizer que termina desse jeito: “a resposta é pessoal”. Para mim, mesmo com burocracia, mesmo com a saudade e tendo de encarar os altos custos, a vivência compensa. O país me ofereceu crescimento, segurança e novas perspectivas.
Mas a pergunta que você precisa responder é: vale a pena para o seu momento de vida?
O país não vai sair do lugar. Pense, calcule, poupe. E, se você concluir que há mais prós do que contras para o seu cenário… saiba que la France vous attend avec impatience (a França está ansiosa pela sua chegada) e eu te espero pra gente bebericar alguma coisa.
À bientôt!
Erik Nardini