Há quem saia do Brasil movido pela coragem, outros pela necessidade, mas todos carregam o mesmo desejo: viver algo diferente. Por que saí do Brasil e como vim morar em Portugal é mais do que uma questão. É um ponto de virada na vida de quem decidiu cruzar o oceano em busca de um novo sentido, e agora olha para trás com mais bagagem.
Cada história tem seus motivos, desafios e esperanças, compondo o retrato de quem escolheu mudar. Aqui, reunimos relatos de brasileiros que encontraram no país oportunidades e experiências, além da nossa própria trajetória – desses redatores que vos falam! Confira nossas descobertas, saudades, conquistas e entenda se Portugal é para você. Então, “vamos a isso!”.
As regras ficaram mais rígidas e o improviso acabou. Quem quer morar legalmente em Portugal hoje precisa de planejamento, informação correta e decisões bem feitas desde o Brasil.
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Mudar é recomeçar – um verbo que pesa, mas que também liberta. Esse é o clichê mais verdadeiro de quem sai do Brasil para morar em Portugal. O fio que costura as histórias desses brasileiros que decidiram mudar é único, marcado por sonhos, desafios e escolhas que transformam.
Como as escolhas do Erick Gutierrez, fundador do Euro Dicas, que deu o primeiro passo lá atrás:
Pelo fato de ter criado o Euro Dicas, eu converso diariamente com pessoas que querem morar fora do Brasil e uma das perguntas mais recorrentes é por que eu saí do Brasil e como. Apesar dos diversos motivos óbvios que temos para morar fora, todo mundo teve um “momento clique”, que te faz pensar “tenho mesmo que ir embora”.
Eu nasci e cresci em São Paulo, e vi de perto a violência aumentar. Sou da zona norte de SP, uma região “razoável”, mas é chocante hoje pensar que era “normal” ver todas as semanas alguém morto no bairro onde vivia.
Eu trabalhava como gerente de e-commerce de uma grande editora no Brasil. Tinha carro, conforto e liberdade financeira. Mas minha rotina era pautada para evitar situações que poderiam me colocar em risco. Em casa, portão automático, no carro, vidros completamente pretos.
Até que um dia, ao presenciar uma tentativa de sequestro relâmpago num estacionamento de um banco, veio o clique:
Vi um casal com uma arma apontada para a cabeça. Ficaram entre a vida e a morte por ter sacado dinheiro. Minutos antes e aquilo poderia ser comigo.
Nesse momento eu decidi que não dava mais para viver no Brasil. Cada vez a violência estava mais perto, não era mais “o conhecido do conhecido”, era na minha frente, era comigo também.
Quando a incerteza abre espaço para mudança
Já eu, Ane Pacola, não vi de perto uma situação assim tão forte. É claro que, enquanto mulher, há sempre uma inquietação e um sentido de alerta. O simples fato de esperar por dois ônibus nas ruas de Curitiba, para chegar e sair do trabalho – não importa a hora, nem onde, nem quando -, já nos deixa de olhos abertos, não importa muito o país.
O meu clique foi mais um “despertar” pós pandêmico. O que me moveu, basicamente, foi a saudade – do meu irmão mais novo João Victor Pacola, que já estava na Europa estudando, depois de já ter passado por Taiwan, Portugal, Itália, Grécia e Alemanha.
Enquanto ele explorava o mundo, eu me via em Curitiba, estável, mas estagnada e infeliz. Eu pensava:
‘O que é que eu tô fazendo da minha vida?’ O que eu iria ganhar saindo, já que eu amo tanto o Brasil? E ao mesmo tempo: ‘o que me impede?’. Não estava numa relação, não tinha filhos, e já estava acostumada a morar longe da família desde os meus 17 anos. A pandemia trouxe silêncio e solidão (já estava há dois anos sem ver meus pais, que viviam a 10h de viagem).
Foi um tempo forçado de reflexão. Entre medos e incertezas, veio também uma oportunidade: a chance de planejar, economizar e finalmente realizar aquele plano que começou devagar, lá em em 2005. Dezessete anos depois, o que era uma vontade se transformou em embarque! E foi assim que eu saí do Brasil em 2022 e, algum tempo depois, vim morar em Portugal.
O sonho de morar fora do Brasil
Em alguns, a ideia de morar fora nasce como impulso. Para outros, é um plano que amadurece com o tempo, entre planilhas, dúvidas e noites insones.
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ENTRAR EM CONTATO →Para Ana Clara Motta, 37 anos, paulistana que se mudou para Espinho, no distrito de Aveiro, em 2022, esse sonho cresceu junto com a maternidade:
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Abrir Conta Multimoeda →Quando engravidei da minha terceira filha, começamos a fazer contas – escola, convênio médico, casa, mercado, etc. Junto a isso, surgiu uma insatisfação de trabalho do meu marido e começamos a pensar em sair do Brasil.
Portugal sempre foi a primeira opção de Ana Clara por conta da possibilidade da cidadania portuguesa – que ainda estava em curso -, além de alguns vizinhos portugueses, descendência, e a curiosidade de quem sai do Brasil para viver algo novo.

Deborah Penna, 40 anos, também vive em Espinho. Nascida no Rio de Janeiro, filha de mãe portuguesa (espinhense) e pai brasileiro (paulistano), aos 3 anos, ela sai do Brasil para morar na França com a família.
Lá, começou a ser alfabetizada, mas aos 7 anos, voltou com a família para o Brasil. Mais tarde, após a separação dos pais, sua mãe decide retornar a Espinho com as duas filhas. Foi ali que, prestes a completar 12 anos, Deborah experimentou, pela primeira vez, como é de fato imigrar:
Na minha cabeça não era imigrante. Eu estava voltando para casa da minha mãe, né? Eu acho que eu já tinha vindo a Portugal quando a gente morou na França, mas eu tenho poucas lembranças.
Ela conta que esse retorno trouxe uma carga pesada, cheia de embaraços e constrangimentos para uma pré-adolescente que “tinha acabado de chegar falando português do Brasil”. Ela diz que chegou até a ser “corrigida” na escola, mas que esse primeiro impacto (lá nos anos 90), logo se tornou aprendizado com tantas oportunidades que a Europa lhe ofereceu mais tarde.
Eu, Ane, “saí de casa”, mas dentro do Brasil, há algum tempo. Foi necessário, já que até meus 17 anos, minha família mudava de cidade praticamente a cada dois anos por conta do trabalho do meu pai. Para que eu pudesse fazer uma faculdade sem interrupções, eu já me via, naquela época, estudando, trabalhando, pagando contas e passando perrengues, claro!
Não era bem um sonho mudar de país, era mais esse “costume” e a sensação de não ter raízes em nenhum lugar. Ao passar dos anos, a sensação me acompanhou em cada pequeno passo que eu dava, de uma cidade a outra dentro do Brasil. Isso deu segurança. Eu sabia que uma hora esses passos me levariam mais longe.
Certamente, a escolha do destino faz toda diferença no processo e é também uma das decisões mais desafiadoras para quem sai do Brasil com a intenção de recomeçar fora.
Escolhendo o país para morar
Portugal, para muitos brasileiros, surge como um lugar onde o idioma, a cultura e a familiaridade histórica tornam a adaptação menos brusca — ainda que a experiência de imigrar nunca seja simples. Foi o que aconteceu com a Ana Clara:
Eu precisaria trabalhar de imediato e não falava fluentemente nenhuma outra língua e para a melhor adaptação das crianças. Também não queríamos um país muito frio.
Já eu, Erick, não vim direto morar em Portugal. Mesmo com a cidadania portuguesa, meu caminho até aqui passou antes pela Irlanda. Isso porque minha namorada (a mulher que viria ser minha esposa) não tinha nenhuma possibilidade de conseguir cidadania na Europa. Então fui à procura de um país onde ela conseguisse algum visto com autorização para estudar e trabalhar.
Na época, a Irlanda era um dos poucos países do mundo que permitia trabalhar com o visto de estudo (agora, algumas coisas já mudaram). Vimos que um curso de inglês dava direito a estudar 6 meses (meio período de estudo, e meio período livre para trabalhar) e depois tinha mais 6 meses para trabalhar o dia todo, legalmente no país.
Compramos o curso de inglês para ela. Era a saída perfeita. Ela teria visto e poderia trabalhar e eu poderia viver e trabalhar na Irlanda. Quase tudo perfeito (mas já chegaremos nessa parte).
Principais motivos para morar fora
Normalmente, os motivos para morar fora vêm de um acúmulo de pequenas razões: segurança, estabilidade, qualidade de vida, oportunidade. Mas há também quem tenha o desejo profundo de pertencer, não há um país específico, mas de sentir que o lugar onde se vive está alinhado ao modo de ser ou com um ritmo de vida diferente.
Cada história carrega seu próprio “porquê”, então, vem entender isso com a gente!
Qualidade de vida
Entre os motivos mais recorrentes de quem sai do Brasil está a busca por bem-estar familiar. Para Ana Clara, o impulso maior foi proporcionar uma infância mais livre aos filhos:
Deixar o Brasil não foi uma decisão fácil, mas foi uma escolha feita com base no que acreditamos ser o melhor para os nossos filhos. Aqui encontramos um ambiente mais seguro e tranquilo.
Deborah complementa com outra perspectiva: de quem nasceu no Brasil, passou adolescência em Portugal, estudou e se formou na Europa, passou pela Índia e voltou ao Brasil para um resgate de suas origens.

No verão de 2022, depois de 12 anos vivendo entre o interior profundo de Minas Gerais e o famoso litoral de Santa Catarina, já adulta e mãe solo, ela voltou ao país luso para uma reconexão, também pautada na qualidade de vida e na criação do filho.
Para ela, em Portugal a vida é mais leve em alguns aspectos:
Acho que o Brasil é um país em que o sistema nervoso está sempre ativo. Você está sempre no modo luta e fuga. Mesmo na zona rural, onde não tem a violência dos grandes centros, você está sempre numa correria, numa preocupação.
Deborah, que é jornalista e professora de yoga, entende que isso se deve a um inconsciente coletivo: “tem a ver com os traumas geracionais, tem a ver com a colonização, tem a ver com a desigualdade social, tem a ver com toda essa realidade que é impossível não sentir no dia a dia”.
Segurança
Diretamente relacionada à qualidade de vida, a segurança é um ponto praticamente unânime de quem sai ou quer sair do Brasil. Afinal, trocar o medo cotidiano por tranquilidade é, para muitos, o verdadeiro ganho de morar fora.
Eu, Erick, desde que mudei para Europa, mal vejo armas, inclusive da polícia. Imagina para uma criança que cresce achando que é normal as pessoas serem mortas na rua? Que é normal ser assaltado?
Portugal é um país seguro. Andar pelas ruas à noite, usar o celular em público ou deixar uma mochila esquecida e recuperá-la depois são gestos simples, mas que para muitos brasileiros significam liberdade.
Ainda que alguns índices de criminalidade tenham crescido nos últimos anos, o país mantém uma sensação de tranquilidade rara, especialmente para quem vem de uma rotina marcada pelo medo.
Os crimes existem, infelizmente. Mas a violência física, cruel e fria de um assalto, não se vê (ou pelo menos, não está assim, tão escancarada).
Ana Clara conta que a segurança em Portugal foi o primeiro grande alívio ao chegar. A família esqueceu mochilas no trem e, para surpresa de todos, conseguiu recuperá-las sem nenhum problema.
Eu, Ane, também senti isso logo na minha primeira viagem a Lisboa, em 2017, ao visitar meu irmão. Lembro da sensação de poder andar sozinha à noite, com uma câmera fotográfica pendurada no pescoço – algo que tinha me custado “os olhos da cara”. Percebi que aquele medo constante, tão comum no Brasil, simplesmente não existia aqui.
Obviamente que alguns cuidados ainda existem e a bolsa à tiracolo ainda não sai do meu lado, assim como não saía no Brasil.
Oportunidades profissionais e realização pessoal
Para alguns, mudar é também reencontrar um propósito profissional. Ana Clara, que é formada em Educação Física, e o marido saíram do Brasil insatisfeitos com o trabalho e encontraram boas chances de recomeçar.
Hoje, três anos depois de chegarem, eles têm o próprio negócio: um estúdio de Pilates. Embora a trajetória não tenha sido nada fácil, Ana Clara diz:
Eu precisei me virar, não validei meu diploma de primeira, pois queria sentir como seria minha profissão na cidade onde estaríamos. Era um investimento alto que não sabia se iria usufruir. Sendo assim, fiz teste em padaria, em fábrica e trabalhei com recepção de eventos e vendas por algum tempo, os trabalhos nem sempre pouco remunerados, porém instáveis e sem garantias.
Ana Clara ainda lembra que o marido chegou a trabalhar em três lugares ao mesmo tempo (presencial e online), se candidatou aos bombeiros da cidade, fez curso e estágio, até entrar para o quadro profissional.
Uma história muito semelhante à de outros brasileiros que, por vezes, se perguntam se é possível trabalhar em Portugal na mesma área que atuavam no Brasil e fazer carreira.
Na opinião do João Victor, que veio em 2017 para cursar Design em Lisboa – e que, depois de formado, seguiu entre idas e vindas pela Europa -, Portugal é um ótimo país para viver, mas o crescimento financeiro ainda é limitado quando comparado a outros destinos europeus.
Portugal me deu a base, mas não o crescimento profissional que eu buscava. Depois de uns anos formado, conversando com amigos que vivem fora, percebi que era hora de expandir e hoje estou em Amsterdam. Portugal é um ótimo porto seguro emocional, mas não um lugar onde os salários vão te deixar rico.
Por outro lado, apesar da burocracia, os serviços básicos funcionam e viajar é mais acessível, já que as distâncias são pequenas. Isso te faz enxergar o mundo com mais amplitude.
Como comenta Deborah: “aqui, você pode conhecer outros países com o que no Brasil gastaria para ir de um estado a outro. Isso abre a mente e o coração”.
Custo de vida
Comparar o quanto se ganha com o custo de vida também é um ponto importante em qualquer mudança. Ana Clara e o marido perceberam que, apesar de todo o esforço, tanto os gastos fixos da família quanto o ritmo de vida em São Paulo já não combinavam mais com o que desejavam.
Em Portugal, eles descobriram um custo de vida mais equilibrado — escolas públicas de qualidade, sistema de saúde acessível, e tempo para estar em família.
Pesou a gravidez da minha terceira filha, pensar no que eu poderia proporcionar a eles no Brasil e como seria fora. Em Portugal, mesmo sendo uma família numerosa, nossos gastos são baixos, perto do Brasil.
É um verdadeiro paradoxo: em Portugal, embora os salários não sejam altos e as despesas fixas pesem no orçamento, a sensação é de que o dinheiro tem mais proporção. Com organização e escolhas conscientes, é possível manter uma vida tranquila — algo cada vez mais difícil de alcançar no Brasil.
Planejamento para morar em Portugal
Não vou entrar muito em detalhes de como eu, Erick, me planejei para morar fora, porque já escrevi um texto onde conto como se planejar para morar fora do Brasil, desde a decisão até chegar no novo país.
Mas é importante saber que, desde o momento que decidi que queria morar fora até embarcar em Guarulhos, demorou 9 meses. Foi uma “gestação”. Desde o dia que decidi que iria morar fora, fiz uma planilha de Excel e fui juntando todo o dinheiro que podia. Cortei os jantares fora, as festas, tudo.
Fiz um planejamento para juntar dinheiro suficiente para que pudesse ficar seis meses sem trabalhar (caso fosse preciso). Vendi o carro, guitarra e tudo mais que pudesse fazer algum dinheiro (e o que não pudesse levar comigo).
O mais importante: coloquei uma data para isso acontecer e comprei as passagens: 22 de fevereiro. Não tinha mais volta, nós iríamos morar fora.
Cidadania europeia
Quando eu, Erick, pensei em morar na Europa, foi que passei a realmente dar valor à origem da minha família. Meu avô nasceu e cresceu em Portugal e foi ainda adolescente para o Brasil.
A primeira coisa que fiz foi procurar tudo sobre a cidadania portuguesa e dei entrada na minha, um processo simples (até então), com ajuda de uma assessoria porque não queria gastar muito tempo.
Me informaram que levaria até 8 meses para a minha cidadania ser reconhecida. Então, já sabia que não conseguiria sair do Brasil antes. Mas era também um tempo razoável para organizar a minha vida.
Estava literalmente “em cima” do prazo quando a minha cidadania foi reconhecida, corri para tirar o meu Cartão de Cidadão (equivalente ao nosso RG) e depois o passaporte, que chegou TRÊS dias antes da viagem! Era pra ser. Então esse é um dos motivos por que eu saí do Brasil.
O papel da cidadania na vida de quem imigra
Já a Deborah, filha de mãe portuguesa e pai brasileiro, quando veio morar em Portugal pela primeira vez, aos 12 anos, sua mãe tinha autorização de residência para as filhas, mas não deu importância ao documento oficial que reconhecia a cidadania portuguesa delas.
A mãe temia que, ao solicitá-la, as meninas perdessem o vínculo com o Brasil ou fossem obrigadas a “escolher” apenas uma nacionalidade. Mesmo tendo o direito desde o nascimento, Deborah cresceu sem compreender o quanto um simples papel poderia facilitar sua vida na Europa. Só percebeu a diferença anos depois, ao tentar entrar na faculdade.
Antes de fazer 18, fui me informar sobre como tirar a nacionalidade portuguesa. Descobri que era só uma assinatura do meu pai (porque eu era menor de idade), autorizando eu abdicar da minha nacionalidade brasileira. No fim, descobri que eu podia ter as duas. Fiz tudo de graça. Então, sou oficialmente portuguesa desde os 17 anos.
Com o passaporte europeu em mãos, tudo ficou mais simples: bolsas de estudo, intercâmbios culturais, viagens dentro do espaço Schengen sem burocracia, oportunidades profissionais e uma sensação maior de pertencimento.
A cidadania, que no início parecia apenas um documento formal, acabou se tornando o elo entre as origens e o futuro que ela viria a construir em Portugal — agora, já adulta e com um filho adolescente.
Ter a cidadania europeia não é um requisito para recomeçar fora do Brasil, mas faz diferença. É um facilitador, um atalho no meio da longa estrada da imigração.
Vistos para morar em Portugal
Para quem não tem cidadania, o visto de estudante ou os relacionados ao trabalho são os caminhos mais comuns (e recomendados). Ana Clara conta que, embora tivesse o direito à cidadania portuguesa por conta do bisavô, seu processo ainda levaria tempo para ser concluído – cerca de três anos. Assim, optaram pelo visto de trabalho.
Meu marido, por ser designer gráfico, iniciou alguns trabalhos para agências em Portugal de forma remota. Isso nos gerou alguns contatos e facilitou o trabalho dele aqui.
No caso do João Victor, o caminho mais viável foi o visto de estudante. Ele já cursava Design no Brasil quando surgiu a oportunidade: a universidade oferecia bolsas para os melhores alunos estudarem parte do curso em Portugal. João se encantou tanto pela experiência que resolveu ficar.
Depois, deu entrada para concluir o curso por aqui e foi renovando o visto enquanto tudo se ajustava. Anos mais tarde, veio uma grande conquista para toda a família: finalmente conseguimos localizar um único documento que faltava para solicitar a cidadania italiana.

Com isso, a questão dos vistos deixaria de ser um obstáculo — nem para ele, nem, mais tarde, para mim, Ane. Afinal, depois de reunir os documentos, o desafio deixou de ser burocrático e passou a ser financeiro: juntar o dinheiro para o processo de cidadania, para que ele continuasse legalmente na Europa e, anos depois, para que eu também pudesse fazer o mesmo.
Trazendo a família
Mudar com a família inteira é outra dimensão da imigração, e com filhos pequenos, exige outro tipo de coragem. Ana Clara lembra que foi bastante exaustivo:
Foi muito cansativa nossa chegada, três crianças em um voo de 12h, e ainda escala em Madrid. O mais velho com 9 anos, o do meio tinha 3 anos e 6 meses e a mais nova 1 ano e 5 meses. Chegamos exaustos e assim ficamos por alguns dias.
Para Deborah, quem chegou a Portugal foram ela e o filho, já que a parte portuguesa da família já estava aqui. Ela conta que: “voltar a Portugal como mãe foi um desafio. Eu queria que ele tivesse o que eu não tive: raízes. E, aos poucos, estamos criando as nossas.”
Ela ressalta ainda que a maternidade solo no Brasil foi extremamente dura e que a vida de nômade já não fazia mais sentido naquele momento. O retorno não foi só para se fixar em Portugal, mas também para preservar e se reconectar com sua maior rede de apoio: a mãe e a irmã.
Organização financeira para sair do Brasil
A questão do planejamento financeiro pós mudança é extremamente importante. Não basta pensar só em chegar, é preciso ter consciência de que as coisas normalmente engrenam só após o primeiro ano (às vezes até um pouco mais).
Ana Clara diz que a organização foi enorme, já que a família é grande:
Vendemos as coisas que tínhamos, juntamos dinheiro, pesquisamos muito sobre cidades, contratamos relocation para chegarmos com uma casa certa. Eu lia sobre tudo, me informei por todos os lados.
Segundo ela, só agora chegaram na melhor fase. Depois de muito custo, Ana Clara conseguiu fazer a equivalência do seu diploma em Educação Física, o que finalmente permitiu que ela e o marido começassem a empreender e construir seu próprio negócio em Portugal.
Trajetórias antes de chegar a Portugal
Antes de cada chegada, há sempre uma despedida e é a partir daí que “cai a ficha”. A despedida é o capítulo mais doloroso de qualquer história de imigração. Deixar pais, família, amigos, memórias, lugares e parte de quem você é. Essa é uma ruptura que nenhum planejamento apaga.
Deixando o Brasil
Ana Clara relembra que o mais difícil foi a despedida:
Eu estava com pouco trabalho quando viemos, pois minha filha tinha apenas 1 ano e 5 meses. Meu marido trabalhava online e se manteve, então esse não foi um grande impacto. Mas deixar a casa onde vivíamos no litoral de São Paulo e a nossa família foi muito difícil. É a nossa maior dor até hoje.
Erick recorda o misto de alívio e ansiedade no embarque: o fim de um ciclo e o começo de outro. Deborah revisitou um passado que ela mesma ainda tentava entender: “não era fuga, era reencontro”.
E eu, Ane, parti com a sensação de estar entre mundos ainda desconhecidos — entre a Itália que me acolheria antes de Portugal, e o Brasil que ainda me chamava de volta. Essa era a sensação ao me despedir da família no aeroporto. Quando vou vê-los de novo? Agora era só eu, por mim mesma.
Além disso, Ana Clara recorda o que poderia ter feito de diferente antes de chegar em Portugal: “viria com minha equivalência de diploma feita ou já com planos de fazê-la. Talvez já com projetos de abrir um negócio”.
Ela ainda aconselha: “venha com planejamento, reserva financeira, bom emocional e tenha consciência que não é simples, muitos perrengues podem surgir.
Algumas coisas boas do Brasil, nós só percebemos quando saímos dele. Nosso país é incrível, nossa natureza é única, e nosso povo é alegre, isso faz muita diferença”.

Para muitos, o sentimento que paira é: “a gente sai do Brasil, mas o Brasil não sai da gente!”, assim como explica a coluna do nosso redator Maurício Martins.
Morar na Irlanda: um passo anterior
Depois do país escolhido, Eu, Erick e minha esposa (namorada, na época), ainda tínhamos que escolher onde morar. O dinheiro não era muito, Dublin era caro demais para a gente. Além disso, pelos grupos já sabia que dava para viver em Dublin sem falar inglês, com o tanto de brasileiros que já viviam lá.
Nós precisávamos melhorar o inglês, já falávamos português em casa, não dava para ficar só falando com brasileiros. Então optamos por Limerick, uma cidade que fica a 250 km de distância de Dublin, com pouco mais de 90 mil habitantes.
Embarcamos com 2 malas de 32 kg, muita coragem e vontade de uma vida mais tranquila. Tranquila é a palavra certa para Limerick. Tranquila até demais.
Chegar a Limerick, de ônibus saindo de Dublin, foi uma aventura e chegamos de noite no meio do mato.
Nem tudo são flores na Europa, claro
Fomos de um extremo para o outro. Sabe aquela cidade que todo mundo se conhece? Que abre 5 vagas de emprego por mês? Então. Estávamos nessa cidade.
Apesar de tudo, alugamos um apartamento legal, no centro da cidade. Ela foi fazer o curso de inglês (que odiou, pelo sotaque, pelo método, por tudo). Eu, Erick, que sempre trabalhei com TI, tinha alguns trabalhos freelancers, mas que não sustentavam a casa. Tive que sair à procura de emprego, para fazer qualquer coisa.
Imprimi currículos e acho que entreguei em todos os lugares possíveis perto da minha casa, nenhuma resposta. Nenhuma entrevista. Nem para lavar louça (sim, me candidatei). Nesse momento comecei a pensar que tinha feito uma péssima escolha. Do outro lado do mundo não acreditavam em mim nem para lavar louça, para limpar o chão. Talvez pelo inglês ‘mais ou menos’, talvez pelas raras oportunidades existentes na cidade, não sei.
Minha esposa já não gostou da cidade e de tudo logo de cara. Aí veio o inverno forte. Winter is coming. Sim, o sol mexe mais com a gente do que podemos imaginar.
Chovia muito, não conseguimos trabalhar, não fizemos nenhuma grande amizade, não estávamos envolvidos na comunidade. Não fazia sentido continuar na Irlanda. Então conversamos e decidimos que iríamos mudar para Portugal quando ela acabasse o curso.
Só para ficar muito claro, não tem nada de errado com a Irlanda, só não era para a gente. Conheço pessoas que amam e não trocam a Irlanda por nada.
Os desafios de imigrar
Mesmo com planejamento, o choque cultural é inevitável. Em Portugal, o clima, o ritmo e as diferenças de mentalidade exigem paciência e adaptação. Mas é justamente nesses momentos que o recomeço se solidifica.
- Ana Clara e o marido enfrentaram o inverno com três crianças e três empregos – se revezando em horários noturnos, por não terem com quem deixar os filhos;
- Deborah recomeçou do zero profissionalmente;
- Ane, por vezes, chorou na rua por não conseguir resolver algo simples nas repartições públicas. Tudo isso por não compreender exatamente as “nuances” do português de Portugal;
- Erick duvidou da própria escolha.
Imigrar é começar do zero e isso inclui reaprender o óbvio. É lidar com a saudade, com o idioma, com o sistema que funciona de forma diferente – e que é surpreendentemente mais burocrático e, muitas vezes, ainda analógico.
Meu irmão João já me dizia: “Aguenta firme. Depois do primeiro ano, você realmente estará colhendo os frutos disso e verá como é legal.” E não é que ele estava certo!?
Quando a realidade bate à porta
Muitos brasileiros chegam com altas expectativas e se frustram com os desafios do início: o salário baixo, a burocracia, a solidão. Mas é nesse ponto que o sonho se transforma em força.
Eu, Erick, me sentia de novo na estaca zero, mas dessa vez sem tempo para planejar e não existia um plano B, talvez por ter confiado demais que tudo daria muito certo. Não tínhamos 9 meses para juntar dinheiro como foi da outra vez, até porque estávamos gastando mais do que ganhávamos na Irlanda.
Era preciso escolher rápido, e dessa vez não poderíamos errar. Como não queríamos arriscar, optei por começar a enviar currículo (na minha área) antes de mudar.
Lembro de ter enviado currículo para pelo menos 5 países diferentes, inclusive para cargos bem abaixo do meu antigo trabalho. Era preciso ser humilde e assumir que teria que recomeçar.
Ana Clara enfrentou longos meses de chuva, sem amigos, sem carro, pouco dinheiro, sem rede de apoio e falta de vagas em creches. Deborah teve que reaprender o português de Portugal e lidar com o olhar de “estrangeira”, por vezes xenofóbico, mesmo tendo raízes aqui.
É estranho quando o país da sua mãe ainda te vê como de fora. Mas com o tempo, você encontra o seu lugar.
Imigrar é um exercício diário de paciência. E como dissemos no Instagram do Euro Dicas, “a vida do imigrante é um looping emocional”. Confira o vídeo que fizemos sobre como a gente acha que vai ser antes de mudar e como realmente é quando a gente chega!
Por que saí do Brasil: Portugal me chamou
Mais uma vez, poucas respostas em centenas de currículos enviados. Mas eu, Erick, não precisava de muito, bastava uma oportunidade. Recebi duas respostas, as duas no Porto, em Portugal.
Uma delas não avançou, o salário era muito baixo, as exigências eram grandes e a empresa pequena. A outra avançou e fiz uma primeira entrevista por Skype, e ficou agendada uma entrevista presencial em 15 dias. Era tudo ou nada.
Não tinha dinheiro sobrando para ir fazer a entrevista e voltar para a Irlanda (um abraço, planejamento). Decidimos que iríamos para Portugal de qualquer maneira.
Fizemos mais uma vez as malas, cancelamos contas, entregamos o apartamento, etc., etc., etc… e finalmente chegamos em casa. Sim, quando pisei no Porto me senti em casa.
Chegamos numa quarta-feira, fiz a entrevista pessoalmente na sexta, comecei a trabalhar na segunda. Finalmente as coisas começaram a andar. Depois disso, ainda demoramos para nos recompor financeiramente. Demorou 2 anos para ter a vida “estável” de volta.
No Porto, casamos, tivemos nossa filha e arrumamos um lugar para chamar de nosso. Obviamente, ainda nos faltam muitas conquistas, mas aos poucos chegaremos lá. (Erick).
Embora eu, Ane, tenha vivido uma ótima vida chamando a Itália de casa, depois de um tempo, já com a cidadania italiana pronta, Portugal me chamava. E assim como o Erick, era o Porto que me queria!
Meu irmão ainda vivia em Lisboa, mas durante a trajetória dele em Portugal, tive a oportunidade de visitá-lo e dar “uma voltinha pelo país”. E o Porto, ah o Porto! Era aqui que eu me sentia em casa. Na época, já visitava meus amigos de longa data (que eu já conhecia desde a faculdade, todos no Brasil) e que também escolheram o Porto quando imigraram.
Claro que a minha vinda se deve muito à influência desses amigos que também amam a cidade! Até meu irmão falava: “Lisboa é para mim que gosto de um agito. O Porto é mais a sua cara, mais calma e tranquila.” E mais uma vez, ele acertou na recomendação.
Se você também quer sair do Brasil para morar em Portugal e quer saber mais diferenças entre viver em Lisboa ou no Porto, confira também as dicas do Maurício Martins, no nosso Instagram:
E agora, voltar ao Brasil ou ficar na Europa?
Antes de sair do Brasil, eu, Erick, achei que em um ano conseguiria voltar e visitar a família, mas demorou 3 anos.
Quando voltei pro Brasil, foi com uma sensação muito boa, de que não foi fácil, mas que tinha “vencido” apesar de tudo. Vencido o meu próprio desafio.

Apesar de afirmar que está cansada de mudar, quando perguntamos à Ana Clara se pretende continuar morando em Portugal ou voltar ao Brasil no futuro, ela é enfática:
Nós amamos o Brasil, talvez um dia a gente volte.
Por enquanto, é hora de aproveitar as conquistas que a família vem construindo por aqui.
Vale a pena sair do Brasil e morar em Portugal?
A verdade é que depende do que cada pessoa busca. Quem sai do Brasil, especialmente agora, precisa refletir sobre objetivos, desafios e expectativas. Para Ana Clara, por exemplo, a segurança, a tranquilidade e a qualidade de vida que Espinho oferece à família tornam a mudança não apenas válida, mas transformadora.
Natureza e paisagens, boa comida, viagens fáceis dentro do país e possibilidade de conhecer outros países sem vender um rim, brinca Ana Clara.
No caminho inverso, Deborah resgata a jovem adolescente que viveu em Portugal no passado, reconhece a importância do Brasil para o seu crescimento pessoal e diz que o retorno ao país luso foi para proporcionar ao filho o que ela também teve nessa fase.
Eu voltei para a Europa para ele ter o que tive, e acho que foi uma experiência muito boa, única! Me abriu portas, abriu a minha cabeça, e me deu oportunidades para depois eu escolher a vida que eu quisesse no futuro. (Deborah).
Embora os processos imigratórios estejam mais complexos do que antes, vale a pena sair do Brasil e morar em Portugal se você vier com toda informação possível. E quando falamos informação, dizemos informação de qualidade.
Converse com quem já vive aqui, mesmo que não seja uma rede de apoio tão íntima. Pessoas que pareçam levar uma vida como a sua, mas não se prive de buscar diferentes pontos de vista. Há inúmeros conteúdos honestos que estão, literalmente, na palma da mão. Basta pegar o celular. (Ane).
Esse texto não é para dizer “que conseguimos”. É para mostrar para quem ainda está pensando/planejando, que não é fácil, mas que não é só você que tem dificuldades também. Morar fora é difícil para todo mundo, mas se houver um objetivo e planejamento, sim, conseguimos.
Foi assim que vim morar em Portugal, e continuo tentando ajudar pessoas que querem fazer o mesmo. Acho que essa é a minha contribuição para os brasileiros. (Erick).
Morar fora é difícil, mas deixar os sonhos para trás é muito mais. Por que eu saí do Brasil? Para ter mais qualidade de vida! Para compartilhar um pouco mais da minha história e a de outros brasileiros que vieram para a Europa. Por isso, compilamos algumas dessas histórias no livro O Sonho de Viver na Europa. Conheça e se inspire!
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