Editorial: trabalhar como TI na Europa – um guia completo

Que a carreira de TI é promissora ninguém duvida. Mas, de uns 15 anos para cá, com a internet crescendo cada vez mais, os profissionais de TI tiveram a oportunidade de conhecer o mercado no exterior e trabalhar com TI na Europa parecia cada vez mais uma realidade próxima.
Lembro quando estava na faculdade e tinha alguns programas de intercâmbio e bolsa para trabalhar fora quando terminasse o curso. O fato de ser uma área pouco regulamentada, ter pouca exigência de diploma de forma geral e ser muito similar no mundo todo, além de ser por norma quase tudo em um único idioma (inglês, claro), permitiu que os profissionais brasileiros pudessem rapidamente ir trabalhar fora do país.
Então se você quer trabalhar como TI na Europa, esse é um guia de tudo que você precisa saber antes de embarcar.

Inglês é obrigatório para trabalhar como TI na Europa

Parece óbvio e acredite, essa é das poucas dicas óbvias que eu vou dar, porque acho realmente necessário dizer. Não quero parecer grosso, mas falar inglês não é assistir filme com legenda em inglês e entender, não é ler um artigo no Stack Overflow e compreender. Se você não for capaz de fazer uma ligação por áudio em inglês e compreender e se expressar de forma satisfatória para o trabalho, você “não fala inglês”. O ideal mesmo é ter um diploma de proficiência.
Caso seja um sonho/plano trabalhar como TI na Europa, comece a estudar agora (recomendo as aulas particulares do iTalki). E claro que, se tiver outras línguas além do inglês, conta como uma grande vantagem. Espanhol não vale, ok? Francês e alemão são línguas bem cobiçadas na Europa e, acredite, falar o português também é uma vantagem em diversas vagas que tenho visto no Leste Europeu.

Se mostre disposto a aprender outro idioma

Uma reclamação que já ouvi por diversas vezes de recrutadores é que grande parte dos candidatos não têm interesse em aprender a língua local, e a médio/longo prazo isso pode ser um ponto negativo, uma vez que estas empresas contratam pensando em manter o profissional mais tempo que estamos acostumados no Brasil.
Boa parte das empresas em países onde profissionais de TI estão em falta pagam cursos de idiomas para o profissional e familiares.

Ter cidadania europeia é um grande diferencial

Se você tiver cidadania europeia pode ser um grande facilitador. Isso porque o empregador não terá que tratar de um monte de burocracia.
Empresas grandes, como o Google, Booking e OLX, por exemplo, tem um departamento só para ajudar com a documentação dos estrangeiros e os integrar ao país escolhido, mais isso vai ser uma exceção. As empresas pequenas e médias, que é onde tem o grande volume de vagas, nem sempre querem ter essa preocupação. Mas se você não tem, não desanime. Eu disse que é diferencial, e não obrigatório.
A maior parte dos brasileiros que conheci trabalhando como TI na Europa não tinham cidadania e a maioria foi contratada quando ainda estava no Brasil. Caso você ache que pode ter direito à alguma cidadania, não deixe de conferir, como ter cidadania portuguesa e cidadania italiana, as mais comuns para os brasileiros.

A cultura de trabalho na Europa é muito diferente do Brasil

Isso vai ser bem pessoal. No Brasil, trabalhei em poucas empresas e fiquei boa parte da minha curta carreira na mesma empresa. Já na Europa, trabalhei em uma empresa como empregado e depois fundei a empresa que hoje detém o Euro Dicas. Portanto, isso é da minha experiência e do que fui conversando com outros brasileiros ao longo dos anos.

Crescer profissionalmente na Europa demora mais do que no Brasil

Este é um fato que foi muito rápido perceber. Enquanto no Brasil você sai de “júnior” para “pleno” em um ano e meio ou dois (em média), na Europa isso pode levar no mínimo o dobro de tempo. Sinto que para se provar na Europa leva muito mais tempo. Enquanto no Brasil estamos orientados a resolver as coisas da forma que seja possível e seguir em frente (isso é o nosso DNA), aqui deste lado as coisas não acontecem bem assim.
Os europeus dão muito valor a como as coisas foram feitas, seguir protocolos, documentações, etc. Não é uma crítica, é apenas uma constatação. O dia que vi um projeto começar em uma linguagem que era nova para a equipe, e todo mundo parou uns dias para ler a documentação da linguagem percebi, o valor que eles davam para isso.

Pessoas muito novas podem ter problemas para trabalhar como TI na Europa

Outro pronto que pode ser um pouco desanimador para alguns. A cultura de trabalhar e estudar na Europa é muito pouco disseminada. É considerado é coisa de país que precisa ganhar dinheiro.
Falo por mim, que trabalhei para pagar a faculdade e não podia parar 4 anos e ir estudar. No meu primeiro e único emprego na Europa, com 22 anos, eu já tinha 6 anos de experiência (estágio a partir dos 16 anos para programar as ASP clássico), e então me deparei com um estagiário de 25 anos, e isso é bem comum.
Tecnologia da informação
Portanto, deixe muito claro (e prove) a sua real experiência, porque pode ser difícil para o europeu acreditar num primeiro momento. Claro que esta história também tem o outro lado, as pessoas com mais idade e que sentem que no Brasil já são pouco valorizados e estão perdendo espaço para os mais novos, costumam ter suas cadeiras garantidas para trabalhar como TI na Europa.

Tempo de trabalho e carreira na mesma empresa

Se você é uma pessoa que não consegue ficar muito tempo em uma única empresa e muda muito facilmente de trabalho, cuidado que isso pode ser um fator de risco no seu currículo. Normalmente as empresas ligadas à tecnologia na Europa tem a expectativa de manter um colaborador de 3 a 5 anos em média.
Na minha visão, é bem positivo. Diferente do Brasil, até as empresas médias costumam ter uma política de carreira muito bem definida, com formações e objetivos bem claros. Considerando que você vai demorar um pouco mais para subir de cargo, esse é um tempo razoável.

Aprenda a ser direto e assertivo nas datas

Para quem já trabalhou com estrangeiro ou conhece alguém que trabalhou, isso não vai ser nenhuma surpresa. Aprenda a ser direto (e isso vai se aplicar à sua vida pessoal também), mas acredite que as pessoas preferem ouvir “não posso fazer isso” ou “o tempo não será suficiente” do que aquele jogo de cintura brasileiro que tentaria falar isso com muitos dedos ou até tentaria fazer só para parecer bem.
Pela minha experiência, não é bem-visto. Seja o mais direto possível. Uma coisa que me deixa LOUCO trabalhando com brasileiro é a falta de capacidade de dar uma data e cumprir e é também das maiores reclamações que ouço dos estrangeiros sobre nós brasileiros. Seja chato nesse ponto. Entregar no prazo combinado é dos principais fatores para determinar o profissionalismo (e a qualidade da entrega, obviamente).

Opinião dos europeus sobre brasileiros que trabalham como TI na Europa

Mais uma vez, isso é da minha experiência e do que conversei ao longo dos anos. De pontos negativos, de maneira bem sucinta:

  • Falta de comprometimento com datas e horários;
  • Dizer que conhece uma determinada tecnologia ou ferramenta e na hora de usar tem um conhecimento superficial;
  • Falta de exigência com o seu próprio trabalho;
  • Pouca hábito de documentação;
  • Trocam de emprego muito facilmente.

E alguns dos pontos positivos:

  • Muita experiência prática (bem diferente de conhecer muita teoria);
  • Sempre dispostos a resolver os problemas;
  • Costumam ser muito criativos e trazem soluções fáceis para problemas complexos (famoso “jeitinho”);
  • Se adaptam com muita facilidade;
  • Pessoas fáceis/amistosas para se lidar.

Quanto ganha um profissional de TI na Europa?

Um profissional de TI na Europa pode ganhar a partir de 24 mil euros até 80 mil euros por ano, mas isso é bem genérico. Esses valores dependem de diversos fatores como país, cargo, experiência e oferta-demanda naquele momento.
Por isso, o meu conselho é que você use o GlassDoor e o PayScale. Em uma pesquisa simples pelo GlassDoor, vi que um Engenheiro de Software ganha em média 52 mil euros por ano em Berlim.

Cuidado com os impostos

Esta é uma “pegadinha” muito comum (entre aspas, porque não é de propósito). O brasileiro vê a vaga, se candidata, passa, fica super feliz e quando recebe o primeiro salário fica em choque.
Não deixe de fazer uma simulação de quanto vai ser o seu salário líquido na Europa. Existem diversas calculadoras em cada país para te ajudar, porque varia se você é casado, se tem filhos, etc. “Mas no Brasil eu também pago imposto”. Claro, mas acho que você não está acostumado com os valores da Europa.
Na Alemanha, por exemplo (já que citamos o salário acima), o imposto começa com 14%. Mas, se você ganhar aqueles 52 mil euros, terá um desconto em folha de 42%. Para salários acima de 265 mil euros por ano, o imposto é de 45%.
Obs: Sempre pergunte se para mão-de-obra qualificada estrangeira existe algum desconto nos impostos. Alguns países possuem este benefício para se tornarem mais atraentes. Não vou entrar no mérito se é justo, se isso volta para você ou não (em forma de saúde, educação, segurança e etc), mas é um aviso apenas. Algumas empresas sabem que esses valores são bem diferentes dos aplicados no Brasil e costumam ajudar você a saber qual seria seu salário líquido.

Pense sempre no custo de vida

Um erro muito comum dos brasileiros na busca de empregos para trabalhar na Europa é pensar no seu salário atual no Brasil e comparar com o quanto vai ganhar fora. Isso é conta de padaria, não vai refletir a realidade.
Pode ser que ganhando 20% menos fora, por exemplo, seu poder de compra seja maior que no Brasil, assim como o contrário também pode ser verdade. A única saída e você descobrir o custo de vida da cidade/país que vai morar e comparar com o futuro salário (valor líquido, claro).
Aqui no Euro Dicas temos artigos com o custo de vida em diversos países, veja alguns:

Benefícios extras podem ser negociados

Se você esta negociando um cargo alto ou possui um conhecimento/habilidade em falta, saiba que é muito comum negociar diversos benefícios para futuros funcionários estrangeiros se sentirem mais atraídos.
Alguns benefícios comuns de serem oferecidos são: passagens aéreas pagas, os primeiros meses de aluguel pago, receber um valor para começar a vida na nova cidade, passagens anuais para visitar a família, curso para cônjuge, etc. Quando estiver em fase de negociação, pergunte quais são os benefícios para estrangeiros.

Qual o melhor país para se trabalhar com TI na Europa?

Os países mais “famosos” por terem boas condições de trabalho na área de tecnologia são a Irlanda, Holanda, Bélgica, Alemanha e Reino Unido (este com o “senão” das dificuldades de visto com a atual saída da União Europeia). Na minha opinião, o melhor país é o que você conseguir uma primeira oportunidade. Depois de estar dentro da Europa e com uma experiência internacional, tudo fica mais fácil.
Programadores na Europa
Sem contar que, se sua intenção se for trabalhar e ganhar dinheiro, os países citados acima são os mais indicados. Mas se você pensa em qualidade de vida, formar família, ter um ambiente mais parecido com a cultura brasileira, talvez não seja o melhor.
Estima-se que atualmente existem 900 mil oportunidades de trabalho em TI na Europa. Ou seja, com uma boa experiência, dedicação e calma, dá pra escolher o melhor para o lado profissional e pessoal.
Saiba como decidir o país para morar no exterior e também como é ser TI em Portugal.

Países emergentes para trabalhar como TI na Europa

Além dos países já conhecidos por terem boa qualidade de vida e serem fortes na área de tecnologia, seria uma injustiça não falar dos países que têm feito um esforço gigante para entrar no radar e se tornarem pólos de tecnologia e que, sem dúvida, valem a pena serem considerados.
Eu consideraria procurar emprego na Polônia, República Tcheca e Estônia. Todos estão, inclusive com forte apoio do governo, investindo muito em tecnologia. São países muito abertos para estrangeiros e com muitas vagas de emprego.
Esses países não interessam tanto os europeus por conta da sua moeda fraca. Ou seja, por mais que o salário seja interessante para viver, o que sobra para poupança é pouco quando convertido em euro. Além disso, o idioma é uma grande barreira e o clima também não facilita. Porém, sou suspeito e tenho uma paixão pelo leste europeu. Eu daria uma chance, e a concorrência é menor.

Como procurar emprego na área de TI na Europa

O melhor caminho é, sem dúvida alguma, uma transferência. Caso você trabalhe em alguma empresa grande e que tenha sede na Europa, é válido tentar. Eu sei que esta opção vai servir para poucas pessoas, mas merece ser citada. Se não for o seu caso, não se preocupe. A demanda por profissionais qualificados é gigante.

Arrume seu LinkedIn e faça contatos

Comece colocando seu LinkedIn em ordem e em inglês, e faça conexões com pessoas da sua área na cidade/país que você tem interesse. E claro, também veja as vagas em sites locais e comece a se aplicar.
Uma dica de ouro: candidatura espontânea funciona bem na Europa. Funciona assim: você entra no site da empresa que gostaria de trabalhar e envia seu currículo junto com uma carta dizendo o motivo que te fez querer trabalhar nesta empresa. É visto com bons olhos e muitas vezes pessoas são contratadas sem nem existir uma vaga em aberto no site (mais comum em empresas grandes).

Ir e arrumar emprego ou arrumar emprego ainda no Brasil?

Neste ponto, sou pé no chão. Acho que você deve sair do Brasil quando tiver uma oportunidade certa. Diferente da maioria das áreas que é quase impossível arrumar um trabalho à distância, no nosso caso isso é bem comum e acho que não vale o risco de abrir mão da segurança para apostar, se você pode esperar pelo momento certo.

Voltar a estudar é uma grande porta

Agora, se você está querendo mesmo mudar, está disposto a abrir mão do seu trabalho atual e tem uma reserva financeira, te aconselho ir fazer uma pós-gradução/especialização no país que você pretende morar.
Desta maneira, você descobre se morar lá é como você idealizava e ainda pode fazer contatos novos para conseguir um trabalho. Na Europa, pela minha experiência, ter conexões tem um peso maior na hora de arrumar emprego do que no Brasil.
E aí, gostou? Foi um bom “resumo” de anos de conhecimento. Se você planeja trabalhar como TI na Europa, comenta aqui no post. Se você já trabalha na Europa e sentiu falta de algo, também fique à vontade. Boa sorte com a sua nova jornada!

Erick Gutierrez
Erick Gutierrez é co-fundador do Euro Dicas e da empresa Wcontent. Nasceu em São Paulo, trabalha com tecnologia desde os 16 anos e estudou Sistemas de Informação. Aos 21 decidiu morar na Europa, na pequena cidade de Limerick, interior da Irlanda. Depois mudou para o Porto (cidade pela qual é apaixonado) onde se especializou em marketing digital, casou e foi pai de uma menina maravilhosa. Dedica sua vida profissional a criar e distribuir conteúdo de qualidade para sanar as dúvidas das pessoas de maneira simples e eficaz. Também gosta de compartilhar seu conhecimento sobre o mundo digital e é aficcionado por carros.

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