Quando estive em Londres pela primeira vez tive a nítida sensação de que estava mergulhando em um lugar do mundo, com uma mistura de feições diferentes e culturas completamente distintas que conviviam em relativa harmonia. Embora Portugal, especialmente Lisboa, transmita a impressão ao turista de ser um local com muita mistura, a verdade é que Portugal não é propriamente um país multicultural ou, pelo menos, não é dos mais multiculturais da Europa.

Mas também é importante ressaltar que Portugal está mais multicultural do que nunca, basta olharmos os dados oficiais da imigração dos últimos tempos. A tendência aponta para um aumento de estrangeiros significativo verificado ano após ano.

Portugal é um país multicultural?

De acordo com o INE (Instituto Nacional de Estatística), em 2021 havia 698.536 homens e mulheres estrangeiros residindo legalmente em Portugal.

Claro que o número das estatísticas é subestimado uma vez que existem muitos imigrantes que entram no país como turistas e acabam por ficar, se legalizando posteriormente ou optando por migrar para outro país da Europa.

Seja como for, olhando para os dados oficiais é impressionante pensarmos que de uma população de mais de dez milhões de pessoas (para ser mais preciso em 2020 eram 10.298.252 pessoas), apenas menos de 700 mil são de outro país. Praticamente 20% da população de Lisboa, a cidade mais internacional do país, é estrangeira. Um dado curioso é que dessa enorme fatia apenas 2,8% podem votar.

O número de imigrantes aumenta ano após ano

Apesar de sermos relativamente poucos, também é verdade que os imigrantes aumentam todos os anos fazendo de Portugal um país cada vez mais multicultural. De modo geral, quem vem de fora acaba por se estabelecer no Porto ou em Lisboa, cidades com mais oportunidade de emprego.

Muitas vezes as pessoas que chegam também possuem alguma referência de alguém que já se estabeleceu por aqui, por isso os imigrantes acabam criando “bolhas” em certas regiões do país e a concentração cultural se torna mais evidente em alguns lugares.

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De acordo com os dados do Censo 2021, Lisboa tinha 544.851 habitantes estrangeiros, isso é, cerca de 19,6% da população. É um número impressionante se comparado à média nacional que no mesmo período era de 6,3%.

Arroios, um caso impressionante de multiculturalidade

Embora Portugal não seja considerado um exemplo de multiculturalismo, a verdade é que há regiões extremamente diversas, ricas e interessantes. É o caso de Arroios, freguesia situada bem no centro histórico de Lisboa. Em Arroios é possível encontrar mais de 40 mil pessoas de 92 nacionalidades diferentes vivendo em um mesmo bairro.

São muitas pessoas que originalmente viviam no Brasil, na China, na Índia e na Venezuela, por exemplo. Além de uma série de europeus como franceses, espanhóis e ingleses.

Basta passar na porta de uma escola de Arroios ou sentar alguns minutos em uma pracinha local para ver crianças com feições completamente distintas falando os seus idiomas de origem com a mesma facilidade com que conversam em português.

Aproveite para conhecer diferentes culturas quando estiver por aqui

É uma verdadeira experiência multicultural passear por Arroios e desfrutar das lojas típicas com produtos diferentes além de se deliciar com restaurantes autênticos. Em muitos deles – nos chineses, por exemplo – os menus são escritos em mandarim inclusive.

E, para quem quer levar um pedacinho da cultura do outro para casa, há uma série de mercados orientais espalhados pela Martim Moniz onde poderá encontrar ingredientes que nunca viu na vida. Arroios também é casa de alguns bares brasileiros, salões de cabeleireiro angolanos e restaurantes indianos.

A paisagem tradicional tuga fica ainda mais rica com as singularidades que os imigrantes trazem das suas terras natais. A Junta de Freguesia de Arroios frequentemente organiza eventos onde divulga a cultura dos habitantes locais, o mais importante deles é a celebração do Ano Novo Chinês.

Apenas uma parcela pequena da população é formada por estrangeiros

Apesar da recente nova onda de ucranianos que migraram para Portugal por causa da guerra, das facilidades para os aposentados e nômades digitais e dos vistos gold, a verdade é que uma pequena parcela da população portuguesa é composta por estrangeiros.

Em 2021 era apenas menos de 7% da população nacional. E quanto mais caminhamos para fora das grandes cidades mais difícil é encontrar outros sotaques pelas ruas.

A imigração na Europa

Segundo dados oficiais de 2021, 23.7 milhões de cidadãos que vivem na Europa não são europeus, esse número representa 5.3% do total da população da União Europeia. E cerca de 37.5 milhões de pessoas nasceram fora da união europeia, o que corresponde a 8.4% da população.

Em termos razões para imigrar, cerca de 45% dos imigrantes alegam que mudaram para a Europa por motivos de trabalho enquanto 24% possuíam razões familiares.

Os países com mais imigrantes na Europa atualmente são: Alemanha, Espanha e Itália. Portugal é o sétimo país da União Europeia a receber mais imigrantes. Em 2021 foram emitido 85 mil vistos para estrangeiros em Portugal.

Show de música brasileira em Lisboa
A maior comunidade estrangeira em Portugal é composta por brasileiros. Não é raro existirem eventos focados nesse público. Foto: Rebeca Leite.

Os brasileiros ocupam a maior fatia dessa população estrangeira: especula-se que sejam entre 200 e 300 mil. Em 2021 o segundo maior fluxo migratório foi composto por indianos seguidos dos angolanos.

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Presença de estudantes estrangeiros nas universidades portuguesas

O multiculturalismo muitas vezes começa nas universidades já que inúmeros convênios assinados pelas instituições facilitam a mobilidade, especialmente dentro da Europa. O programa Erasmus, lançado em 2004, permitiu – e permite ainda hoje – uma série de estudantes universitários a experimentarem viver e estudar em países diferentes dos seus de origem.

Muitos brasileiros e jovens oriundos de ex-colônias também encontram na cooperação estudantil a possibilidade de uma formação diferenciada por aqui.

É possível conseguir bolsas de estudo, mas em geral os estudantes estrangeiros pagam mais do que os nativos pelos anos de estudo em Portugal

Há quem venha estudar de graça na Europa, principalmente através de bolsas de estudo por desempenho, e há famílias que pagam do próprio bolso mensalidades (aqui chamadas de propinas) bem mais altas do que pagam os alunos nativos porque acreditam ser um bom investimento na formação dos filhos.

O ambiente estudantil em Portugal é, de fato, bem mais multicultural do que aqueles que verificamos em espaços convencionais. E há todo um esforço dos professores e alunos para integrarem os estrangeiros seja através da elaboração de trabalhos de grupo ou de provas e material didático em inglês.

Multinacionais ajudam a trazer trabalhadores estrangeiros para o país

Outra forma de estrangeiros entrarem no país é através de empresas que decidem se instalar aqui e acabam trazendo mão de obra altamente qualificada de fora. Em termos de custos muitas vezes faz sentido para os empresários estabelecerem em Portugal os seus negócios já que há incentivo fiscal e os salários para os nativos costumam ser mais baixos se comparados com colaboradores do resto da Europa.

No ranking das melhores empresas multinacionais para se trabalhar em Portugal constam, por exemplo, a Janssen Farmacêutica Portugal, e a Hilton, de hotelaria.

Muitas vezes as melhores empresas para se trabalhar em Portugal são as tecnológicas, que oferecem salários muito acima da média portuguesa. Especialmente empresas multinacionais podem oferecer condições mais competitivas do que as que as nacionais. Por aqui você pode encontrar multinacionais importantes como a Cisco Systems e a Capgemini, ambas referências na área de tecnologia da informação.

Turistas estrangeiros faz parecer que Portugal é mais multicultural do que é

A sensação de multiculturalidade também se explica pela presença massiva de estrangeiros em Portugal, principalmente nas grandes cidades. O turismo, de fato, tem crescido muito nos últimos anos e é fácil explicar as razões: Portugal apresenta um bom clima, com um inverno relativamente ameno e dias de sol na maior parte do ano.

Fazer turismo por aqui também costuma ser mais em conta do que em outras capitais europeias e grande parte da população das grandes cidades – especialmente os mais jovens – é capaz de se comunicar com facilidade em inglês.

turismo em Portugal
Portugal está muito preparado para receber turistas. É fácil encontrar menus, placas e orientações básicas escritas em inglês. Foto: Rebeca Leite.

Com muitos programas diferentes, visitar Portugal em geral agrada viajantes de todos os gostos: aqueles que procuram uma viagem mais voltada para o turismo e para a cultura, mas também aqueles que apreciam mais paisagens naturais.

Para ter uma ideia do quanto o turismo de Portugal é fundamental para a economia do país basta olhar os números de como esse setor se desenvolveu recentemente. Se pensarmos nos últimos 9 anos, Portugal apresentou uma taxa de crescimento médio anual de 7,2% de dormidas em hotéis.

E não é só o setor hoteleiro que se beneficia com a chegada de estrangeiros – também os restaurantes, as agências de turismo e o comércio local se beneficiam enormemente do capital que eles trazem para a cidade.

Presença de estrangeiros vindos ex-colônias portuguesas

Portugal já chegou a ter no passado 14 colônias espalhadas em quatro continentes diferentes. Muitos portugueses se estabeleceram nos territórios e casaram por lá, gerando filhos com dupla nacionalidade e uma cultura híbrida riquíssima.

É fácil encontrar falantes de português com sotaques diferentes por aqui, o mais frequente é, sem dúvida, o dos brasileiros, angolanos e moçambicanos. Vale lembrar que a independência em muitas ex-colônias aconteceu de modo tardio, apenas na década de 70. É o caso de Timor Leste, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

Em muitos desses locais se criou a cultura de ir estudar em Portugal, especialmente filhos de famílias com melhores condições financeiras. Problemas em termos de segurança, instabilidade política e social também empurraram famílias das ex-colônias para viverem na antiga metrópole dado que a língua é um fator facilitador e muitas dessas pessoas possuem nacionalidade portuguesa.

Estrangeiros europeus ajudam na impressão de que Portugal é multicultural

Há também uma série de estrangeiros oriundos da Europa que escolheram viver aqui. Para ter uma ideia, em Lisboa há uma vasta oferta de escolas internacionais, o que já denuncia a comunidade de europeus que escolheram criar os seus filhos na capital portuguesa.

Há, por exemplo, o colégio alemão, além do espanhol, do francês e dos colégios ingleses. Muitos desses pais continuam trabalhando para os seus países de origem e veem em Portugal uma ótima opção para terem um bom estilo de vida a um custo mais baixo. Como as distâncias são curtas dentro da Europa, há também a possibilidade de irem e virem para as suas terras natais com muita facilidade.

Por fazerem parte da união europeia, em termos burocráticos é mais tranquilo para essas famílias se estabelecerem. É possível observar dados interessantes sobre a população estrangeira que pediu residência em Portugal. Em 2021, das 111.311 pessoas que solicitaram residência legal 30.407 eram europeus.

Pequenas bolhas em uma Lisboa

É curioso como se constituiu uma enorme comunidade de franceses perto do colégio francês nas Amoreiras, por exemplo. Eles formam uma espécie de pequena França e inundam o comércio local com restaurantes e pâtisseries especializadas.

Em Odivelas, por sua vez, há uma enorme comunidade muçulmana, que se estabeleceu muito provavelmente pela presença da tradicional mesquita Aisha Siddika.

Integração da comunidade estrangeira aos nacionais

A integração de um estrangeiro em Portugal não costuma ser tarefa fácil. Há uma burocracia enorme para tratar de assuntos básicos logo na chegada como o pedido de residência, de número de utente no SNS, de NIF além da abertura de conta bancária. Isso sem contar com os preconceitos tradicionais como, por exemplo, para alugar casa.

Eu e uma série de amigos brasileiros enfrentamos situações bastante desagradáveis: senhorios que se negavam a fazer visitas quando percebiam o sotaque do outro lado do telefone, pessoas que teciam comentários maliciosos além do clássico “volta para a sua terra”, ouvido pelo menos uma dúzia de vezes nos transportes públicos.

Marielle Franco em Lisboa
Existem muitas referências brasileiras pela cidade de Lisboa, é o caso da homenagem feita por Vhils para Marielle Franco. Foto: Rebeca Leite.

Outra dificuldade é fazer amigos nativos. Além de fechados, uma grande parte dos portugueses já constituiu as amizades ao longo dos tempos de escola e de universidade. O estrangeiro que chega já adulto muitas vezes tem problemas em estabelecer vínculos mais profundos uma vez que muitos portugueses estão habituados ao eixo casa-trabalho.

A integração pode ser demorada, mas é possível

Quando mudei para cá achei que a integração seria fácil e instintiva: em geral somos bons de conversa e gostamos de estar cercados de pessoas.

Senti, porém, um choque tremendo quando as minhas intervenções eram recebidas de maneira mais fria ou apenas educada. Não havia, na maior parte das vezes, qualquer tipo de interesse de estabelecer conversas mais densas ou o início de uma amizade.

Muitas vezes os estrangeiros são vistos como pessoas de passagem, que rapidamente irão para outro canto da Europa com melhores oportunidades.

Emprego ainda é a maior dificuldade dos imigrantes em Portugal

Além do preconceito, um estrangeiro que decide se estabelecer em Portugal deve estar preparado para enfrentar uma enorme dificuldade em termos de mercado de trabalho, especialmente o mais qualificado. Os trabalhos dos imigrantes também costumam ser mais precários – a recibos verdes ou contratos a prazo – quando comparado com os locais.

A burocracia para validar diplomas e conseguir se estabelecer profissionalmente é uma realidade que faz com que muitos profissionais precisem se reinventar profissionalmente.

E os portugueses que vivem fora de Portugal?

Também é interessante pensar nos portugueses que emigram, principalmente para outros lugares da Europa. Muitos acabam por ficar, constituem família, mas voltam regularmente a Portugal para passar férias, por exemplo. E assim nascem famílias tipicamente multiculturais. O caso mais famoso é o da imigração para a França.

Pouca gente sabe, mas Portugal é o país da União Europeia com mais emigrantes espalhados pelo mundo (se comparado com a população residente). Se pensarmos em termos mundiais, Portugal está na 27.ª posição da lista de países com mais emigrantes.

Os destinos preferidos dos portugueses que emigram para outros pontos da Europa são: Luxemburgo, Reino Unido, Espanha, Suíça, França, Alemanha, Holanda. Há também uma comunidade grande em Moçambique, Angola, Brasil, Venezuela e África do Sul.

Existe também uma comunidade significativa no Canadá e nos Estados Unidos. Em fevereiro de 2022 já existiam 5.315.824 portugueses e lusodescendentes vivendo fora de Portugal.

*As opiniões dos colunistas não refletem necessariamente a opinião do site Euro Dicas.